domingo, 10 de julho de 2016

EXISTE UM SER...

                                                             
Sem titulo - by Rosan




"(...) Só que ela não queria ir de mão vazias.
E assim, como se lhe levasse uma flor,
ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer..."


EXISTE UM SER...


La Luna - by Rosan


"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele,
e é.

Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem
- pois nunca morou antes em ninguém
nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - 
apesar de inteiramente selvagem
tem por isso mesmo uma doçura primeira 
de quem não tem medo: come às vezes na minha mão.


Lua Crescente - by Rosan


Seu focinho é úmido e fresco.
Eu beijo o seu focinho.

Quando eu morrer,
o cavalo preto ficará sem casa
e vai sofrer muito.
A menos que ele escolha outra casa
e que esta outra casa não tenha medo 
daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave.


Lua Cheia - by Rosan


Aviso que ele não tem nome:
basta chamá-lo e se acerta com seu nome.

Ou não se acerta, mas,
uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.


Lua Minguante - by Rosan


Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre,
ele trota sem ruídos e vai.

Aviso também que não se deve temer o seu relinchar:
a gente se engana e pensa que é a gente mesma
que está relinchando de prazer ou  de cólera,
a gente se assusta 
com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez..."



Lua Nova - by Rosan


"Ela sorriu. 
Ulisses ia gostar,
ia pensar que o cavalo era ela própria.
Era?"

(Clarice Lispector - Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)



O livro, publicado em 1969, é uma história de amor sem histórias...
Não há enredo, tramas...

Uma mulher que tenta superar o desconhecimento de si mesma
e aprender a viver sem dor...


Rosanna Pavesi/julho 2016




domingo, 29 de maio de 2016

LUIGI ZOJA: A HISTÓRIA DA ARROGÂNCIA...

                                                                   Sem título - by Rosan 



HISTÓRIA DA ARROGÂNCIA...


"(...) Após completar um longo périplo para analisar e compreender 
as consequências desencadeadas pela perda do limite,
Zoja salta para o presente e focaliza o modo pelo qual um dos mais respeitados ícones 
da cultura científico-tecnológica - o M.I.T.  - (Massachusetts  Institute of Technology), 
estuda o problema da crise global 
sem levar em conta  a dimensão psicológica, como tampouco a mítica.

Portanto, os relatórios mais competentes sobre a situação mundial
(esgotamento dos recursos naturais, pauperização crescente, aumento da violência,
crise econômica, entre outros), 
deixam de captar a presença de uma emoção que atravessa as almas,
gerando nos seres humanos de todos os quadrantes
uma culpa anônima por pertencerem a uma civilização embriagada
pela mesma velha hybris de outrora.


O Fogo - by Rosan


O novo conhecimento perdeu portanto o aglutinante psicológico;
a simples exposição de fatos terríveis e alarmantes
NÃO encontra ressonância em nós e não orienta um sentimento ancorado no inconsciente.
Nossa ciência não produz sabedoria, mas informações...

(...) Na psicologia dos males modernos,
as entidades míticas não descem dos céus, 
mas sobem dos infernos, onde habita o reprimido...

(...) Hoje paira sobre a sociedade humana uma densa sombra,
também presente em cada um de nós.
A política não consegue apreendê-la, e persiste no velho mecanismo
de projetá-la sobre outrem.


Dark Night - by Rosan


A grande tarefa da reflexão contemporânea consiste em conseguir,
nas palavras de Zoja,
"ver o próprio homem como máquina cultural enlouquecida 
que está promovendo a metástase de uma cultura que há tempos 
perdeu todo equilíbrio".

Já é tempo de se reconhecer que os problemas externos 
se traduzem num plano psicológico e interior.
À separação entre psicologia e política, deve-se responder
com uma psicologia política: 
o refreamento do perigoso crescimento global cria desânimo e depressão -
sinais de confronto com a culpa -
mas só essa introversão pode transformar o obstáculo externo
em recurso psicológico,
fornecendo formas de renúncia espontânea  à expansão e crescimento
a qualquer custo.

Só então estaremos diante de interrogações verdadeiramente psicológicas -
o que nos traz de volta aos gregos...


sem título - by Rosan


À beira da vertigem, como ele mesmo confessa, 
Zoja encerra seu discurso.
Mas ainda lhe resta fôlego para lembrar que o homem moderno 
encontra-se diante do mesmo terror do homem antigo diante dos deuses implacáveis:
um homem sem metafísica diante do terror metafísico...

Buscando uma felicidade impossível, só encontra desalento e vazio
tanto no ambiente exterior como em sua própria alma.

E essa angustia de existir,
nossa gloriosa racionalidade não é capaz de resolver..."

(Roberto Gambini  - PREFÁCIO - em  A História  da Arrogância  -  Psicologia e Limites do Desenvolvimento Humano - Luigi Zoja - Axis Mundi - 2000)




Planeta Terra - WEB


Escrito em 1993, publicado no Brasil em 2000,...
Traz em sua capa o grifo de Nêmesis, com a roda do destino, 
pairando sobre megalópolis moderna...

O triunfo das coisas sobre o homem?
Misoneísmo, ou seja a rejeição do novo?
Qual o paradigma do desenvolvimento humano no século XXI?

A exploração do nosso planeta provoca debates cada vez mais frequentes
sobre os limites do desenvolvimento humano.

Devemos enfrentar os excessos de nossa civilização
sem levar em conta seu aspecto psicológico?

Para que queremos um crescimento infinito?
Os antigos gregos, que moldaram a base da mentalidade ocidental,
viviam aterrorizados pela fome de infinito que se ocultava dentro do ser humano.

A essa fome davam o nome de HYBRIS (arrogância), o único verdadeiro pecado 
no seu código moral: 
os deuses eram invejosos e puniam com NÉMESIS (justiça) 
TODO AQUELE QUE DESEJAVA DEMAIS...

Hoje, em 2016, conceitos como
  simplicidade voluntária, sustentabilidade, reciclagem - entre outros - 
são nossos conhecidos...
MAS, até que ponto temos de fato evoluído em termos de ecologia profunda,
não mais antropocêntrica?


Rosanna Pavesi/Maio 2016





domingo, 15 de maio de 2016

O RAPTO DE PERSÉFONE POR PLUTÃO : UM RAPTO PSÍQUICO...

                                                            O Mago Negro by P. Klee




O RAPTO DE PERSÉFONE POR PLUTÃO...

UM RAPTO PSÍQUICO...


"(...) Na longa lista de raptos do legado grego, o rapto de Perséfone por Plutão é um rapto específico, já que é a própria morte imaginada...
É Plutão, personificação da morte, quem rapta Perséfone.

Agora, o que chamamos de rapto psíquico 
é um acontecimento de profunda importância na natureza psíquica, 
que ocorre quando o mito do rapto, neste caso o rapto de Perséfone por  Plutão, 
acontece na psique.

E isso é algo que por sua natureza específica não é possível fomentar 
ou induzir e, muito menos, mimetizar.

É um acontecimento na natureza psíquica onde a psicoterapia só pode 
chegar a propiciar a incubação  que o precede e a reflexão do seu suceder.

...O rapto seria o impacto psíquico
que deflora a alma 
e com isso abre as portas da emoção madura,
da emoção que conecta o psíquico à corporalidade
na qual vive o sentimento...

O rapto psíquico seria o que altera o estado de uma vida bidimensional,
em que a dominante é a repetição infernal .

O mito de sufocação da filha pela mãe, Deméter sufocando a sua filha Perséfone,
e Perséfone logo raptada por Plutão,
são episódios de iniciações misteriosas que formam parte dos
mistérios eleusianos.

São vivências que a partir do rapto transformam
e  provacam movimentos psíquicos."

(Rafael López-Pedraza em Ansiedade Cultural  - Paulus,, 1997) 




Spring  by Rosan


Tudo que volta do inconsciente, volta "jovem", 
renovado...
como já disse Jung...




Sem título - by Rosan


Perséfone, a que brilha no escuro...

Perséfone que não se recusa a olhar no escuro,
 a que vê no escuro...

Para a mulher, trata-se uma uma
segunda "defloração"...
Uma "defloração" psicológica...

Passamos de uma psicologia de "filha" 
para uma psicologia de "mulher adulta", autônoma  
e que assume o peso, a responsabilidade e as consequências
de suas escolhas e decisões.. 

Uma consciência "deflorada" ...
Uma consciência que passa de consciência ingenua
a consciência crítica..,

Rosanna Pavesi/Maio 2016

segunda-feira, 18 de abril de 2016

NOTAS SOBRE A CONSCIÊNCIA DE FRACASSO E PSICOTERAPIA...

                                                            sem título - by Rosan


                    CONSCIÊNCIA DE FRACASSO...

"(...) Em um mundo em que só encontramos proposições e fórmulas cujas metas são o sucesso, escrever algo que leve o título de "consciência de fracasso" põe quem o escreve em posição diametralmente oposta às demandas prementes da consciência coletiva.

Porém isso que tratamos de refletir é produto de um movimento psíquico 
sobre o que nos pressiona interiormente para que 
o conheçamos e o tornemos consciente - 
isso que aqui chamo de consciência de fracasso.

E o fracasso, como tema a ser discutido, está fora das inquietudes de nosso tempo.
O fracasso e o que lhe diz respeito está fortemente reprimido;
é COMO SE isso fosse a última coisa de que gostaríamos de nos inteirar...

O assunto, sem dúvida, tem a ver com minha prática como psicoterapeuta.
É COMO SE a partir do meu trabalho 
me fosse um pouco mais fácil imaginar que se alguém vem me ver e falar comigo, 
em outras palavras, entrar em terapia, 
é porque algo fracassou em sua vida: 
os moldes em que vivia já não funcionam, fracassaram, desmoronaram.



Sem título - by Rosan


Isto é, na psicoterapia a pessoa que se encontra na minha frente está vivendo um fracasso e, 
apesar dos níveis superficiais em que às vezes aparece, 
usualmente esconde complexidades insuspeitadas.

Uma coisa é chamar isso de fracasso e mover-nos para a consciência dele 
e outra coisa é chamarmos eufemisticamente de crise ou algo do tipo, 
com a desculpa redutora de que é uma crise que pode ser resolvida com facilidade, 
quando na realidade, está alterando uma vida inteira;
e nem sempre esse fracasso ou essa crise promove uma reorientação ou um novo sentido do viver.

Que alguém tenha sofrido um fracasso em sua vida e consequentemente venha para a terapia, 
NÃO quer dizer que perceba nem remotamente esse fracasso e, muito menos, 
que se aproxime dele como sendo um veículo propiciador 
que o mova para isso que chamamos consciência de fracasso.


Psicologia - by Rosan

Muitas vezes pode ocorrer que as expectativas do cliente são de que a psicoterapia
 respalde e reforce suas fantasias de sucesso.

E também ocorre, e é o pior, que grande parte da psicoterapia atual se reduz a apoiar a devoção unilateral do sucesso em que tem vivido o cliente, purificando-o redutivamente de tudo o que se oponha ao sucesso como meta pessoal e coletiva.

E mais:
se ao cliente lhe custa aceitar ou ou mesmo pronunciar a palavra fracasso, 
ao psicoterapeuta ocorre o mesmo. 

Pode ser que nisso sejam os psicoterapeutas os mais aptos a entender o que quero dizer, 
já que me parece muito insensato o psicoterapeuta que se identifique com os seus "sucessos" 
e tem uma atitude triunfalista pois, se age assim, 
não terá outro remédio senão o de identificar-se também com os fracassos, 
a não ser que divida essa mecânica de sucesso e fracasso como quem divide uma maçã 
e conceba ingenuamente que  os sucessos são seus e os fracassos do cliente....

O modelo que proponho é o do psicoterapeuta que está a serviço 
de um processo regido por arquétipos constelados na psicoterapia; 
arquétipos através dos quais a natureza humana se expressa psiquicamente,
e num processo em que nem sempre há  uma concordância
do tempo interno e externo na relação terapeuta-cliente.

Duas alquimias distintas e de complexidades insondáveis
e que, ainda assim,
tornam possível o suceder psicoterapêutico..."

(Rafael López-Pedraza - Consciência de Fracasso em  Ansiedade  Cultural - Paulus, 1997)


Catavento - by Rosan


Neste post me limitei a fazer um pequeno recorte do tema  no âmbito da psicoterapia...
Mas o capítulo inteiro acima citado a meu ver - deveria ser conferido. 

A meu ver, sempre que a imagem excessivamente triunfalista predomina de forma unilateral,  
já traz em seu bojo seu oposto também excessivamente negado......

Rosanna Pavesi/Abril 2016

   




domingo, 27 de março de 2016

REFLEXÕES SOBRE "SABEDORIA" - (CONTO: O VELHO ALQUIIMISTA)

                                                  Fonte: The Red Book - C.G. Jung


CONTO: O VELHO ALQUIMISTA

REFLEXÕES SOBRE "SABEDORIA"...

A sabedoria, diz a tradição, é uma virtude que vem com a idade...

Só recentemente a psicologia passou a estudar a natureza dessa "virtude", 
provavelmente porque a gerontologia estava antes mais voltada para a questão 
dos déficits  da idade 
do que para a evolução da maturidade.

De acordo com recentes descobertas no campo da psicologia cognitiva, 
as pessoas maduras são muito eficientes na resolução prática de problemas.
A sabedoria da maturidade envolve uma razão prática, mais do que abstrata..

Neste conto, o velho parece se encontrar numa situação difícil 
em relação ao genro: 
Se ele tenta interferir no problema da família, arrisca-se a se indispor com o genro mas,
 se nada fizer, sua filha e seus futuros netos conhecerão a miséria...

Nas malhas deste dilema, o velho pai chegou a uma solução prática 
aparentemente inteligente e sábia.
De forma que nossa história traça a primeira característica da sabedoria na maturidade: 
ela é prática.
Este tipo de sabedoria não é um sublime conhecimento metafisico, 
mas sim a habilidade de ajudar a resolver reais problemas humanos.


O Ovo - by Rosan


No conto, a sabedoria do velho se apoia sobre uma ação indireta;
 ele nada ordena...
A solução escolhida pelo velho pai implica  um "engano deliberado", um estratagema ...

O que distingue o velho de um patife é a sua integridade.
O velho pai não busca vantagens para si, pelo contrário, 
ele procura o bem tanto do genro quanto de sua filha. 
Seus motivos são altruísticos, e isto é imprescindível para o conceito de sabedoria.
Ele representa uma figura benevolente.

O velho não menospreza o sonho que tem o genro de transforma em ouro 
elementos de pouco valor, nem proíbe o empreendimento...
Afinal ele também tinha sido alquimista quando jovem...


Dream Catchers

Ele parece compreender que os sonhos são a viga-mestra da mocidade,
pouco importando se as aspirações visem reformas sociais, fama, verdades universais 
ou a transformação de elementos de pouco valor em ouro...

Neguem esta ambição  e à mocidade só restarão duas alternativas:
o protesto ou a apatia...
Valorizem esses sonhos - como o velho fez - 
e a juventude enfrentará qualquer difícil obstáculo, qualquer risco.

De forma que o velho, sabiamente incentiva, ou invés de arrefecer 
o entusiasmo do moço. 
Transmuta o idealismo da mocidade em maduro pragmatismo.

Em geral, os contos de jovens enfatizam objetos mágicos 
(a carta "O Mago" n. 2 do Tarot de Marselha)
enquanto os contos de velhos realçam critérios psicológicos 
(a carta "Temperança"  n. 14 do Tarot de Marselha).

O cerne dos contos de velhos reside no fato de que a magia desempenha, 
com a chegada da idade, 
um papel diferente do exercício na mocidade. 
Ela não resolve os  problemas da vida, 
antes enriquece a experiência.

Essa habilidade, que às vezes chamamos de sabedoria, 
é uma tarefa evolutiva, 
que requer autoconfrontação e reflexão... 

O Bosque - by Rosan

Importante não confundir magia com mágica
e sonhos com devaneios...

Bem como não se prender exclusivamente a uma leitura literal,
mas sim acrescentar uma leitura tanto simbólica, quanto metafórica...

Os contos de fadas, de jovens, de adultos,
são um convite explícito a isso...

Rosanna Pavesi/ 27 de Março (Páscoa) de  2016

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

CONTOS DE FADA PARA ADULTOS; O VELHO ALQUIMISTA (DE BURMA)

Senex - by Paul Klee


O VELHO ALQUIMISTA

(Resumo do conto Use o Thorn to draw a Thorn extraído da obra de E. Brochett, 
Burmese and Thai Fairy Tales (Londres, Frrederick Muller, 1965) 

Era uma vez um velho que vivia com uma linda filha.
Ela se apaixonou por um belo rapaz e ambos casaram, com a benção do pai.
O jovem casal viveria feliz, se não fosse um problema:
o marido dedicava todo o seu tempo à alquimia,
sonhando com uma maneira de transformar elementos comuns em ouro.
Logo seu patrimônio acabou e a jovem esposa tinha que lutar diariamente 
para comprar o que comer.
Afinal, pediu ao marido que procurasse emprego, mas ele protestou.
- Estou às portas de uma grande descoberta! - insistia -
Quando eu terminar seremos mais ricos do que sonhamos!


by Rothko


A jovem esposa, por fim, contou seu problema para o pai.
Este ficou admirado ao saber que seu genro era alquimista,
mas prometeu ajudar a filha e pediu que
o jovem viesse vê-lo no dia seguinte.
O rapaz foi contrariado, esperando uma reprimenda.
Para surpresa sua, o sogro lhe confiou:
- Eu também fui alquimista quando jovem! -
O sogro perguntou ao moço sobre o seu trabalho e 
os dois passaram a tarde conversando.
Finalmente, o velho ergueu-se animado. 
- Você tem feito tudo o que eu fiz! - exclamou. 
- Está, sem dúvida, às portas de uma grande descoberta.
Mas, para transformar elementos comuns em ouro você precisa
de mais um componente, e só recentemente eu descobri esse segredo.
- O velho fez uma pausa e suspirou -
Sou, porém, muito velho para realizar essa tarefa. 
Requer muito esforço.


by Paul Klee


- Eu posso fazê-lo, querido pai! - disse o moço espontaneamente.
O rosto do velho se iluminou - Sim, talvez você possa . 
- E, então, curvando-se, sussurrou: 
- O componente que você precisa encontra-se no pó prateado que cresce na folha das bananeiras.
Esse pó se torna mágico quando você mesmo as planta e lança 
um certo encantamento sobre elas.
- De quanto pó precisamos? - o moço perguntou.
- Duas libras - o velho respondeu.
O genro raciocinou em voz alta: - Isso requer centenas de bananeiras!
- Sim - suspirou o velho - e é por isso que eu não posso terminar o trabalho sozinho.
- Não tema! - o jovem disse. - Eu o farei! - 
E assim o velho ensinou ao genro as palavras mágicas e lhe emprestou
o dinheiro para o empreendimento.


Dream Catcher


No dia seguinte o moço comprou o terreno e o carpiu.
Ele mesmo cavou a terra de acordo com as instruções do velho,
plantou as bananeiras e dirigiu-lhes as palavras mágicas.
Cada dia ia examinar as plantas, livrando-as das  doenças
e das ervas daninhas e, quando deram frutos, 
recolheu pó prateado de suas folhas.
Havia muito pouco em cada planta e então o moço 
comprou mais terra e plantou mais bananas.
Depois de muitos anos, conseguiu juntar duas libras de pó mágico.
Correu à casa do sogro.


Cacos e Farrapos by Rosan


- Consegui o pó mágico - o moço exclamou.
- ótimo! - o velho respondeu exultante.
- Agora vou lhe mostrar como transformar elementos comuns em ouro!.
Mas, primeiro, você precisa chamar sua esposa. Precisamos de sua ajuda.-
O jovem  ficou surpreso, mas obedeceu.
Quando a filha chegou, o velho perguntou-lhe:
- Enquanto seu marido juntava o pó de bananeira, o que você fez com os frutos?
- Ora, vendi-os - a filha respondeu -, e foi assim que ganhamos a vida.
- Você economizou algum dinheiro? - perguntou o pai.
- Economizei - ela respondeu.


by G.Klimt


- Posso vê-lo? o velho perguntou.
A filha então correu até sua casa e voltou com diversas sacolas.
O velho abriu-as, viu que estavam cheias de ouro 
e despejou as moedas no chão.
Pegou, depois, um punhado de poeira e colocou ao lado do ouro.
- Veja - disse, voltando-se para o genro - , você transformou a poeira em ouro!


Stardust - WEB


Seguiu-se  um momento de tensão, no qual o moço permaneceu calado.
Depois riu, ao compreender a sabedoria implícita no truque do velho.

E, desse dia em diante, 
ele e a esposa prosperaram muitíssimo.
Ele cuidava da plantação 
enquanto ela ia ao mercado vender as bananas.
E ambos reverenciavam o velho como o mais sábio dos alquimistas...


A Caminho da Cidade by Rosan

E todos viveram felizes para sempre...

Degustem o conto...
Retirem dele o que acharem melhor...
Ou, não retirem nada...
Simplesmente curtam...

Rosanna Pavesi/Janeiro 2016

No próximo post: algumas reflexões sobre o tema
"Sabedoria"
(se é que ela existe...)



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

... E FORAM FELIZES PARA SEMPRE

Sem Título - by Rosan


CONTOS DE FADAS 
E
CONTOS DE FADAS PARA ADULTOS

Transmitidos de pais para filhos através dos séculos, os contos de fadas constituem verdadeiros tesouros da sabedoria humana, parábolas que narram a trajetória de vida do ser humano.

Nas histórias mais conhecidas, os protagonistas são crianças, como Chapeuzinho Vermelho, Pequeno Polegar, João e Maria - entre outros -  ou, quando muito, adolescentes, como Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel. . 
Não é pois de estranhar que as interpretações destes contos de fada tenham enfatizado a psicologia da juventude e enfocado as tarefas próprias do crescimento.

Há atualmente belas re-leituras, tais como nos filmes "MALÉVOLA" (A Bela Adormecida) e "CAMINHOS DA FLORESTA" (combinação de vários contos de fada num só flme).

Porém a vida, é claro, não termina na juventude, nem em eterna felicidade.
Surge então a pergunta - o que acontece com o "foram felizes para sempre" 
quando o herói e a heroína têm seus filhos 
e quando cabelos brancos coroam o Príncipe e a Princesa?

O que acontece então?

Uma outra série de contos de fadas responde a algumas dessas perguntas.
Esses contos se referem a protagonistas que são claramente chamados de "velhos", 
podendo portanto ser chamados de "CONTOS DE VELHOS". 
Qualquer pessoa acima dos 40 ou 50 anos é "velha", 
posto que os contos de fadas nasceram há muito tempo, quando a vida era dura - e curta;
a expectativa de vida média na Europa medieval era inferior a 25 anos...
Nos contos de fada, portanto, o verbete "velho" 
corresponde, realmente, à meia-idade e além.  

Os contos de fadas que tratam de protagonistas "velhos"
revelam a psicologia da maturidade.
Os "contos de velhos" simbolizam as tarefas de desenvolvimento 
que as pessoas têm de realizar na segunda metade da vida, 
do mesmo modo que as histórias de jovens simbolizam as tarefas da primeira metade.

Os contos de velhos não falam em crescer fisicamente; 
pelo contrário, falam em envelhecer e, sobretudo em crescer -
psiquicamente falando.

Os contos de fadas não se proclamam verdadeiros e, mais que depressa, 
nos advertem desse fato, começando - caracteristicamente- om frases tais como 
"Nos tempos em que os desejos se realizavam...", ou 
"No tempo em que as roupas cresciam em árvores...".

Eles nos arrebatam claramente para um reino de fantasias, 
eles retratam o que pode ser, não simplesmente o que é, 
rompendo os vínculos da realidade prática e da convenção social
 e nisso reside - paradoxalmente, a força do gênero.

Contos de velhos são mais comuns em culturas orientais, 
como no Japão, nos países árabes, na Índia e na China.
Uma razão para isso consiste em  que esses povos sentem por seus anciãos 
mais respeito que a moderna sociedade ocidental, 
inserindo-os, com naturalidade, em grande número de contos populares.

Os contos de velhos entretêm uns e advertem outros,
 aliando inocência infantil e profunda apreciação psicológica,

Esta surpreendente combinação, constitui o compromisso central dos contos de velhos:
o retorno da inocência e da magia à segunda metade da vida,
  congregando o princípio e o fim 
e transfigurando o "e foram felizes para sempre".

(FONTE: ... E Foram Felizes para Sempre - Contos de Fadas para Adultos 
(In The Ever After - Fairy Tales for the Second Half of Life )  por Allan B.Chinen -
 Cultrix, São Paulo - 1993)



Sem Título - by Rosan


O livro me acompanha há muitos anos, desde os tempos de faculdade...
Na época, foi o titulo que me chamou a atenção...
Foi para a estante, entre os "livros a ler..."
E lá ficou durante muito tempo...

Hoje, de repente, não sei...
Talvez tenha chegado o momento..,
saiu da estante... 

De forma que:
É com ele que estou finalmente inaugurando a legenda 
 "Contações" neste blog...

Este post é introdutório ao tema.
No próximo, publicarei o primeiro contos de velhos que escolhi...


Rosanna Pavesi/dezembro 2015









domingo, 6 de dezembro de 2015

QUANTOS ANOS TENHO?

                                                      A árvore da Vida - by Rosan


QUANTOS ANOS TENHO?

"Tenho a idade em que as coisas são vistas com calma, 
mas com o interesse de seguir crescendo.

Tenho os anos em que os sonhos começam trocar carinhos
com os dedos 
e as ilusões se transformam em esperança.

Tenho os anos em que o amor, às vezes, é uma chama louca,
ansiosa para se consumir no fogo de uma paixão desejada.
E em outras, uma corrente de paz,
como um entardecer na praia.


Presentes do Mar - by Rosan

Quantos anos eu tenho?

Não preciso de números para marcar,
pois meus anseios alcançados,
as lágrimas que derramei no caminho,
ao ver meus sonhos destruídos...
Valem muito mais que isso.

Não importa se faço vinte, quarenta ou sessenta!
O que importa é a idade que eu sinto.

Tenho os anos de que preciso para viver 
livre e sem medos.
Para seguir sem medo pelo caminho,
pois levo comigo a experiência adquirida
e a força de meus anseios.

Quantos anos tenho?

Isso não importa a ninguém...
Tenho os anos necessários para perder o medo
e fazer o que quero e sinto".

(José Saramago)
(Fonte:  http://www.contioutra.com )

Gosto de pensar na vida em termos de ciclos, de estações...
Primavera, verão, outono, inverno...
e outra primavera, outro verão, outro outono, outro inverno...
e...
um tempo "redondo", não linear,
nem cronológico tão só...

E a "troca de estações" então...
Sentir-se em pleno verão quando o outono já chegou...
ou já na primavera quando ainda é inverno...

E os momentos fugazes de inverno no verão,
de primavera no outono...

E os momentos "eternos", fora do tempo 
e fora de tempo...

E...



O Fogo Sagrado -by Rosan



Rosanna Pavesi/dezembro 2015






sábado, 7 de novembro de 2015

A CRIATIVIDADE E O EXERCÍCIO PROFISSIONAL...

                                                             Noites Antigas - by Rosan


A CRIATIVIDADE E O EXERCÍCIO PROFISSIONAL

Em geral, a criatividade é considerada como uma aptidão de poucos indivíduos, relacionada a algumas poucas atividades e profissões e, via de regra, ligada à invenção, originalidade e inovação.

Será mesmo que somente alguns indivíduos têm o "dom" da criatividade?
Será que somente algumas profissões solicitam o potencial criativo ou será que a necessidade 
de "ser um pouco artista" não é uma eventualidade no exercício da maioria das profissões?

A criatividade vem sendo cada vez mais afirmada em toda atividade humana 
e reconhecida  - em graus diferentes - em todos os indivíduos.

A apropriação particular do papel profissional que cada indivíduo realiza e seu desempenho 
tendem a ser cada vez mais criativos.
Ao mesmo tempo em que um indivíduo desempenha um papel profissional,
 ele também o transforma, de forma que a criatividade e a espontaneidade garantem
 (ou deveriam garantir) ao individuo maior plenitude consigo mesmo, 
constante crescimento e interação com o meio.

Definir o processo criativo não é simples, pois envolve fatores complexos da natureza humana 
e da  natureza e origem da imaginação humana.

Moreno define criatividade e espontaneidade como a capacidade que permite ao homem 
transformar situações, dando respostas novas e adequadas  
a problemas novos ou antigos.
Ele também delimita como critério principal a condição de adequação, 
o que significa supor, de um lado, o comprometimento de resposta ao contexto da situação e, 
de outro, o contexto interno do indivíduo.
Isto, em contrapartida ao critério de novidade, excepcionalidade, genialidade ou inovação.

Se  a criação contém uma projeção ou uma participação da subjetividade, 
ao mesmo tempo também exige conhecimento do contexto a ser transformado.

Um dos instrumentos potenciais da criação é a memória, que está ligada à identidade 
e que permite ao homem integrar experiências de tempos e contextos diversos
 em novas vivências o que, inclusive, recompõe suas compreensões sobre aqueles contextos.
Pela capacidade de fazer analogias e associações, 
ele transforma a memória em algo vivo, capaz de atuar alimentando a criação.

A intuição  e a percepção  também são também integrantes do processo criativo.
A intuição é capaz de dar novas ordenações a uma situação global ou parcial 
apreendida pela percepção como "encontro com a realidade".
Porém, embora esse processo percepção-intuição seja uma dimensão importante, 
não constitui por si só o processo criativo em sua totalidade 
e não garante a adequação da resposta.

Portanto, é possível considerar que todo desempenho profissional pode - e deveria - ser criativo, 
seja pelo movimento social exigindo e colocando situações e problemas novos, 
seja pela busca de soluções novas a problemas antigos,
 ou ainda pela capacidade do indivíduo de interagir criativamente 
com o papel que lhe é atribuído.


Psicologia - by Rosan


Uma sociedade  que amplia as possibilidades criativas de todos os Fazeres
 que a vida coletiva envolve, 
torna-se também mais capaz e comprometida com a construção do futuro, 
pois tanto o processo que leva o profissional à criação, 
como a própria criação, 
modificam também o profissional.

Como já disse J.Hillman, não existem profissões medíocres...
Há, sim, formas medíocres de exercer as profissões...


Rosanna Pavesi/novembro 2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O QUE É QUE NÃO PODE MORRER NUNCA?

 Dream Catcher... Fonte: WEB



Relendo o belo e singelo livro "O Jardineiro que tinha fé" de Clarissa Pinkola Estes (Editora Rocco), me deparei com este trecho que compartilho:


O QUE É QUE NÃO PODE MORRER NUNCA? 

"(...) O que não pode morrer nunca é aquela fé (psicológica) que já nasce dentro de nós, 
que é maior do que nós, que chama as novas sementes para os lugares 
áridos, maltratados, abertos, para que possamos nos ressemear...

É essa força, na sua insistência, na sua lealdade a nós, no seu amor por nós,
 nos seus meios, na maioria das vezes, misteriosos, 
que é maior, muito mais majestosa e muito mais antiga 
do que qualquer outra jamais conhecida.


Dream Catcher


Tenho certeza de que em cada campo em pousio novas vidas 
estão esperando para renascer.
E o que é mais espantoso, essa nova vida virá, quer queiramos ou não.
Podemos arrancá-la a cada vez, mas ela reenraizar-se-á e voltará a se fundar.

Novas sementes chegarão com o vento e não pararão de chegar, 
dando muitas oportunidades para mudanças e sentimento, para a volta do sentimento, 
para a cura do coração e afinal para uma nova opção pela vida.
De tudo isso tenho certeza...



Dream Catcher


A lição mais árdua de se aceitar, e a mais poderosa que conheço - é o conhecimento, 
uma certeza absoluta de que a vida se repete, se renova, 
não importa quantas vezes seja apunhalada, descarnada, atirada ao chão, ferida, 
ridicularizada, ignorada, desprezada, desdenhada, 
torturada, ou tornada indefesa.


A Chuva by Rosan


Sei que aqueles que sob certos aspectos e por algum tempo estão afastados 
da crença na própria vida, acabam sendo os que perceberão que
 o Éden está por baixo do campo nu, que as sementes novas 
vão primeiro para os lugares abertos e vazios - mesmo quando esse local
 é um coração em luto, 
uma mente torturada 
ou um espírito devastado...



Nova Vida by Rosan



Não tenho a resposta completa...
Só sei o seguinte:

 aquilo a que dedicamos nossos dias pode ser o mínimo do que fazemos, 
se não compreendermos também que algo espera que a gente abra espaço para ele, 
algo que paira perto de nós, algo que ama,
 e que espera que o terreno certo seja preparado 
para que ele possa se revelar.

Estou certa de que, enquanto estivermos aos cuidados dessa força de fé (na vida), 
aquilo que pareceu morto não estará morto, 
aquilo que pareceu perdido também não estará mais perdido, 
aquilo que alguns alegaram ser impossível tornou-se nitidamente possível, 
e a terra que está sem cultivo está apenas descansando - 
à espera de que a semente venturosa chegue com o vento...

E ela chegará...".


Presentes do Mar by Rosan


Assumir o papel de anfitrião hospitaleiro
 e aguardar com paciência e humildade que a nova semente chegue
 - e ela chegará - e produza nova abundância...

Lembro aqui da bela imagem de Roberto Gambini sobre terapia:
Uma Lavoura Arcaíca...

Rosanna Pavesi/Outubro 2015