quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O SONHO, O LIVRO, AS "CHAVES"...

"Envolvente" - by Rosan


AS "CHAVES"...
"O valor das idéias criativas está em que, tal como acontece com as "chaves",
elas ajudam a "abrir" conexões até então ininteligíveis de vários fatos,
permitindo que o homem penetre mais profundamente no mistério da vida.

Acredito firmemente que as idéias de Jung podem assim servir
 à descoberta e à interpretação de novos fatos em muitos campos da ciência
(e também da vida cotidiana), levando o indivíduo, simultaneamente,
a uma visão mais equilibrada, mais ética e mais ampla do mundo.

Se o leitor sentir-se estimulado a se ocupar mais largamente
da exploração e da assimilação do inconsciente
 - tarefa que se inicia sempre por investigar nosso próprio inconsciente -
o propósito desta obra introdutória terá sido plenamente alcançado"
(Marie-Louise von Franz - Conclusão: A Ciência e o Inconsciente em
O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS - Edit.Nova Fronteira - 10.a edição -1964)




O LIVRO...


Na primavera de 1959, a convite da BBC, John Freeman entrevistou Jung
para a televisão inglesa.
Esta entrevista alcançou sucesso e o livro O Homem e Seus Símbolos é,
de certa forma,
 e por estranha combinação das circunstâncias, resultado daquele sucesso.

Num primeiro momento Jung declinou o convite de colocar
algumas das suas idéias básicas em linguagem e dimensão acessíveis ao leitor
não especializado no assunto, alegando - com grande firmeza -
 que nunca tentara, no passado, popularizar sua obra,
e não tinha certeza de poder fazer isto com sucesso naquele momento...



O SONHO...

Foi nesta ocasião que Jung teve um sonho da maior importância para ele.
Sonhou que, em lugar de sentar-se no seu escritório para falar a ilustres médicos
e psiquiatras do mundo inteiro que costumavam procurá-lo,
estava de pé num local público dirigindo-se a uma multidão de pessoas
que o ouviam com atenção e que compreendiam o que ele dizia...
A partir disto, mudou de ideia e surgiu o livro O Homem e Seus Símbolos...
O livro se quer uma obra coletiva, e não individual,
 e foi escrito em parceria com um grupo de seus mais íntimos colaboradores.

Jung escreveu o Capítulo 1. - Chegando ao Inconsciente,
onde discorre sobre a importância dos sonhos, sua função, sua análise,
 o simbolismo dos mesmos, a alma do homem, símbolo, arquétipo e outros...


Recebi este livro de presente de uma pessoa muito querida,
num momento especial de minha vida:
Estava prestes a deixar para trás a profissão da primeira metade de minha vida
para iniciar a Faculdade de Psicologia e tornar-me Psicóloga Clínica
e Psicoterapeuta de abordagem junguiana...
Um "chamado" vocacional acolhido e que mudou minha vida...

Assim, li este livro pela primeira vez como leiga e fiquei fascinada...
Não sei se compreendi o que o livro dizia MAS compreendi o suficiente
para ter clareza de qual seria meu caminho dali em diante...

Hoje coordeno uma Oficina de Sonhos em meu consultório, `
experiência fascinante e gratificante...
Às vezes a "chave" aparece, se revela, se oferece.
outras vezes não...
esperamos...
Contamos histórias, ouvimos o discurso da alma, conosco...

Rosanna Pavesi/Outubro 2014











domingo, 31 de agosto de 2014

SOBRE SÍMBOLO...


Sem título - by Rosan
SOBRE SÍMBOLO...

A)    - SÍMBOLO SEGUNDO C.G. JUNG

“(...) Em minha concepção, o conceito de símbolo é bem distinto do simples conceito de sinal. 

Significado simbólico e semiótico são coisas bem diversas. 
A roda alada do uniforme do ferroviário NÃO é um símbolo da ferrovia, 
mas sim um sinal de que a pessoa integra o serviço ferroviário.

O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida 
seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido,
 mas cuja existência é conhecida ou postulada.

(...) Enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão possível de alguma coisa. 
E só é vivo enquanto cheio de significado. 
Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão 
que formula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida 
do que o símbolo até então empregado,
 o símbolo está morto, isto é, só terá valor histórico.

Uma expressão usada para designar coisa conhecida continua sendo apenas um sinal 
e nunca será um símbolo. 
É totalmente impossível, pois, criar um símbolo vivo, isto é, cheio de significado, 
a partir de relações conhecidas.

(...) Na medida em que toda teoria científica encerra uma hipótese, 
portanto é uma descrição antecipada de um fato ainda essencialmente desconhecido, 
ela é um símbolo.

(...) Depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é símbolo ou não. 
É bem possível, pois, que alguém estabeleça um fato que não pareça simbólico à sua consideração, mas o é para outra consciência (símbolo individual X símbolo social X símbolo universal).

(...) O símbolo vivo formula um fator essencialmente inconsciente e,
 quanto mais difundido (universal) este fator, tanto mais geral o efeito do símbolo, 
pois faz vibrar em cada um a corda afim. (...) 

Como o símbolo vivo tem que conter em si o que é comum a um grupo humano bem grande 
para, então, atuar sobre ele, (o símbolo) deve abarcar exatamente o que pode ser comum a um grupo humano bem amplo. 
Jamais poderá ser algo muito diferenciado e inefável, porque isto só o entende uma minoria, 
mas tem que ser algo tão primitivo cuja onipresença esteja fora de dúvida.

Só quando o símbolo alcançar isto e o apresentar como a melhor expressão possível,
terá eficácia geral. 
Nisto consiste a eficácia poderosa e, ao mesmo tempo, salvífica de um símbolo socialmente vivo.

(...) Os puros produtos da consciência, bem como os produtos exclusivamente inconscientes, 
NÃO são de per si símbolos categóricos, mas cabe à atitude simbólica da consciência 
de quem observa atribuir-lhe o caráter de símbolo.

(...) O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, 
pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. 
Portanto (o símbolo) não é de natureza racional e nem irracional. 
Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão (algo sempre “escapa...). 
A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta
 tanto o pensamento quanto o sentimento.”
(Fonte: Tipos Psicológicos – XI Definições – C.G. Jung – OC VI – par. 903-917 – Vozes, 1991).

Mais... 

“(...) O que chamamos símbolo é um termo, um nome, 
ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, 
embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. 
Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós.

(...) Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica 
alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. 
Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto “inconsciente” mais amplo, 
que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. 
E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explica-la. 
Quando a mente explora um símbolo, 
é conduzida a ideias que estão fora do alcance da nossa razão.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana
 é que frequentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos 
que não podemos definir ou compreender integralmente.
 Esta é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica 
e se exprimem através de imagens.
MAS este uso consciente que fazemos de símbolos é apenas um aspecto 
de um fato psicológico de grande importância:
o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, na forma de sonhos.

Geralmente, o aspecto inconsciente de um acontecimento nos é revelado através de sonhos, 
onde se manifesta não como um pensamento racional, mas como uma imagem simbólica.
(...) Quando nos esforçamos para compreender os símbolos, 
confrontamo-nos não só com o próprio símbolo como com a totalidade do indivíduo que o produziu. Nesta totalidade inclui-se um estudo do seu universo cultural.

(...) Há símbolos naturais, distintos dos símbolos culturais. 
Os primeiros são derivados dos conteúdos inconscientes da psique e, 
portanto, representam um número imenso de variações das imagens arquetípicas essenciais.
Os símbolos culturais, por outro lado, são aqueles que foram empregados 
para expressar “verdades eternas” e que ainda são utilizados em muitas religiões. 

Passaram por inúmeras transformações e mesmo por um longo processo 
de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim 
imagens coletivas aceitas pelas sociedades civilizadas."
(Fonte: O Homem e Seus Símbolos –1. – Chegando ao Inconsciente – C.G. Jung – Ed. Nova Fronteira – 10.a Edição.)

Pode-se considerar o símbolo como o produto da união de opostos, uma síntese,
 uma união dos contrários.  É o terceiro elemento, é algo novo... 
(vide Função Transcendente mais adiante).
Symbolen: o símbolo reúne aquilo que foi partido.

Ao lidar com material inconsciente (sonhos, fantasias, etc.), as imagens podem ser  tratadas   tanto semioticamente, como signos sintomáticos que indicam fatos conhecidos ou cognocíveis, como  simbolicamente, como expressão de algo essencialmente desconhecido.

A atitude simbólica é, no fundo, construtiva, no sentido de que dá prioridade à compreensão do significado ou propósito dos fenômenos psicológicos, em vez de procurar um explicação redutiva.

 É também importante averiguar o efeito do símbolo sobre o sentimento, suas impressões sensoriais, seu significado, seu conteúdo ideacional, o investimento de energia psíquica no mesmo...

De acordo com Jung, o símbolo possui a capacidade de transformar e redirecionar a energia psíquica, através daquilo que ele chamou de Função Transcendente. 
A Função Transcendente é, em sua essência, um aspecto de auto-regulação da psique 
e se manifesta, tipicamente, de modo simbólico. 
O símbolo é o produto desta Função, que é experimentada e vivenciada 
como uma nova atitude em face de si mesmo e da vida. 
Esta Função, cujo produto é o símbolo, é chamada de Transcendente 
porque vai além dos opostos, os transcende, 
nada tendo a ver com transcendência espiritual no sentido geral do termo.


B)    – SÍMBOLO PARA J. HILLMAN:

SIMBOLIZAR: Ver imagens simbolicamente, ou transformar imagens em símbolos.

SÍMBOLO: Contém, no mínimo, uma ideia principal e uma imagem. 
Ambos, a imagem e a ideia, têm em comum algo da experiência humana 
que é durável através do tempo.

 Ele (o símbolo) condensa um grupo de convenções que tende à universalidade.
 A convencionalidade no agrupamento similar de ideias numa imagem 
é a chave para o reconhecimento dos símbolos.

 O símbolo traz o profundo, o poder da história e da cultura, a generalidade do universo, 
a generalidade da experiência humana, verdades inexprimíveis e banalidades. 
Ser ele poderoso ou trivial depende da qualidade da imagem.

Segundo Hillman, há dois caminhos:

a)     Abordar as imagens via símbolos (simbolicamente):
quando, onde, generalidade, convencionalidade da imagem. 
O símbolo generaliza e descreve as possibilidades simbólicas, 
a fenomenologia dos arquétipos da psique objetiva.

b)     Abordar os símbolos via imagens, (imagisticamente):
o como, as particularidades, as peculiaridades da imagem. 
Na investigação sobre imagens, há uma valoração das imagens;
 todas as imagens se revestem de valor arquetípico.

 Qualquer imagem que é tomada como símbolo, tomada em sua dimensão universal, 
deixa de ser imagem.

 - Seria correto tratar o sonho como imagem?
A prática dos sonhos como imagens suspende nossa teoria que se baseia na abordagem simbólica. Pode ser vista como uma tentativa de voltar para o desconhecido
que até alguns anos atrás estava centrado no símbolo, “explorando” a imagem.

- Com os sonhos: 
totalidade presente na imagem; tudo que está ali é necessário/ tudo que é necessário está ali; 
fidelidade à imagem na sua apresentação precisa. 
(ex.: cisne grande, não pequeno, vivo, não morto, etc.).

- Dissolver a substância nominativa em metáfora: 
Ex. a “flecha” nomeando e/ou simbolizando uma coisa
 X 
a “flecha” como uma ação veloz e como qualificação multifacetada.

- NÃO traduzir a imagem em coisas e/ou conceitos. 
Ficar com a árvore, não com o conceito e/ou  o símbolo da árvore. 
(Notas:: Trilogia das Imagens: Image-Sense, Spring 1979; An Inquiry into Image; Further Notes on Image – James Hillman)


Do meu ponto de vista, tanto abordar as imagens via símbolos – os seja simbolicamente – 
quanto abordar os símbolos via imagens – ou seja imagisticamente – tem seu valor.

O universal e o particular... 
Posto que ambos estão presentes nos seres humanos e em nossos sonhos.  
Penso que o importante é saber quando estamos amplificando um símbolo 
e quando estamos particularizando uma imagem e fazer bom uso dos dois caminhos...

Por fim creio que, assim como com o símbolo, 
também nenhuma imagem, possa ser alcançada em sua totalidade. 
A vitalidade, o vigor psíquico de uma imagem e/ou de um símbolo reside justamente
 naquilo que foge, que escapa, que resiste a ser “des-velado” por completo... 
Que é o que intriga, instiga nossa curiosidade, que alavanca, que toca, que afeta...

QUE É VIVO...


Rosanna Pavesi/setembro 2014


domingo, 10 de agosto de 2014

CURTINDO UMA FOSSA...

Yellow Moonbird by Miró

CURTINDO UMA FOSSA...

Expressão antiga, caída em desuso...
Hoje ninguém mais tem uma fossa,
muito menos a curte...

Hoje, de cara, não estou triste ou acabrunhado,
hoje ninguém mais é "blue", ou tem "the blues", ou vivencia um "feeling blue"...
Não...
Hoje, de cara estamos deprimidos...
E logo buscamos um remédio que apague isto...
Não fica bem...

Arrumando papeis antigos, dei de cara com um "poema", também antigo - dos anos '90 -
época em que a fossa era curtida e evitava - talvez - outros estados mais densos e "negros"...

Compartilho...

Curtindo uma fossa...

Estou na fossa
Curtindo tudo que tenho direito 
Inclusive um Piazzola...
Me sinto sozinha, abandonada
Feia e sem rumo...

Entrei na fossa:
Pele opaca, olhos sem vida, cabelos sem viço
E o sorriso que custa a chegar
Os ombros pesados...

Não pinto, não leio, não faço
Só curto minha fossa!

Muitos cigarros, poucas palavras
Muito Piazzola...

Passividade total
Falta de ação, de vontade, de tesão
Nada interessa, nada prende a atenção...

Há somente esta fossa:
Escuridão total, inércia, apatia
Águas paradas, estagnadas
Insônia, angustia, cigarros
Não enxergo saída.
Estou curtindo uma fossa ao som de Piazzola...
(Rosan - Maio 1990)

A fossa passou... e aqui estou...
Tantos anos depois optei por compartilhar como uma forma de legitimar
este estado de alma, entre tantos outros...

Uma fossa podia ser "curtida"...
Uma depresssão não...

Rosanna Pavesi/Agosto 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Psique - by Rosan


SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Daimon (em grego), gênio (em latim) e, em termos mais modernos, também anjo, alma,
 paradigma, imagem inata, estrela-guia, visão, caráter, destino, gêmeo interior,
 fruto do carvalho, companheiro eterno, protetor, vocação do coração, chamado...

Essa multiplicidade e essa ambiguidade são inerentes ao próprio daimon,
enquanto personificação de um espírito que, na psicologia grega,
era também o destino da pessoa.
Cada qual carregava seu destino.
O destino era o gênio particular que acompanhava cada indivíduo.

O daimon, no mundo antigo, era uma figura do "outro mundo",
nem humana, nem divina, algo entre essas duas esferas,
de uma "região intermediária", à qual a alma também pertencia.

O daimon era mais uma realidade física intima, do que um deus.
Era uma figura que podia aparecer num sonho, ou enviar sinais como pressagio, como palpite.

"Caráter é destino" (fragmento de Heráclito) vincula o modo de vida
ao desempenho da pessoa.

O foco egocêntrico do humanismo nos faz achar que o daimon, tendo nos
 escolhido para habitar, interessa-se por nosso destino...
Mas, e o destino dele?
(que também é o nosso...)

Talvez a tarefa do homem seja alinhar seu comportamento às intenções dele, 
agir de acordo com ele, por ele?
O que fazemos na vida afeta nosso coração, nossa alma
e interessa ao daimon.

Formamos a alma com nosso comportamento, pois a alma não chega pronta do céu.
É apenas imaginada lá, um projeto incompleto 
tentando baixar...

O daimon torna-se a fonte da ética humana, e a vida que
é alegre, a vida que é boa:
aquilo que os gregos chamavam de eudaimonia...
(eu = harmonia; daimonia = que pertence ao daimon),
ou seja, uma vida vivida em harmonia com o daimon.

A teoria do fruto do carvalho sustenta que cada pessoa tem 
uma singularidade que pede para ser vivida 
e que já está presente antes de poder ser vivida.

O fruto do carvalho costuma ser obsessivo...

(NOTAS: O Código do Ser - James Hillman, Objetiva, 1997)

Pode-se concordar com Hillman, ou não, mas é um livro que deve ser conferido...

Para mim, o daimon se apresentou na metanoia,
como vocação do coração, um chamado...
Um furação que sacudiu minha vida, 
devastou meu "mundinho seguro e previsível" que, porém,
tinha se tornado estreito, estreito demais...

Segui os sinais...
Não de forma fatalista, como um "destino" traçado desde o começo,
mas sim como uma segunda oportunidade de descobrir 
meu potencial vocacional ainda não vivido e que resolvi acolher...

A coragem veio, apesar do medo, 
pois eu tinha uma sensação interna de "ou vai ou vai"...
Não me arrependo, muito pelo contrário...
Hoje não consigo nem imaginar minha vida de outra forma...

Não saberia dizer com clareza SE
fui eu que acolhi o chamado do daimon  
ou se foi ele que, obsessivamente, acabou finalmente por ser ouvido
e levado em consideração...

Mas, nesta altura, isto já não tem a menor importância...
As duas coisas se fundem numa só...

Rosanna Pavesi/Junho 2014




sexta-feira, 13 de junho de 2014

SOBRE O NUMINOSO...

Sem Título (by Rosan)


SOBRE O NUMINOSO...

Em 1937, Jung escreveu sobre o numinoso como:

"(...) Uma instância ou efeito dinâmico não causados por um  ato arbitrário da vontade. 
Pelo contrário, ele arrebata e controla o sujeito humano, que é sempre antes
sua vítima do que seu criador.

O numinoso, indiferentemente quanto a que causa possa ter -
é uma experiência do sujeito (grifo nosso) independente de sua vontade...
O numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível
como a influência de uma presença invisível  que causa uma peculiar atenção da consciência".
(C.G. Jung - OC - Volume XI - par.6 - Vozes)


Desafia explicações, porém parece conter uma mensagem individual que,
embora misteriosa e enigmática, também é profundamente impressionante.

Jung percebia que a crença, consciente ou inconsciente, para confiar em um poder transcendente,
era uma condição prévia para a experiência do numinoso.

O numinoso não pode ser "conquistado" ...
O indivíduo pode somente abrir-se para ele... ou não...


É um confronto com uma força que encerra um significado ainda não revelado...
Jung via o confronto com o numinoso como uma característica de toda experiência "religiosa".

O numinoso, como todo fenômeno possui dois aspectos: (a) o aspecto luminoso
que arrebata, inspira, motiva... e  (b) o aspecto tenebroso, sombrio,
que possui o indivíduo, podendo torná-lo obsessivo e arrogante.
Tanto num caso, como no outro, pode nos desapropriar de nossa vida humana...
e, paradoxalmente falando, ele é ao mesmo tempo um anjo seráfico e um demônio,

in-humano...

É sempre um confronto subjetivo, portanto extremamente íntimo e pessoal pois,
como já disse Hillman, o íntimo e pessoal não é nossa história de vida,
mas sim como lidamos com nossos anjos e demônios...
Uma experiência religiosa, no sentido que nos reconecta com o mundo arquetípico,
uma revelação e, às vezes, uma iniciação...

A meu ver não é para os "eleitos", mas sim para os "necessitados"...

Seja lá qual for o motivo...

Quando isto ocorre, guarda-se o mistério no fundo do coração,
com muita humildade e nenhuma hybris...

Rosanna Pavesi/junho 2014



sábado, 31 de maio de 2014

SOBRE CONIUNCTIO...

Os Noivos vão à Cidade (by Rosan)

CONIUNCTIO...
ALGUMAS NOTAS...

" (...) A relação macrocósmica é uma grande dificuldade.
Ela se apresenta sintomaticamente e em primeiro lugar na forma de uma pressão
para tornar objetiva, externa e palpável a relação microcósmica.

A coniunctio das metades masculina (espírito) e feminina (vida) do si-mesmo poderia
 dominar o indivíduo e forçá-lo a uma manifestação física, isto é, cósmica. 

Mas cada arquétipo antes de ser integrado conscientemente,quer manifestar-se fisicamente
e por isso força o sujeito a entrar na forma dele.

O si-mesmo em sua divindade (isto é, o arquétipo) está inconsciente de si mesmo. (grifo nosso)
Ele só pode tornar-se consciente dentro da nossa consciência.
E só pode conseguí-lo se o eu permanecer firme.

Ele (o si-mesmo) deve tornar-se tão pequeno, e menor ainda, quanto o eu, 
ainda que seja o mar da divindade.

Deve tornar-se o Pequeno Polegar em seu coração.
O hierosgamos realiza-se no vaso.

Nós só podemos dar-nos as mãos e conhecer algo sobre o interior do homem.
As possibilidades sobre-humanas não são de nossa alçada..."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - volume I  - Vozes 2001)
Carta a Aniela Jaffé/Zurique - 03.09.1943)


Há textos que, a meu ver, são impossíveis de comentar, a risco de sermos reducionistas...
O texto acima, a meu ver, é um deles...

Deve ser lido de mente aberta, porém presente...
O que cativar sua atenção...
É isso...

Rosanna Pavesi - maio 2014

domingo, 18 de maio de 2014

SOBRE SUBLIMATIO...

O Jardim de Afrodite (by Rosan)

SUBLIMATIO...

" (...) Sublimatio faz parte da arte regia de como se faz o verdadeiro ouro.

(...) Não é nenhum traslato voluntário e forçado de um instinto para um campo de uso impróprio, mas uma transformação alquímica (grifo nosso) para a qual são necessários o fogo e a matéria-prima negra.

A Sublimatio é um grande mistério.
Mas quem hoje em dia entende dessas coisas? 
Por isso permanece na obscuridade."

Notas

"O "ouro verdadeiro" é uma das idéias básicas da alquimia.
 Ele não se refere ao metal, mas é símbolo de um estado de perfeição que combina 
o ctônico e o espiritual, o corpo e a alma, a luz e a escuridão,
 tudo numa totalidade polar.

Como união dos opostos, o ouro alquímico é denominado " res simplex". 
É a tão procurada "substância simples" que alguns textos também relacionam a Deus.
 Psicologicamente, poderíamos interpretar o "ouro verdadeiro" como símbolo do si-mesmo." 
(Cf. C.G. Jung -  "Sobre as raízes da consciência", 1954, p. 185, nota 147 - OC Voume. XIII)

"A verdadeira sublimatio é um processo de transformação
 que pode acontecer tanto no espiritual como na matéria 
e cujo objetivo está numa união dos opostos, 
na obtenção do "ouro verdadeiro".

Ao contrário da concepção alquímica,
 o conceito freudiano de sublimação delimita uma mudança que só ocorre
 numa direção, isto é, do ctônico para o espiritual: 
uma transformação de moções instintivas biológicas, 
como a sexualidade, em modos de proceder ditados pelo espírito, 
onde os objetivos naturais são substituídos por outros 
como, por exemplo, sociais, artísticos, etc."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Hermann Hesse/Montagnola, Tessin - 18;09.1934)

Pessoalmente, compartilho mais da visão alquímica de sublimatio do que 
do conceito de "sublimação" como mecanismo de defesa do ego...

Rosanna Pavesi/maio 2014

sábado, 10 de maio de 2014

A SOMBRA... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

O Mago Negro by P. Klee


SOBRE A SOMBRA...
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...


" (...) O que o senhor chama de técnica de uma confrontação com a sombra 
toca uma questão bastante difícil e importante.
Realmente NÃO existe uma técnica geral, enquanto técnica significar 
uma regra conhecida e talvez mesmo prescrita para resolver 
uma determinada dificuldade ou tarefa.
É, antes, um procedimento comparável à diplomacia.
(...) Se for possível falar de técnica em geral (em relação à sombra), 
ela consiste exclusivamente numa atitude (grifo nosso).

Em primeiro lugar, é preciso aceitar e levar a sério a existência da sombra.
Em segundo lugar, é preciso estar informado sobre suas propriedades e intenções.
E, em terceiro lugar, são necessárias longas e difíceis negociações. (...)
Ninguém pode saber como terminarão essas negociações. 
Sabe-se apenas que o problema em si vai sofrendo transformações 
através de colaboração cuidadosa.

Muitas vezes, as intenções aparentemente impossíveis da sombra 
são apenas ameaças,como resposta à recusa do eu de prestar-lhe uma atenção real.
Estas ameaças costumam diminuir quando são enfrentadas com seriedade.

Os pares de opostos têm uma tendência natural de encontrar-se na linha do meio, mas 
o meio nunca é um compromisso inventado pelo intelecto e imposto aos partidos em luta.
É antes o resultado do conflito que se pretende resolver. (grifo nosso).

Em nenhum caso os conflitos se resolvem através de  truques habilidosos ou de mentiras, 
mas sim pelo fato de nós os suportarmos.
Eles precisam ser esquentados, por assim dizer, até que a tensão fique insuportável; 
então os opostos se fundem aos poucos mutuamente.
É uma espécie de procedimento alquímico, mas não uma escolha e decisão racionais.

Sofrer faz parte imprescindível.Toda solução real só será encontrada 
através de sofrimento intenso.

O sofrimento indica até que ponto nós somos insuportáveis a nós mesmos.
(...) Concordo que não é fácil encontrar a fórmula correta: 
mas, se a encontrarmos, teremos feito uma totalidade de nós,
e isto, acredito eu, é o sentido da vida humana."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Mr. P.W. Martin/Genebra - 20.08.1937)

Sobre a Sombra pessoal

Na carta acima, fica claro que Jung está se referindo à nossa sombra pessoal e individual
 e não à Sombra coletiva ou arquetípica...

No caso da sombra pessoal, trata-se dos aspectos ocultos ou inconscientes  de si mesmo, 
bons ou mausque o ego jamais conheceu 
ou então reprimiu, por não estarem de acordo com o "ego ideal" ou
com a Persona, a face que mostramos em público.

Há impulsos não civilizados, motivos moralmente inferiores, 
fantasias e ressentimentos infantis, enfim, 
todas aquelas coisas das quais não nos orgulhamos...

Estas características pessoais não reconhecidas ou não aceitas como nossas
são muitas vezes experimentadas nos outros, através do mecanismo de projeção...
Vale lembrar que a projeção é sempre inconsciente...

Na medida em que nos identificamos com uma persona exclusivamente brilhante, 
a sombra é correspondentemente escura. 

Assim, sombra e persona situam-se num relacionamento de compensação e o conflito 
entre ambas está invariavelmente presente na eclosão de uma neurose.
A depressão característica de tal momento indica a necessidade 
de constatarmos que não somos tudo o que fingimos ou que gostaríamos de ser.

Ao ego incumbe a responsabilidade pela sombra.
 É por essa razão que a sombra é um problema moral. 
Uma coisa é perceber seu aspecto - do que somos capazes; 
outra, bem diferente, é determinar o que podemos prescindir ou incluir.

Quando "tudo é sempre culpa do outro"... Quando a responsabilidade "é sempre do outro"...
Quando é sempre "o outro que está errado, o outro que nos sacaneou, etc.etc."
ou vivemos - definitivamente - na inconsciência de quem somos,
ou, então, está na hora " de botar a mão na massa..."

O trabalho com a sombra não é uma etapa, é um trabalho contínuo e para a vida toda,
posto que a vida é movimento, é mudança,
 e o que está correto hoje pode estar errado amanhã, 
dependendo das contingências e das situações...

É UM GRANDE DESAFIO...

Rosanna Pavesi/maio 2014

terça-feira, 6 de maio de 2014

SOBRE IMAGENS DE FANTASIA...ALGUMAS CONSIDERAÇÕES,,,

O Inverno (by Rosan)

SOBRE IMAGENS DE FANTASIA...
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

" (...) Quanto à sua dificuldade com a questão da causalidade das imagens da fantasia, 
gostaria de dizer o seguinte:

é certo que as condições externas são causa de reações internas, 
mas a causa externa é apenas uma das condições da reação; 
a outra condição é sempre o traço característico do reagente.

Não se deve admitir que aquilo que reage seja uma coisa sem qualidade.
 Em outras palavras: como qualidade pertencente ao corpo vivo, 
a psique tem desde o início sua natureza específica, 
que se distingue da natureza do objeto externo.

Como o senhor sabe, uma imagem psiquica do objeto externo não é idêntica a ele.

A afirmação de que a psique se constitua apenas 
da ação de fatores externos sobre ela 
 é tão incorreta quanto aquela de que 
todos os objetos externos são meras imagens projetadas pela psique. 

Uma observação cuidadosa da psique do primitivo
 mostra que ele não se ocupa  (conscientemente) de sua personalidade, 
mas é sua personalidade que se ocupa intensamente consigo mesma:
 as ações e as imagens do primitivo procedem diretamente do inconsciente, 
sem participação da consciência, exatamente como acontece em nossos sonhos.

Evidentemente, as imagens oníricas são respostas a fatores e condições externos,
mas são respostas da psique e, assim, cópias fieis de fatos psíquicos.

Quando se compara o mito do Sol com a experiência real dos sentidos,
então a diferença fica bem clara.
 A consciência percebe o sol como um corpo celeste esférico; 
o inconsciente cria um mito cuja representação figurativa 
tem uma relação pouco consistente 
com a percepção real dos sentidos.

(...) A suposição de que a psique só assimile o que se origina de objetos externos 
ou aquilo que se impõe a ela de fora, baseia-se num grande erro.
Se assim fosse, 
nosso inconsciente só produziria imitações exatas de fatos externos;
 mas isto não é o caso."

(C.G. Jung - CARTAS - 1906-1945 - Volume I - Vozes, 2001
Carta a Dr. Henry A. Murray//Cambridge (Mass) USA - 10.09.1935)


As respostas oníricas são respostas da psique...
De forma que, mesmo quando se trata de imagens oníricas como "resíduos do dia", 
nunca são representações figurativas tão só,
 mas sim " respostas da psique" a partir de seu próprio ponto de vista...

No sonho, uma cama é uma cama, um carro é um carro, uma árvore é uma árvore, 
MAS NÃO SÓ....

Rosanna Pavesi/Maio 2014



quinta-feira, 1 de maio de 2014

FRAGMENTOS...


FRAGMENTOS...


C.G. Jung (Fonte: Web)

As CARTAS, como são hoje conhecidas, representam um complemento e uma espécie de comentário da obra de C.G. Jung.

A seguir, alguns fragmentos que me pareceram significativos e que compartilho...


CARTAS
 1906-1945 - Volume I

Vozes, 2001


By A. Piza


To Francis Wickes/EUA - 06.11.1926

Ninguém está livre do sofrimento enquanto  nada na torrente caótica da vida.
(...) Não existe nenhuma dificuldade em minha vida que não seja exclusivamente eu mesmo.
Ninguém deverá carregar-me  (
grifo nosso)
enquanto eu puder manter-me sobre meus próprios pés...


By A. Piza


Ao Dr. Paul Maag/Adelboden, Suiça - 12.06.33

(...) Minha atitude subjetiva (grifo nosso)  é respeitar toda convicção religiosa, mas traço uma rigorosa linha divisória entre o conteúdo da fé e as exigências da ciência
.
Considero imprópria a mistura dessas incomensurabilidades.
Considero também pretensioso atribuir ao conhecimento humano uma capacidade que ultrapassa comprovadamente os seus limites.


(...) O que a humanidade denominou Deus desde os tempos mais antigos é simplesmente o inescrutável  
(grifo nosso).
Como vê, sou totalmente incorrigível e incapaz de fazer uma mistura de teologia e ciência...



By A. Piza


À Sra. R./Suiça - 15.12.1933

Suas perguntas são irrespondíveis, pois a senhora quer saber como se deve viver.
A gente vive como pode.

Não existe um único caminho determinado para o indivíduo, que lhe fosse prescrito ou adequado.
(...) Se quiser trilhar  seu caminho próprio, então será o caminho que a senhora há de fazer, que não é prescrito por ninguém, que não se conhece de antemão mas que surge simplesmente por si mesmo quando se dá um passo depois do outro.


Se fizer sempre aquilo que se apresenta como o passo seguinte,
então andará da forma mais certa e segura ao longo das linhas prescritas pelo seu inconsciente.
Aí não adianta nada especular sobre o que se deve viver.
Sabe-se então também que isto não se pode saber.


O importante é fazer silenciosamente a coisa mais próxima e mais necessária.
(...) Quando se faz com convicção o mais próximo e o mais necessário, então se faz sempre o que tem sentido de acordo com o destino.

By A. Piza


To P.W.Martin/Colwyn Bay/North Wales/Inglaterra - 28.08.1945

(...) O senhor tem razão em dizer que o interesse principal do meu trabalho não está no tratamento das neuroses, mas numa aproximação do numinoso (grifo nosso).
O fato é que o acesso ao numinoso é a verdadeira terapia e na medida em que se chega às experiências numinosas, há uma libertação da maldição da doença.
A própria doença assume um caráter numinoso.




As nossas " rachaduras" são ouro puro...
Imagem: web


AS CARTAS cairam no meu colo... 
Isto costuma ser frequente... Respeito...
Há com certeza algo que preciso ler, ou reler, como é o caso aqui...

Carregar a si mesmo, teologia e ciência, como se deve ou pode viver, o caminho a seguir, a doença e o numinoso...
Questões que têm estado particularmente presentes ultimamente...
Um bem-vindo material...

Boa leitura e boa reflexões, caso estas questões também lhe toquem e afetem...

Rosanna Pavesi/Maio 2014