domingo, 7 de julho de 2013

O QUE/QUEM ENGENDRA OS SONHOS? QUE PODER É ESSE...

The Ox-Herding: Finding the Tracks (by Rosan)

O QUE/QUEM ENGENDRA OS SONHOS?
QUE PODER É ESSE?

"Esse é o grande mistério...

Muita gente ainda tem o preconceito ingênuo de que os sonhos
 expressam nossos próprios desejos, ou nossos esquemas e tramas.
No entanto, quanto mais se observa os sonhos, mais se percebe que isso não pode ser verdade.
Uma parcela enorme dos nossos sonhos diz coisas que não queremos ouvir.

A base da qual se originam os sonhos parece ser, usando uma expressão vaga, a própria Natureza.
É um fenômeno natural que provém da mesma fonte que uma árvore ou um porco selvagem.
Ora, você não pode dizer o que engendra uma árvore ou um porco selvagem...
Trata-se daquele poder desconhecido ou daquela força misteriosa que dá origem à existência
como um todo.
Talvez, então, seja melhor usar uma expressão vaga,
sem prender os sonhos a algo específico.

Após acompanhar os sonhos por um bom período de tempo,
notamos certas qualidades e funções.
Eles possuem uma inteligência superior, uma sabedoria e uma perspicácia que nos orientam.
Eles nos mostram em que aspectos estamos enganados e nos alertam a respeito de perigos,
aludem ao sentido mais profundo da nossa vida e nos propiciam insights reveladores.

Se analisar sonhos de artistas ou cientistas criativos, por exemplo,
você verá que muitas vezes idéias lhe são reveladas através de sonhos.
Elas não são concebidas no computador.
.Pelo contrário, brotam do inconsciente sob a forma de idéias súbitas,como se costuma dizer...
Podemos então concluir que existe uma matriz psíquica capaz de produzir novos insights criativos
sobre questões que só num segundo momento serão resolvidas conscientemente.

Depois de analisar sonhos como processos psíquicos vitais,
a única coisa que talvéz se possa dizer é que essa matriz parece orientar o ego consciente
para uma atitude adaptada e madura frente à vida.
Essa matriz que engendra os sonhos em nós tem sido denominada de guia interior,
ou centro da psique, uma instância para além do ego que produz os sonhos,
cujo objetivo parece ser tornar a vida do sonhador a melhor possível.

Os sonhos não nos protegem das vicissitudes, doenças e eventos dolorosos da existência.
Mas eles nos fornecem uma linha mestra de como lidar com esses aspectos,
como encontrar um sentido em nossa vida, como cumprir nosso próprio destino,
como seguir nossa própria estrela, por assim dizer,
 a fim de realizar o potencial de vida que há em nós..."

(Notas: Marie-Louise von Franz, em conversa com Fraser  Boa, O Caminho dos Sonhos, São Paulo, SP, Cultrix, 1993)


Frente a todos os avanços tecnológicos, pesquisas científicas sobre o sono,
neuropsicologia, mapeamentos cerebrais, etc.
 o texto acima pode parece, a alguns, um tanto generalista e simplista...
Eu ainda gosto e concordo com muitos dos comentários de von Franz sobre sonhos...
Prefiro lidar com os sonhos como imagens, deixando que elas me afetem,
me digam, me sussurrem no ouvido, me inspirem...
Pessoalmente, ainda gosto de manter uma perspectiva poética...
A mesma que adoto quando olho para o ceu, a lua, as estrelas,
apesar de todas as informações científicas em nosso poder...
Há olhares e olhares,
perspectivas e perspectivas...
momentos e momentos...

Rosanna Pavesi/julho 2013

terça-feira, 2 de julho de 2013

O MENINO DAS ENCRUZILHADAS...


Séneca (by Paul Klee)


O MENINO DAS ENCRUZILHADAS...

O Longo Caminho Curto ou O Curto Caminho Longo?

O Rabi Ioshua, filho de Hanina, disse:
"Certa vez uma criança arrebatou o melhor de mim...
Eu viajava e me encontrava diante de uma encruzilhada.
Vi então um menino e lhe perguntei qual seria o caminho para a cidade.
Ele respondeu: 'Este é o caminho curto e longo
e este o longo e curto'.

Tomei o curto e longo e logo deparei com obstáculos
intrasponíveis de jardins e pomares.
Ao retornar, reclamei:
'Meu filho, você não me disse que era o caminho curto?'
O menino então respondeu: 'Porém lhe disse que era longo'.

Na trilha da vida, a "mesmice" muitas vezes é o caminho curto, o mais simples,
e que tem custos mais elevados (longo).

Ir pelo caminho mais simples e mais curto é uma lei evolucionista.
Certamente os corpos se movem na direção mais imediata e curta.
Os galhos buscam a luz e o animal a água,
mas sua inteligência interna, sua alma,
está atenta a longas modificações.

A tentativa de sobrevivência acontece nos campos de batalha
do mundo curto e do mundo longo.
As chances de extinção dos que percorrem caminhos curtos,
que são longos, é muito grande.

As espécies sobreviventes são aquelas que souberam
fazer opções pelo longo caminho curto...

Em nosso dia-a-dia sabemos muito bem quais são os processos curtos e quais os longos.
Fazemos também nossas opções que optam pelo curto.
Mas nossos mecanismos de detectar se são "curtos longos"
ou "longos curtos" existem e sempre estão aí
para apontar novos inícios,
por exemplo, de relações de trabalho, amor ou amizade.

A coragem está em ouvir o menino das encruzilhadas.
Ele, com certeza alerta para ambas as possibilidades de caminho.

Não se assustem com as parábolas que falam de demônios dissimulados
nas encruzilhadas.
Os demônios das encruzilhadas querem sempre apontar
os caminhos mais "curtos".
Ninguém que alerte para o fato de que os "curtos podem ser longos"
e os "longos podem ser curtos", é da ordem demoniáca.

Afinal, as encruzilhadas são de grande importância.
Não são meras opções de acesso, mas de sobrevivência,
e o curto caminho longo pode não levar a lugar algum...

Se você estiver diante de uma encruzilhada,
lembre-se do menino e preste atenção para não ser seduzido
por um caminho curto...
Lembre-se de que a paz está primeiro com quem vem de longe...

(Nilton Bonder, A Alma Imoral, Rio de Janeiro, Rocco, 1998)

Como já disse  Clarice Lispector:
"PERDER-SE TAMBÉM É CAMINHO..."

Existem muitos caminhos...
Alguns longos e curtos, outros curtos e longos,
outros ainda nunca trilhados, outros tortuosos e sinuosos,
outros fascinantes, cantos de sereia, outros só aparentemente conhecidos,...

Cada caminho tem seus ganhos e perdas...
Cada caminho parece o certo na hora da escolha...

Assim, não existem só dois caminhos...
Existem muitos caminhos...
Escolha o seu e siga-o...

Se se perder... Também é caminho...

Rosanna/Julho 2013


domingo, 23 de junho de 2013

AUTO-ENGANO...

Sem título - by Rosan


AUTO-ENGANO...

Mentimos para nós o tempo todo:
adiantamos o despertador para não perder a hora,
acreditamos nas juras da pessoa amada,
só levamos realmente a sério os argumentos que sustentam nossas crenças...

Temos a nosso próprio respeito uma opinião que quase nunca coincide
com a extensão de nossos defeitos e qualidades...
Sem o auto-engano,
a vida seria excessivamente dolorosa e desprovida de encanto.
Entretanto, abandonados a ele,
perdemos a dimensão que nos reúne às outras pessoas e possibilita a convivência social...


Quem somos? Por que acreditamos no que acreditamos?
Como viver?
As questões essenciais da existência e da realização humanas não respeitam
nem fronteiras acadêmicas nem convenções...
O saber especializado avança, o mistério e a perplexidade se adensam.
Eliminar falsas respostas é, às vezes,
mais fácil do que enfrentar as verdadeiras questões.

O que afinal sabemos sobre nós mesmos?
A racionalidade orienta mas não move...
a ciência ilumina, mas não sacia...
o progresso tecnológico acelera o tempo e abre o leque, mas ...
seria o suficiente?

O universo subjetivo no qual vivemos imersos é tão real
quanto o mundo objetivo no qual agimos.
A relação mais íntima, traiçoeira e definidora de um ser humano
é a que ele próprio trava consigo mesmo!

Qual o o lugar e o valor do auto-engano na vida prática,
tanto sob a ótica dos projetos, desejos e aspirações
de cada indivíduo em particular (ética pessoal)
como na perspectiva mais ampla da nossa convivência em
sociedades complexas (ética cívica)?

Como viver melhor individual e coletivamente?

Se a propensão ao auto-engano é com frequência uma maldição,
essa maldição parece também ser a fonte secreta e inigualável
das apostas no imponderável,
das quais dependem não só as maiores realizações criativas da humanidade
como a esperança selvagem e inexplicável que nos alimenta,
impulsiona e sustenta em nossas vidas.

Mapear, analisar, ilustrar e discutir as implicações
 éticas do auto-engano  na vida pública e privada,
tendo a formação de crenças e a conduta individual como focos privilegiados de investigação...
Pior que o simples desconhecimento, é a ignorância potenciada de uma falsa certeza -
o acreditar convicto de quem está seguro
de que sabe o que desconhece...

Abrir-se à dúvida radical - à possibilidade de que estejamos seriamente enganados
sobre nós mesmos e sobre as crenças, paixões e valores que nos governam -
é abrir-se à oportunidade de rever e avançar...

É ousar saber quem se é
para poder repensar a vida e
tornar-se quem se pode ser...

(Fonte: Eduardo Gianneti, Auto-Engano, São Paulo, Cia das Letras, 1997 - Ed. 2006)

Onde estamos, o que procuramos e no que pensamos enquanto lemos?
Mais uma vez, foi o livro que me procurou, e não o contrario...

Aqui está o depoimento de Fernando Pessoa, no papel de leitor,
que o próprio Giannetti transcreve no livro e que faço meu:

"Embora tenha sido um leitor voraz e ardente
não me recordo de nenhum livro que tenha lido,
a tal ponto eram minhas leituras estados de minha própria mente,
sonhos meus,
e mais ainda provocações de sonhos..."

Ler é recriar...
O diálogo interno do autor é a semente que frutifica (ou definha)
no diálogo interno do leitor.
A aposta é recíproca, o resultado imprevisível...

Assim como Giannetti aceitou o desafio de
pensar diretamente e por sua conta e risco a questão do auto-engano,
assim faço eu ao trazer este texto para meu blog...

Por minha conta e risco,
movida e inspirada pelo poder do
AQUI E AGORA
na introdução do novo na vida social...
Sem o que estaríamos reduzidos ao cálculo frio de um futuro insípido e previsível...

Rosanna Pavesi/Junho 2013



(



sábado, 15 de junho de 2013

A PAZ QUE VEM DE LONGE...




A PAZ QUE VEM DE LONGE...


O profeta Isaías diz:
 "Paz... paz aos que vêm de longe e aos que vêm de perto."

No Talmud este verso desperta a curiosidade pela inversão lógica do que esperaríamos:
"aos que vêm de perto e aos que vêm de longe".
Por que longe primeiro e perto depois?
Por que não o contrário?

Os rabis Abahu e Iochanan (século III) iniciam uma discordãncia interessante.
Eles reconhecem que o profeta não está falando de distâncias geográficas...

"Longe" são os que tiveram uma longa trajetória de erros até poder chegar.
"Perto" é a condição daqueles que tiveram poucas oportunidades de surpreender-se.
Sua trajetória é pequena nas veredas da alma.

Saudar os que vêm de longe primeiro em detrimento dos que vêm de perto
indica respeito especialmente aos não-acomodados- aos transgressores.
São pessoas que, para alcançar o "correto" do momento,
apostaram em muitos falsos "corretos"
 mas que, por profunda lealdade ao que é "bom",
jamais deixaram de ser perseguidores do " correto".

Os que, para perceber o "bom" do momento, apostaram em muitos falsos "bons"
mas que, por profunda lealdade ao que é "correto",
jamais deixaram de ser perseguidores do "bom".

(Notas: Nilton Bonder, A Alma Imoral, Rio de Janeiro, Rocco, 1998)


Esta pequena parábola, extraida do livro acima, propõe uma reflexão sobre o bem, o mal,
 o correto, o errado...
mas não fala do "justo"...

Nem sempre o que é bom para o momento é justo...
Nem sempre o que é correto para o momento é justo...
e seu contrário também é verdadeiro:
Nem sempre o que é justo é bom, ou correto, para o momento...
Transgredir (saudar os que vêm de longe...)
às vezes é bom, correto e justo
MAS
Obedecer (saudar os que vêm de perto...) 
também pode ser tão bom, correto e justo,
 quanto, dependendo do momento...

Na perspectiva junguiana, sempre que você sustenta um argumento,
deve também ser capaz de sustentar o seu contrário, ou seja,
ganhar distância do tema e obervá-lo a partir de diferentes perspectivas...

De forma que, toda verdade é sempre relativa...
E toda atitude, transgressão, e/ou obediência, também...
E o que é justo, ou parece ser justo, é sempre subjetivo...

Rosanna Pavesi/junho 2013 



sábado, 8 de junho de 2013

SOBRE SONHOS E FASES DA VIDA...


Sem título

SOBRE SONHOS E FASES DA VIDA...

Pergunta:
 " Nossa vida consciênte parece desenvolver-se através de fases bem definidas: infância, adolescência, vida adulta, etc.
Os sonhos têm um desenvolvimento paralelo?

Resposta de Marie-Louise von Franz:

Há uma diferença essencial entre os sonhos dos jovens e dos idosos e, no meio da vida, ocorre um estágio transitório. Pode-se dizer que em geral os sonhos dos jovens os ajudam a adaptar-se  à vida.
Há um movimento rumo à adaptação externa, à realização da vida amorosa, da ambição pessoal
e assim por diante.

De modo geral, a partir dos 35 e 40 anos, os sonhos visam também uma adaptação
à vida interior, a descoberta do sentido de própria vida.
Atualmente, porém, mesmo os mais jovens podem sentir a urgência da vida interior.
Estamos a tal ponto esmagados pela mentalidade massificada de nossa civilização,
que muitos de nós se sentem supérfluos, invisíveis, descartáveis, sem importância...

Na vida profissional, por exemplo, podemos sempre ser substituídos por outros vinte que disputam o mesmo posto ou até por uma máquina.
E isto tem um efeito muito destrutivo sobre o homem moderno...
Ou ele compensa, tornando-se um megolomaníaco que quer sempre estar por cima
e/ou, pelo menos, conquistar alguma coisa,
 ou então se sente completamente esmagado e supérfluo,
de modo que uma depressão insidiosa pode instalar-se nele.
Atualmente, encontra-se essa depressão já em muitos jovens.
De alguma forma, eles se sentem profundamente deprimidos e desencorajados.
Não acreditam em sua própria vida, nem no significado de sua existência...

Ora, os sonhos apontam para o indivíduo o sentido único da sua vida, vida também única.
Talvéz seja esse o aspecto mais importante da vida onírica.

Há duas mil árvores na floresta e todas não passam de árvores,
mas quando olhadas de perto e com atenção cada uma tem uma personalidade única.
Não há duas árvores iguais.
A natureza realiza seus padrões através de seres únicos e individuais.
Por isso o pensamento estatístico é tão pernicioso, tão nocivo.
Precisamos aprender a ver e respeitar a caráter único de  cada coisa em si.

A realidade consiste de um imenso número de seres únicos e
 os sonhos nos ajudam a descobrir os padões únicos de nossa vida.

Na prática psicológica moderna há uma queixa muito frequente entre as pessoas:
 "Minha vida não tem sentido... Para que? O que estou fazendo aqui? Para que serve isso tudo?
 Eu poderia muito bem não existir..." e assim por diante.
E aqui o sonho é singularmente importante ao indicar o que o inconsciente quer dessa pessoa,
o que ele quer que essa pessoa se torne...

Costuma ser surpreendente.
Quando as pessoas me procuram, às vezes tento "adivinhar" qual é o seu destino, sua tarefa.
Imagino o que acontecerá com elas.
Trata-se de um problema criativo?
 Será que essa garota tão infeliz no amor encontrará seu João ou seu José?
Eu nunca acerto.
O que acontece é uma total surpresa...

Todas as soluções são únicas e é isto que torna tão excitante trabalhar com sonhos.
Nada se repete. Você nunca pode prever com precisão.
A natureza sempre dá uma resposta criativa"

(Notas: Marie-Louise von Franz em conversa com Fraser Boa, O Caminho dos Sonhos, São Paulo, Cultrix, 1993)

Os sonhos nos indicam onde se encontra nossa energia e para onde ela quer ir...
Todo sonho é uma mensagem útil que propicia um insight sobre o sentido específico da nossa vida.
Noite após noite essas mensagens se repetem, chegando a mais de cem mil no decorrer de uma vida.

Se estudarmos nossos sonhos por um certo tempo, começaremos a perceber conexões significativas entre eles.
Parece haver uma força diretriz que nos guia até o nosso próprio destino individual.

Os sonhos são como cartas que recebemos: elas precisam ser abertas e lidas...

Hoje quase não escrevemos nem enviamos mais cartas...
Trocamos e-mails, comentamos, postamos, etc.etc.
Seja como for, precisamos fazer e manter contato com nossos sonhos,
"solicitar sua amizade e cultivá-la"...

Rosanna Pavesi/Junho 2013



quarta-feira, 5 de junho de 2013

AMAR A SI MESMO...

Espantalho (by Rosan)


AMAR A SI MESMO...

Parece frase de auto-ajuda, mas não é...
Parece egoismo, individualismo, mas não é...
Parece fácil, mas não é...

VEJAMOS:

"Amar a si mesmo não é coisa fácil exatamente porque significa
amar tudo dentro de si,
 inclusive a sombra, onde somos tão inferiores e socialmente não aceitos.
O cuidado que se presta a esta parte humilhante também é cura.
E mais: pelo fato da cura depender de cuidados,
cuidar às vezes não significa nada mais do que carregar...

 Amar a sombra poderá começar pelo fato de carregá-la,
mas mesmo isso não será suficiente.
A um dado momento uma outra coisa deverá irromper,
aquela compreensão que ri do paradoxo de nossa própria loucura,
que também é igual a de todos os homens.
Aí, então, poderá surgir a compreensão de tudo aquilo que é rejeitado e inferior,
 um caminhar junto e mesmo uma vivência parcial desse mundo.

A cura da sombra se apresenta, por um lado, como problema moral,
ou seja, o reconhecimento daquilo que foi reprimido.
Trata-se de descobrir quais os nossos objetivos,
e o que ferimos e até mesmo mutilamos em nome deles.

Por outro lado, a cura da sombra é um problema de amor...
Até onde irá esse amor por nossos mundos partidos e em ruínas,
por tudo aquilo que é desagradável e perverso dentro de nós?
Quanta caridade dedicamos a nossas fraquezas e doenças?

Até que ponto nos permitiremos construir internamente uma sociedade baseada no amor, 
onde exista vez e lugar para todos?
Nossas fraquezas congênitas, fixas e intratáveis de teimosia e cegueira,
mesquinhez e crueldade, arrogância e hipocrisia,
 aquela horda de  figuras desagradáveis e sombrias...
Precisamos descobrir a habilidade
de amar até mesmo a mais insignificante dentre delas...

(Fonte: James Hillman, Uma Busca  Interior em Psicologia e Religião, São Paulo, Ed. Paulinas, 1984)

Assim, amar verdadeiramente a si mesmo não é egoismo, muito pelo contrário...
É preciso coragem, humildade e, ao mesmo tempo, uma generosidade, difíceis,
 no reconhecimento e acolhimento
do sujo, feio e malvado que existem em nós também, não tão só no "outro"...
Amar e fazer a escolha  moral de não atuar nossa sombra,
 não por medo das consequências, ou da punição,
 mas por pura compaixão... 

Rosanna Pavesi/Junho 2013




  

domingo, 26 de maio de 2013

ORFANATO PORTÁTIL, por Marcelo Montenegro...



A Árvore da Chuva (by Rosan)


ORFANATO PORTÁTIL
by Marcelo Montenegro

Fabiana Stambrio, colega e amiga, me "apresentou" este livro de poemas e...
foi amor à primeira, segunda e terceira vista...
Em tempos de profundidade superficial, uma profundidade profunda, singela,como toda verdadeira profundidade é, foi uma surpresa e um susto ao mesmo tempo...

No prefácio à primeira edição, Maurício Arruda Mendonça escreve:
...Visão poética e de vida, já que ele mantém a câmera do coração
 atenta aos acontecimentos que povoam de sentido o cotidiano.
Orfanato, por causa do desamaparo das coisas que um dia amamos
e perdemos pela existência afora, objetos que se acumulam na lembrança
como quinquilharias, bugigangas, tralhas,
"tranqueiras líricas na velha caixa de sapato"
A sensibilidade de Montenegro é a do carinho pelos detalhes,
porque ele busca o gosto de existir na celebração do momento presente,
porque deseja captar fenômenos efêmeros e registrá-los velozmente
antes que se desmanchem e sejam velados pelo esquecimento...
E aí a gente se dá conta de que os poemas de Montenegro não são poemas.
São verdadeiros fotogramas...

E Tadeu Sarmento acrescenta:
... Ler os poemas de Marcelo Montenegro é contrair a culpa moral por não ter percebido o que estava bem diante dos nossos olhos...

Foi bem assim que me senti...
Na tentativa de redimir a culpa, mesmo que só em parte, 
compartilho alguns poemas de Marcelo Montenegro...

(by A. Piza)

FISSURA

Passageiros da mesma fissura
eu e você
dentro do vento
Escondidos
no mesmo grão
de poeira

SUBSTÂNCIA

não há substância alguma na imagem que procuro
tampouco há discrição
ou dedos em riste
algumas músicas a gente nunca sabe se são alegres
ou se são tristes
do ponto exato
onde deram o nó


(by A. Piza)

MATINÉ

Às vezes saio do cinema
E me ponho a andar
Cartografias pessoas
Apenas olhar
Ter a leve impressão
De que a cidade  está grávida
De um outro lugar

SINOPSE

Canetas que falham ao lado do telefone.
O baque das havaianas na escadaria.
O labor sigiloso de um poema.
Um gemido de geladeira
nalgum ponto perdido do dia.
Um copo que nosso brusco
e cômico malabarismo
evitou que se quebrasse.


(by A. Piza)

ALGO

Na travessia de tardes degoladas
a suprema confusão
de algum sentido - ainda
ou para sempre tosco.
Algo em mim que eu nem suspeito
amadurece mais um pouco.

GUARDANDO A TRALHA

Repara. Há sempre algúem
guardando a tralha. Tremendo a foto.
Aprimorando a tara.
Há um deus maluco embaralhando
as cartas.Uma banana quase preta
na fruteira. E o último gole
de cerveja em lata.

(by A. Piza)

MAIS:
Marcelo Montenegro, Orfanato Portátil, 2.a ed.- São Paulo: Annablume, 2012.

(Rosanna Pavesi/Maio 2013)


quarta-feira, 15 de maio de 2013

SOBRE CÉU E CONSTELAÇÕES...

Noites Antigas (by Rosan)

CÉU NOTURNO...


"...O espetáculo do céu noturno estrelado...
O único equivalente do universo interior 
É o universo exterior...

E, assim, como atinjo este mundo através do corpo,
atinjo aquele através da psique...
(C.G. Jung)


O céu sempre foi uma das visões mais fascinantes para o homem e, em épocas passadas,
as estrelas eram figuras divinas, eram deuses...

Segundo os mitos, é do reino das estrelas que
nossa alma vem e para lá retorna após a morte.

Pense na história da astrologia, que se expandiu não só no Ocidente,
mas também na India, na China e em todas as civilizacções mais elevadas.
Os astros permitem que se prognostique o futuro não apenas de um indivíduo,
 mas também da humanidade inteira.

Na China, todo um grupo de astrólogos observava o céu dia e noite e relatava  ao imperador
os sinais percebidos, que eram interpretados no que se referia ao império chinês.
Analogamente, na Antiguidade, tudo era visto no céu...

As constelações no céu representam as constelações por trás dos grandes eventos históricos,
como se na profundeza do inconsciente não estivéssemos isolados,
mas de algum modo ligados ao conjunto da humanidade,
que sonha um sonho ininterrupto.

Olhar para o céu pode assim também se entendido como
 algúem olhando para as constelações mais profundas
não só de sua própria vida, mas também de nossa sociedade.

A palavra constelação vem de stella e portanto significa proximidade das estrelas,
a humanidade junto com as estrelas...

Não passamos de um grão de pó em algum canto do universo.
Se encararmos nossa vida através de padrões científicos e coletivos,
ela é totalmente transitória e pouco significa.

Mas se olharmos para dentro,
assim como olhamos para as estrelas,
podemos perceber que, no interior da diversidade cósmica,
temos uma missão única a realizar,
que é o que chamamos de sentido da nossa vida.

(Fonte: O Caminho dos Sonhos - Marie-Louise von Franz em Conversa com Fraser Boa, Cultrix, São Paulo, SP, 1988)

Boa viagem a todos, quer olhando para fora,
quer olhando para dentro...

Rosanna Pavesi/Maio 213





Constelações (by Rosan)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

VER ATRAVÉS DA LUA...


La Luna (by Rosan)


VER ATRAVÉS DA LUA...







"Devia ser quase madrugada
Quando ele olhou para o firmamento
Como quem, na cidade,
Consulta o relogio...





Seus olhos ganharam brilho
Num agradecimento silencioso:





Só é olhado pelo céu
Quem olha para as estrelas...




(Mia Couto em O Outro Pé da Sereia)


Ver através da Lua é olhar para o céu, a noite...
É consultar outro relogio...

Rosanna Pavesi/Maio 2013

quarta-feira, 1 de maio de 2013

SONHOS: A VOZ DA MATÉRIA CÓSMICA.?


Starry Night (foto by Amanda Bellani)


Os sonhos sempre intrigaram a humanidade...
Consultamo-os, às vezes, como oráculos,
às vezes buscamos a interpretação derradeira, a única,
às vezes não lembramos,
às vezes não damos a menor importância...
MAS,
alí estão eles:
sempre nos desafiando,
com seu mistério,
com seu fascínio...



SONHOS: A VOZ DA MATÉRIA CÓSMICA?

(by Rosan)



MARIE-LOUISE VON FRANZ EM CONVERSA COM FRAZER BOA...

PERGUNTA: Se os sonhos são mensagens cuja função é informar a nossa consciência,
por que é que eles, às vezes, são tão obscuros?

RESPOSTA:

"Isso intriga a mim também.
Por que o sonho não nos diz claramente do que se trata?

A resposta que Jung dava é que o inconsciente não o faz porque obviamente não consegue...
Ele não fala a lingua da mente racional.

Os sonhos são a voz da nossa natureza instintiva e animal ou, em última análise,
 a voz da matéria cósmica em nós.

Trata-se de uma hipótese muito ousada, mas eu me aventuraria a dizer que
o inconsciente coletivo e a matéria atômica orgânica
com toda probabilidade são aspectos da mesma coisa.

Assim, em última instância, os sonhos são a voz da matéria cósmica...

Da mesma forma que, como leigos, não conseguimos compreender o comportamento dos átomos
(repare no dialeto chinês que os físicos modernos precisam usar
para descrever o comportamento de um elétron),
precisamos usar o mesmo tipo de linguagem para descrever
as camadas mais profundas do mundo onírico.

Os sonhos nos transportam para mistérios da natureza estranhos à nossa mente racional.
Podemos compará-los à física atômica,
na qual as mais complicadas fórmulas não são suficientes para descrever o que ocorre...".

(Fonte: O Caminho dos Sonhos - Marie-Louise von Franz em conversa com Fraser Boa, Cultrix, São Paulo, SP, 1988)


É uma possibilidade...
Porém não a única...
Vamo simplesmente ficar com os sonhos,
com estas visitações estrangeiras e dar-lhes hospitalidade?
Conversar com nossos visitantes?

Rosanna Paves/Maio 2013