quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A ARTE DE VIVER...

Capins (Rosan)



A ARTE DE VIVER...

Poderemos assumir a angústia da incompletude  de
nossas vidas e da incerteza do destino humano?

Poderemos aceitar ser abandonados pelos deuses?
Poderemos abandoná-los?

Saberemos suficientemente que só a vivência do
amor e da poesia é capaz de afrontar a angústia e a
mortalidade?

Poderemos inibir a megalomania humana e
regenerar o humanismo?

Poderemos fortificar as mais preciosas, as mais
frágeis manifestações, que são o amor e a amizade?

Poderemos conviver com os monstros que também nos habitam,
pela virtude do amor e da fraternidade?

Poderemos praticar a reforma interior que nos
tornaria seres humanos melhores?
(Edgar Morin, em "L'Identité  humaine").


O indivíduo de hoje não tem outra escolha, senão fazer escolhas e elas definem, pelo menos em parte, 
 o seu destino.
As escolhas que fazemos ao longo da vida dependem fundamentalmente daquilo a que atribuimos valor.
Substituímos uma coisa por outra, lutamos mais por uma do que por outra, em função do que cada uma vale para nós.Os valores têm uma existência intrínseca, "valem" pelo que são.

Ora, as sociedades de mercado consideram sem valor tudo aquilo que não tem preço, contaminando com sua lógica tudo que as cerca, na ânsia de colocar em números, de medir, de calcular tudo que existe, para só então decidir se tem ou não valor, desde o "capital humano" até o "recurso humano", subentendendo que cada ser humano é ele mesmo passível de avaliação monetária.

Poderemos, seremos capazes de sair dessa sociedade de mercado, que reifica as relações sociais, construindo um sentido para a vida em si mesma, na fruição dos momentos, que não são vendáveis nem compráveis?

As vidas pioneiras, a dissidência social são as brechas por onde o novo penetra.
São o ponto de partida das transformações...

Os atores da transformação nascem sempre de uma situação de crise.
Uma crise ocorre quando algúem já não pode continuar a ser quem era, ainda não pode ser outra pessoa e não pode, salvo morto ou delirante, deixar de ser, de existir...

Nesses momentos de Terra de Ninguém é que podemos "gestar e dar à luz" a nos mesmos, a um novo eu construído com o que nos é dado em determinado momento de nossas existência.
Construir, com nossos fragmentos, figuras coerentes, inteligíveis e luminosas...
O que é obras de artistas, entregues à arte de viver.

Poderemos? Saberemos? Ousaremos?


Rosanna Pavesi/agosto 2012




sábado, 11 de agosto de 2012

SEXO, VOLUPIA CARNAL E AMOR

The Tree of Life - G.Klimt


SEXO, VOLÚPIA CARNAL E AMOR...


Tema inesgotável, sexo, volúpia, amor...
Dando continuidade às reflexões dos posts mais recentes,
 transcrevo a seguir alguns trechos de "Cartas a Um Jovem Poeta", por Rainer Maria Rilke.

Livro antiguinho, dirão alguns, mas que - a meu ver - ainda propõe reflexões contemporâneas...

Sobre sexo e volúpia...

"...A carne é um peso difícil de se carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo que é grave, é difícil: e tudo é grave. Se chegar a reconhecer isto e a alcançar - partindo de si - uma relação inteiramente sua, livre de convenções e costumes, com a carne, não mais deverá temer o perder-se e o tornar-se indigno de sua posse mais preciosa.

...A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber.
O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a e fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados de sua existência, uma simples distração, em vez de uma concentração interior para as alturas.

...Pudesse o homem acolher com maior humildade este segredo de que a terra está cheia até em suas coisas mais ínfimas; carregá-lo e suportá-lo com mais gravidade, sentindo-lhe o peso, em vez de tratá-lo com leviandade. Pudesse ter respeito para com a própria fecundidade, que é uma só, embora pareça ora espiritual, ora corporal.

... A idéia de ser criador, de gerar, de moldar, não é nada sem sua grande e perpétua confirmação da vida; nada sem o consenso mil vezes repetido das coisas e dos animais. Seu gozo não é tão indescritivelmente belo e rico senão porque está cheio de reminiscências da geração e da parte de milhões de seres. Numa idéia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude. Aqueles que se juntam à noite e se entrelaçam num baloiçar de volúpia, executam obra grave, reunindo doçuras, profundezas e forças para a canção de algum poeta vindouro que há de surgir para dizer indizíveis prazeres.

... Talvez os sexos sejam mais aparentados do que se pensa e a grande renovação do mundo talvez resida nisto: o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos falsos, de todos os empecilhos, virão a se procurar não mais como contrastes, mas sim como irmãos e vizinhos; a juntar-se como seres humanos para carregarem juntos, com simples e paciente gravidade, a sexualidade difícil que lhes foi imposta.

Sobre amar...

... Amar é bom, mas o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente?

...O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.
Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este, o do amor. Há nele uma profusão de cintos salva-vidas, toda espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada a considerar a vida amorosa um prazer tão só, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público.

...As  questões do amor não podem, menos ainda do que qualquer outra questão importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem uma resposta específica, estritamente pessoal.
Mas como podem aqueles que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem distinguem, quer dizer, que nada possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Tudo o que parte de uma comunhão mal coagulada é convencional : todas as relações resultantes de tal confusão encerram a sua própria convenção, por menos usual que seja.
A própria separação seria aí um passo convencional, uma decisão fortuita e impessoal,
sem força nem fruto.

...Como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não foi encontrada até hoje uma luz, uma solução, um aceno ou caminho.
Não se poderá encontrar para ambas estas tarefas, que carregamos veladas em nós e transmitimos sem as esclarecer, nenhuma regra comum, baseada em qualquer acordo.

...As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa difícil do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura. Mas se persistirmos e perseverarmos então, talvez, um leve progresso haverá de surgir..."

Talvez, como já disse J.Hillman em algum lugar que agora não recordo:

"a grande tarefa da vida, não é 'vencer a morte', mas sim encontar Eros, o Amor..."

e honrá-lo, acrescento eu...


Rosanna Pavesi/agosto 2012

(Notas: "Cartas a um Jovem Poeta", Rainer Maria Rilke)



...


domingo, 29 de julho de 2012

SOBRE AMOR SUBLIME...



Spring (Rosan)


SOBRE AMOR SUBLIME...

Para Benjamin Péret, um dos fundadores e animador permanente do movimento Surrealista, "Amor Sublime" é uma forma de amor que tenta buscar uma saída tanto à licença sexual gratuíta enquanto pseudo-liberdade sexual, quanto ao "Amor Romântico" (que sempre vem acompanhado de uma impossibilidade, um grande obstáculo), e ao "Amor-Burgûes", (o amor legal, institucionalizado, sancionado),  as grandes vertentes na cultura Ocidental:
Nem fora da lei, nem dentro da lei...
Talvéz além da lei?

Apesar de curtas permanências no Brasil, Péret é pouco conhecido em nosso país. Ele aqui esteve no período entre 1929 e 1931 e também no verão de 1955 à primavera de 1956.
Elegeu o México como seu país de morada, escolhendo - já relativamente maduro - a artista plástica mexicana (pintora surrealista) Mercedes Varo como sua companheira de vida com quem, esperamos - ou melhor - gostamos de acreditar, viveu um amor sublime, tão bem cantado e com tanto ardor em sua pequena "Antologia do Amor Sublime"...



PRELÚDIO...



Amor  (Rosan)


... Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência herdada e ouvida...
Amor começa tarde...
(Carlos Drummond de Andade)


Verbo Sublimar: amar de forma sublime.

O amor sublime é sagrado, porém humano, terreno, não celeste, nem divino...
É uma sublimação alquímica que implica o mais alto grau de elevação, o ponto-limite onde se opera a conjunção de todas as sublimações,
 o lugar geométrico onde o espírito, a carne e o coração vêm se fundir num
diamante inalterável...

O amor sublime sempre aparece como um sentimento que satisfaz a vida total da pessoa,
 reconhecendo no ser amado a única fonte de felicidade.
O objeto de amor torna-se tão essencial ao coração quanto o ar à vida física.

A sexualidade sofre uma metamorfose assim que se inscreve num todo complexo de que o coração se torna o elemento catalizador. A sexualidade se dá por satisfeita que o coração lhe conceda um lugar em primeiro plano em tal composição, sendo que todos os mecanismos desta ação são controlados pelo próprio coração (não mais tão só pelo desejo e/ou pela genitalidade).

O amor sublime, uma vez encontrado o objeto de sua busca, fixa-se aí para sempre, ilustrando assim os conceitos chineses de yin e yang que, inoperantes um sem o outro, se atraem e se completam...
"O Céu e a Terra, unidos e juntos, o orvalho cai suave..." diz o Tao..

Com o amor sublime, o maravilhoso perde igualmente o caráter subrenatural, extra-terrestre ou celeste que sempre tivera em todos os mitos.
De alguma forma, ele volta à sua fonte para descobrir seu verdadeiro desembocar e se inscrever então nos limites da existência humana:
o amor sublime oferece uma via de transmutação, culminando no acordo da carne e do espírito, tendendo a fundí-los numa unidade superior onde um não possa ser distinguido do outro.
Com isto, o desejo vê-se encarregado de operar essa fusão, que é a sua justificativa última.

Disso decorre que o amor sublime opõe-se à religião, particularmente o Cristianismo, onde o cristão é chamado a divinizar, a amar o sobrenatural de forma divina ou celeste.
Em princípio, portanto, o amor sublime representa, acima de tudo,
uma subversão, uma revolta contra a religião e a sociedade...

É o "Grande Desejo" que une o Corpo ao Espírito,
 muito tempo além da união dos corpos no "Pequeno Desejo".
Fora do amor sublime, a sublimação do desejo implica de alguma maneira a sua desencarnação,
já que, para obter satisfação, ele deve perder de vista o objeto terreno que o suscitou...

No amor sublime, longe de perder de vista a carne que lhe deu à luz, o desejo tende portanto, em definitivo, a erotizar o universo...

O amor sublime implica a mais completa liberdade sexual. 
Hoje, porém, a liberdade sexual está, em muitos casos, dissociada do amor...
Em vez de multiplicar as possibilidades de eleição, esta liberdade sexual tão arduamente conquistada, levou à formação de um terreno de não-escolha.
 A muralha dos preconceitos sexuais foi superada, porém ela dissimulava um terreno pantanoso antes insuspeitável, onde os seres correm o risco de se enterrar.
 Em vez da ascensão à que o amor sublime convida, a licença sexual sem limites pode diminuir o ser humano, tanto quanto os tabús mais estreitos.

A liberdade sexual, enquanto licença sexual, é admitida e até incentivada por um mundo hostil ao amor e a qualquer liberdade real, posto que ela NÃO ameaça nem a estrutura da sociedade, nem seus ideais e desvia por um instante os homens de conquistas mais substanciais...
A licença sexual é inofensiva...

O que resta?
Resta a poesia e o amor, terrenos para sempre férteis de todos os mitos, que a religião tinha monopolisado e a ciência abandonado...
O amor, tanto na sua acepção mais elementar como na mais elevada,
permanece sendo o eixo da vida afetiva da humanidade.

A produção literária, teatral, cinematográfica mundial, em sua quase totalidade, trata do amor sob todas as suas formas.
 E esta produção, digamos artística, adquire pela sua magnitude,
o sentido de uma reclamação geral: reclama-se portanto, do que se está privado...
A humanidade parece aspirar a uma forma de laço amoroso que lhe falta...

A sociedade dá livre curso a todas as formas de amor, salvo o amor sublime...
A sociedade opõe todos os vetos ao seu triunfo, posto que ele, o amor sublime, tende à própria desagregação da sociedade, revelando aos homens a felicidade apesar dela, 
e de seus ideais materialistas, tecnológicos e consumistas.

Será preciso que um belo dia os homens se dediquem ao mesmo tempo a transformar as bases desse mundo e a melhorar suas condições para que a aspiração pelo amor sublime, até agora vaga e fugidia, encontre talvez condições favoráveis à sua plena realização...

Renunciar ao amor para caçoar dele em seguida
significa, apenas, a submissão ao conformismo social mais esterilizante possível.
Perde-se a graça de amar...

A poesia da vida, desponta como o lugar geométrico do amor e da revolta.
Detém uma parcela de poesia todo ser humano capaz de, espontaneamente, enxergar na vida cotidiana um instrumento a serviço de uma existência que vise a elevação do homem,
não sobre-humano, mas humano no pleno sentido da palavra.

Se o amor humano é sagrado, é que na realidade a noção mesma de sagrado decorre tão diretamente do amor que, sem ele, nenhum sagrado seria concebível. Só podem conhecer o amor sublime aqueles cujo coração tornou-se sensível a essa emanação do sagrado.

J. Hillman, ao falar sobre Eros/Amor e a Função Sentimento, considera Ero/Amor como a raiz arquetípica da Função Sentimento e o Sentimento como a manifestação de Eros/Amor no âmbito da consciência.
O Sentimento é humano, Eros/Amor é des-humano...
Só o Sentimento é um atributo individual da consciência, no tempo-espaço...

Talvez, ao longo de nosso caminho, possamos descobrir nossa própria capacidade humana, no pleno sentido da palavra, por tão limitada e finita que seja), de dar e receber amor?
Sem ter a pretensão de querer desvendar o Mistério Amoroso, fica o amor sublime como uma das formas possíveis, entre outras, de amor humano...



Rosanna Pavesi/Julho 2012

(Notas:  Benjamin Péret, Amor Sublime, São Paulo, SP, Edit.Brasiliense).

domingo, 22 de julho de 2012

AMOR E SUBVERSÃO...

Prenuncios - Rosan


AMOR E SUBVERSÃO...

Em epocas de "E Aí... Comeu?" (o filme), amor com sexo, amor sem sexo, sexo sem amor, sexo com amor e mais alguns...Me permito acrescentar  mais um item à já longa lista:
Amor com Subversão...
O Amor mistura a Terra com o Céu: é a grande subversão!

O Amor tem sido um sentimento constantemente criativo e subversivo e coube ao movimento Surrealista enaltecer este aspecto do Amor. O Surrealismo logo se converteu numa rebelião filosófica, moral e política e um dos eixos da subversão surrealista é o erotismo...(polis e alcova)

André Bréton, expoente do Movimento Surrealista, quis unir o privado e o social.
A rebelião dos sentidos e do coração, encarnada em sua idéia de amor, fracassou, MAS a aspiração fica.
O mérito de Bréton foi perceber a função subversiva do amor..

A imagem e/ou a idéia do amor hoje é universal e seu destino é inseparável do destino da civilização mundial. É uma visão de mundo, uma ética e uma estética:
UMA CORTESIA...

É o amor que suprime a cisão corpo-mente.
O amor não busca nada além de si próprio, nenhum bem, nenhum prémio...
muito menos persegue uma finalidade que o transcenda.
É indiferente a toda transcendência e acaba nele mesmo.

É atração por uma alma e um corpo.
Não uma idéia, mas sim uma pessoa, uma pessoa que talvez encarne, personifique, aquilo que nos mesmos perseguimos erotica, filosofica, ética e esteticamente falando, uma pessoa que busque aquilo que nos buscamos...


As senda são muitas, e a senda do amor é uma delas, porém não a única...
Sea senda do amor for a sua, siga-a ...
 Na senda do amor, há um tipo de Amor, erotico e subversivo, que André Breton chamou de Amor Sublime...
No próximo post...


Rosanna Pavesi/julho 2012

domingo, 24 de junho de 2012

REENGENHARIA DO TEMPO...


by Candido Portinari


REENGENHARIA DO TEMPO...

A palavra reengenharia entrou na língua inglesa ao longo dos anos 90 quando, em função da competitividade internacional e da globalização, as grandes corporações fizeram tabula rasa  de seus métodos de produção e gestão, para tornar-se mais eficientes.
A isso chamaram de reengineering...
Mudaram seus procedimentos e grande parte de seus efetivos foi despedida.
O impacto social foi penoso, enquanto os lucros das empresas aumentavam.

Ou tudo que precisava de reengenharia foi reengenherado, ou a palavra saiu de moda...
Ou a reengenharia do tempo, se é que foi feita, não deu certo?

Pois resta o  fato  que o tempo continua sendo uma aflição constante no mundo contemporâneo.
Temos a sensação de que não há tempo para fazer nem o que nos cabe, nem o que nos apraz...
O cotidiano de homens e mulheres trabalhando a tempo integral deu visibilidade à importância
do privado e ao tempo que ele requer.
Um repensar as relações de genêro, o futuro da família e uma nova articulação
 entre mundo do trabalho e vida privada torna-se necessário.

Tempo não é dinheiro - como costuma-se dizer...
Tempo é a a matéria-prima da vida, esgotável,
por demais preciosa para ser malbaratada...

O tempo é então a primeira conquista...

(Rothko)


GANHANDO A VIDA...

De forma geral, a expressão "ganhar a vida" significa garantir a sobrevivência
graças a um trabalho remunerado.
Mas a mesma expressão, lida ao pé da letra, pode significar recuperar a vida,
trazê-la de volta em suas múltiplas dimensões de fruição do mundo, 
andando na contramão da inclemente invasão da mentalidade produtivista,
 que expropria a vida privada, tragando os momentos do amor e do lazer.

Ganhar a vida significa, antes de mais nada, reapropriar-se de sua matéria-prima:
o tempo...

O tempo, esse bem tão raro que não pode ser comprado, pelo menos não além de um certo limite...
Porque o tempo, a morte não vende...

Antes ganhávamos a vida no trabalho.
Hoje é o trabalho que ganha nossa vida.
Na medida em que a vida produtiva ganha terreno sobre o tempo da vida afetiva,
é o cotidiano das pessoas que vai moldando uma sociedade em que encolhem os vínculos fundamentais, esvaziados assim de sua própria humanidade.  

Há quem reconheça na época do avanço tecnológico em que vivemos um novo Renascimento.
Mas, no plano social, deslizamos para uma pré-história, em que a sobrevivência era o único objetivo.
Recriou-se no mundo contemporâneo uma selva em que a agressividade e a competição são valores centrais, a seleção natural reinventada em seleção cultural e economica.
Cada um de nós é transformado diariamente em um predador, tanto mais bem-sucedido quanto mais feroz e astuto, empenhado na destruição do outro, condição mesma do sucesso.
E, mais espantoso e estarrecedor ainda, é o fato de que esse gigantesco retrocesso
é apresentado ao mundo como modernidade...

A convivência humana, construida sobre normas e comportamentos múltiplos, é uma conquista permanente, criacão ativa e cotidiana, uma rebelião original contra a fera ancestral que nos habita.
Mas não nos enganemos...
Domesticada, ela pode enlouquecer a qualquer momento, excitada pelas ameaças dessa nova selva
e nos levar de volta à barbárie.
A reengenharia do tempo é uma tentativa de repensar o cotidiano de homens e mulheres,
com vistas a aumentar sua qualidade de vida e seu produto de felicidade bruto.

A conciliação entre vida privada e vida profissional é tarefa difícil...
A reengenharia do tempo é uma aposta em que está em jogo o reconhecimento da diversidade dos homens e das mulheres, de sua incontornável igualdade de direitos e
de aspiração à liberdade e à felicidade.
É um exercício cujo objetivo último é reabrir a discussão sobre o sentido da vida,
relembrando a importância dos atos gratuitos, dos laços de afeto e solidariedade.

A reengenharia do tempo é a condição de eficiência na produção de si e de uma felicidade revitalizada...

É uma nova arte de viver...

Boa reengenharia... de seu tempo... de sua vida...


Rosanna Pavesi/junho 2012

(Notas: Rosiska Darcy de Oliveira - Reengenharia do tempo - Rio de Janeiro, RJ, Rocco, 2003)


 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

TER OU NÃO TER NAMORADO? EIS A QUESTÃO...

Os Noivos Vão à Cidade (Rosan)



TER OU NÃO TER NAMORADO? EIS A QUESTÃO...

A seguir um belo texto de Carlos Drummond de Andrade sobre a questão...

"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem quer se proteger
e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira;
basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor:
é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes. dois paqueras, um envolvimento e dois amantes,
mesmo assim pode não ter nenhum namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai,
sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho,
Quem acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa
 e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor das mãos dadas,
de carinho escondido na hora em que passa o filme,
de flor catada no muro e entregue de repente;
de poesia de Fernando Pessoa,Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
de gargalhada quando se fala junto ou se descobre meia rasgada;
de ansia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado,
tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compras junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor,
nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele,
abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado
e sai com ela pelos parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento,
bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros,
quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato do seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir,
quem curte sem se aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana,
na madrugada, ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo,
e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre
e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos:
ponha a saia mais leve, aquela de chita,
e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove alma com leves fricções de esperança.

De alma escovada e coração estourado,
saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui
e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta
e do céu descesse uma névoa de borboletas,
cada qual trazendo uma pérola falante a dizer sutis frases e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado
é porque ainda não enloqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar
e de repente parecer fazer sentido.
Enlou-cresça! "
(Carlos Drummond de Andrade)


Bonito, não é...
E aí, vai ou não querer ter um namorado?

Rosanna Pavesi/Junho 2012

domingo, 3 de junho de 2012

AMOR... IMAGENS .....


(by Martha Telles)








Quando começamos a gostar de alguem?...

AMOR...IMAGENS...

Neste mês de junho, uma homenagem em imagens ao Amor, a Eros, o grande Cosmogono...

O Amor, que move o Sol, como as outras Estrelas...
(Dante Alighieri)


Candido Portinari














Marc Chagall






Chico Stockinger















Gustav Klimt

















Fragmentos de um discurso amoroso, imagens captadas pelo olhar do artista...



A Teia da Vida...



(by Dirce Schüler)




Rosanna Pavesi/Junho 2012



domingo, 6 de maio de 2012

NOTAS SOBRE A TRISTEZA...


(Paul Klee)


SOBRE A TRISTEZA...


Falar sobre tristeza, uma das grandes banidas de nossa sociedade contemporânea, sempre é um desafio... Defendá-la, então, parece no mínimo excêntrico...

Quando a tristeza nos visita, queremos logo que se vá, queremos nós despedir dela o mais rápido possível...e perdemos uma oportunidade impar de aprender com ela...

Tristeza:
o que é, a que ela veio?
Há um belo texto sobre tristeza que transcrevo a seguir:

"(...) Parece-me que todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralisias porque já não ouvimos viver nossos sentimentos que se nos tornam estranhos.

Porque estamos a sós com o estrangeiro que veio nos visitar...
Porque, num relance, todo o sentimento familiar e habitual nos abandonou...
Porque nos encontramos no meio de uma transição onde não podemos permanecer.

Eis porque a tristeza também passa:
A novidade em nos, o acréscimo, entrou em nosso coração, penetrou no seu mais íntimo recanto.
Não podemos dizer quem/o que veio, talvez nunca venhamos a saber, mas muitos sinais fazem crer que é o futuro que entra em nos dessa maneira para se transformar em nos mesmos muito antes de vir a acontecer.

Por isto é tão importante estar só e atento quando se está triste.
O momento aparentemente anodino e imóvel, em que o nosso futuro entra em nos, está muito mais próximo da vida do que aquele outro, sonoro e acidental, em que ele nos sobrevem como se chegasse de fora...

(...) Por que deseja excluir de sua vida toda e qualquer inquietação, dor e melancolia, quando não sabe como tais circunstâncias trabalham no seu aperfeiçoamento?
Não sabia estar em transição? Desejava algo melhor do que transformar-se?

Se algum ato seu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho...
É só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a doença e deixar a esta o seu curso...
Deve ter a paciência de um doente e a confiança de um convalescente, pois talvez seja um e outro.
Não se observe demais. Não tire conclusões demasiadamente apressadas do que lhe acontece...
Deixe as coisas acontecer pois, de qualquer forma,
a vida tem sempre razão..."
(Rainer Maria Rilke, em Cartas a um Jovem Poeta)

Um belo texto, que devolve à tristeza sua legitimidade, dignidade e altivez...
Eu quero, sim, ter de volta o direito à minha tristeza ...
E você?

Rosanna Pavesi/maio 2012













domingo, 29 de abril de 2012

MITO E CORPO (3): PARTE III, PARTE IV, PARTE V



 
Adão e Eva (by Martha Telles)


PARTE III

A JORNADA DO HEROI: O INCONSCIENTE SOMÁTICO
O mito do heroi fala do crescimento e da subjetividade do adulto


Os contos falam de como é possível usar a si mesmo física, emocional e imaginativamente, para organizar as três camadas que herdamos - a ecto, a meso e a endo - e, em seguida, compartilhar nossas experiências com os outros.
O mito do heroi é sobre corporificação e Keleman utiliza Parsifal como exemplo de um dos mitos formativos do Ocidente.

Segundo Keleman, Parsifal é uma história que fala de como usamos a nós mesmos e nos formamos diante dos desafios de nossa vida. A busca de Parsifal é encontrar uma maneira de desenvolver a compaixão e a empatia. Com essas novas qualidades, ele cria um relacionamento com o "rei", abrindo-se ao transcendente. Parsifal traz a compaixão, a compreensão e o respeito para dentro de nossa vida.

Há uma verdade emocional, biológica:
usar a si mesmo para gerar e expressar compaixão e compreensão, respeitar o próprio processo e reconhecê-lo no outro.
Nesse sentido, embriologia é cosmologia e o  processo somático é um drama evolucionário, a nossa cosmologia pessoal.

A quem o Graal serve?  


PARTE IV: INICIAÇÃO...


Aprofundando a nossa humanidade somática...

A humanidade somática é o reconhecimento de uma semelhança de respostas entre nós mesmos e os outros...
Segundo Keleman, nós nos distanciamos dos laços de sangue como referência e destino.
Mas tornar-se uma pessoa madura, a pessoa que você está designada  a ser, é saber quem você é: conhecer o seu destino - como ectomorfo, endomorfo ou mesomorfo.
A tarefa é reconhecer o divino mistério da reprodução, da comunicação, o mistério da morte e da transformação.
Sentir, realmente o gosto disso, é aprofundar a experiência de vida.

Nietzsche fala de Amor Fati...
"As Parcas guiam aqueles que querem. Os que não querem, elas arrastam..."

Contar uma história funciona como um organizador que ajuda a corporificar nossa experiência.
As histórias falam de como o nosso soma se cria, cresce e desaparece.
O organismo conta para si mesmo histórias sobre o crescer, sobre o preparar-se para crescer.

A experiência corporal é a chave. A experiência do seu corpo. O contar histórias sintetiza a experiência somática. Organiza os elementos da experiência numa forma corporal que nos dá uma configuração pessoal, uma direção e até mesmo um senso de significado que é possível vivenciar.
É por isso que Keleman insiste em dizer que é preciso procurar o corpo numa história, em lugar de procurar símbolos e seus significados tão só.

PARTE V: O RETORNO A UMA EXPERIÊNCIA SOMÁTICA






Ser corporificado é participar na migração de uma forma corporal para outra. Cada um de nós é um nômade, uma onda que dura por algum tempo e então assume uma nova forma somática. Essa transformação perpétua é o assunto de todos os mitos.
(S. Keleman)

"(...) Porque cada um de nós é como uma pequena chama de uma vida eterna que está em nós.
Nós somos funções de uma vida eterna. Há uma energia inexaurível para acumular essas formas. E é isso o que nós realmente somos. Você se apega a pequenas formas locais. Você precisa descer a uma caverna como aquela de Lascaux para ter essa evidência..."
(J. Campbell)

Quando aprendemos que a transmissão da experiência é somática, descobrimos nosso caminho de volta a uma referência somática.
O processo somático é a fonte primária de auto-referência.
Nós estamos enraizados num campo vivo palpável. É a biosfera, o oceano protoplásmico ao nosso redor, entre nós, em nós...
Pela vida corporal, descobrimos que somos parte de alguma coisa maior do que nós mesmos, algo que é contínuo, apesar de sermos descontinuos.

Sobre a Prática de Corpar

A Prática de Corpar restaura nosso senso de sanidade somática, restabelece o sentimento de sermos uma entidade somática e de estarmos corporificados.
Os Cinco Passos:

Observar:  o  padrão de comportamento identificado;  (Ex.: Postura de orgulho = observar torax, parte posterior do pescoço, boca, garganta, olhos..)
Exagerar : o padrão de comportamento identificado ,fazer mais intensamente;
Desintensificar:  tal padrão, desfazer ligeiramente, desorganizando o padrão,
Esperar : pausa, há um reembaralhamento; 
Reorganizar : dado padrão de comportamento...

Esses cinco passos são as regras para desorganizar e reorganizar formas.
Isto Keleman chama de Psicologia Formativa.

Dados Biográficos

Stanley Keleman, nasceu no Brooklyn, Nova York, em 1931. Diretor do Center for Energetic Studies em Berkeley, California. Pioneiro no estudo da vida do corpo, autor de diversos livros, alguns dos quais traduzidos para o português e editados pela Editora Summus.

Joseph Campbell, educador, autor e editor, estudou nas Universidades de Columbia, Paris e Munique. Autor de um estudo das mitologias mundias publicado em quatro volumes, intitulado As Máscaras de Deus, e de inúmeros outros. Faleceu em 1987.

Notas:
S. Keleman, Mito E Corpo - Uma Conversa com Joseph Campbell,
(São Paulo, Summus editora, 2001)


Ler o livro foi uma experiência notável...
Apliquei a Prática do Corpar a mim mesma, identificando diversos padrões de comportamento e seguindo os passos que Keleman propõe e fiquei surpresa com os resultados...

Mas, na verdade, o que mais apreciei foi essa coniunctio que os autores propõem entre soma e mito e a linguagem inspirada e poética usada ao longo de todo o texto...
Para mim, nem o mito nem o corpo jamais serão os mesmos...
Meu olhar e minha experiência se desorganizaram e reorganizaram de forma nova e surpreendente...
Gostei...

Rosanna Pavesi/Abril 2012






domingo, 15 de abril de 2012

MITO E CORPO (2): PARTE I E PARTE II

                                                 MITO E CORPO (2) : PARTE I  E PARTE II

Adão e Eva (by Martha Telles)


PARTE I: CORPO E MITO
Eu sou corporificado, portanto experiencio que sou...

"Para mim, a mitologia é uma função da biologia (...) um produto da imaginação do soma. O que os nossos corpos dizem? E o que eles estão nos contando? A imaginação humana está enraizada nas energias do corpo (...)  (Joseph Campbell)



Segundo Keleman, uma imagem mítica é a forma da anatomia falando sobre si mesma.
Os mitos são os scripts das nossas formas genéticas em linguagem social.
Os mitos evocam o nosso self  somático mais profundo, mais íntimo, uma estrutura somática com muitas camadas de formas que conferem profundidade e dimensão ao nosso corpo.

A nossa percepção da nossa continuidade, subjetivamente como um processo corporal, é muito semelhante ao sonho e aos estados poéticos que formam os mitos. A realidade mítica é uma organização móvel, com um coração batendo, com marés de sentimentos e de formas.

O mito é uma história contada numa linguagem específica que os seres humanos inventaram para si mesmos. Ao contar um mito, uma parte do organismo pode falar com outra e os indivíduos podem partilhar as suas experiências internas com as pessoas à sua volta.

O corpo organiza a sensação que emerge do metabolismo tissular e isso é o que chamamos de consciência. Esse processo somático é a matriz para as histórias e imagens do mito.
Como usamos a nos mesmos para encenar as imagens míticas conhecidas ou desconhecidas que são parte de nossa vida? Porque, tendo ou não conhecimento disso, estamos vivendo essas histórias herdadas.
A mitologia está estruturada nas células.
Cada espermatozóide, cada óvulo, contém a história que é recriada no crescimento total de cada célula.

Os tipos míticos:
Wilkiam Sheldon, em sua teoria dos tipos constitucionais, descreve três temperamentos baseados nas três camadas embriológicas do corpo, a saber:

O Tipo Endomórfico, metabólico, no qual predominam os hormônios e os tecidos da digestão e da respiração. O endomorfo brota da camada visceral do embrião.Segundo o autor, esse temperamento orienta-se para o cuidado e a intimidade.
O Tipo Ectomórfico, no qual predominam os neuro-hormônios e os orgãos da sensação. O ectomorfo brota da camada intermediária do embrião. Segundo o autor, esse temperamento está orientado para coletar informações sensoriais.
O Tipo Mesomórfico, no qual predominam os hormônios da ação, os grandes músculos e os ossos. O mesomorfo brota da membrana externa do embrião. Segundo o autor, esse temperamento orienta-se para a ação.
Essas organizações somáticas são herdadas e, segundo Keleman, determinam o modo como as pessoas experienciam a si mesmas e como o mundo faz sentido para elas.

Cada uma dessas organizações está ligada a um conjunto diferente de mitos.
O endomorfo está ligado aos mitos dos fundadores de comunidades agrícolas, o ectomorfo está ligado aos mitos dos sábios e ascetas e o  mesomorfo está ligado aos mitos do guerreiro.

Cada um de nós é uma combinação dos três tipos.Cada um de nós combina a suavidade do endo, a firmeza do meso e a fragilidade do ecto.

Na história da humanidade, passamos pela era mitológica endomórfica, bem como por uma herança mesomórfica, forjando mudanças.
Agora, começamos a explorar o ectomórfico, o papel do indivíduo.

PARTE II: ENTRANDO NA VIDA FORMATIVA

Cante em mim, Musa, e por meu intermédio conte a história daquele homem habilidoso em todas as formas de luta (Homero, Odisséia)



Houve uma transformação tão rápida nos contatos economicos e sociais da nossa vida - eles mudam tão depressa agora - que nada é estável e você precisa fazer tudo sozinho. Você precisa irromper nesse campo não-interpretado para descobrir a própria interpretação mítica.
Esse é um desafio. Um desafio difícil, mas do qual pode dar conta. Se você se perceber num papel arquetípico qualquer em sua vida profissional, e dramatizá-lo arquetípicamente, teremos uma visão muito mais instrutiva de nós mesmos. Sem essa visão estamos numa terra devastada.
(grifo nosso) ( Joseph Campbell)

Segundo Keleman, abandonamos o corpo em nome de racionalidade e linguagem, símbolos e signos. O cérebro organizou uma realidade de imagem e pensamento, ao venerar a vida inivisível da consciência. Nós existimos numa Terra Devastada, onde as imagens vampirizam a vitalidade do soma, onde o pensamento está enamorado pelo próprio reflexo.Vivemos na Terra Devastada, onde os nossos corpos existem apenas para os propósitos da mente...

Usamos o cérebro para tornar nosso corpo um objeto. Originalmente, esse processo de criação de imagens destinava-se a organizar a experiência. Agora ele tomou o lugar da experiência corporal.
Em certo ponto, a capacidade de formar imagens e então símbolos, começou a tomar conta de nós.
O significado do símbolo torna-se um substituto da própria experiência.

Quando idealizamos a imagem em lugar da experiência corporal, nós nos descobrimos vivendo na imagem. A natureza tornou-se uma fotografia, uma idéia, um símbolo, uma imagem no cérebro - e o mesmo aconteceu com o corpo. Vivemos na imagem do corpo, não no corpo. Estamos enamorados pelas imagens do corpo, desconhecemos o corpo mesmo.

A experiência é parte do processo auto-organizador do corpo. Mantemos em nossos tecidos o evento real e uma organização de uma imagem do evento. De um único evento, organizamos o experiencial e o simbólico.
Ao aprendermos a viver novamente das nossas respostas orgânicas, o soma se produz a si mesmo, aprofundando os seus sentimentos e imagens.
Dessa maneira, construimos uma maturidade a partir da Terra Devastada.

O nosso processo somático organiza suas próprias imagens herdadas. Ele organiza a imagem do corpo humano - dois braços, duas pernas, dois olhos, posição ereta. Ele também organiza diferentes imagens corporais: o jovem, o adulto, o adulto em envelhecimento e assim por diante.
O processo somático também organiza formas que dão expressão pessoal ao nosso corpo.
A imagem e uma estrutura viva...O soma é um sistema ecológico, como a Terra...

(Fonte: Stanley Keleman, Mito E Corpo, Uma Conversa com Joseph Campbell -
(São Paulo, SP, Summus Editorial, 2001) 


Enquanto estava transcrevendo Keleman,  uma frase de Jung - lida em algum lugar da obra dele que agora não lembro - se fez presença:

UMA IMAGEM, POR MAIS BELA QUE SEJA, NUNCA PODE SUBSTITUIR A VIDA...

Rosanna Pavesi/Abril 2012