domingo, 6 de maio de 2012

NOTAS SOBRE A TRISTEZA...


(Paul Klee)


SOBRE A TRISTEZA...


Falar sobre tristeza, uma das grandes banidas de nossa sociedade contemporânea, sempre é um desafio... Defendá-la, então, parece no mínimo excêntrico...

Quando a tristeza nos visita, queremos logo que se vá, queremos nós despedir dela o mais rápido possível...e perdemos uma oportunidade impar de aprender com ela...

Tristeza:
o que é, a que ela veio?
Há um belo texto sobre tristeza que transcrevo a seguir:

"(...) Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornam estranhos.

Porque estamos a sós com o estrangeiro que veio nos visitar...
Porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou...
Porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer.

Eis porque a tristeza também passa:
A novidade em nos, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto.
Não podemos dizer quem/o que veio, talvez nunca venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nos dessa maneira para se transformar em nos mesmos muito antes de vir a acontecer.

Por isto é tão importante estar só e atento quando se está triste.
O momento aparentemente anodino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nos, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevem como se chegasse de fora...

(...) Por que deseja excluir de sua vida toda e qualquer inquietação, dor e melancolia, quando não sabe como tais circunstâncias trabalham no seu aperfeiçoamento?
Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se?

Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho...
É só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a doença e deixar a esta o seu curso...
Deve ter a paciência de um doente e a confiança de um convalescente, pois talvez seja um e outro.
Não se observe demais. Não tire conclusões demasiadamente apressadas do que lhe acontece...
Deixe as coisas acontecer pois, de qualquer forma,
a vida tem sempre razão..."
(Rainer Maria Rilke, em Cartas a um Jovem Poeta)

Um belo texto, que devolve à tristeza sua legitimidade, dignidade e altivez...
Eu quero, sim, ter de volta o direito à minha tristeza ...
E você?

Rosanna Pavesi/maio 2012













domingo, 29 de abril de 2012

MITO E CORPO (3): PARTE III, PARTE IV, PARTE V



 
Adão e Eva (by Martha Telles)


PARTE III

A JORNADA DO HEROI: O INCONSCIENTE SOMÁTICO
O mito do heroi fala do crescimento e da subjetividade do adulto


Os contos falam de como é possível usar a si mesmo física, emocional e imaginativamente, para organizar as três camadas que herdamos - a ecto, a meso e a endo - e, em seguida, compartilhar nossas experiências com os outros.
O mito do heroi é sobre corporificação e Keleman utiliza Parsifal como exemplo de um dos mitos formativos do Ocidente.

Segundo Keleman, Parsifal é uma história que fala de como usamos a nós mesmos e nos formamos diante dos desafios de nossa vida. A busca de Parsifal é encontrar uma maneira de desenvolver a compaixão e a empatia. Com essas novas qualidades, ele cria um relacionamento com o "rei", abrindo-se ao transcendente. Parsifal traz a compaixão, a compreensão e o respeito para dentro de nossa vida.

Há uma verdade emocional, biológica:
usar a si mesmo para gerar e expressar compaixão e compreensão, respeitar o próprio processo e reconhecê-lo no outro.
Nesse sentido, embriologia é cosmologia e o  processo somático é um drama evolucionário, a nossa cosmologia pessoal.

A quem o Graal serve?  


PARTE IV: INICIAÇÃO...


Aprofundando a nossa humanidade somática...

A humanidade somática é o reconhecimento de uma semelhança de respostas entre nós mesmos e os outros...
Segundo Keleman, nós nos distanciamos dos laços de sangue como referência e destino.
Mas tornar-se uma pessoa madura, a pessoa que você está designada  a ser, é saber quem você é: conhecer o seu destino - como ectomorfo, endomorfo ou mesomorfo.
A tarefa é reconhecer o divino mistério da reprodução, da comunicação, o mistério da morte e da transformação.
Sentir, realmente o gosto disso, é aprofundar a experiência de vida.

Nietzsche fala de Amor Fati...
"As Parcas guiam aqueles que querem. Os que não querem, elas arrastam..."

Contar uma história funciona como um organizador que ajuda a corporificar nossa experiência.
As histórias falam de como o nosso soma se cria, cresce e desaparece.
O organismo conta para si mesmo histórias sobre o crescer, sobre o preparar-se para crescer.

A experiência corporal é a chave. A experiência do seu corpo. O contar histórias sintetiza a experiência somática. Organiza os elementos da experiência numa forma corporal que nos dá uma configuração pessoal, uma direção e até mesmo um senso de significado que é possível vivenciar.
É por isso que Keleman insiste em dizer que é preciso procurar o corpo numa história, em lugar de procurar símbolos e seus significados tão só.

PARTE V: O RETORNO A UMA EXPERIÊNCIA SOMÁTICA






Ser corporificado é participar na migração de uma forma corporal para outra. Cada um de nós é um nômade, uma onda que dura por algum tempo e então assume uma nova forma somática. Essa transformação perpétua é o assunto de todos os mitos.
(S. Keleman)

"(...) Porque cada um de nós é como uma pequena chama de uma vida eterna que está em nós.
Nós somos funções de uma vida eterna. Há uma energia inexaurível para acumular essas formas. E é isso o que nós realmente somos. Você se apega a pequenas formas locais. Você precisa descer a uma caverna como aquela de Lascaux para ter essa evidência..."
(J. Campbell)

Quando aprendemos que a transmissão da experiência é somática, descobrimos nosso caminho de volta a uma referência somática.
O processo somático é a fonte primária de auto-referência.
Nós estamos enraizados num campo vivo palpável. É a biosfera, o oceano protoplásmico ao nosso redor, entre nós, em nós...
Pela vida corporal, descobrimos que somos parte de alguma coisa maior do que nós mesmos, algo que é contínuo, apesar de sermos descontinuos.

Sobre a Prática de Corpar

A Prática de Corpar restaura nosso senso de sanidade somática, restabelece o sentimento de sermos uma entidade somática e de estarmos corporificados.
Os Cinco Passos:

Observar:  o  padrão de comportamento identificado;  (Ex.: Postura de orgulho = observar torax, parte posterior do pescoço, boca, garganta, olhos..)
Exagerar : o padrão de comportamento identificado ,fazer mais intensamente;
Desintensificar:  tal padrão, desfazer ligeiramente, desorganizando o padrão,
Esperar : pausa, há um reembaralhamento; 
Reorganizar : dado padrão de comportamento...

Esses cinco passos são as regras para desorganizar e reorganizar formas.
Isto Keleman chama de Psicologia Formativa.

Dados Biográficos

Stanley Keleman, nasceu no Brooklyn, Nova York, em 1931. Diretor do Center for Energetic Studies em Berkeley, California. Pioneiro no estudo da vida do corpo, autor de diversos livros, alguns dos quais traduzidos para o português e editados pela Editora Summus.

Joseph Campbell, educador, autor e editor, estudou nas Universidades de Columbia, Paris e Munique. Autor de um estudo das mitologias mundias publicado em quatro volumes, intitulado As Máscaras de Deus, e de inúmeros outros. Faleceu em 1987.

Notas:
S. Keleman, Mito E Corpo - Uma Conversa com Joseph Campbell,
(São Paulo, Summus editora, 2001)


Ler o livro foi uma experiência notável...
Apliquei a Prática do Corpar a mim mesma, identificando diversos padrões de comportamento e seguindo os passos que Keleman propõe e fiquei surpresa com os resultados...

Mas, na verdade, o que mais apreciei foi essa coniunctio que os autores propõem entre soma e mito e a linguagem inspirada e poética usada ao longo de todo o texto...
Para mim, nem o mito nem o corpo jamais serão os mesmos...
Meu olhar e minha experiência se desorganizaram e reorganizaram de forma nova e surpreendente...
Gostei...

Rosanna Pavesi/Abril 2012






domingo, 15 de abril de 2012

MITO E CORPO (2): PARTE I E PARTE II

                                                 MITO E CORPO (2) : PARTE I  E PARTE II

Adão e Eva (by Martha Telles)


PARTE I: CORPO E MITO
Eu sou corporificado, portanto experiencio que sou...

"Para mim, a mitologia é uma função da biologia (...) um produto da imaginação do soma. O que os nossos corpos dizem? E o que eles estão nos contando? A imaginação humana está enraizada nas energias do corpo (...)  (Joseph Campbell)



Segundo Keleman, uma imagem mítica é a forma da anatomia falando sobre si mesma.
Os mitos são os scripts das nossas formas genéticas em linguagem social.
Os mitos evocam o nosso self  somático mais profundo, mais íntimo, uma estrutura somática com muitas camadas de formas que conferem profundidade e dimensão ao nosso corpo.

A nossa percepção da nossa continuidade, subjetivamente como um processo corporal, é muito semelhante ao sonho e aos estados poéticos que formam os mitos. A realidade mítica é uma organização móvel, com um coração batendo, com marés de sentimentos e de formas.

O mito é uma história contada numa linguagem específica que os seres humanos inventaram para si mesmos. Ao contar um mito, uma parte do organismo pode falar com outra e os indivíduos podem partilhar as suas experiências internas com as pessoas à sua volta.

O corpo organiza a sensação que emerge do metabolismo tissular e isso é o que chamamos de consciência. Esse processo somático é a matriz para as histórias e imagens do mito.
Como usamos a nos mesmos para encenar as imagens míticas conhecidas ou desconhecidas que são parte de nossa vida? Porque, tendo ou não conhecimento disso, estamos vivendo essas histórias herdadas.
A mitologia está estruturada nas células.
Cada espermatozóide, cada óvulo, contém a história que é recriada no crescimento total de cada célula.

Os tipos míticos:
Wilkiam Sheldon, em sua teoria dos tipos constitucionais, descreve três temperamentos baseados nas três camadas embriológicas do corpo, a saber:

O Tipo Endomórfico, metabólico, no qual predominam os hormônios e os tecidos da digestão e da respiração. O endomorfo brota da camada visceral do embrião.Segundo o autor, esse temperamento orienta-se para o cuidado e a intimidade.
O Tipo Ectomórfico, no qual predominam os neuro-hormônios e os orgãos da sensação. O ectomorfo brota da camada intermediária do embrião. Segundo o autor, esse temperamento está orientado para coletar informações sensoriais.
O Tipo Mesomórfico, no qual predominam os hormônios da ação, os grandes músculos e os ossos. O mesomorfo brota da membrana externa do embrião. Segundo o autor, esse temperamento orienta-se para a ação.
Essas organizações somáticas são herdadas e, segundo Keleman, determinam o modo como as pessoas experienciam a si mesmas e como o mundo faz sentido para elas.

Cada uma dessas organizações está ligada a um conjunto diferente de mitos.
O endomorfo está ligado aos mitos dos fundadores de comunidades agrícolas, o ectomorfo está ligado aos mitos dos sábios e ascetas e o  mesomorfo está ligado aos mitos do guerreiro.

Cada um de nós é uma combinação dos três tipos.Cada um de nós combina a suavidade do endo, a firmeza do meso e a fragilidade do ecto.

Na história da humanidade, passamos pela era mitológica endomórfica, bem como por uma herança mesomórfica, forjando mudanças.
Agora, começamos a explorar o ectomórfico, o papel do indivíduo.

PARTE II: ENTRANDO NA VIDA FORMATIVA

Cante em mim, Musa, e por meu intermédio conte a história daquele homem habilidoso em todas as formas de luta (Homero, Odisséia)



Houve uma transformação tão rápida nos contatos economicos e sociais da nossa vida - eles mudam tão depressa agora - que nada é estável e você precisa fazer tudo sozinho. Você precisa irromper nesse campo não-interpretado para descobrir a própria interpretação mítica.
Esse é um desafio. Um desafio difícil, mas do qual pode dar conta. Se você se perceber num papel arquetípico qualquer em sua vida profissional, e dramatizá-lo arquetípicamente, teremos uma visão muito mais instrutiva de nós mesmos. Sem essa visão estamos numa terra devastada.
(grifo nosso) ( Joseph Campbell)

Segundo Keleman, abandonamos o corpo em nome de racionalidade e linguagem, símbolos e signos. O cérebro organizou uma realidade de imagem e pensamento, ao venerar a vida inivisível da consciência. Nós existimos numa Terra Devastada, onde as imagens vampirizam a vitalidade do soma, onde o pensamento está enamorado pelo próprio reflexo.Vivemos na Terra Devastada, onde os nossos corpos existem apenas para os propósitos da mente...

Usamos o cérebro para tornar nosso corpo um objeto. Originalmente, esse processo de criação de imagens destinava-se a organizar a experiência. Agora ele tomou o lugar da experiência corporal.
Em certo ponto, a capacidade de formar imagens e então símbolos, começou a tomar conta de nós.
O significado do símbolo torna-se um substituto da própria experiência.

Quando idealizamos a imagem em lugar da experiência corporal, nós nos descobrimos vivendo na imagem. A natureza tornou-se uma fotografia, uma idéia, um símbolo, uma imagem no cérebro - e o mesmo aconteceu com o corpo. Vivemos na imagem do corpo, não no corpo. Estamos enamorados pelas imagens do corpo, desconhecemos o corpo mesmo.

A experiência é parte do processo auto-organizador do corpo. Mantemos em nossos tecidos o evento real e uma organização de uma imagem do evento. De um único evento, organizamos o experiencial e o simbólico.
Ao aprendermos a viver novamente das nossas respostas orgânicas, o soma se produz a si mesmo, aprofundando os seus sentimentos e imagens.
Dessa maneira, construimos uma maturidade a partir da Terra Devastada.

O nosso processo somático organiza suas próprias imagens herdadas. Ele organiza a imagem do corpo humano - dois braços, duas pernas, dois olhos, posição ereta. Ele também organiza diferentes imagens corporais: o jovem, o adulto, o adulto em envelhecimento e assim por diante.
O processo somático também organiza formas que dão expressão pessoal ao nosso corpo.
A imagem e uma estrutura viva...O soma é um sistema ecológico, como a Terra...

(Fonte: Stanley Keleman, Mito E Corpo, Uma Conversa com Joseph Campbell -
(São Paulo, SP, Summus Editorial, 2001) 


Enquanto estava transcrevendo Keleman,  uma frase de Jung - lida em algum lugar da obra dele que agora não lembro - se fez presença:

UMA IMAGEM, POR MAIS BELA QUE SEJA, NUNCA PODE SUBSTITUIR A VIDA...

Rosanna Pavesi/Abril 2012





domingo, 8 de abril de 2012

MITO E CORPO (1)

Adão e Eva  - by  Martha Telles



AFINANDO O OUVIDO
PARA A VOZ MÍTICA DO CORPO...


Em meados dos anos 70, dois homens se apertaram as mãos pela primeira vez, em meio à neblina de um pier à margem do Pacífico.
Desse encontro mítico nasce a amizade entre um homem já maduro, Joseph Campbell e o então jovem Stanley Keleman.
E por quatorze anos, ambos prosseguiram, fieis a essa afinidade inicial, gerando juntos os seminários anuais que são a base do livro Mito & Corpo, livro este que é o resultado da decantação e destilação dos registros desses seminários, uma edição desse intercâmbio de reflexões sobre mitologia e corpo, uma homenagem de Keleman a Campbell, falecido em 1987.

Ao longo de três postagens, (das quais esta é a primeira), apresentaremos em resumo as idéias principais contidas neste livro que resgata, de forma excepcional, tanto o corpo quanto a mitologia, num casamento feliz...

J. Campbell:
"Mitologia é uma canção, a canção da imaginação inspirada pelas energias do corpo..."

"Os mitos são sonhos coletivos e não devem ser tomados literalmente. Eles são metáforas..."

S. Keleman:
"A mitologia, para mim, é a poética do corpo, cantando sua verdade celular.

O mito é um poema sobre a experiência de ser corporificado e sobre a nossa jornada somática. 
É a canção da criação, a experiência genética que organizou um jeito de cantar, dançar, pintar, contar histórias, que transmitem essa experiência aos outros..."

"Sei que a experiência é um evento corporificado, e o mito, como um processo organizativo, o modo que temos para ordenar a experiência somática.
Os mitos dramatizam a experiência de nossa corporificação e identificam a voz que está falando mais alto em determinado momento..."

"A nossa estrutura corporal determina um modo mítico de pensar e nos dá identidade..."

"Os mitos falam do corpo. A metáfora baseia-se no corpo. Ela é experiencial.
No mito, eu busco o corpo - as suas formas, expressões e atitudes emocionais.
A produção de corpo, o aprofundamento dos repertórios de sentimento e ação, é o que os mitos prometem..."


Mito&Corpo é construido em cinco partes :

PARTE I: Estabelece a idéia de que os mitos descrevem as experiências do corpo. Eles são, na verdade, metáforas para estados corporais internos, experiências e desenvolvimento. Os mitos também ajudam o corpo a organizar e incorporar a experiência.

Nos dias de hoje, os mitos não estão mais enraizados na experiência corporal.
Nós priorizamos as imagens e os símbolos do corpo, as suas funções cerebrais. Isso nos conduz a uma Terra Devastada moderna. Nós negamos o corpo como fonte de conhecimento.

PARTE II: Explora o corpo como processo, fonte de imagens somáticas e histórias. Embora o mito fale do corpo e das suas respostas internas, na prática isso não é mais verdade para a maioria das pessoas.

Cada vez mais corporificamos e incorporamos imagens externas que não têm ressonância interior. Em nosso esforço para aceitar os papeis impostos pela sociedade, vivemos uma vida de imagens, desenraizada de nossa natureza. O propósito da Prática de Corpar é reestimular as imagens do próprio corpo.

PARTE III: Considera a nossa corporificação como a jornada do heroi - uma jornada essencial à nossa natureza somática, aprofundando-a e proporcionando-lhe individualidade.

PARTE IV: Considera o estágio seguinte da jornada do heroi - o sentido de ser um adulto maduro. Começamos a reconhecer que as histórias que contamos, as histórias de nossa vida, falam de nossa corporificação.

PARTE V: Explora as maneiras de viver uma vida somática, mítica. Com o corpo, podemos aprender a viver e a dar forma para suas respostas.
Viver uma vida somática é viver uma vida mítica.
(grifo nosso)


Rosanna Pavesi/Abril 2012

Fonte: Stanley Keleman, Mito & Corpo - Uma Conversa com Joseph Campbell -  ( São Paulo, SP, Summus Editorial, 2001)

IDENTIDADE, APERCEPÇÃO DE SI MESMO E O SENTIDO DA VIDA...

Envolvente - Rosan

 PREMISSA:
Fato ou princípio que serve de base a um raciocínio

SER HUMANO:
Às vezes imaginado como uma unidade bio-neuro-psico-social,
outras vezes como unidade evolutiva encarnada,
ou ainda como uma unidade corpo-mente-psique-espírito
e várias outras definições, dependendo da premissa, ou fantasia, que norteia a visão de ser humano.

 EGO/ EU:
Em psicologia análitica, um complexo:
o complexo do ego, cujo núcleo é arquetípico,
centro do campo da consciência tão só.
Sede das Funções Pensamento, Sentimento, Sensação, Intuição.
Apercepção, Percepção,Volicão, Motilidade, Fala, Sentidos, Função do Real.


Em Roots of Renewal in Myth and Madness de J.W. Perry (UMI - Books on Demand - Ann Arbor - Michigan/USA - 1997), lemos:


"SE A PREMISSA FOR:

O ser humano é fundamentalmente um animal biológico, então o ego é o orgão psiquico responsável pela percepção, compreensão, motricidade, sendo que todas estas atividades terão como finalidade última e exclusiva a adaptação à realidade externa.

Neste caso, o interesse e finalidade principais do ego se concentrarão em torno das relações objetais, que serão tratadas de forma realista e objetiva, ou seja, o ego possuirá uma capacidade bem desenvolvida de testar a realidade de forma objetiva.

A fim de alcançar tal capacidade, um ego desta ordem precisará desenvolver técnicas de defesa contra o poder de impulsos instintuais de natureza diversa - sacrificando-os se necessário - em favor e privilegiando uma boa adaptação ao meio social e suas demandas.

ENTRETANTO, SE A PREMISSA FOR:

O ser humano tornou-se um ser fundamentalmente psicológico, cujo impulso básico é a expansão e o desenvolvimento da consciência de si mesmo e do significado de sua vida, então o ego assume um aspecto diferente. 
Neste caso, a estruturação e a expansão da consciência do ego torna-se a finalidade e o objetivo de muitos processos internos complexos.
Estes processos internos estarão a serviço de uma harmonização entre minha consciência dos significados de meu mundo psiquico interno e o mundo objetivo externo, além da diferenciação das diversas influências, pressões e identificações sofridas a partir do nascimento.

Neste caso, o ego torna-se o portador de meu sentido de identidade, de minha especificidade e unicidade que leva uma vida inteira para se realizar plenamente, e a unicidade de minha visão de mundo que é a expressão substancial de minha natureza.

A busca de significado que vai se desenrolando, ano após ano, é da mesma espécie dos esforços para me tornar a pessoa que eu sou.
O processo envolve tanto uma compreensão e apreciacão de minha existência e de minha natureza, bem como a minha apreciação e compreensão do mundo externo."


A partir desta perspectiva, o que define o que o ego/eu é, enquanto construto teórico, é a premissa que define o que um ser humano é...
Assim, não é a definição teórica de ego/eu que me diz quem eu sou, mas sim a premissa, a fantasia daquilo que um ser humano é para mim, que define a função do ego/eu e quem eu fantasio que eu sou...

Estamos sempre inseridos em uma fantasia, uma crença, quer chamemos a isso de  Ciência,  Humanismo, Progresso,  Ecologia,  Crescimento, Tecnologia e assim por diante.

Cada fantasia, terá suas premissas, significado e finalidade e sua definição de ser humano...
Ao escolhermos uma, dentre as tantas, nos tornamos inevitávelmente unilaterais...
Perdemos todas aquelas que não escolhemos...

Assim que, talvez, o ideal seria um ego/eu imaginal, um ego/eu que - enquanto orgão psíquico -  possa deslocar-se de uma premissa, de uma fantasia a outra,  um ego/eu múltiplo, plural, multifacetado...

Não mais isto ou aquilo, mas sim
isto e aquilo, e aquilo, e aquilo...


Rosanna Pavesi/março 2012 




domingo, 11 de março de 2012

MULHER...


8 de Março: Dia Internacional da Mulher

Em homenagem a todas as mulheres, transcrevo a seguir alguns trechos de Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Maria Rilke, escrito entre 1903 e 1908, bem antes da 2.a Guerra Mundial, que marca o ingresso "oficial" da mulher no mercado de trabalho, que ela nunca mais deixou, e bem antes do movimento feminista...

Em sua visão, o poeta vislumbrou desdobramentos, principalmente no campo amoroso que, a meu ver,  ainda não se completaram de todo e estão cada vez mais incipientes...



Os Noivos vão à Cidade - Rosan


"(...) Como para a morte - que é difícil - também para o difícil amor ainda não foi encontrada até hoje uma luz, uma solução, um aceno ou um caminho.

(...) As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa diíficl do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura.

Mas se perseverarmos apesar de tudo, e aceitarmos esse amor como uma carga e um tirocínio em vez de nos perdermos na fácil e leviana brincadeira que serve aos homens para se substrairem ao problema mais grave de sua existência então -  talvez - 
 um leve progresso e alguma facilidade venham a ser experimentados por
aqueles que chegarem muito tempo depois de nós - e isto já é muito.
(grifo nosso)

A moça e a mulher, em sua nova e peculiar evolução, apenas transitoriamente imitarão os hábitos e os vícios masculinos.

 Depois de passada a incerteza dessa transição, é que se poderá perceber que as mulheres não adotaram toda aquela multidão de desfarces senão para limpar sua profunda essência das influências deformadoras do outro sexo.

A mulher, em que a vida habita mais direta, fértil e cheia de confiança deve, na realidade, ter-se tornado mais amadurecida, mais humana do que os homens, criaturas leves a quem o peso de um fruto carnal não fez descer sob a superfície da vida e que, vaidosos e apressados, subestimam o que pensam amar.
Esta humanidade da mulher,
levada a termo entre dores e humilhações,
há de vir à luz, uma vez despidas - nas transformações de sua situação exterior -
 as convenções da exclusiva feminilidade.

Os homens que não a sentem vir ainda, serão por ela surpreendidos e derrotados.

Um dia, alí estará a moça, alí estará a mulher cujo nome não mais significará apenas uma oposição ao macho, nem suscitará a idéia de complemento e de limite, mas a de vida, de existência: a mulher-ser-humano...
(grifo nosso)

Esse progresso há de transformar radicalmente a vida amorosa de hoje, tão cheia de erros, numa relação de ser humano para ser humano, não de macho para fêmea.

E esse amor mais humano (que se produzirá de maneira infinitamente atenciosa e discreta, num atar e desatar claro e correto) assemelhar-se-à àquele que nós preparamos lutando fatigosamente,

 um amor que consiste na mútua proteção, limitação e saudação de duas solidões.
(grifo nosso)

Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo:
 os dos dragões que num  momento supremo se transformam em princesas?
Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas
que aguardam apenas o momento de nos ver, um dia, belos e corajosos..."

(Cartas a um Jovem Poeta - Rainer Maria Rilke)


Rosanna Pavesi/março 2012





  

domingo, 26 de fevereiro de 2012

INFERNO: VOCÊ CONHECE?


O Mago Negro - Paul Klee


INFERNO: VOCÊ CONHECE?

Há momentos na vida em que sentimos como se estivéssemos "nas nuvens, no paraiso, no purgatório, no céu, num abismo, no topo do mundo, numa bolha cor de rosa", e tantos outros estados que descrevemos em linguagem figurada...
Dante Alighieri, e sua Divina Comédia ...

E há também "o inferno"...

Quem nunca se sentiu "no inferno" em algum momento da vida?
 Quem de nos já não passou por alguma situação infernal?
Momentos de vida que parecem ser intoleráveis, insuportáveis,
nos quais nós sentimos torturados, impotentes, enfim, "no inferno"?

Há um belo trecho de C.G. Jung no Livro Vermelho  (1) onde ele comenta o que é inferno
 a partir de um ponto de vista psicológico:

"O que você pensa da essência do inferno? 
Inferno é quando as profundezas vêm até você com tudo
o que você não é mais ou que ainda não é capaz de ser.  

Inferno é quando você não pode conseguir aquilo que você poderia.
Inferno é quando você tem que pensar e sentir e fazer tudo tudo que você sabe que você não quer.
Inferno é quando você sabe que aquilo a que você se obriga é também a sua vontade,
e que você mesmo é responsável por isto.

Inferno é quando você sabe que todas as coisas sérias que você planejou com você
são também risíveis,
que tudo delicado é também brutal,
que tudo bom é também mau,
que tudo alto é também baixo,
e que tudo prazeiroso é também vergonhoso.

Mas o inferno mais profundo
é quando você se dá conta que
o inferno é também não inferno, mas um caloroso céu e, neste sentido,
um inferno."
 (C.G. Jung - Livro Vermelho - p. 244)


Seria isto o "Inferno dos Infernos"?

Rosanna Pavesi/fevereiro 2012



(1) = O LIVRO VERMELHO, de C.G. Jung, editado por Sonu Shamdasani, traduzido para o inglês por Mark Kyburtz, John Peck e Sonu Shamdasani. Copyright 2009 Fundação das Obras de C.G. Jung. Traduzido para o português por Edgar Orth. Copyright da tradução para a língua portuguesa - Brasil - 2010 Editora Vozes Ltda.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O JOVEM E O VELHO QUE HABITAM EM NOS...

Senécio - Paul Klee

... et Puer/Puella et Senex/Domina et Puer&Senex et Puella&Domina et...
...e  Jovem e Velho/Velha e Jovem & Velho e Jovem & Velha e...

O JOVEM E O VELHO QUE HABITAM EM NOS:
VÔOS QUE LIBERTAM
RAÍZES QUE SUSTENTAM...
Os  pares Puer-Senex e Puella-Domina, são pares arquetípicos; eles pertencem às configurações arquetípicas da natureza humana, presentes e atuantes em todos nos, quer tenhamos clareza disto ou não.
Puer/Puella é o termo latim para "criança, adolescente, jovem" enquanto Senex/Domina é o termo latim para "velho/velha".

Neste contexto, queremos fazer um recorte bastante específico, desvinculado do conceito e da dinâmica dor pares Pai-Filho e Mãe-Filha.
Queremos pensar nestes pares como personificações de outro par de opostos: Juventude-Velhice.
Vistos a partir de sua polaridade essencial, eles se tornam um e o mesmo, dois lados da mesma medalha, pois não existe Puer sem Senex, nem Puella sem Domina. Eles correspondem a pressas e velocidades juvenis e a lentidões e limitações da velhice. Marcam o calendário da vida, fazem-nos sentir, com maior ou menor exatidão, nossa idade cronológica e nossa idade psicológica.

 Estão ajustando constantemente a velocidade tanto psíquica como física de nossa vida., mas não só... Metaforicamente falando, estes pares arquetípicos também podem ser vistos como personificações  de tudo que é Jovem e tudo que é Velho em nós, para além de literalizações vinculadas à idade cronológica e ao sexo. 

(M. Rothko)

o Jovem e a Jovem que habitam em nos... 

O Jovem e a Jovem em nos costumam trazer o Novo, o Desconhecido, algo que deseja fazer parte de nossa vida, algo rumo ao devir, algo que aponta para o futuro e o desconhecido...
Costumam desarrumar a casa toda, questionam, colocam em dúvida escolhas anteriores, abalam nossas certezas, querem romper, transgredir, inovar, mudar as coisas...
São impacientes, têm pressa, tudo lhe parece possível, não há limites nem impedimentos...

Talvez o Jovem e a Jovem possam ser vistos como a personificação daquele anseio atemporal, imutável, eterno em nos, rumo ao devir, ao futuro, ao desconhecido? 
Um anseio apaixonado, que arde, que nos enche de ousadia, coragem e temor ao mesmo tempo?   
 Querem experimentação e aventura, querem  transcender as leis e as tradições
São leves, aéreos, idealistas, charmosos, sedutores, sonhadores...
Elevam-nos às alturas, nos fazem sonhar, levantam o espírito...
Mostram novas possibilidades, novas tendências, novos rumos...
Como viver sem eles?
Sem eles para instigar, desassossegar, provocar, parece que a vida perde uma parte de sua graça, de sua alegria, de seu encantamento...

Na adolescência e na juventude, Puer/Puella  nos fazem sentir que  existe uma velocidade mental que torna possível aprender  o que se tem que aprender e que aparece na curiosidade de descobrir o mundo.
É uma velocidade que existe na consciência que permite fazer as múltiplas conexões que são o deleite, o enriquecimento, o inebriamento e a fantasia do adolescente e do jovem.

Seria isto que  produz a maravilha e o êxtase a partir dos quais os vôos mentais do Puer e da Puella lhes permitem fantasiar que têm "o mundo nas mãos" e faz com que vejam os homens e as mulheres de mais idade como lentos, caducos, incapazes?

Quando Puer/Puella aparecem muito polarizados e exercem dominância, são tremendamente inconscientes de Senex/ Domina, o outro polo respectivo que trazem dentro de si, tratando de invalidar o que não pertença a seu tempo e ritmo interno, o que não caia dentro do "novo" de sua fantasia.
Quanto mais veloz for sua consciência, mais lentos serão os elementos Senex/Domina que habitam seu inconsciente.
A velocidade de Puer/Puella se desenvolve  numa velocidade tal que não pode conectar-se com o aspecto gravitacional da terra, com as lentas velocidades terrenas. Para que se toque a terra, é necessário um processo de descida, planar pouco a pouco até que haja uma reconciliação com a realidade terrena.



(Rothko)

O Velho e a Velha que habitam em nos...

Senex/Domina, em nos, costumam introduzir aos poucos um estilo de vida e pensamento caracterizados por um sentido de tempo e história, de imanência, temporalidade, limites e finitude..
Quando em dominância, pode surgir certa preferência para o previsível, o conhecido, o regulamentado, a ordem, a tradição, o status quo. Questões ligadas a segurança, saúde, morte podem se  presentificar com maior intensidade. É Cronos, a passagem cronológica do tempo marcando sua presença em nos.

Podem trazer desassossego, apatia, tristeza, melancolia, saudosismo, pesares, arrependimento e certa sensação de perda, de impotência, de "nada mais resta a fazer...nada mais pode ser mudado..."
Os tons azuis, graves e pesados predominam...(having the blues, feeling blue...).

Mas falar do Velho e da Velha tão somente a partir de uma perspectiva biológica e cronológica, de velhice e senescência,  não faz juz a seu potencial.
Desde o começo o que é Velho em nos traz em seu bojo o potencial do princípio da ordem, do  significado, da reflexão, da experiência, da realização, da profundidade psicológica, se não da sabedoria...

O Velho e a Velha personificam tudo aquilo que foi atravessado pelo tempo, tocado e modificado pelo tempo sim, mas não só... O Velho e a Velha são  também o  testemunho de nosso caráter, de nossa essência suprema, de nossa humanidade. Podem trazer a doçura, a ternura, a tolerância, a disponibilidade, generatividade e o amadurecimento que pertencem à  passagem do tempo.
O Velho e a Velha também são nossas raízes, nossa ancestralidade, nossas origens, nossa marca, nossa especificidade, nosso patrimônio, nossa solidez...
Um referencial, uma fonte viva de experiências e referências, em nos, a que recorrer em momentos de dúvida, tristeza ou melancolia...
É a nossa dignidade humana, a dignidade que vemos estampada no rosto de alguns Velhos.
Envelhecer é um privilegio...

Saibamos acolher Senex/Domina em nos com alegria e generosidade, pois mesmo quando tentamos prolongar a juventude ao máximo, ela ainda é curta se comparada a uma velhice que, por sua vez, está se tornando cada vez mais longa... 


(Rothko)

Reconciliando Jovem & Velho e Jovem & Velha...

Paradoxalmente, o desejável é a reconciliação Puer-Senex e Puella-Domina em nos...
Um  estilo de consciência onde um influencia o outro,
mas sem a dominação e a unilateralidade de nenhum dos dois...
Amar tanto os vôos que libertam quanto as raízes que sustentam,
 amar aquilo que já fomos, que somos e que viremos a ser...

Psicologicamente falando, isto significa aprender a amar, respeitar e honrar tanto o Jovem como o Velho que habitam em nos: 
Senex/Domina enquanto a habilidade de ordenar e passar adiante a experiência 
Puer/Puella enquanto capacidade de permanecer abertos e receptivos ao Mistério e à Revelação...
 "festina lente" : fazer  pressa devagar...

Nos casos em que se nota uma maturidade e velhice mais plenas, observam-se o papel e a função de Puer/Puella e Senex/Domina em harmonia com as idades que se vive, tanto cronológicas como psicológicas. Ao longo da vida, as imagens de Puer-Senex e Puella/Domina, no ritmo de um relogio de areia, invertem-se e nos oferecem outra realidade vital na maturidade e na velhice: a de uma consciência lenta, lentissima, mas um inconsciente rápido e ativo que é capaz de conectar-se com a memória nele armazenada, na velocidade necessária para isso.

O futuro pertence ao Jovem, mas a memória pertence ao Velho
 Sem memória é impossível construir o futuro...

Aprender a conciliar, em qualquer idade:
 solidez & inovação
 vôos libertadores & raízes que sustentam
criação & manutenção...

Eis o desafio...



Com o respaldo de sociedades nas quais predominam perigosamente os ideais juvenis, toda a fantasia e imagética se projetam a partir do âmbito do adolescente e do jovem, desde o comer, o vestir, a estética pessoal e todo o viver. Mas sociedades em que predominam o adolescente e o jovem como ideal coletivo e individual não consideram o seu pólo terreno oposto, e quando o fazem, geralmente é de maneira destrutiva.

Como diz Oscar Wilde em um de seus aforismos, "eu já não sou jovem o suficiente para saber tudo", felizmente, acrescento eu.
Mas uma coisa se torna cada vez mais clara, em mim : 
 na atual perspectiva de uma vida cada vez mais longa, em qualquer idade precisamos tanto do Jovem como do Velho que habitam em nos para tentarmos viver da  forma mais plena, rica e harmoniosa possível toda a vida que espera por nos...

Rosanna Pavesi/Fevereiro 2012

NOTAS:
Rafael López-Pedraza, "Consciência de Fracasso", em Rafael López-Pedraza -  Ansiedade Cultural,
(São Paulo, SP - Editora Paulus, 1997)


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ECOLOGIA E ARTE

Frans Krajcberg

ECOLOGIA E ARTE

 Frans Krajcberg,  pintor, escultor, gravador, fotógrafo e artista plástico, nascido na Polônia (12/04/1921) e naturalizado brasileiro. 
Estudou engenharia e artes na Universidade de Intgrad. Residiu na Alemanha, prosseguindo seus estudos na Academia de Belas Artes de Stuttgart.


Chegou ao Brasil em 1948, vindo participar da oitava Bienal de São Paulo em 1951. Entre 1948 e 1954 viveu entre as cidades de Paris, Ibiza e Rio de Janeiro, onde produziu os seus primeiros trabalhos, fruto do contato direto com a natureza.


Na década de 1950 morou em uma caverna no Pico da Cata Branca, região de Itabirito, no interior de Minas Gerais. Alí na região, à época, era conhecido como o barbudo das pedras, uma vez que vivia solitário, sem conforto, enquanto produzia incessantemente gravuras e esculturas em pedra.

Em 1964 executou as suas primeiras esculturas com madeiras de cedros mortas. Realizou diversas viagens à Amazônia e ao Pantanal Matogrossense, fotografando e documentando os desmatamentos, além de recolher materiais para as suas obras, como raízes e troncos calcinados.





Na década de 1970 ganhou  projeção internacional com as suas esculturas de madeira calcinada. A sua obra reflete a paisagem brasileira, em particular a floresta amazônica, e a sua constante preocupação com a preservação do meio-ambiente.









  A partir de 1972, Krajcberg radicou-se no sul da Bahia, mantendo seu ateliê no Sitio Natura, no município de Nova Viçosa. Chegou alí a convite do amigo e arquiteto Zanine Caldas, que o ajudou a construir a habitação: uma casa, a sete metros do chão, no alto de um tronco de pequi de 2,60 metros de diâmetro.    




No sítio, uma área de 1,2 Km quadrados, um resquício da Mata Atlântica e de manguezal, o artista plantou mais de dez mil mudas de espécies nativas. O litoral do município é procurado, anualmente, no inverno, por baleias-jubarte. No sítio, dois pavilhões projetados pelo arquiteto Jaime Cupertino, abrigam atualmente mais de trezentas obras do artista. Futuramente, com mais cinco construções projetadas, pretende-se construir o Museu que levará o nome do artista.



Ao longo de sua carreira, o artista denunciou queimadas no estado do Paraná, denunciou a exploração de minérios no estado de Minas Gerais, denunciou o desmatamento da Amazônia brasileira, defendeu as tartarugas marinhas que buscam o litoral do município de Nova Viçosa para desova, entre outras...

(Fonte imagens: Google)


Para quem quiser saber mais, acessar o site: http://www.frans-krajcberg.com/


Uma homenagem à poética de uma vida longa, associando arte e ecologia...

Rosanna Pavesi/jan.2012

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...


Cidade de Sonho - Rosan

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...


 Gostaria de propor uma reflexão sobre os sonhos que sonhamos acordados, aqueles sonhos que tecemos para nos e nossa vida, a partir da frase de Mario Quintana que norteia esse blog, a saber:

                              "Uma vida não basta ser vivida. Ela precisa ser sonhada..."

O que seria sonhar uma vida? Qual a diferença entre uma vida só vivida e uma vida vivida e sonhada?
A meu ver, se só viver não basta, também só sonhar  não basta...Devemos sim sonhar, fazer planos, mas também precisamos ter a coragem de realizá-los, com a ousadia que nossos sonhos reclamam para si...

É sabido que os pais já tecem sonhos a respeito do futuro dos filhos até mesmo antes deles nascerem; de forma que, por certo tempo, "vivemos" dos sonhos que nossos pais projetaram sobre nos... Mas vamos crescendo e somos chamados a tecer nossos próprios sonhos, nos apropriar deles e construir nosso futuro.

Cada etapa da vida possui um foco prioritário, com seus sonhos e projetos e com seus desafios, escolhas e posicionamentos específicos, que vão desde a definição de nossa identidade sexual, vocacional e
 profissional, posicionamentos políticos e religiosos, planejamento de carreira, até a escolha de nosso estilo de vida e estado civil:  casar (ou não), ter filhos (ou não), mudar de cidade ou de país (ou não), mudar de profissão (ou não) e assim por diante.

Às vezes, nos deparamos com "uma pedra no caminho", como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade...Neste caso, é sabio não chutar a pedra, mas sim conversar com ela, perguntar a que veio e ter a coragem de escutar o que a pedra tem a dizer... Pois aquilo que a primeira vista pode parecer um problema, pode ser na verdade uma grande oportunidade. Devemos aprender a acolher a pedra com gratidão...

Em seu livro O Valor do Amanhã  (São Paulo, SP, Edit. Companhia das Letras, 2005) Eduardo Giannetti retoma a fábula da Cigarra e da Formiga e escreve sobre a realidade dos juros e como ela se manifesta em todas as situações da vida prática nas quais os valores presentes e futuros medem forças em nossas escolhas e ações. O autor encerra seu livro com uma bela passagem sobre os sonhos que sonhamos acordados que transcrevo a seguir, por acreditar ser pertinente:

"... Os indivíduos perecem, mas a sociedade a que pertencem - obra aberta que une na mesma trama os valores dos mortos, dos vivos e dos que estão por vir - segue em frente. O passado condiciona, o presente desafia, o futuro interroga.

A previsão lida com o provável e responde à pergunta: O que será?
A delimitação do campo do possível lida com o exeqüivel, e responde à pergunta: O que pode ser?
E a expressão da vontade lida com o desejável e responde à pergunta: O que sonhamos ser?

As relações entre esses modos de conceber o futuro não são triviais: de um lado está a lógica: o desejável precisa respeitar a disciplina do provável e do possível. Mas, do outro lado, está o sonho. Se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta. Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável ou ao exeqüível é condenar-se ao passado e à repetição.

No universo das relações humanas, o futuro responde à força e à ousadia do querer. A capacidade de sonho fecunda o real, reembaralha as cartas do provável e subverte as fronteiras do possível.

                                                           Os sonhos secretam futuro. "

É bom lembrar que todas as invenções e descobertas da humanidade foram consideradas, em algum momento, impossíveis...
Quando nossas ações respondem ao apelo de nossos sonhos, encontramos significado em nossa vida e descobrimos sentido em nosso fazer: fazemos com paixão... Quando perdemos nossa capacidade de sonhar, sobram apenas tarefas...
De forma que, talvez, jamais se permitir sonhar acordado, ousar, apostar, arriscar, ou jamais se atrever, possa vir a ser a pior aposta possível.

E se algum sonho ou imagem de fantasia se apresentar, fique com ele/a...Ele/a tem algo a lhe dizer, isso lhe diz respeito... Construa uma ponte entre a realidade psíquica e a realidade terrena pois, afinal, não são dois mundos separados, são apenas as duas faces de uma mesma realidade: a sua...


Quintana tinha razão... Por isto o nome do blog é Oficina de Sonhos, uma Oficina que se quer desejante e participante de "secretar futuro", assim como outros já fizeram no passado, o fazem no presente, cada qual a seu modo e, espero, continuarão fazendo no futuro...

                               Sim: Uma vida não basta ser vivida. Ela precisa ser sonhada...


Rosanna Pavesi/jan.2012