domingo, 20 de abril de 2014
domingo, 23 de março de 2014
AS VIRTUDES DO CARÁTER...
by A. Piza - Imagem web
AS VIRTUDES DO CARÁTER...
Em seu livro A Força do Caráter, (Objetiva, 2011), James Hillman dedica um capítulo (cap. 23) à exposição das virtudes do caráter, com a finalidade de definir a ideia de caráter.
Hillman escreve:
" 1. - A ideia de caráter depende da noção arquetípica de diferença. O caráter confirma, e até mesmo alardeia, o único, o singular, o peculiar. Como o caráter coloca a individualidade entre as marcas de diferença observáveis, a excentricidade torna-se necessária ao caráter.
2. - Os acontecimentos do corpo representam igualmente o caráter e não podem ser excluídos da investigação da psicologia do caráter. O caráter compreende a psique e o soma; o caráter é uma ideia psicossomática.
3. - O caráter é apresentável. Ele requer uma linguagem descritiva - adjetivos, como pão-duro, esperto, sistemático; advérbios, como devagar, cautelosamente, cuidadosamente - que transmita imagens e desperte sentimentos. Ao capturar o caráter com precisão e abrangência, a fala poética ultrapassa em muito a linguagem da ciência behaviorista.
4. - O caráter é um punhado de características. Como a ideia de caráter desafia simplificações, um estudo do caráter pede um tipo complexo de inteligência. Ele estuda a justaposição de camadas como uma imagem poética ou pintada e abandona a busca de um centro unificador.
5. - O caráter é perceptível como imagem. Está sempre exposto, como estilo, hábito, gesto, disposição, constituição, postura, expressão, presença. O rosto revela o caráter e dirige-se ao caráter. Como imagem, o caráter precisa ser imaginado além de percebido.
6. - O caráter sempre se distinguiu do talento, da habilidade, dos dons, das capacidades mensuráveis. Ele pode ser aleijado por deficiências e encurralado em fixações, enquanto talento e habilidades exibem brilhantismo. O caráter não cede a medidas de desempenho padronizadas. A singularidade característica de um estilo escapa da análise.
7. - O caráter também escapa da amarra moral. Ele não se revela na moralidade do comportamento, mas no seu estilo. Os traços de caráter incluem vícios e virtudes. Esses NÃO definem o caráter; o caráter os define. A perseverança ou a lealdade podem instigar um ato criminoso assim como um ato de bondade; a amizade pode motivar vingança ou renúncia. A abrangência imaginativa do caráter não pode ser imprensada dentro de uma definição ética sem perverter sua natureza e esterilizar a sua fecundidade.
8. - Ao contrário da personalidade, o caráter é impessoal. O discurso da personalidade é a psicologia humana; o discurso do caráter é a descrição imaginativa.
9. - Acontece com o eu o mesmo que com a personalidade. O eu é reflexivo, apontando de volta para o sujeito, fundindo-o ao seu rival abstrato, o ego. O eu se resume às pessoas: não falamos do eu de um cavalo, um pinheiro ou um promontório, no entanto sentimos o caráter definido de cada um.
10. - A singularidade leva o caráter para além do temperamento e do tipo.
11. - O caráter deixa traços na história política. Como determinante do rumo dos acontecimentos humanos, o caráter liga a psicologia à sociedade, afastando a psicologia de sua subjetividade obsessiva.
12. O caráter reintroduz o Destino na psicologia. As substituições do caráter eliminaram essa antiga ligação. Ego, personalidade, eu, agente, indivíduo reduzem a psicologia ao estudo do comportamento humano - processos, funções, motivações - e omitem as inevitáveis consequências que a ideia de caráter implica.
A psicologia despojada do destino é superficial demais para abordar seu assunto, a alma.
13. - O caráter é para a velhice o que o chamado do daimon é para a juventude.
Ele dá sentido e propósito às mudanças do envelhecimento.
O caráter é uma ideia terapêutica...
E o que resta?
O que resta é o pedaço de destino que o caráter único de cada pessoa personifica..."
A noção de bom caráter X mau caráter, atrelada quase que exclusivamente à amarra moral torna-se assim de certa forma acanhada e redutiva, para definirmos a ideia de caráter...
O que Hillman propõe é uma visão imaginativa do caráter também como estilo estético, gostos individuais, comportamentos e traços individuais, a imagem que fica da pessoa, seu modo único de agir, suas esquisitices e excentricidades...
Se, seguindo Hillman, a velhice requer coragem e curiosidade,
o carátertambém necessita desses anos adicionais para confirmar-se e realizar-se...
Rosanna Pavesi/Março 2014
domingo, 16 de fevereiro de 2014
FANTASIA: FANTASMA, ATIVIDADE IMAGINATIVA, IMAGENS DE FANTASIA E E SONHOS...
domingo, 12 de janeiro de 2014
O SILENCIO...
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
DE UMA COISA SABEMOS...
sábado, 14 de dezembro de 2013
AS DUAS FORMAS DE PENSAMENTO SEGUNDO C.G. JUNG
![]() |
| Sem título - autor desconhecido AS DUAS FORMAS DE PENSAMENTO SEGUNDO C.G. JUNG
Pensamento Dirigido e Pensamento Fantasia ou Associativo
são termos introduzidos por Jung para descrever diferentes formas da atividade mental
e os diferentes modos como
a psique se expressa.
Pensamento Dirigido
É um pensamento com
atenção dirigida
Lógico, linguístico,
intelecto, raciocínio, instrumento da cultura
Uso consciente da linguagem
e dos conceitos, do intelecto,
da exposição científica e do senso comum.
É um
fenômeno inteiramente consciente
Está baseado na realidade ou
erigido com referência a ela.
Finalidade: a comunicação
Enquanto pensamos
de modo dirigido, pensamos para fora,
para outros e falamos a outros.
Produz: adaptação, aquisições novas, imita a realidade,
sobre a qual procura agir (ciência,
tecnologia, técnica, etc.).
Origens: na Escolástica, origem do espírito científico
moderno.
Pensamento-Fantasia, ou Associativo
É um pensamento por imagens (sonhar,
fantasiar)
É “arcaico-primitivo”
É metafórico, simbólico, imaginativo,
segue analogias
É dirigido por motivos
inconscientes
Pode ser consciente, mas é
normalmente pré-consciente ou inconsciente em seu funcionamento
É passivo (sofremos a ação
dele), fantástico, frequentemente compensatório
É motivado, sobretudo, subjetivamente.
Não pretende estabelecer teoria alguma, só liberta tendências subjetivas.
Afasta-se da realidade.
É improdutivo
com relação à adaptação externa
Pensa por metáforas ou
constelações, compondo um tema, emoções e intuições,
onde imagem segue imagem,
sensação a sensação, etc.
Na cultura antiga a fantasia
era considerada como verdade legítima reconhecida por todos.
Aquilo que para nós é
fantasia oculta, outrora estava exposto publicamente.
Aquilo que para nós
emerge em SONHOS e fantasias,
antigamente era hábito consciente ou convicção
geral.
Outras Considerações
O pensamento-fantasia (ou “associativo”) ainda ocupa
um lugar amplo
no homem contemporâneo e sobrevêm assim que
o pensamento
dirigido cessa.
Um enfraquecimento de interesse, um leve cansaço
é o
suficiente para anular a adaptação psicológica exata ao mundo real
que se
manifesta pelo pensamento dirigido
e substituí-la por fantasias.
Como sabemos, também o SONHO apresenta
um pensamento
semelhante ao pensamento-fantasia.
Durante toda a vida,
ao lado do pensamento dirigido
ou adaptado (recém-adquirido),
possuímos
um pensamento-fantasia
que corresponde a estados de espírito ancestrais.
Pelo pensamento-fantasia se faz a ligação do
pensamento dirigido
com as “camadas” mais antigas do espírito humano,
que há
muito se encontram abaixo do limiar do consciente:
"... no sono e no sonho tornamos a atravessar o pensamento da humanidade antiga..."
(Nietzsche, citado no par. 27 do texto abaixo) |
(Fonte: C.G. Jung, Símbolos de Transformação, O.C. Vol. V- Parte I – Cap.II – Par. 04-46 e/ou p. 06-28 – Edit. Vozes, Petrópolis, RJ, 1989, 2.a edição).
Para Jung, o pensamento dirigido e o pensamento-fantasia coexistiriam
como duas perspectivas em separado e iguais,
embora o último seja mais enraizado, pode-se dizer,
nas camadas arquetípicas da psique.
Essa postura equitativa aproxima as ideias de Jung daquilo que ora conhecemos
sobre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais (esquerdo e direito)
cuja interação é básica para o funcionamento mental humano.
Os SONHOS podem ser considerados expressões típicas
de pensamento de fantasia
embora elementos de uma perspectiva lógica também possam aparecer nos mesmos.
Diz-se que às vezes a interpretação (ou transcodificação) de um sonho
introduz o pensamento dirigido;
porém, uma apreciação mais acurada seria que
a interpretação é realmente, ou deveria ser,
uma combinação de pensamento dirigido e pensamento de fantasia,
pois nela está envolvida a imaginação.
Ao falar de sonhos,
talvez sejamos mais inclinados a utilizar o pensamento dirigido
Porém, ao falar com os sonhos,
talvez uma linguagem mais onírica, imaginal, seja mais apropriada...
Atualmente, além de falar em hemisfério direito e hemisfério esquerdo,
fala-se também de cerébro em camadas, ou "fatias" horizontais...
Seja como for, as duas formas de pensamento citadas por Jung ainda fazem
bastante sentido para mim,
não importa de que hemisfério ou camada do cerébro provenham...
O mais importante, a meu ver,
é saber que precisamos de ambas,
porém sem confundir uma com a outra...
Rosanna Pavesi/Dezembro 2013
(Nota adicional:
Pensamento Dedutivo: da teoria para a prática; do geral para o particular;
parte de premissas e, destas, procura derivar conclusões práticas;
começa com as verdades estabelecidas.
Pensamento Dedutivo: da teoria para a prática; do geral para o particular;
parte de premissas e, destas, procura derivar conclusões práticas;
começa com as verdades estabelecidas.
Pensamento Indutivo: empírico, experimental; da prática para a teoria; d
o individual para o geral;
começa com os fatos e a observação e quer estabelecer padrões gerais para a mesma classe).
o individual para o geral;
começa com os fatos e a observação e quer estabelecer padrões gerais para a mesma classe).
terça-feira, 26 de novembro de 2013
SOBRE SONHOS...
![]() |
| Fonte: Google - autor desconhecido SOBRE SONHOS... Ao trabalhar com sonhos, sempre procuro manter presentes alguns pontos que recolhi ao longo do tempo...
PERGUNTA SEMPRE EM ABERTO:
SOMOS NOS QUE SONHAMOS OU É O SONHO QUE NOS SONHA?
PREMISSA BÁSICA:
“UM SONHO É ALGO EM SI E POR SI MESMO...
É UM PRODUTO IMAGINAL. É UMA IMAGEM...
(Patricia Berry, Uma Abordagem ao Sonho em
Echo’s Subtle Body- Contribution to an Archetypal Psychology – Spring Publications, Dallas, 1982).
COMO TRATAR UM SONHO:
“FAR-SE-IA BEM EM TRATAR CADA SONHO
COMO SE FOSSE ALGO TOTALMENTE DESCONHECIDO.
OLHE-O DE TODOS OS LADOS, TOME-O EM SUA MÃO,
LEVE-O COM VOCÊ,
DEIXE QUE SUA IMAGINAÇÃO BRINQUE COM ELE...”
(C.G. Jung – O.C. Vol. X – par.320)
COMO PROCESSO:
“A INTERPRETAÇÃO, OU MELHOR,
A TRANSCODIFICAÇÃO DE UM SONHO,
É UM PROCESSO DE “DIÁLISE” PSÍQUICA...
INESPERADA METÁFORA ORGÂNICA, ENTRANHADAMENTE CORPORAL,
PARA O PROCESSO EM QUE A MATÉRIA DO SONHO
SAI DAQUELE QUE A PRODUZIU, CIRCULA EM OUTRAS VEIAS,
É COMO QUE RETRANSFUNDIDA NO ANALISTA
PASSANDO PELO SEU CIRCUÍTO EMOCIONAL
E DAÍ RETORNA OXIGENADA, TRANSFORMADA, ENRIQUECIDA
AO SONHADOR...”
(Roberto Gambini em A Voz e o Tempo - Cotia, SP, Ateliê Editorial, 2008)
ALQUIMICAMENTE:
“DREAMING THE DREAM ALONG:
SPEAK TO THE DREAMS AND NOT OF THE DREAMS...
SPEAK TO DREAMS AS THE DREAMS THEMSELVES SPEAK,
THAT IS DREAMINGLY, IMAGISTICALLY AND MATERIALLY…”
James Hillman in Alchemical Psychology - Uniform Edition – 5 – Spring Publications, 2010)
Tradução Livre:
(SONHAR O SONHO...
FALE COM OS SONHOS, AO INVÉS DE FALAR DE SONHOS...
FALE COM ELES USANDO A MESMA LINGUAGEM QUE ELES (OS SONHOS) USAM...
OU SEJA, ONIRICAMENTE, IMAGINAL E IMAGISTICAMENTE, MATERIALMENTE...).
Dou muito valor aos sonhos e respeito a vida onírica...
Levo a sério...
Em momentos de empasse, sempre me ajudaram...
Em momentos de "cegueira" sempre me alertaram, me sacudiram, me acordaram...
Rosanna Pavesi/Novembro 2013
|
domingo, 3 de novembro de 2013
SOBRE COMO TRATAR A TERRA: O CONVITE,,,
| Terra em Camadas (by Rosan) O CONVITE... "... O campo ainda fumegava, mas o fogo estava extinto. Com sua pá afiada como uma navalha, titio revirava restolhos e raízes enegrecidas aqui e ali, expondo a terra assim ainda mais. |
"O que vai semear aqui?" perguntei.
"Não vou semear nada" titio respondeu.
"Titio, por que vai deixar a terra nua e sem semear?"
"Para ser um convite", titio respondeu.
Os pinheiros e carvalhos não se dispõem a nascer nos campos
e formar novos bosques
se não deixarmos a terra sem semear.
"As sementes da vida nova não encontrarão nenhuma hospitalidade, nem motivo para pousar aqui,
a menos que a deixemos árida, que a deixemos nua,
para que uma floresta de sementes a considere hospitaleira".
"Pois a terra tem muita paciência...
Ela aceita a semente, a erva daninha, a árvore, a flor.
Aceita a chuva, o grão, o fogo.
Permite a entrada e nos convida.
Ela é o anfitrião perfeito", disse titio.
E foi assim que, com o tempo, esse campo aberto por uma queimada -
em pousio e à espera -
atraiu para si exatamente os estranhos certos,
exatamente as sementes certas.
No devido tempo, às árvores vieram e,com elas,
os pássaros, as borboletas, um lar vivo...
À primeira luz da manhã, o campo, outrora vazio, agora floresta,
reluzia como um palácio no qual todas as formas absorviam luz
e a devolviam multiplicada mil vezes...
Eu entendi...
As sementes da terra, as criaturas da terra,
as estrelas no firmamento e nós mesmos
todos éramos convidados desse campo..."
Sobre o que não pode morrer nunca...
"... Titio faleceu, mas suas histórias perduram em cada campo vazio,
em cada um e em qualquer um que assuma o papel de anfitrião,
que espere, paciente,
que a nova semente chegue e produza abundância.
Em cada campo em pousio novas vidas estão esperando para renascer...
E o que é mais expantoso, essa nova vida virá, quer queiramos ou não.
Podemos arrancá-la a cada vez,
mas ela enraizar-se-á e voltará a se fundar.
Novas sementes chegarão com o vento e não pararão de chegar,
dando muitas oportunidades para mudanças de sentimentos,
para a volta do sentimento, para a "cura" do coração e, afinal,
para uma nova opção de vida...
E o que não pode morrer nunca?
É aquela força que já nasce dentro de nós,
que é maior do que nós,
que chama as novas sementes para os lugares áridos, maltratados, abertos,
para que possamos nos ressemear"...
(Notas: Clarissa Pinkola Estés, O Jardineiro Que Tinha Fé,, Rocco Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1996).
Já fui campo em pousio, campo forçadamente em pousio,
após uma queimada que ocorreu, simplesmente ocorreu,
sem ser por mim promovida, nem desejada, nem convidada...
Meu campo ficou árido e abandonado por um bom tempo...
ou, assim me pareceu...
Até que, aos poucos, esse campo ainda potencialmente fértil,
voltou a hospedar vida, voltou a dar um novo quinhão de beleza e exuberância...
Rosanna Pavesi/novembro 2013
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domingo, 20 de outubro de 2013
O CANTO DAS SEREIAS...
(sem título)
O CANTO DAS SEREIAS...
Quem é tão firme que nada possa seduzir?
O canto das sereias é uma imagem que remonta às fontes da mitologia e literatura gregas.
As versões e os detalhes da narrativa variam de autor para autor,
mas o sentido da trama é comum...
As sereias eram criaturas sobre-humanas:
ninfas de extraordinária beleza e de magnetismo sensual.
Viviam sozinhas numa ilha do Mediterrâneo, mas tinham o dom de chamar a si os navegantes,
graças ao irresistível poder de sedução do seu canto.
Atraidos pela melodia divina, os navios costeavam a ilha,
batiam nos recifes submersos da beira-mar e naufragavam...
As sereias então devoravam impiedosamente os tripulantes.
O litoral da ilha era um gigantesco cimitério marinho no qual estavam atulhadas
as incontáveis naus e ossadas tragadas por aquele canto sublime desde o início das eras.
Doce o caminho, amargo o fim...
Muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram salvar-se.
A literatura grega registra duas soluções vitoriosas:
(1) Uma delas foi a saída encontrada por Orfeu,
o incomparável gênio da música e da poesia na mitologia grega:
Quando a embarcação na qual ele navegava entrou inadvertidamente no raio de ação das sereias, ele conseguiu impedir que a tripulação perdesse a cabeça
tocando uma música ainda mais doce e sublime do que aquela que vinha da Ilha...
(2) A outra solução foi a encontrada e adotada por Ulisses no poema homérico.
O heroi da Odisséia, que não era dotado de talento artístico sobre-humano,
no momento em que a embarcação que comandava começou a se aproximar da ilha,
mandou que todos os tripulantes tapassem os próprios ouvidos com cera
e ordenou que amarrassem-no ao mastro central do navio.
Avisou ainda que, se por acaso ele exigisse que o soltassem dalí, o que deveriam fazer
era prendê-lo ao mastro com mais cordas e redobrada firmeza.
Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias mas seus subordinados souberam
- contudo - cumprir fielmente sua ordem.
Ulisses, é verdade, por pouco não enloqueceu de desejo mas as sereias,
desesperadas diante daquela derrota para um simples mortal, afogaram-se de desgosto no mar...
Orfeu escapou das sereias como divindade...
Ulisses como mortal...
Ulisses não tampou seus próprios ouvidos com cera, ele quis ser seduzido, ele quis ouvir...
Ulisses não se furtou à experiência de ouvir e desejar desperadamente
aquilo que o levaria ao naufrágio e à morte certa.
A verdadeira vitória de Ulisses foi contra ele mesmo...
O embate entre Ulisses e as sereias dramatiza e dá proporções épicas
a um conflito que acompanha a nossa prosaica odisséia pela vida.
Preferir o que quer que esteja presente em relação ao que está distante e remoto,
que nos faz desejar os objetos mais de acordo com a gratificação imediata
do que com o seu valor intrínseco...
A toda hora, a cada instante, em cada esquina, em cada shopping, em cada publicidade,
há um canto de sereia esperando, de pequenas ou grandes proporções...
Saberemos discernir quando dizer "sim" e quando dizer "não"?
Rosanna Pavesi/Outubro 2013
Quem é tão firme que nada possa seduzir?
O canto das sereias é uma imagem que remonta às fontes da mitologia e literatura gregas.
As versões e os detalhes da narrativa variam de autor para autor,
mas o sentido da trama é comum...
As sereias eram criaturas sobre-humanas:
ninfas de extraordinária beleza e de magnetismo sensual.
Viviam sozinhas numa ilha do Mediterrâneo, mas tinham o dom de chamar a si os navegantes,
graças ao irresistível poder de sedução do seu canto.
Atraidos pela melodia divina, os navios costeavam a ilha,
batiam nos recifes submersos da beira-mar e naufragavam...
As sereias então devoravam impiedosamente os tripulantes.
O litoral da ilha era um gigantesco cimitério marinho no qual estavam atulhadas
as incontáveis naus e ossadas tragadas por aquele canto sublime desde o início das eras.
Doce o caminho, amargo o fim...
Muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram salvar-se.
A literatura grega registra duas soluções vitoriosas:
(1) Uma delas foi a saída encontrada por Orfeu,
o incomparável gênio da música e da poesia na mitologia grega:
Quando a embarcação na qual ele navegava entrou inadvertidamente no raio de ação das sereias, ele conseguiu impedir que a tripulação perdesse a cabeça
tocando uma música ainda mais doce e sublime do que aquela que vinha da Ilha...
(2) A outra solução foi a encontrada e adotada por Ulisses no poema homérico.
O heroi da Odisséia, que não era dotado de talento artístico sobre-humano,
no momento em que a embarcação que comandava começou a se aproximar da ilha,
mandou que todos os tripulantes tapassem os próprios ouvidos com cera
e ordenou que amarrassem-no ao mastro central do navio.
Avisou ainda que, se por acaso ele exigisse que o soltassem dalí, o que deveriam fazer
era prendê-lo ao mastro com mais cordas e redobrada firmeza.
Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias mas seus subordinados souberam
- contudo - cumprir fielmente sua ordem.
Ulisses, é verdade, por pouco não enloqueceu de desejo mas as sereias,
desesperadas diante daquela derrota para um simples mortal, afogaram-se de desgosto no mar...
Orfeu escapou das sereias como divindade...
Ulisses como mortal...
Ulisses não tampou seus próprios ouvidos com cera, ele quis ser seduzido, ele quis ouvir...
Ulisses não se furtou à experiência de ouvir e desejar desperadamente
aquilo que o levaria ao naufrágio e à morte certa.
A verdadeira vitória de Ulisses foi contra ele mesmo...
O embate entre Ulisses e as sereias dramatiza e dá proporções épicas
a um conflito que acompanha a nossa prosaica odisséia pela vida.
Preferir o que quer que esteja presente em relação ao que está distante e remoto,
que nos faz desejar os objetos mais de acordo com a gratificação imediata
do que com o seu valor intrínseco...
A toda hora, a cada instante, em cada esquina, em cada shopping, em cada publicidade,
há um canto de sereia esperando, de pequenas ou grandes proporções...
Saberemos discernir quando dizer "sim" e quando dizer "não"?
Rosanna Pavesi/Outubro 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
O "EU-AGORA" E... O "EU-DEPOIS"...
Sem Título
O "EU-AGORA"...
"Jovem, entusiasta, frequentemente inebriado de desejo, sempre disposto a desfrutar
o que o momento pode oferecer de melhor...
generoso, sem dúvida, mas com a vista curta, certa miopia temporal,
e forte inclinação a descontar pesadamente o futuro.
O bem imediato é sua razão de ser...
O eu-agora vive de forma intensa e tende a encarar a vida não em seu conjunto,
mas como uma sequência de situações-oportunidades isoladas,
sem um fio condutor que lhes dê maior coerência ou unidade.
O "EU-DEPOIS"...
Um adulto desconfiado, frequentemente avinagrado de preocupações,
sempre com um olho na própria saúde e no carnê da previdência...
Cioso de seu horizonte profissional, cauteloso em meio a um mar de dúvidas,
mas capaz de enxergar um pouco mais longe do que o eu-agora,
ainda que ao custo de muitas vezes descontar pesadamente o presente.
O bem remoto é o seu único foco...
O eu-depois, tenta estabelecer uma boa distância crítica de si mesmo,
faz uso de certa hipermetropia temporal,
e procura encar sua vida, se não como um todo e do princípio ao fim,
ao menos como uma sequência razoavelmente estruturada e coerente de opções estratégicas.
O eu-depois é, no fundo, o eu-agora visto de longe e de fora,
à luz do seu próprio passado, mas no silêncio das paixões do momento
e a parte de um ponto futuro.
Excessos e Abusos
Os excessos e abusos podem advir de ambos os lados...
O eu-agora sem a perspectiva disciplinadora do eu-depois é, no limite,
um "primata" desmiolado e impulsivo - ração de sereias e de seu canto...
Mas o eu-depois, sem o entusiasmo sonhador do eu-agora não passa de
um autômato calculista e previsível - um ente surdo a qualquer chamado
que ameace a sua existência futura em condição indolor de conforto.
O "robô" e o "macaco" precisam um do outro...
O abuso de poder por parte do eu-agora se apresenta como astúcia persuasiva
quando se trata de legitimar a sua forte preferência pelo bem aparente da gratificação imediata;
isso tende a suscitar a reação das forças contrárias, algum "golpe autoritário" de eu-depois...
Como é uma via de mão-dúpla, o eu-agora reage, em seguida o eu-depois também,
e assim por diante, numa gangorra infernal...
Na mente de um jovem, a disputa pela autoridade entre o eu-agora e o eu-depois
pode resultar tanto:
(a) na exploração do velho que ele um dia será pelo jovem que ele é, como
(b) na exploração do jovem que ele é pelo velho que ele imagina um dia ser...
A passagem é estreita..."
(Notas:Eduardo Giannetti em Auto-Engano, Cia das Letras, São Paulo, SP, 1997)
A Árvore da Vida (by Rosan)
Reconhecer a presença tanto do eu-agora como do eu-depois dentro de nos, a nível intrapessoal ,
em qualquer idade, me parece fundamental...
Porém, a partir da perspectiva de um eu-agora que já se tornou um eu-ontem
no presente de um eu-depois,
confesso que gosto de ter sido um pouco sensata, porém não muito, quando jovem,
e de ter feito apostas totalmente "insensatas" quando jovem e já na vida adulta também...
apostas que não respondiam a uma lógica calculista mas sim à força de um sonhar a vida,
além de simplesmente vivé-la...
Pessoalmente, não me arrependo...
Finalizando...
Em outro livro do mesmo autor (O Valor do Amanhã, Cia das Letras, São Paulo, SP, 2005),
há duas frases que me inspiram até hoje e que transcrevo aqui, deixando a reflexão
por conta de cada eventual leitor desse texto:
"A vida é um intervalo finito de duração indeterminada..."
"O futuro responde à ousadia do nosso querer.
A capacidade de sonho fecunda o real, re-embaralha as cartas do provável
e subverte as fronteiras do possível.
OS SONHOS SECRETAM FUTURO...
Fico com a "versão 2005 "...
(Rosanna Pavesi/Outubro 2013)
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