quinta-feira, 4 de junho de 2015

SOBRE ALQUIMIA: AS OPERAÇÕES...

O Inverno  - by Rosan




OPERAÇÕES ALQUÍMICAS

E.F. Edinger em seu livro Anatomia da Psique – Cultrix, 1995,
 organiza e concentra a atenção naquelas que, de seu ponto de vista, 
são as principais operações alquímicas.

Descoberta a prima matéria, deve-se submetê-la a uma série de  procedimentos químicos
 a fim de transformá-la na Pedra Filosofal (Lapis Philosophurum).


Sem título - by Rosan

                                 
Não há um número exato de operações alquímicas, e muitas imagens se sobrepõem. 
Edinger considera sete dessas operações como os principais componentes da transformação alquímica.
 É importante lembrar que cada operação alquímica exibe tanto um aspecto inferior 
quanto um superior,  bem como um lado positivo e um lado negativo.

São elas:

CALCINATIO: Elemento FOGO

O Fogo - by Rosan

Intenso aquecimento de um sólido, destinado a retirar dele 
a água e todos os demais elementos passíveis de volatilização.

O fogo da calcinatio é um fogo purgador, purificador, embranquecedor. 
O que é “sacrificado” pela combustão torna-se “sagrado”. 
De um modo geral, quando enfrentamos a realidade da vida, 
ela nos propicia um grande número de ocasiões para a calcinatio 
de desejos frustrados.Resta um pó fino e seco. 

A calcinatio atua sobre a matéria negra – O NIGREDO -  tornando-a branca, 
que representa a ALBEDO, ou fase de embranquecimento.


SOLUTIO: Elemento ÁGUA

Sem título - by Rosan


Transforma um sólido num líquido.
 O sólido parece desaparecer no solvente, como se tivesse sido engolido. 
Para o alquimista, a solutio significava com frequência o retorno da matéria diferenciada 
ao seu estado indiferenciado original, isto é a prima matéria.
                             
  Em termos psicológicos, poderia se dizer que o agente da dissolução será um ponto de vista superior, mais abrangente, capaz de atuar como recipiente para a “coisa” inferior. 
Sonhos com inundações podem ser referência à solutio.


COAGULATIO: Elemento TERRA


Terra em camadas - by Rosan


É o processo que transforma as coisas em terra.  “Terra” é, por conseguinte, um dos sinônimos de coagulatio. Pesada e permanente, a terra tem forma e posição fixas.
Não desaparece no ar por meio de volatilização, nem se adapta à forma 
de qualquer recipiente, ao contrário da água.
Assim, para um conteúdo psíquico, tornar-se terra significa concretizar-se 
numa forma localizada particular.

Há três agentes da coagulatio: 

o magnésio (união do espírito transpessoal com a realidade humana corriqueira), 
o chumbo (pesado, sombrio, incomodo; associado ao Planeta Saturno 
que carrega as qualidades da depressão, da melancolia e 
da limitação  mortificante do tempo cronológico, da realidade terrena) 
e o enxofre (associado ao sol, por sua cor amarela e seu caráter inflamável).

Em linguagem psicológica, a força impulsionadora da consciência, o desejo.
 É o desejo que coagula.
O atrativo do desejo é a doçura da realização. O MEL, na qualidade de exemplo supremo da doçura, é portanto um agente de coagulatio.

Nos sonhos, referências a doces, (balas, bolos, biscoitos, etc.) podem tanto indicar
 uma tendência regressiva de busca imatura de prazeres  – “pedindo” mortificatio – 
quanto uma autentica necessidade de coagulatio.

Os conceitos e abstrações NÃO coagulam. Formam ar, e não terra. 
São agentes de sublimatio.

As imagens dos sonhos coagulam; elas vinculam o mundo terreno
 com o mundo psíquico por meio de imagens análogas ou proporcionais 
e por isso coagulam o material que vem da psique.


 SUBLIMATIO: Elemento AR

Lunar Sky - by Rosan


Deve-se esclarecer, desde o início, que a simbologia da sublimatio alquímica 
nada tem a ver com a teoria freudiana da sublimação.

          A sublimatio alquímica é parte da arte regia em que é feito o verdadeiro ouro; 
se trata de uma transformação alquímica que requer o fogo e a prima matéria negra. 
Ela é um grande Mistério.

Em alquimia, a sublimatio transforma o material em ar por meio de 
 sua elevação e volatilização. 
O termo sublimação vem do latim sublimis que significa “elevado”. 
Isso indica que o aspecto essencial da sublimatio é um processo de elevação 
por intermédio do qual uma substância inferior se traduz numa forma superior 
mediante um movimento ascendente.

A terra se transforma em ar; um corpo fixo se volatiliza; aquilo que é inferior, torna-se                               algo superior. (inferus = embaixo; superus = em cima).                                
Nos sonhos, todas as imagens referentes a movimento para cima – escadas, degraus, elevadores, alpinismo, montanhas, voar e assim por diante – podem estar associados à simbologia da sublimatio, bem como a imagem da torre que dá uma visão panorâmica não disponível no solo.
Em termos psicológicos, isso pode apontar para uma forma de lidar com um problema concreto:  ficamos “acima” dele quando o vemos objetivamente. Abstraímos um sentido geral dele e o vemos como um exemplo particular de uma questão mais ampla.                                                                
Quanto mais alto nos elevamos, tanto maior e mais ampla nossa perspectiva; 
PORÉM, ao mesmo tempo, tanto mais distantes ficamos da vida terrena e tanto menor nossa capacidade de agir sobre aquilo que percebemos: tornamo-nos expectadores magníficos, mas impotentes...
A sublimatio pode também ser compreendida como uma destilação, uma purificação. Quando são misturados, num estado de contaminação inconsciente, a matéria e o espírito devem ser “purificados” pela superação.
A capacidade de estar acima das coisas e de ver a si mesmo com objetividade é a habilidade de dissociar. A capacidade “natural” de dissociação da psique pode ser tanto uma fonte de consciência quanto a causa de perturbações psíquicas.
A sublimatio, assim como cada operação alquímica, quando levada ao extremo, tem sua própria sintomatologia “patológica”, podendo tornar-se um processo autônomo de dissociação, onde o indivíduo vê-se tragicamente aprisionado no dinamismo arquetípico – neste caso - da sublimatio, afastando-se mais e mais da realidade terrena e pessoal.
     A sublimatio extrema é compensada pela imagem da coagulatio. 
Falamos aqui da sublimatio inferior: as imagens de subida, altura e de voo quase sempre indicam a necessidade de uma descida  à realidade terrena. Estar preso no céu pode ser desastroso. A subida e a descida são igualmente necessárias.
Como afirma um dito alquímico: “Sublima o corpo e coagula o espírito" (Solve et Coagula). 
O movimento ascendente eterniza; o movimento descendente humaniza, personaliza.
Quando esses movimentos se combinam temos outro processo alquímico, a assim chamada CIRCULATIO...
No plano psicológico, a circulatio é o circuito repetido de todos os aspectos do ser que, aos poucos, gera a consciência de um centro transpessoal que unifica os fatores em conflito. 
Há um transito pelos opostos experimentados alternativamente, repetidas vezes, até verificar-se sua reconciliação...
 Devemos percorrer repetidamente o circuito de nossos próprios complexos no decorrer de sua transformação.
A Opus alquímica começa e termina na terra. Isso sugere a importância primordial conferida à realidade terrena, concreta – no espaço e no tempo.
A realização da limitada condição humana é colocada ACIMA da perfeição ideal.

MORTIFICATIO/PUTREFACTIO:
 Escurecimento ou Nigredo da Prima Materia.

O Mago Negro by P. Klee

Os dois termos são intercambiáveis, referindo-se a diferentes aspectos da mesma operação. 
Putrefactio é “putrefação”, a decomposição que destrói corpos orgânicos mortos. 
Da mesma maneira como a mortificatio, a putrefactio não é algo que ocorra nas operações da química inorgânica com a qual os alquimistas estavam envolvidos. 
Trata-se de metáforas...
A mortificatio é a mais negativa operação da alquimia. Está vinculada ao negrume, à derrota e fracasso, à tortura, à morte e ao apodrecimento. Sua marca é a cor negra.
Em termos psicológicos, o negrume refere-se à sombra e às consequências positivas advindas do fato de se ter consciência da própria sombra. A nível arquetípico, ter consciência do MAL per se;” a negrura é o começo da brancura” 
diz um dito alquímico mas, desnecessário dizer, que raramente alguém opta por ter essa experiência...Ela costuma ser imposta pela vida...
                        Em sonhos, fezes, excrementos, vasos sanitários sujos e maus odores referem-se à putrefactio. Imagens de decapitação, ou separação entre a cabeça e o corpo também pertencem à simbologia da putrefactio, mortificatio.   
                         
  SEPARATIO: 
separação, diferenciação dos elementos da prima matéria

Pote Quebrado - by Rosan
Considerava-se a prima materia um composto, uma confusa mistura de componentes indiferenciados e opostos entre si, composto esse que requeria um processo de separação. Um mistura composta passa por uma discriminação de suas partes componentes.
Produz-se a ordem a partir da confusão, num processo análogo ao do nascimento do cosmos a partir do caos nos mitos de criação.
Um aspecto importante do processo da separatio é a separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o não-eu.
Em sonhos, espadas, facas, laminas bem afiadas de todos os tipos e objetos cortantes podem pertencer à simbologia da separatio. Imagens de medição, contagem, o ato de pesar e a consciência quantitativa em geral também pertencem à operação de separatio.
O mesmo pode ocorrer com a aritmética aplicada, imagens geométrica de linhas, planos e sólidos, bem como com os procedimentos do agrimensor e do navegador de fixação de fronteiras, medição de distâncias e estabelecimento de localizações dentro de um sistema de coordenadas. (atualmente, um GPS...).
Assim, o compasso, a régua, o esquadro, as escalas, o sextante, o fio de prumo, bem como relógios e outras forma de cálculo do tempo, fundamento de existência temporal e consciente. A secção áurea também pertence à simbologia da separatio.
Terminada a separatio, os opostos purificados (mundificatio) podem ser reconciliados na coniunctio...
                              
CONIUNCTIO:
 re-unir o que foi separado, diferenciado...

Os Noivos Vão à Cidade - by Rosan
A coniunctio é o ponto culminante da opus. 
Em termos históricos como psicológicos, ela apresenta um aspecto extrovertido e um aspecto introvertido.
O fascínio dos alquimistas com a coniunctio do lado extrovertido promoveu um estudo do milagre da combinação química e levou à química moderna e à física nuclear. Do lado introvertido, esse fascínio gerou o interesse pelo conjunto de imagens e pelos processos inconscientes, levando à psicologia profunda do século XX.
Ao que tudo indica, os alquimistas tiveram a oportunidade de testemunhar em seus laboratórios muitos exemplos de combinação química e física, na qual duas substâncias se unem para criar uma terceira substância com propriedades distintas. Essas experiências forneceram imagens para a fantasia alquímica.
Quando se tenta compreender o rico e complexo simbolismo da coniunctio, é aconselhável distinguir entre duas fases: uma coniunctio inferior e uma superior.
A coniunctio inferior é uma união ou fusão de substâncias que ainda não se encontram completamente separadas ou discriminadas; é sempre seguida pela morte ou mortificatio.
A coniunctio inferior ocorre sempre que o ego se identifica com conteúdos inconscientes. Essas coniuntios contaminadas devem ter como sequência a mortificatio e uma nova separatio.
A coniunctio superior, por outro lado, é o alvo da opus, a suprema realização.
Na realidade concreta, esses dois aspectos se acham frequentemente combinados. A experiência da conunctio é quase sempre uma mistura dos aspectos inferior e superior.
“Algo” é purificado (mundificatio) por meio de separação (separatio), e é dissolvido (solutio) digerido e coagulado (coagulatio), sublimado (sublimatio), incinerado (calcinatio) e fixado pela ação recíproca do Adepto/a como agente e paciente, alternando-se para melhorar...: 
a pessoa é jogada para lá e para cá entre os opostos, de modo praticamente interminável. Mas surge, de maneira gradual, um novo ponto de vista que permite a experiência dos opostos ao mesmo tempo, o um-ao-lado-do-outro.
O termo “Pedra Filosofal” é, por si mesmo, uma união de opostos: a filosofia, o amor da sabedoria, é um empreendimento espiritual, ao passo que uma pedra é realidade material, dura e crua. 
É “a pedra que não é uma pedra...”.

C.G. Jung - Fonte: WEB
    Diz Jung:
“...Aquilo que a natureza inconsciente buscava, em última análise, quando produziu a imagem do lápis (pedra), pode ser visto de maneira bem clara na noção de que esta se originava na matéria do homem... A espiritualidade de Cristo era por demais elevada e a naturalidade do homem por demais inferior. 
Na imagem de ... lápis (pedra), a “carne” glorificou a si mesma à sua própria maneira; 
ela NÃO se transformou em espírito mas, pelo contrário, “fixou” o espírito na pedra...”  
(C.G. Jung – Alchemical Studies – CW 13, par. 127).
A Pedra Filosofal possui qualidades de proiectio e de multiplicatio; essas operações não são realizadas pelo alquimista, mas pela lápis (pedra); 
são qualidades e características da própria Pedra em si...


A ação da Pedra é um ponto final adequado porque nos recorda que dar atenção ao conjunto de imagens da Psique Objetiva (de que a alquimia é um exemplo) gera auspiciosos efeitos recíprocos.
Rosanna Pavesi/Junho 2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ALQUIMIA...


                                                                            Fonte: WEB



ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE ALQUIMIA...


No final de Mysterium Coniunctionis (CW 14 – par. 792) Jung escreve:

“...todo o procedimento alquímico... pode muito bem representar o processo de individuação num indivíduo particular, embora com a diferença não desprovida de importância de que nenhum indivíduo particular abarca a riqueza e o alcance do simbolismo alquímico. 

Este tem a seu favor o fato de ter sido construído ao longo dos séculos...
A alquimia, por conseguinte, realizou para mim o grande e inestimável serviço 
de fornecer o material em que minha experiência pudesse encontrar espaço suficiente, 
o que me possibilitou descrever o processo de individuação ao menos 
em seus aspectos essenciais...”.


OPUS


Fonte: WEB



A imagem central da alquimia é a imagem de opus, a obra...
O alquimista via-se como alguém comprometido com um trabalho sagrado: 
a busca de um  valor supremo e essencial.

Diz um texto: 

“Todos os que buscamos seguir essa Arte não podemos atingir resultados úteis 
senão com uma alma paciente, laboriosa e solícita, 
com uma coragem perseverante e com uma dedicação contínua” 
(Waite, trad. Turba Philosophorum, p.127,dictum 39).


A paciência é fundamental. 
Coragem como disposição para enfrentar a ansiedade. 
Dedicação contínua como disponibilidade para perseverar, 
a despeito de todas as modificações de humor e de estado mental, 
no esforço de pesquisar e compreender aquilo que está ocorrendo.

Uma característica proeminente da Obra é o fato de ser considerada 
um trabalho sagrado que requer uma atitude “religiosa”; 
ou seja, há a necessidade de uma cuidadosa consciência 
do nível transpessoal da psique. 
A orientação é para algo maior, e não para o ego.

Outro aspecto da Obra é o fato dela ser um trabalho amplamente individual 
podendo vir a gerar – pelo menos por algum tempo – 
um inevitável afastamento temporário do mundo.

Também possui um caráter “secreto”.
 Como todos os “Mistérios”, o segredo alquímico tinha sua divulgação vedada 
posto não ser comunicável àqueles que ainda não 
o tenham experimentado por si mesmos. 
Se não forem percebidas como um segredo e como sagrado, 
as energias transpessoais poderão vir a ser canalizadas 
para fins pessoais e apresentarão efeitos destrutivos. 
(inflação, os “eleitos”, entre outros...).

Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até a nigredo desaparecer, 
quando a aurora será anunciada pela cauda pavonis (cauda do pavão) 
e um “novo dia” nascerá, a leukosis, ou albedo.

Mas nesse estado de “brancura” não se vive, na verdadeira acepção da palavra; 
é uma espécie de estado ideal, abstrato. 
Para insuflar-lhe vida, deve ter “sangue”, deve possuir aquilo que 
os alquimistas denominavam de rubedo, a “vermelhidão” da vida. 
Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal de albedo 
num modo de existência plenamente humano. 
Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que 
o derradeiro vestígio de negrume é dissolvido.

Segundo o acima, a opus alquímica tem três estágios: 
nigredo, albedo, rubedo. 
A passagem do nigredo para o albedo é anunciada pela cauda pavonis,
assim como a passagem do albedo para o rubedo é prenunciada 
pelos citrinitas (amarelecimento da obra).


A PRIMA MATERIA


By J. Miró - Fonte: WEB


O termo prima matéria tem uma longa história, 
que remonta aos filósofos pré-socráticos. 
Esses antigos pensadores acreditavam na ideia de um a priori
uma imagem arquetípica de que o mundo é gerado de uma matéria única original,
 a chamada primeira matéria.

Essa ideia de uma substância única original não tem fonte empírica. 
Porém, em termos de “fantasia filosófica”, imaginava-se na época 
que a primeira matéria passara por um processo de diferenciação
 por meio do qual fora decomposta nos 4 elementos: terra, ar, fogo, água.

Psicologicamente falando, poderíamos dizer que a prima matéria corresponde 
a um estado primordial de indiferenciação, 
onde todos os elementos encontram-se misturados,
indiferenciados, um estado pantanoso...

Com frequência, os textos fazem referência a encontrar – e não a produzir –
 a prima matéria:

“Essa Matéria está diante dos olhos de todos... 
Ela é gloriosa e vil, preciosa e insignificante, e é encontrada em toda parte...” 
(Waite, trad. The Hermetic Museum – 1:13).

Apesar de seu grande valor interior, a prima matéria 
tem uma aparência exterior desagradável, razão pela qual é desprezada, 
rejeitada e atirada ao lixo. 
Psicologicamente, isso significa que a prima matéria está na sombra, 
naquela parte da personalidade que em geral procuramos ocultar. 
Os aspectos mais humilhantes e dolorosos de nós mesmos 
                        são os aspectos a serem trazidos à luz e trabalhados.                              

Nos sonhos, pode aparecer como lixo, bosta, fezes, lodo lamacento e fedorento...

No próximo post, faremos algumas considerações sobre 
as principais operações alquímicas.


Rosanna Pavesi/Junho 2015

domingo, 17 de maio de 2015

A FORÇA DO CARÁTER E A POÉTICA DE UMA VIDA LONGA...

                                                                  Senex by Paul Klee (WEB)



SOBRE O LIVRO BY JAMES HILLMAN...

O tempo passa e deixa suas marcas...
O corpo que vai aos poucos perdendo o vigor,
a mente que já não responde com a mesma acuidade,
o vazio,  as perdas...

O que fazer para não tornar este momento uma fase de angústias e nostalgia?
James Hillman traz neste livro importantes reflexões sobre o tema,
uma visão nova a respeito desta temida e incompreendida fase de nossa vida:
a velhice...

Num texto sensível, o autor nos mostra como a velhice é 
um momento especial de nossas vidas,
quando estamos, enfim, preparados (ou deveriam estar...)
para confirmar nosso caráter...

O autor traz de volta a antiga ideia do idoso como ancestral,
portador da memória cultural e das tradições de uma sociedade.

Segundo Hillman, o caráter necessita desses anos adicionais 
para confirmar-se e realizar-se.

Ele também nos lembra de separar velhice de morte 
e de que a velhice requer coragem e curiosidade...



PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
OS TRÊS MOVIMENTOS...


"Perdurar": Agarrar-se...


by Chico Stockinger (WEB)


 O desejo de durar o máximo possível...
 Rejuvenescer... Vencer a doença...



"Deixar a vida, partir...": Soltar-se...


Fonte: WEB



Mudanças no corpo e na alma...
O papel dessas mudanças na formação de caráter, pois o caráter
aprende com a sabedoria do corpo...
Aceitar que "pode ser a última vez que..."


"Ser deixado... Restar..."


Sem título by Rosan


O que resta é o pedaço de destino que o caráter ÚNICO 
de cada pessoa personifica...


"O que importa é o que fazemos com
os cacos e os farrapos..."

(James Hillman)


(Fonte: A Força do Caráter by James Hillman
Editota: Objetiva - 2001)


É isso...




Rosanna Pavesi/Maio 2015

domingo, 8 de março de 2015

08 DE MARÇO: DIA INTERNACIONAL DA MULHER...

                                                       A ÁRVORE DA VIDA - by Rosan



DIA INTERNACIONAL DA MULHER...

UMA HOMENAGEM...


E aqui está a moça, aqui está a mulher, 
cujo nome não mais significa apenas uma oposição
ao macho, ao homem...

Nem suscita a ideia de complemento e de limite,
MAS a de vida, de existência:

A MULHER-SER-HUMANO...

Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um Jovem Poeta, escrito por volta de 1935,
escreveu o texto acima no tempo Futuro...

Me atrevo a transcrever o trecho no tempo Presente...

Uma homenagem a todas as "rochas de veludo" 
(expressão "roubada" da avó de uma colega)
conhecidas e desconhecidas, de raça, cor, credo, origens das mais variadas...



Rosanna Pavesi/março 2015

sábado, 21 de fevereiro de 2015

POESIA...

                                                                Sem título - Fonte;Web


Após a alegria ruidosa do Carnaval, senti necessidade de 
um pouco de quietude...

Meu refugio, foi a poesia, foi Manoel de Barros...


Sem título - Fonte: Web


RETRATO DO ARTISTA QUANDO COISA

" A maior riqueza do homem é sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 da tarde,
que vai lá fora,que aponta lápis, que vê a uva, etc.etc.
Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas..."


Sem título - Fonte: Web


TRATADO GERAL DAS GRANDEZAS DO ÍNFIMO

"A poesia está guardada nas palavras -
é tudo que eu sei..."

"Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre o ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio..."


Sm título - Fonte: Web



OS DESLIMITES DA PALAVRA

"Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do acaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas..."


Sem título - Fonte: Web


O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS

" Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.

(...) Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

(...) Só uso a palavra para compor meus silêncios..."


Sem titulo - Fonte: Web



Sonhei, voei, voltei...

Rosanna Pavesi/Fevereiro 2015








quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

SOBRE SONHOS... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

                                                                        Fonte: WEB

SOBRE SONHOS...

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

"O Grande Homem"

"Os Índios Naskapi (Labrador), acreditam que todo mundo
 possui o Grande Homem dentro de si.

Eles dizem: " O grande homem se revela nos SONHOS, 
todo indivíduo possui um e consequentemente sonhos"...

Aqueles que respondem aos seus sonhos, á medida que os consideram seriamente, 
à medida que refletem sobre estes, à medida que tentam compreender seu significado em segredo
 e á medida que averiguam a sua verdade, 
podem cultivar uma comunicação mais profunda com o Grande Homem.
Então o enxergam melhor em termos de qualidade...

A próxima obrigação do indivíduo é seguir as instruções que lhe são dadas nos SONHOS 
e memorizá-las, ou dar-lhe forma, 
através de algum tipo de representação artística e/ou expressiva.

Para os Índios Naskapi os sonhos não provêm do Eu, 
mas sim do Grande Homem que cada um possui dentro de si,
pois todos se sentem Pequenos diante dele.

É o Grande Homem que dá os sonhos.
E os sonhos são a deo missa, ou seja, são sonhos que procedem dos deuses
e consequentemente são os reais indicadores do caminho da vida:
São Revelações...

Bem, nesse sentido os índios assim tão primitivos estão
inteiramente acima de nossa compreensão.

Só podem ser interpretados erroneamente pela consciência ridícula
do homem branco quando este afirma que ele é isso (es)
que ele faz seus próprios sonhos, que ele é capaz,
capaz de fabricar sonhos para si, que ele seria aquele
que tudo gera, caso contrário, nada existiria. 

Por exemplo,vamos olhar esse mandala, o mandala dividido em oito...
Nenhum desses índios jamais teria a ilusão de se tratar do Eu;
ao contrário, trata-se do mundo do Grande Homem, 
é assim que o Grande Homem se apresenta.
Ele é um símbolo..."

(C.G. Jung - Sobre Sonhos e Transformações - pp.38-40 - Vozes, 2014)

Símbolo: a melhor expressão possível de algo desconhecido,
 no fundo, talvez, de algo irrepresentável?
Algo que existe, pois se deixa entrever,
 mas que ao revelar-se, 
ao mesmo tempo também vela-se? 

Assim, como na gravura acima, 
ao olhar através da cortina do cotidiano, do conhecido,
talvez, através dos sonhos, tenhamos acesso a algo mais profundo em nos?

Desejo a todos um 2015 com sonhos, 
"revelações"  e... 



Rosanna Pavesi/Janeiro 2015






domingo, 30 de novembro de 2014

TEMPO E MUNDO...

                                                            Sem Título - Autor desconhecido - Fonte: WEB


TEMPO E MUNDO...


"(...) O tempo passa, o tempo avança.
No passar do tempo, passamos nós,
no avançar do tempo, avança o mundo...

O tempo nos contém, somos contidos - limitados e envolvidos pelo tempo.
O tempo é nossa possibilidade  de ser, de vir a ser. 
Mortais. Mundo. Nada é fora do tempo.
No tempo se nasce, morre, vive-se. Passa-se, avança-se.
Acompanhados de tudo, de tudo mais que também é no tempo.
Tudo é no tempo. Nada é o tempo.
O que é o tempo?

Dizemos: o tempo. O tempo está bonito, feio. 
O tempo passou rapidamente ou demora para passar.
Vivemos todos num mesmo tempo, tudo se dá no tempo e com o tempo,
afirmamos nós.
E, no entanto, quem está bonito ou feio não é o tempo,
mas o céu, o ar, os ventos ou a tempestade.
Quem passa ou avança não é o tempo, mas nós: nós e o mundo...
Vivemos aqui ou ali, numa casa, numa cidade, mas não vivemos no tempo.

(...) Esse é o tempo. 

Contém e transporta todas as coisas, o mundo, 
mas ele-mesmo não é propriamente nada, não está em lugar algum,
não é um lugar qualquer. 
O tempo não é, mas contém.
Não sendo um lugar, no entanto, transporta tudo que vem e que veio a ser.
Contém tudo que será e o que, já não sendo mais, se retém,
contido no memória (na memória do tempo, dizemos nós)...

Dizemos: o tempo é como um rio - o tempo passa e, passando,
carrega e passa todas as coisas: nele tudo que chega vira passado.
O tempo passa passando tudo.
Mas se o tempo não é, como pode"ele" conter e transportar?
Como pode representar para nós, o conjunto das coisas que, ainda não sendo,
um dia virão a ser - aquilo que chamamos futuro?

Dizemos tempo para nos referirmos ao vir-a-ser do mundo como tal!
Embora não seja o mundo, o tempo é como o mundo, 
uma referência ao mundo.

O mundo não é somente um amontoado de tudo.
O mundo não é apenas um recipiente,
mas um abrigo que possibilita que tudo que nele está,
esteja entre-si: ao mesmo tempo...

Embora não configure um lugar, o tempo faz do mundo uma morada.
O lugar, por excelência: a casa de todos.
O lugar onde se vive sempre com e entre todas as coisas.

Graças ao tempo,
podemos estar no mundo..."

(Fonte: A Experiência do Nada como Princípio do Mundo - Guy Van de Beuque - 
Mauad/Faperj, 2004)

Um dos textos mais poéticos, realistas e tocantes que já li sobre o tema...
O tempo e o mundo ganharam, para mim, uma nova dimensão e amplidão...

Rosanna Pavesi/Dezembro 2014