quinta-feira, 4 de junho de 2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ALQUIMIA...


                                                                            Fonte: WEB



ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ALQUIMIA...


No final de Mysterium Coniunctionis (CW 14 – par. 792) Jung escreve:

“...todo o procedimento alquímico... pode muito bem representar o processo de individuação num indivíduo particular, embora com a diferença não desprovida de importância de que nenhum indivíduo particular abarca a riqueza e o alcance do simbolismo alquímico. 

Este tem a seu favor o fato de ter sido construído ao longo dos séculos...
A alquimia, por conseguinte, realizou para mim o grande e inestimável serviço 
de fornecer o material em que minha experiência pudesse encontrar espaço suficiente, 
o que me possibilitou descrever o processo de individuação ao menos 
em seus aspectos essenciais...”.


OPUS


Fonte: WEB



A imagem central da alquimia é a imagem de opus, a obra...
O alquimista via-se como alguém comprometido com um trabalho sagrado: 
a busca de um  valor supremo e essencial.

Diz um texto: 

“Todos os que buscamos seguir essa Arte não podemos atingir resultados úteis 
senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, 
com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua” 
(Waite, trad. Turba Philosophorum, p.127,dictum 39).


A paciência é fundamental. 
Coragem como disposição para enfrentar a ansiedade. 
Dedicação contínua como disponibilidade para perseverar, 
a despeito de todas as modificações de humor e de estado mental, 
no esforço de pesquisar e compreender aquilo que está ocorrendo.

Uma característica proeminente da Obra é o fato de ser considerada 
um trabalho sagrado que requer uma atitude “religiosa”; 
ou seja, há a necessidade de uma cuidadosa consciência 
do nível transpessoal da psique. 
A orientação é para algo maior, e não para o ego.

Outro aspecto da Obra é o fato dela ser um trabalho amplamente individual 
podendo vir a gerar – pelo menos por algum tempo – 
um inevitável afastamento temporário do mundo.

Também possui um caráter “secreto”.
 Como todos os “Mistérios”, o segredo alquímico tinha sua divulgação vedada 
posto não ser comunicável àqueles que ainda não 
o tenham experimentado por si mesmos. 
Se não forem percebidas como um segredo e como sagrado, 
as energias transpessoais poderão vir a ser canalizadas 
para fins pessoais e apresentarão efeitos destrutivos. 
(inflação, os “eleitos”, entre outros...).

Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até a nigredo desaparecer, 
quando a aurora será anunciada pela cauda pavonis (cauda do pavão) 
e um “novo dia” nascerá, a leukosis, ou albedo.

Mas nesse estado de “brancura” não se vive, na verdadeira acepção da palavra; 
é uma espécie de estado ideal, abstrato. 
Para insuflar-lhe vida, deve ter “sangue”, deve possuir aquilo que 
os alquimistas denominavam de rubedo, a “vermelhidão” da vida. 
Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal de albedo 
num modo de existência plenamente humano. 
Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que 
o derradeiro vestígio de negrume é dissolvido.

Segundo o acima, a opus alquímica tem três estágios: 
nigredo, albedo, rubedo. 
A passagem do nigredo para o albedo é anunciada pela cauda pavonis,
assim como a passagem do albedo para o rubedo é prenunciada 
pelos citrinitas (amarelecimento da obra).


A PRIMA MATERIA


By J. Miró - Fonte: WEB


O termo prima matéria tem uma longa história, 
que remonta aos filósofos pré-socráticos. 
Esses antigos pensadores acreditavam na ideia de um a priori
uma imagem arquetípica de que o mundo é gerado de uma matéria única original,
 a chamada primeira matéria.

Essa ideia de uma substância única original não tem fonte empírica. 
Porém, em termos de “fantasia filosófica”, imaginava-se na época 
que a primeira matéria passara por um processo de diferenciação
 por meio do qual fora decomposta nos 4 elementos: terra, ar, fogo, água.

Psicologicamente falando, poderíamos dizer que a prima matéria corresponde 
a um estado primordial de indiferenciação, 
onde todos os elementos encontram-se misturados,
indiferenciados, um estado pantanoso...

Com frequência, os textos fazem referência a encontrar – e não a produzir –
 a prima matéria:

“Essa Matéria está diante dos olhos de todos... 
Ela é gloriosa e vil, preciosa e insignificante, e é encontrada em toda parte...” 
(Waite, trad. The Hermetic Museum – 1:13).

Apesar de seu grande valor interior, a prima matéria 
tem uma aparência exterior desagradável, razão pela qual é desprezada, 
rejeitada e atirada ao lixo. 
Psicologicamente, isso significa que a prima matéria está na sombra, 
naquela parte da personalidade que em geral procuramos ocultar. 
Os aspectos mais humilhantes e dolorosos de nós mesmos 
                        são os aspectos a serem trazidos à luz e trabalhados.                              

Nos sonhos, pode aparecer como lixo, bosta, fezes, lodo lamacento e fedorento...

No próximo post, faremos algumas considerações sobre 
as principais operações alquímicas.


Rosanna Pavesi/Junho 2015

domingo, 17 de maio de 2015

A FORÇA DO CARÁTER E A POÉTICA DE UMA VIDA LONGA...

                                                                  Senex by Paul Klee (WEB)



SOBRE O LIVRO BY JAMES HILLMAN...

O tempo passa e deixa suas marcas...
O corpo que vai aos poucos perdendo o vigor,
a mente que já não responde com a mesma acuidade,
o vazio,  as perdas...

O que fazer para não tornar este momento uma fase de angústias e nostalgia?
James Hillman traz neste livro importantes reflexões sobre o tema,
uma visão nova a respeito desta temida e incompreendida fase de nossa vida:
a velhice...

Num texto sensível, o autor nos mostra como a velhice é 
um momento especial de nossas vidas,
quando estamos, enfim, preparados (ou deveriam estar...)
para confirmar nosso caráter...

O autor traz de volta a antiga ideia do idoso como ancestral,
portador da memória cultural e das tradições de uma sociedade.

Segundo Hillman, o caráter necessita desses anos adicionais 
para confirmar-se e realizar-se.

Ele também nos lembra de separar velhice de morte 
e de que a velhice requer coragem e curiosidade...



PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
OS TRÊS MOVIMENTOS...


"Perdurar": Agarrar-se...


by Chico Stockinger (WEB)


 O desejo de durar o máximo possível...
 Rejuvenescer... Vencer a doença...



"Deixar a vida, partir...": Soltar-se...


Fonte: WEB



Mudanças no corpo e na alma...
O papel dessas mudanças na formação de caráter, pois o caráter
aprende com a sabedoria do corpo...
Aceitar que "pode ser a última vez que..."


"Ser deixado... Restar..."


Sem título by Rosan


O que resta é o pedaço de destino que o caráter ÚNICO 
de cada pessoa personifica...


"O que importa é o que fazemos com
os cacos e os farrapos..."

(James Hillman)


(Fonte: A Força do Caráter by James Hillman
Editota: Objetiva - 2001)


É isso...




Rosanna Pavesi/Maio 2015

domingo, 8 de março de 2015

08 DE MARÇO: DIA INTERNACIONAL DA MULHER...

                                                       A ÁRVORE DA VIDA - by Rosan



DIA INTERNACIONAL DA MULHER...

UMA HOMENAGEM...


E aqui está a moça, aqui está a mulher, 
cujo nome não mais significa apenas uma oposição
ao macho, ao homem...

Nem suscita a ideia de complemento e de limite,
MAS a de vida, de existência:

A MULHER-SER-HUMANO...

Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um Jovem Poeta, escrito por volta de 1935,
escreveu o texto acima no tempo Futuro...

Me atrevo a transcrever o trecho no tempo Presente...

Uma homenagem a todas as "rochas de veludo" 
(expressão "roubada" da avó de uma colega)
conhecidas e desconhecidas, de raça, cor, credo, origens das mais variadas...



Rosanna Pavesi/março 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

POESIA...

                                                                Sem título - Fonte;Web


Após a alegria ruidosa do Carnaval, senti necessidade de 
um pouco de quietude...

Meu refugio, foi a poesia, foi Manoel de Barros...


Sem título - Fonte: Web


RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA

" A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 da tarde,
que vai lá fora,que aponta lápis, que vê a uva, etc.etc.
Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas..."


Sem título - Fonte: Web


TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

"A poesia está guardada nas palavras -
é tudo que eu sei..."

"Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre o ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio..."


Sm título - Fonte: Web



OS DESLIMITES DA PALAVRA

"Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do acaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas..."


Sem título - Fonte: Web


O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

" Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.

(...) Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

(...) Só uso a palavra para compor meus silêncios..."


Sem titulo - Fonte: Web



Sonhei, voei, voltei...

Rosanna Pavesi/Fevereiro 2015








quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

SOBRE SONHOS... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

                                                                        Fonte: WEB

SOBRE SONHOS...

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

"O Grande Homem"

"Os Índios Naskapi (Labrador), acreditam que todo mundo
 possui o Grande Homem dentro de si.

Eles dizem: " O grande homem se revela nos SONHOS, 
todo indivíduo possui um e consequentemente sonhos"...

Aqueles que respondem aos seus sonhos, á medida que os consideram seriamente, 
à medida que refletem sobre estes, à medida que tentam compreender seu significado em segredo
 e á medida que averiguam a sua verdade, 
podem cultivar uma comunicação mais profunda com o Grande Homem.
Então o enxergam melhor em termos de qualidade...

A próxima obrigação do indivíduo é seguir as instruções que lhe são dadas nos SONHOS 
e memorizá-las, ou dar-lhe forma, 
através de algum tipo de representação artística e/ou expressiva.

Para os Índios Naskapi os sonhos não provêm do Eu, 
mas sim do Grande Homem que cada um possui dentro de si,
pois todos se sentem Pequenos diante dele.

É o Grande Homem que dá os sonhos.
E os sonhos são a deo missa, ou seja, são sonhos que procedem dos deuses
e consequentemente são os reais indicadores do caminho da vida:
São Revelações...

Bem, nesse sentido os índios assim tão primitivos estão
inteiramente acima de nossa compreensão.

Só podem ser interpretados erroneamente pela consciência ridícula
do homem branco quando este afirma que ele é isso (es)
que ele faz seus próprios sonhos, que ele é capaz,
capaz de fabricar sonhos para si, que ele seria aquele
que tudo gera, caso contrário, nada existiria. 

Por exemplo,vamos olhar esse mandala, o mandala dividido em oito...
Nenhum desses índios jamais teria a ilusão de se tratar do Eu;
ao contrário, trata-se do mundo do Grande Homem, 
é assim que o Grande Homem se apresenta.
Ele é um símbolo..."

(C.G. Jung - Sobre Sonhos e Transformações - pp.38-40 - Vozes, 2014)

Símbolo: a melhor expressão possível de algo desconhecido,
 no fundo, talvez, de algo irrepresentável?
Algo que existe, pois se deixa entrever,
 mas que ao revelar-se, 
ao mesmo tempo também vela-se? 

Assim, como na gravura acima, 
ao olhar através da cortina do cotidiano, do conhecido,
talvez, através dos sonhos, tenhamos acesso a algo mais profundo em nos?

Desejo a todos um 2015 com sonhos, 
"revelações"  e... 



Rosanna Pavesi/Janeiro 2015






domingo, 30 de novembro de 2014

TEMPO E MUNDO...

                                                            Sem Título - Autor desconhecido - Fonte: WEB


TEMPO E MUNDO...


"(...) O tempo passa, o tempo avança.
No passar do tempo, passamos nós,
no avançar do tempo, avança o mundo...

O tempo nos contém, somos contidos - limitados e envolvidos pelo tempo.
O tempo é nossa possibilidade  de ser, de vir a ser. 
Mortais. Mundo. Nada é fora do tempo.
No tempo se nasce, morre, vive-se. Passa-se, avança-se.
Acompanhados de tudo, de tudo mais que também é no tempo.
Tudo é no tempo. Nada é o tempo.
O que é o tempo?

Dizemos: o tempo. O tempo está bonito, feio. 
O tempo passou rapidamente ou demora para passar.
Vivemos todos num mesmo tempo, tudo se dá no tempo e com o tempo,
afirmamos nós.
E, no entanto, quem está bonito ou feio não é o tempo,
mas o céu, o ar, os ventos ou a tempestade.
Quem passa ou avança não é o tempo, mas nós: nós e o mundo...
Vivemos aqui ou ali, numa casa, numa cidade, mas não vivemos no tempo.

(...) Esse é o tempo. 

Contém e transporta todas as coisas, o mundo, 
mas ele-mesmo não é propriamente nada, não está em lugar algum,
não é um lugar qualquer. 
O tempo não é, mas contém.
Não sendo um lugar, no entanto, transporta tudo que vem e que veio a ser.
Contém tudo que será e o que, já não sendo mais, se retém,
contido no memória (na memória do tempo, dizemos nós)...

Dizemos: o tempo é como um rio - o tempo passa e, passando,
carrega e passa todas as coisas: nele tudo que chega vira passado.
O tempo passa passando tudo.
Mas se o tempo não é, como pode"ele" conter e transportar?
Como pode representar para nós, o conjunto das coisas que, ainda não sendo,
um dia virão a ser - aquilo que chamamos futuro?

Dizemos tempo para nos referirmos ao vir-a-ser do mundo como tal!
Embora não seja o mundo, o tempo é como o mundo, 
uma referência ao mundo.

O mundo não é somente um amontoado de tudo.
O mundo não é apenas um recipiente,
mas um abrigo que possibilita que tudo que nele está,
esteja entre-si: ao mesmo tempo...

Embora não configure um lugar, o tempo faz do mundo uma morada.
O lugar, por excelência: a casa de todos.
O lugar onde se vive sempre com e entre todas as coisas.

Graças ao tempo,
podemos estar no mundo..."

(Fonte: A Experiência do Nada como Princípio do Mundo - Guy Van de Beuque - 
Mauad/Faperj, 2004)

Um dos textos mais poéticos, realistas e tocantes que já li sobre o tema...
O tempo e o mundo ganharam, para mim, uma nova dimensão e amplidão...

Rosanna Pavesi/Dezembro 2014









domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ABORDAGEM AO SONHO...


                                                                Blue Landscape - Web





UMA ABORDAGEM AO SONHO – POR PATRICIA BERRY.

A Editora Vozes acaba de lançar o livro “O Corpo Sutil de Eco – 
Contribuições para uma Psicologia Arquetípica” por Patricia Berry.

(Original:  ”Eco´s Subtle Body–Contributions to an Archetypal Psychology”, 
Spring Publications, Second revised and expanded edition, 2008).

Não tenho ainda a edição em Português, somente em inglês, 
na segunda edição ampliada e revisada de 2008. 

É um livro que, a meu ver, merece ser conferido...
Relato, a seguir, um breve resumo de uma parte do texto dedicado a sonhos...



IV - UMA ABORDAGEM AO SONHO...

(...) Cada analista possui, inevitavelmente, seu próprio estilo, 
sendo que sua abordagem a um sonho também inevitavelmente refletirá seu estilo... 
Berry identifica 07 estilos de analistas...

Pessoalmente, não me identifiquei com nenhum deles, 
de forma que eu vou acrescentar um oitavo estilo, o terapeuta maiêuta 
(do grego, maiêuta = parteira), aquele que assiste alguém a dar à luz, 
que auxilia o outro no parto de um novo conteúdo, de algo novo, de si mesmo, 
que é o estilo com o qual me identifico.

A finalidade de Berry é oferecer um instrumento para apanharmos 
mais precisamente nossas ideias subjacentes presentes quando olhamos para um sonho 
e criar uma autoconsciência interpretativa sobre o que estamos colocando em prática 
e como colocamos em prática nossa teoria, cientes de nossos “pontos cegos” e limites
 (interpretar nossas próprias interpretações...) sem nunca perdermos nossa sensibilidade.


        Premissa básica:

Um sonho é algo em si e por si mesmo.
 É um produto imaginal. É uma imagem.

       Idealmente:

Descobrir o que a imagem quer e daí determinar nossa terapia.


O QUE QUEREMOS DIZER POR IMAGEM?  
(Desmontagem e Análise da Imagem)

I – IMAGEM

·       Passar do modo perceptivo (natural) ao modo imaginativo

·       Atentar para as seguintes características da imagem:
Sensualidade
qualidades sensoriais da imagem
Textura
seguir e sentir sua tecedura
 Emoção 
o tom, a qualidade da emoção
Simultaneidade
tudo é dado de uma vez só
Intra-Relações 
todos os elementos do sonho estão de alguma maneira conectados
Valor 
algumas imagens são mais potentes, mais atraentes que outras
Estrutura
relações estruturais; as imagens de certa forma dependem umas  
das  outras para seu significado



II – IMPLICAÇÃO

·       Atentar para:

Narrativa 
estrutura dramática, cenário, desenvolvimento, peripetéia, lysis
Amplificação 
semelhanças pela essência
 Elaboração 
a elaboração do sonhador conta-nos mais sobre o sonhador 
  do que sobre o sonho – é ego-sintônica;
 cuidado para não perder as sutilezas de uma figura onírica em si
Repetição 
semelhanças de todo e qualquer tipo que mostram 
um tema dentro do sonho
Reafirmação
re-contar, deixar que o sonho soe novamente, 
enfatizar a qualidade metafórica, as nuances

III – SUPOSIÇÃO

·       Atentar para:

Causalidade
o sonho como imagem NÃO faz nenhuma afirmação causal.
Os eventos são conectivos sem serem causais, 
como na pintura ou na escultura
Avaliação
no nível da imagem, qualquer afirmação positiva/negativa, 
juízo de valor, avaliação NÃO se aplica, 
pois a imagem simplesmente  é.
Generalização 
um sonho é uma afirmação específica de uma constelação particular, 
de forma que qualquer tentativa de generalização  é uma mera suposição.
Especificação 
ao invés de ampliar o contexto do sonho,
 a especificação refere-se a seu estreitamento para uma aplicação específica (...)


Baseado nas sugestões da própria autora, eu me permito acrescentar:

NÃO: 
explorar a imagem em função daquilo que assumimos 
serem nossos objetivos terapêuticos.

SIM: 
respeitar o imaginal...

FALAR COM OS SONHOS, EM SUA PRÓPRIA LINGUAGEM, 
ONIRICAMENTE...
(ao invés de “falar de sonhos”...)


Rosanna Pavesi/Novembro 2014                  

terça-feira, 11 de novembro de 2014

SONHEI UM SONHO...

O Barco dos Sonhos - (Web)


SONHEI UM SONHO...

SONHEI UM SONHO

E LEMBREI-ME DO SONHO

E ESQUECI-ME DO SONHO

E SONHEI QUE PROCURAVA

EM SONHO AQUELE SONHO

E PERGUNTO SE A VIDA

NÃO É UM SONHO QUE PROCURAVA UM SONHO...

(Cecilia Meirelles)


Somos nos que sonhamos
ou é o sonho que nos sonha?

Rosanna Pavesi/novembro 2014





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O OCO, O VAZIO E SEUS RECIPIENTES...

Garrafas by G. Morandi


O OCO, O VAZIO E SEUS RECIPIENTES...

RECIPIENTE: ALGO QUE CONTÉM...


O OCO DO RECIPIENTE...

O VAZIO NO OCO...


Cada recipiente possui sua forma específica.
Seu interior é oco, vazio.


Cada recipiente ganha forma ao redor deste oco vazio...
É o vazio que determina a forma, confere forma,
não a forma que determina o vazio...

Na Cultura Ocidental o espaço no interior de um recipiente é simplesmente isto:
um vazio...


Admiramos recipientes pela sua aparência externa,
quer seja a pátina de um pote, o corte de um cristal, a trama de um cesto,
a alça de uma caneca,..


Valorizamos seu interior unicamente pela sua função e na medida 

daquilo que eles podem conter:
 meio litro, um litro, um quilo, mito, pouco, mais menos e assim por diante...

Entretanto, no Budismo, o vazio do oco é menos um vácuo e mais uma força positiva:


É o espaço oco que contém o vazio...
É sempre o interior que modela ao redor de si mesmo a forma externa visível.

A firme e delicada imobilidade de um vaso chinês inicia-se em seu interior:
a forma elaborada que apreciamos externamente é a imobilidade que emana do oco vazio.
E é sempre um vazio específico que habita uma forma específica...


Cada cultura sempre influencia as formas dos recipientes produzidos;
 eles revelam qualidades misteriosas de uma cultura 
que talvez nenhuma outra de suas outras manifestações artísticas 
e textos escritos cheguem a revelar.

Formas estranhas, formas aperfeiçoadas de diversas dinastias chinesas, 
potes gregos, etruscos, fenícios, rococó francês, as cerâmicas de Picasso, 
os quietos conjuntos de garrafas de Morandi, 

A garrafa de cerveja, a antiga garrafa de Coca-Cola, a garrafa de leite, 
o cantil, e assim por diante...
Todos os recipientes expondo o invisível "espirito do tempo" de um época,,,
o visível moldado pelo invisível...

De forma geral, nossa natureza Ocidental aborrece o vácuo...
Tentamos preencher o vazio com o que quer que seja:
 "junk food", auto-ajuda barata, bebida, compras, 
os mais recentes "gadgets" tecnológicos, 
 etc,etc,

A Alquimia vai na contramão:
sugere que essas sensações e sentimentos de vazio
são prenúncios de um recipiente, ou diversos recipientes, 
em formação...

O vazio está construindo uma forma, um espaço oco, 
uma forma, um espaço oco específicos.

Modos de contenção, modo de medição, modos de diferenciação.

Talvez seja assim que a realidade da psique tente abrir seu caminho 
para ganhar vida,
 dar uma nova forma à nossa própria vida:
 através destes "sinais" de vazio...

Ás vezes o vazio pode ser localizado fisicamente: 
bem ali, na barriga,
logo atrás do coração, me fazendo sentir leve, tonto...

Ás vezes aparece em sonho como uma sensação de estar caindo no espaço, 
ou  como um buraco, uma caverna escura, um objeto com formato de ovo...

Enquanto NÃO atribuirmos poder formativo  
àquilo escondido no interior de um recipiente, 
continuaremos fazendo uma leitura unilateral de sua função: 

o jarro contém a água, o vaso contém as flores, o cesto contém as frutas...

Desta forma, o oco vazio interior não passa de um mero receptáculo:
o que conta é a água, as flores, as frutas.

Outra leitura possível:

o jarro está umidificando-se, 
o vaso florindo, 
o cesto frutificando...
o oco vazio como fonte de beleza...

Recipientes: métodos de contenção.

(Notas: tradução livre de um texto de James Hillman - The Void of Vessels em Alchemical Psychology - 
Uniform Edition Vol, V - Spring, 2010)


Você nunca se sentiu oca, porém não vazia?
Como se este espaço oco estivesse se preparando 
para se tornar um útero psicológico: 
um receptáculo para acolher e gestar algo novo? 

Eu já...

Por isto é texto de Hillman me fez pensar, 
refletir, mudar minha forma de ver "recipientes"...

Rosanna Pavesi/novembro 2014