segunda-feira, 30 de junho de 2014

SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Psique - by Rosan


SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Daimon (em grego), gênio (em latim) e, em termos mais modernos, também anjo, alma,
 paradigma, imagem inata, estrela-guia, visão, caráter, destino, gêmeo interior,
 fruto do carvalho, companheiro eterno, protetor, vocação do coração, chamado...

Essa multiplicidade e essa ambiguidade são inerentes ao próprio daimon,
enquanto personificação de um espírito que, na psicologia grega,
era também o destino da pessoa.
Cada qual carregava seu destino.
O destino era o gênio particular que acompanhava cada indivíduo.

O daimon, no mundo antigo, era uma figura do "outro mundo",
nem humana, nem divina, algo entre essas duas esferas,
de uma "região intermediária", à qual a alma também pertencia.

O daimon era mais uma realidade física intima, do que um deus.
Era uma figura que podia aparecer num sonho, ou enviar sinais como pressagio, como palpite.

"Caráter é destino" (fragmento de Heráclito) vincula o modo de vida
ao desempenho da pessoa.

O foco egocêntrico do humanismo nos faz achar que o daimon, tendo nos
 escolhido para habitar, interessa-se por nosso destino...
Mas, e o destino dele?
(que também é o nosso...)

Talvez a tarefa do homem seja alinhar seu comportamento às intenções dele, 
agir de acordo com ele, por ele?
O que fazemos na vida afeta nosso coração, nossa alma
e interessa ao daimon.

Formamos a alma com nosso comportamento, pois a alma não chega pronta do céu.
É apenas imaginada lá, um projeto incompleto 
tentando baixar...

O daimon torna-se a fonte da ética humana, e a vida que
é alegre, a vida que é boa:
aquilo que os gregos chamavam de eudaimonia...
(eu = harmonia; daimonia = que pertence ao daimon),
ou seja, uma vida vivida em harmonia com o daimon.

A teoria do fruto do carvalho sustenta que cada pessoa tem 
uma singularidade que pede para ser vivida 
e que já está presente antes de poder ser vivida.

O fruto do carvalho costuma ser obsessivo...

(NOTAS: O Código do Ser - James Hillman, Objetiva, 1997)

Pode-se concordar com Hillman, ou não, mas é um livro que deve ser conferido...

Para mim, o daimon se apresentou na metanoia,
como vocação do coração, um chamado...
Um furação que sacudiu minha vida, 
devastou meu "mundinho seguro e previsível" que, porém,
tinha se tornado estreito, estreito demais...

Segui os sinais...
Não de forma fatalista, como um "destino" traçado desde o começo,
mas sim como uma segunda oportunidade de descobrir 
meu potencial vocacional ainda não vivido e que resolvi acolher...

A coragem veio, apesar do medo, 
pois eu tinha uma sensação interna de "ou vai ou vai"...
Não me arrependo, muito pelo contrário...
Hoje não consigo nem imaginar minha vida de outra forma...

Não saberia dizer com clareza SE
fui eu que acolhi o chamado do daimon  
ou se foi ele que, obsessivamente, acabou finalmente por ser ouvido
e levado em consideração...

Mas, nesta altura, isto já não tem a menor importância...
As duas coisas se fundem numa só...

Rosanna Pavesi/Junho 2014




sexta-feira, 13 de junho de 2014

SOBRE O NUMINOSO...

Sem Título (by Rosan)


SOBRE O NUMINOSO...

Em 1937, Jung escreveu sobre o numinoso como:

"(...) Uma instância ou efeito dinâmico não causados por um  ato arbitrário da vontade. 
Pelo contrário, ele arrebata e controla o sujeito humano, que é sempre antes
sua vítima do que seu criador.

O numinoso, indiferentemente quanto a que causa possa ter -
é uma experiência do sujeito (grifo nosso) independente de sua vontade...
O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível
como a influência de uma presença invisível  que causa uma peculiar atenção da consciência".
(C.G. Jung - OC - Volume XI - par.6 - Vozes)


Desafia explicações, porém parece conter uma mensagem individual que,
embora misteriosa e enigmática, também é profundamente impressionante.

Jung percebia que a crença, consciente ou inconsciente, para confiar em um poder transcendente,
era uma condição prévia para a experiência do numinoso.

O numinoso não pode ser "conquistado" ...
O indivíduo pode somente abrir-se para ele... ou não...


É um confronto com uma força que encerra um significado ainda não revelado...
Jung via o confronto com o numinoso como uma característica de toda experiência "religiosa".

O numinoso, como todo fenômeno possui dois aspectos: (a) o aspecto luminoso
que arrebata, inspira, motiva... e  (b) o aspecto tenebroso, sombrio,
que possui o indivíduo, podendo torná-lo obsessivo e arrogante.
Tanto num caso, como no outro, pode nos desapropriar de nossa vida humana...
e, paradoxalmente falando, ele é ao mesmo tempo um anjo seráfico e um demônio,

in-humano...

É sempre um confronto subjetivo, portanto extremamente íntimo e pessoal pois,
como já disse Hillman, o íntimo e pessoal não é nossa história de vida,
mas sim como lidamos com nossos anjos e demônios...
Uma experiência religiosa, no sentido que nos reconecta com o mundo arquetípico,
uma revelação e, às vezes, uma iniciação...

A meu ver não é para os "eleitos", mas sim para os "necessitados"...

Seja lá qual for o motivo...

Quando isto ocorre, guarda-se o mistério no fundo do coração,
com muita humildade e nenhuma hybris...

Rosanna Pavesi/junho 2014



sábado, 31 de maio de 2014

SOBRE CONIUNCTIO...

Os Noivos vão à Cidade (by Rosan)

CONIUNCTIO...
ALGUMAS NOTAS...

" (...) A relação macrocósmica é uma grande dificuldade.
Ela se apresenta sintomaticamente e em primeiro lugar na forma de uma pressão
para tornar objetiva, externa e palpável a relação microcósmica.

A coniunctio das metades masculina (espírito) e feminina (vida) do si-mesmo poderia
 dominar o indivíduo e forçá-lo a uma manifestação física, isto é, cósmica. 

Mas cada arquétipo antes de ser integrado conscientemente,quer manifestar-se fisicamente
e por isso força o sujeito a entrar na forma dele.

O si-mesmo em sua divindade (isto é, o arquétipo) está inconsciente de si mesmo. (grifo nosso)
Ele só pode tornar-se consciente dentro da nossa consciência.
E só pode conseguí-lo se o eu permanecer firme.

Ele (o si-mesmo) deve tornar-se tão pequeno, e menor ainda, quanto o eu, 
ainda que seja o mar da divindade.

Deve tornar-se o Pequeno Polegar em seu coração.
O hierosgamos realiza-se no vaso.

Nós só podemos dar-nos as mãos e conhecer algo sobre o interior do homem.
As possibilidades sobre-humanas não são de nossa alçada..."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - volume I  - Vozes 2001)
Carta a Aniela Jaffé/Zurique - 03.09.1943)


Há textos que, a meu ver, são impossíveis de comentar, a risco de sermos reducionistas...
O texto acima, a meu ver, é um deles...

Deve ser lido de mente aberta, porém presente...
O que cativar sua atenção...
É isso...

Rosanna Pavesi - maio 2014

domingo, 18 de maio de 2014

SOBRE SUBLIMATIO...

O Jardim de Afrodite (by Rosan)

SUBLIMATIO...

" (...) Sublimatio faz parte da arte regia de como se faz o verdadeiro ouro.

(...) Não é nenhum traslato voluntário e forçado de um instinto para um campo de uso impróprio, mas uma transformação alquímica (grifo nosso) para a qual são necessários o fogo e a matéria-prima negra.

A Sublimatio é um grande mistério.
Mas quem hoje em dia entende dessas coisas? 
Por isso permanece na obscuridade."

Notas

"O "ouro verdadeiro" é uma das idéias básicas da alquimia.
 Ele não se refere ao metal, mas é símbolo de um estado de perfeição que combina 
o ctônico e o espiritual, o corpo e a alma, a luz e a escuridão,
 tudo numa totalidade polar.

Como união dos opostos, o ouro alquímico é denominado " res simplex". 
É a tão procurada "substância simples" que alguns textos também relacionam a Deus.
 Psicologicamente, poderíamos interpretar o "ouro verdadeiro" como símbolo do si-mesmo." 
(Cf. C.G. Jung -  "Sobre as raízes da consciência", 1954, p. 185, nota 147 - OC Voume. XIII)

"A verdadeira sublimatio é um processo de transformação
 que pode acontecer tanto no espiritual como na matéria 
e cujo objetivo está numa união dos opostos, 
na obtenção do "ouro verdadeiro".

Ao contrário da concepção alquímica,
 o conceito freudiano de sublimação delimita uma mudança que só ocorre
 numa direção, isto é, do ctônico para o espiritual: 
uma transformação de moções instintivas biológicas, 
como a sexualidade, em modos de proceder ditados pelo espírito, 
onde os objetivos naturais são substituídos por outros 
como, por exemplo, sociais, artísticos, etc."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Hermann Hesse/Montagnola, Tessin - 18;09.1934)

Pessoalmente, compartilho mais da visão alquímica de sublimatio do que 
do conceito de "sublimação" como mecanismo de defesa do ego...

Rosanna Pavesi/maio 2014

sábado, 10 de maio de 2014

A SOMBRA... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

O Mago Negro by P. Klee


SOBRE A SOMBRA...
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...


" (...) O que o senhor chama de técnica de uma confrontação com a sombra 
toca uma questão bastante difícil e importante.
Realmente NÃO existe uma técnica geral, enquanto técnica significar 
uma regra conhecida e talvez mesmo prescrita para resolver 
uma determinada dificuldade ou tarefa.
É, antes, um procedimento comparável à diplomacia.
(...) Se for possível falar de técnica em geral (em relação à sombra), 
ela consiste exclusivamente numa atitude (grifo nosso).

Em primeiro lugar, é preciso aceitar e levar a sério a existência da sombra.
Em segundo lugar, é preciso estar informado sobre suas propriedades e intenções.
E, em terceiro lugar, são necessárias longas e difíceis negociações. (...)
Ninguém pode saber como terminarão essas negociações. 
Sabe-se apenas que o problema em si vai sofrendo transformações 
através de colaboração cuidadosa.

Muitas vezes, as intenções aparentemente impossíveis da sombra 
são apenas ameaças,como resposta à recusa do eu de prestar-lhe uma atenção real.
Estas ameaças costumam diminuir quando são enfrentadas com seriedade.

Os pares de opostos têm uma tendência natural de encontrar-se na linha do meio, mas 
o meio nunca é um compromisso inventado pelo intelecto e imposto aos partidos em luta.
É antes o resultado do conflito que se pretende resolver. (grifo nosso).

Em nenhum caso os conflitos se resolvem através de  truques habilidosos ou de mentiras, 
mas sim pelo fato de nós os suportarmos.
Eles precisam ser esquentados, por assim dizer, até que a tensão fique insuportável; 
então os opostos se fundem aos poucos mutuamente.
É uma espécie de procedimento alquímico, mas não uma escolha e decisão racionais.

Sofrer faz parte imprescindível.Toda solução real só será encontrada 
através de sofrimento intenso.

O sofrimento indica até que ponto nós somos insuportáveis a nós mesmos.
(...) Concordo que não é fácil encontrar a fórmula correta: 
mas, se a encontrarmos, teremos feito uma totalidade de nós,
e isto, acredito eu, é o sentido da vida humana."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Mr. P.W. Martin/Genebra - 20.08.1937)

Sobre a Sombra pessoal

Na carta acima, fica claro que Jung está se referindo à nossa sombra pessoal e individual
 e não à Sombra coletiva ou arquetípica...

No caso da sombra pessoal, trata-se dos aspectos ocultos ou inconscientes  de si mesmo, 
bons ou mausque o ego jamais conheceu 
ou então reprimiu, por não estarem de acordo com o "ego ideal" ou
com a Persona, a face que mostramos em público.

Há impulsos não civilizados, motivos moralmente inferiores, 
fantasias e ressentimentos infantis, enfim, 
todas aquelas coisas das quais não nos orgulhamos...

Estas características pessoais não reconhecidas ou não aceitas como nossas
são muitas vezes experimentadas nos outros, através do mecanismo de projeção...
Vale lembrar que a projeção é sempre inconsciente...

Na medida em que nos identificamos com uma persona exclusivamente brilhante, 
a sombra é correspondentemente escura. 

Assim, sombra e persona situam-se num relacionamento de compensação e o conflito 
entre ambas está invariavelmente presente na eclosão de uma neurose.
A depressão característica de tal momento indica a necessidade 
de constatarmos que não somos tudo o que fingimos ou que gostaríamos de ser.

Ao ego incumbe a responsabilidade pela sombra.
 É por essa razão que a sombra é um problema moral. 
Uma coisa é perceber seu aspecto - do que somos capazes; 
outra, bem diferente, é determinar o que podemos prescindir ou incluir.

Quando "tudo é sempre culpa do outro"... Quando a responsabilidade "é sempre do outro"...
Quando é sempre "o outro que está errado, o outro que nos sacaneou, etc.etc."
ou vivemos - definitivamente - na inconsciência de quem somos,
ou, então, está na hora " de botar a mão na massa..."

O trabalho com a sombra não é uma etapa, é um trabalho contínuo e para a vida toda,
posto que a vida é movimento, é mudança,
 e o que está correto hoje pode estar errado amanhã, 
dependendo das contingências e das situações...

É UM GRANDE DESAFIO...

Rosanna Pavesi/maio 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

SOBRE IMAGENS DE FANTASIA...ALGUMAS CONSIDERAÇÕES,,,

O Inverno (by Rosan)

SOBRE IMAGENS DE FANTASIA...
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

" (...) Quanto à sua dificuldade com a questão da causalidade das imagens da fantasia, 
gostaria de dizer o seguinte:

é certo que as condições externas são causa de reações internas, 
mas a causa externa é apenas uma das condições da reação; 
a outra condição é sempre o traço característico do reagente.

Não se deve admitir que aquilo que reage seja uma coisa sem qualidade.
 Em outras palavras: como qualidade pertencente ao corpo vivo, 
a psique tem desde o início sua natureza específica, 
que se distingue da natureza do objeto externo.

Como o senhor sabe, uma imagem psiquica do objeto externo não é idêntica a ele.

A afirmação de que a psique se constitua apenas 
da ação de fatores externos sobre ela 
 é tão incorreta quanto aquela de que 
todos os objetos externos são meras imagens projetadas pela psique. 

Uma observação cuidadosa da psique do primitivo
 mostra que ele não se ocupa  (conscientemente) de sua personalidade, 
mas é sua personalidade que se ocupa intensamente consigo mesma:
 as ações e as imagens do primitivo procedem diretamente do inconsciente, 
sem participação da consciência, exatamente como acontece em nossos sonhos.

Evidentemente, as imagens oníricas são respostas a fatores e condições externos,
mas são respostas da psique e, assim, cópias fieis de fatos psíquicos.

Quando se compara o mito do Sol com a experiência real dos sentidos,
então a diferença fica bem clara.
 A consciência percebe o sol como um corpo celeste esférico; 
o inconsciente cria um mito cuja representação figurativa 
tem uma relação pouco consistente 
com a percepção real dos sentidos.

(...) A suposição de que a psique só assimile o que se origina de objetos externos 
ou aquilo que se impõe a ela de fora, baseia-se num grande erro.
Se assim fosse, 
nosso inconsciente só produziria imitações exatas de fatos externos;
 mas isto não é o caso."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Dr. Henry A. Murray//Cambridge (Mass) USA - 10.09.1935)


As respostas oníricas são respostas da psique...
De forma que, mesmo quando se trata de imagens oníricas como "resíduos do dia", 
nunca são representações figurativas tão só,
 mas sim " respostas da psique" a partir de seu próprio ponto de vista...

No sonho, uma cama é uma cama, um carro é um carro, uma árvore é uma árvore, 
MAS NÃO SÓ....

Rosanna Pavesi/Maio 2014



quinta-feira, 1 de maio de 2014

FRAGMENTOS...


FRAGMENTOS...


C.G. Jung (Fonte: Web)

As CARTAS, como são hoje conhecidas, representam um complemento e uma espécie de comentário da obra de C.G. Jung.

A seguir, alguns fragmentos que me pareceram significativos e que compartilho...


CARTAS
 1906-1945 - Volume I

Vozes, 2001


By A. Piza


To Francis Wickes/EUA - 06.11.1926

Ninguém está livre do sofrimento enquanto  nada na torrente caótica da vida.
(...) Não existe nenhuma dificuldade em minha vida que não seja exclusivamente eu mesmo.
Ninguém deverá carregar-me  (
grifo nosso)
enquanto eu puder manter-me sobre meus próprios pés...


By A. Piza


Ao Dr. Paul Maag/Adelboden, Suiça - 12.06.33

(...) Minha atitude subjetiva (grifo nosso)  é respeitar toda convicção religiosa, mas traço uma rigorosa linha divisória entre o conteúdo da fé e as exigências da ciência
.
Considero imprópria a mistura dessas incomensurabilidades.
Considero também pretensioso atribuir ao conhecimento humano uma capacidade que ultrapassa comprovadamente os seus limites.


(...) O que a humanidade denominou Deus desde os tempos mais antigos é simplesmente o inescrutável  
(grifo nosso).
Como vê, sou totalmente incorrigível e incapaz de fazer uma mistura de teologia e ciência...



By A. Piza


À Sra. R./Suiça - 15.12.1933

Suas perguntas são irrespondíveis, pois a senhora quer saber como se deve viver.
A gente vive como pode.

Não existe um único caminho determinado para o indivíduo, que lhe fosse prescrito ou adequado.
(...) Se quiser trilhar  seu caminho próprio, então será o caminho que a senhora há de fazer, que não é prescrito por ninguém, que não se conhece de antemão mas que surge simplesmente por si mesmo quando se dá um passo depois do outro.


Se fizer sempre aquilo que se apresenta como o passo seguinte,
então andará da forma mais certa e segura ao longo das linhas prescritas pelo seu inconsciente.
Aí não adianta nada especular sobre o que se deve viver.
Sabe-se então também que isto não se pode saber.


O importante é fazer silenciosamente a coisa mais próxima e mais necessária.
(...) Quando se faz com convicção o mais próximo e o mais necessário, então se faz sempre o que tem sentido de acordo com o destino.

By A. Piza


To P.W.Martin/Colwyn Bay/North Wales/Inglaterra - 28.08.1945

(...) O senhor tem razão em dizer que o interesse principal do meu trabalho não está no tratamento das neuroses, mas numa aproximação do numinoso (grifo nosso).
O fato é que o acesso ao numinoso é a verdadeira terapia e na medida em que se chega às experiências numinosas, há uma libertação da maldição da doença.
A própria doença assume um caráter numinoso.




As nossas " rachaduras" são ouro puro...
Imagem: web


AS CARTAS cairam no meu colo... 
Isto costuma ser frequente... Respeito...
Há com certeza algo que preciso ler, ou reler, como é o caso aqui...

Carregar a si mesmo, teologia e ciência, como se deve ou pode viver, o caminho a seguir, a doença e o numinoso...
Questões que têm estado particularmente presentes ultimamente...
Um bem-vindo material...

Boa leitura e boa reflexões, caso estas questões também lhe toquem e afetem...

Rosanna Pavesi/Maio 2014

domingo, 20 de abril de 2014

TODO O TEMPO DO MUNDO...

Sem título - Fonte: web


TODO O TEMPO DO MUNDO...

A pressa se foi...
Não sei como não sei quando...
Ela se foi...

Dimensão nova,
Sem fronteiras entre passado, presente, futuro...

Sim, tenho todo o tempo do mundo...

Quanto tempo  é "todo o tempo do mundo"?

Todo o tempo do mundo
é tanto tempo quanto se consiga imaginar...


Rosanna Pavesi/Abril 2014




domingo, 23 de março de 2014

AS VIRTUDES DO CARÁTER...

 
by A. Piza - Imagem web


AS VIRTUDES DO CARÁTER...

Em seu livro A Força do Caráter, (Objetiva, 2011), James Hillman dedica um capítulo (cap. 23) à exposição das virtudes do caráter, com a finalidade de definir a ideia de caráter.

Hillman escreve:

" 1. - A ideia de caráter depende da noção arquetípica de diferença. O caráter confirma, e até mesmo alardeia, o único, o singular, o peculiar. Como o caráter coloca a individualidade entre as marcas de diferença observáveis, a excentricidade torna-se necessária ao caráter.

2. - Os acontecimentos do corpo representam igualmente o caráter e não podem ser excluídos da investigação da psicologia do caráter. O caráter compreende a psique e o soma; o caráter é uma ideia psicossomática.

3. - O caráter é apresentável. Ele requer uma linguagem descritiva - adjetivos, como pão-duro, esperto, sistemático; advérbios, como devagar, cautelosamente, cuidadosamente - que transmita imagens e desperte sentimentos. Ao capturar o caráter com precisão e abrangência, a fala poética ultrapassa em muito a linguagem da ciência behaviorista.

4. - O caráter é um punhado de características. Como a ideia de caráter desafia simplificações, um estudo do caráter pede um tipo complexo de inteligência. Ele estuda a justaposição de camadas como uma imagem poética ou pintada e abandona a busca de um centro unificador.

5. - O caráter é perceptível como imagem. Está sempre exposto, como estilo, hábito, gesto, disposição, constituição, postura, expressão, presença. O rosto revela o caráter e dirige-se ao caráter. Como imagem, o caráter precisa ser imaginado além de percebido.

6. - O caráter sempre se distinguiu do talento, da habilidade, dos dons, das capacidades mensuráveis. Ele pode ser aleijado por deficiências e encurralado em fixações, enquanto talento e habilidades exibem brilhantismo. O caráter não cede a medidas de desempenho padronizadas. A singularidade característica de um estilo escapa da análise.

7. - O caráter também escapa da amarra moral. Ele não se revela na moralidade do comportamento, mas no seu estilo. Os traços de caráter incluem vícios e virtudes. Esses NÃO definem o caráter; o caráter os define. A perseverança ou a lealdade podem instigar um ato criminoso assim como um ato de bondade; a amizade pode motivar vingança ou renúncia. A abrangência imaginativa do caráter não pode ser  imprensada dentro de uma definição ética sem perverter sua natureza e esterilizar a sua fecundidade. 

8. - Ao contrário da personalidade, o caráter é impessoal. O discurso da personalidade é a psicologia humana; o discurso do caráter é a descrição imaginativa.

9. - Acontece com o eu o mesmo que com a personalidade. O eu é reflexivo, apontando de volta para o sujeito, fundindo-o ao seu rival abstrato, o ego. O eu se resume às pessoas: não falamos do eu de um cavalo, um pinheiro ou um promontório, no entanto sentimos o caráter definido de cada um.

10. - A singularidade leva o caráter para além do temperamento e do tipo.

11. - O caráter deixa traços na história política. Como determinante do rumo dos acontecimentos humanos, o caráter liga a psicologia à sociedade, afastando a psicologia de sua subjetividade obsessiva.

12. O caráter reintroduz o Destino na psicologia. As substituições do caráter eliminaram essa antiga ligação. Ego, personalidade, eu, agente, indivíduo reduzem a psicologia ao estudo do comportamento humano - processos, funções, motivações - e omitem as inevitáveis consequências que a ideia de caráter implica. 
A psicologia despojada do destino é superficial demais para abordar seu assunto, a alma.

13. - O caráter é para a velhice o que o chamado do daimon é para a juventude.
 Ele dá sentido e propósito às mudanças do envelhecimento.
O caráter é uma ideia terapêutica...

E o que resta?
O que resta é o pedaço de destino que o caráter único de cada pessoa personifica..."


A noção de bom caráter X mau caráter, atrelada quase que exclusivamente à amarra moral torna-se assim de certa forma acanhada e redutiva, para definirmos a ideia de caráter...
O que Hillman propõe é uma visão imaginativa do caráter também como estilo estético, gostos individuais, comportamentos e traços individuais, a imagem que fica da pessoa, seu modo único de agir, suas esquisitices e excentricidades...

Se, seguindo Hillman,  a velhice requer coragem e curiosidade,
o carátertambém  necessita desses anos adicionais para confirmar-se e realizar-se...

Rosanna Pavesi/Março 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

FANTASIA: FANTASMA, ATIVIDADE IMAGINATIVA, IMAGENS DE FANTASIA E E SONHOS...

Cidade de Sonho by Rosan


SOBRE FANTASIA...

Por fantasia, C.G. Jung entende duas coisas distintas: 
                 A)- O Fantasma  (fantasia ativa e passiva)
B) - A  Atividade Imaginativa.


C.G. Jung

A FANTASIA COMO FANTASMA

"Por fantasia enquanto fantasma 
entendo um complexo de representações que se distingue 
de outros complexos de representações
 por não lhe corresponder externamente uma situação real. 

Na realidade da experiência psicológica do dia-a-dia, 
a fantasia  ou é acionada por uma atitude intuitiva de expectativa 
ou é uma irrupção de conteúdos inconscientes na consciência" 
(C.G.Jung - XI.Definições - em Tipos Psicológicos, OC/Vol.VI - par.799)

É também possível distinguir entre fantasia ativa e fantasia passiva...

Tanto uma quanto a outra só podem ocorrer numa dissociação relativa da psique, 
pois seu aparecimento pressupõe que uma quantidade considerável de energia
 se tenha subtraido ao controle consciente 
e se apossado de materiais inconscientes.

As fantasias ativas, características da mentalidade criativa, 
são evocadas por uma atitude intuitiva 
voltada para a percepção dos conteúdos inconscientes. 
A fantasia ativa, enquanto produto de uma atitude consciênte 
que NÃO é necessariamente oposta ao inconsciente, 
requer  mais compreensão do que crítica.

As fantasias passivas são manifestações espontâneas e autônomas 
dos complexos inconscientes.
A fantasia passiva necessita sempre de uma crítica consciente, 
para que não se reforce meramente o ponto de vista do inconsciente.


C.G. Jung

Segundo Jung: 
"É provável que a fantasia passiva tenha sua origem 
num processo inconsciente e oposto à consciência 
mas que reune em si 
quase tanta energia quanto a atitude consciente e, por isso, 
é capaz de quebrar a resistência dessa.

A fantasia ativa, ao contrário,
 não deve sua existência unilateralmente 
a um processo inconsciente intenso e contraditório, 
mas também a uma disposição da atitude consciente 
de assumir os indícios ou fragmentos de relações inconscientes 
e relativamente pouco acentuadas e, 
por meio de associação de elementos paralelos, 
apresentá-los numa forma visual plena.

Não se trata, portanto, na fantasia ativa, 
necessáriamente de um estado de alma dissociado mas, antes, 
de uma participação positiva da consciência."
(C.G. Jung - XI.Definições, em Tipos Psicológicos, OC Vol. VI - par.800-801)

Ainda:
"Resumindo, podemos dizer que a fantasia 
deve ser entendida tanto causal como finalisticamente:

- À explicação causal, a fantasia aparece como sintoma 
de um estado fisiológico ou pessoal 
resultado, por sua vez, de acontecimento anterior.

- À explicação finalista, porém, a fantasia se apresenta como símbolo
 que procura, com ajuda de materiais disponíveis, 
caracterizar ou apreender certo objetivo ou, melhor, 
certa linha de desenvolvimento psicológico futuro"
(C.G. Jung - XI.Definições em Tipos Psicológicos, OC, Vol.VI, par.808)



C.G. Jung


FANTASIA COMO ATIVIDADE IMAGINATIVA

"A imaginação é a atividade reprodutora ou criativa do espírito em geral, 
sem ser uma faculdade especial, 
pois se reflete em todas as formas básicas da vida psíquica: 
pensar, sentir, sensualizar, intuir.

Para mim, a fantasia como atividade imaginativa 
é mera expressão direta da atividade psiquica,
 da energia psíquica que só é dada à consciência 
sob a forma de imagens ou conteúdos.
(...) É um sistema de força manifestado à consciência..."
(C.G. Jung, XI. Definições, em Tipos Psicológicos, OC Vol. VI - par.810)



C.G. Jung

CONCLUINDO...

Segundo Jung:

"A partir desse ponto de vista, pode-se dizer, então, que 
a fantasia enquanto fantasma 
é uma determinada quantidade de energia que 
não pode manifestar-se à consciência a não ser na forma de imagem. 
O fantasma é uma idéia-força.

O fantasiar enquanto atividade imaginativa
é idêntico ao fluir do processo psíquico de energia"
(C.G. Jung - XI. Definições, em Tipos Psicológicos, OC Vol.VI - par. 810
Editora Vozes, Petrópolis, RJ, 1991)





IMAGENS DE FANTASIA E SONHOS...

Jung considerava as imagens de fantasia  que atravessam 
nossos sonhos acordados e nossos sonhos da noite - 
e que estão presentes inconscientemente em toda nossa consciência - 
como os dados primários de nossa psique.
Tudo o que sabemos e sentimos, e cada afirmação que fazemos,
 estão baseados em fantasia,
 ou seja, provêm de imagens psíquicas. 

Estas não são simplesmente os destroços da memória, 
a reprodução das percepções,
 restos arranjados daquilo que impacta nossas vidas...


J. Hillman

Seguindo Jung e, posteriormente, Hillman, 
podemos utilizar as palavras imagens de fantasia 
no sentido poético, considerando as imagens 
como os dados básicos da vida psíquica,
que se auto-originam, são inventivas, espontâneas,
completas e organizadas em padrões arquetípicos.

James Hillman , rumo a uma psicologia da alma, 
 baseada numa psicologia da imagem, vai sugerir, 
tanto uma base poética da mente,
quanto uma psicologia que começa nos processos da imaginação... 

Rosanna Pavesi/Fevereiro 2014