segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS" BY JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


" A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS" 
José Eduardo Agualusa
(Ed. Planeta 2017)

O jornalista Daniel Benchimol sonha com pessoas que não conhece.
Moira Fernandes, artista plástica moçambicana encena e fotografa os próprios sonhos.
Hélio de Castro, neurocientista brasileiro, desenvolveu uma máquina capaz de filmar os sonhos de outras pessoas. Hossi Kaley, hoteleiro, com um passado obscuro e violento, tem uma relação com os sonhos muito diversa e ainda mais misteriosa: 
ele pode caminhar pelos sonhos alheios, ainda que não tenha consciência disso.

O livro é uma fábula política, satírica e divertida que defende a reabilitação do sonho
enquanto instrumento da consciência e da transformação.


Livro que li recentemente e que me impactou...
Transcrevo a seguir, um trecho específico e, a meu ver, bastante significativo...



Fonte: WEB




"40.

A porta do palácio estava fechada, mas nenhum soldado a defendia.
Então Hossi atravessou a parede. Cruzou-a com desenvoltura, num salto elástico e firme,
como se o destino das paredes fosse ser atravessadadas.
O presidente esperava-o, de pé, num gabinete enorme, diante de uma mesa atafulhada de papéis.
Era um homem ainda aprumado, com um porte de bailarino, não obstante ter ultrapassado os setenta anos e sofrer de uma grave doença óssea.

O Hossi e o presidente encararam-se como dois galos numa rinha, segundos antes de se lançarem um contra o outro.
- O que você quer - perguntou o presidente.
- Tudo! - respondeu Hossi.

Disse isso enquanto, com um simples gesto, rachava o presidente ao meio. Do interior do presidente irrompeu um presidente menor, mas ainda mais empertigado que o anterior:

- Por quê?  - perguntou o pequeno presidente.
- O senhor roubou-nos o país.

- Ninguém rouba o que é seu - contestou o pequeno presidente. - Somos todos angolanos.
- Somos sim, mas o que estava combinado era que as riquezas da nação seriam utilizadas em proveito geral. Você destruiu o futuro dos nossos filhos. Destruiu o nosso sonho. Diga a verdade.

- Que verdade?
- Por que prendeu os revus?
- São terroristas.

Com o mesmo gesto simples, Hossi rachou o pequeno presidente ao meio.
Logo um outro homenzinho, mínimo, que mal chegava aos joelhos do antigo guerrilheiro, emergiu do interior do pequeno presidente..

- Por que prendeu os revus? - insistiu Hossi.
- São perigosos - disse o mínimo presidente. A voz tremia-lhe. - Você viveu a guerra. Esses miúdos não. Eles não conhecem o horror da guerra. Estão a atear incêndios. A dividir a sociedade.Mandei-os prender porque não quero uma nova guerra.


Fonte: WEB

Hossi rachou o mínimo presidente ao meio. O que surgiu em seu lugar era um ser ínfimo, assustado, com uma minúscula voz de cana rachada. 

- Pare! - implorou o ínfimo presidente. - O que você quer?
- Diga a verdade. Por que prendeu os revus?

O ínfimo presidente rendeu-se:
- Eles não têm medo! Esses miudos não têm medo! Onde já se viu?! São malucos, não mostram medo, e isso é uma doença contagiosa.
- Isso, o senhor que dizer, a coragem?
- São malucos. Você não percebe que são malucos? Se os solto vão contagiar toda a gente. Vão destruir-me, a mim e à minha família. Vão destruir tudo aquilo que nós construímos.Não os posso soltar.

Hossi pisou o ínfimo presidente,  esmagando-o.

Pessoas começaram a atravessar as paredes: jovens com batuques; velhos carregando enxadas e catanas; mecânicos, com os macacões sujos de óleo; rapazes mucubais, com crinas de zebra na cabeça. Meninos descalços, quimbandeiros, soldados, estudantes pescadores. E também catorzinhas, quitandeiras, peixeiras, zungueiras, kinguilas, as antiquíssimas bessanganas, dobradas ao peso da idade; mamãs grávidas, com um filho às costas e outro pela mão; cozinheiras, lavadeiras e babás.



Fonte: WEB


Todas aquelas pessoas ficaram ali, no imenso gabinete presidencial, girando como peixes num aquário; comtemplando, com redondos  olhos de assombro, as telas nas paredes e os armários de portas abertas, dentro dos quais se podiam ver milhares de bustos do presidente, em ouro e prata; as cabeças empalhadas dos antigos fracionistas e inimigos do povo, desaparecidos havia tanto anos; boiões de vidro cheios de pequenos corações aflitos, ainda vivos e palpitantes e, ao lado, globos de cristal em que flutuavam, num céu tão azul quanto o da minha infância nos dias felizes, as brincadeiras por estrear das catorzinhas e dos meninos descalços.

- Está tudo aqui - disse uma das bessanganas apontando ao redor.
- Todos os dias que nos roubaram.

Começou a chorar.
Chorava e ria.
Aquela bessangana éramos todos nós".


Fonte: WEB


Segundo Mia Couto, "Agualusa é um tradutor de sonhos e seu livro é um 
romance tecido com os mais delicados materiais da poesia...".


Vale conferir...


Rosanna Pavesi/ - fevereiro 2020










sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

REFLEXOÉS DE UMA ENERGÚMENA: SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...

    

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...



Bienal de São Paulo - 2018


O post a seguir foi publicado em janeiro de 2012, um dos primeiros posts deste blog...

VEJA...
-----------------------------------------------------------------------------------------

Cidade de Sonho - Rosan

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...

 Gostaria de propor uma reflexão sobre os sonhos que sonhamos acordados, 
aqueles sonhos que tecemos para nos e nossa vida, 
a partir da frase de Mario Quintana que norteia esse blog, a saber:

       "Uma vida não basta ser vivida. Ela precisa ser sonhada..."

O que seria sonhar uma vida? 
Qual a diferença entre uma vida só vivida e uma vida vivida e sonhada?
A meu ver, se só viver não basta, também só sonhar  não basta...
Devemos sim sonhar, fazer planos, 
mas também precisamos ter a coragem de realizá-los, 
com a ousadia que nossos sonhos reclamam para si...

É sabido que os pais já tecem sonhos a respeito do futuro dos filhos até mesmo antes deles nascerem; 
de forma que, por certo tempo, "vivemos" dos sonhos que nossos pais projetaram sobre nos... 
Mas vamos crescendo e somos chamados a tecer nossos próprios sonhos, 
nos apropriar deles e construir nosso futuro.

Às vezes, nos deparamos com "uma pedra no caminho", 
como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade...
Neste caso, é sabio não chutar a pedra, mas sim conversar com ela, 
perguntar a que veio e ter a coragem de escutar o que a pedra tem a dizer... 

Em seu livro O Valor do Amanhã  (São Paulo, SP, Edit. Companhia das Letras, 2005)
 Eduardo Giannetti retoma a fábula da Cigarra e da Formiga e escreve 
sobre a realidade dos juros e como ela se manifesta em todas as situações 
da vida prática 
nas quais os valores presentes e futuros medem forças em nossas escolhas e ações. 
O autor encerra seu livro com uma bela passagem sobre 
os sonhos que sonhamos acordados 
que transcrevo a seguir, por acreditar ser pertinente:

"... Os indivíduos perecem, mas a sociedade a que pertencem
 - obra aberta que une na mesma trama os valores dos mortos, dos vivos e dos que estão por vir - 
segue em frente. 
O passado condiciona, o presente desafia, o futuro interroga.

A previsão lida com o provável e responde à pergunta: O que será?
A delimitação do campo do possível lida com o exeqüivel, e responde à pergunta: 
O que pode ser?
E a expressão da vontade lida com o desejável e responde à pergunta: 
O que sonhamos ser?

As relações entre esses modos de conceber o futuro não são triviais: 
de um lado está a lógica: o desejável precisa respeitar a disciplina do provável e do possível. 
Mas, do outro lado, está o sonho. 
Se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta. 
Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável ou ao exeqüível 
é condenar-se ao passado e à repetição.

No universo das relações humanas, 
o futuro responde à força e à ousadia do querer. 

A capacidade de sonho fecunda o real,
           reembaralha as cartas do provável 
e subverte as fronteiras do possível.

     "Os sonhos secretam futuro"

É bom lembrar que todas as invenções e descobertas da humanidade foram consideradas, 
em algum momento, impossíveis.....
De forma que, talvez, jamais se permitir sonhar acordado, ousar, apostar, arriscar, 
ou jamais se atrever, possa vir a ser a pior aposta possível.

E se algum sonho ou imagem de fantasia se apresentar, fique com ele/a...
Ele/a tem algo a lhe dizer, isso lhe diz respeito... 
Construa uma ponte entre a realidade psíquica e a realidade terrena pois, 
afinal, não são dois mundos separados, 
são apenas as duas faces de uma mesma realidade: a sua...


Quintana tinha razão... 
Por isto o nome do blog é Oficina de Sonhos, 
uma Oficina que se quer desejante e participante de "secretar futuro",
 assim como outros já fizeram no passado, o fazem no presente, 
cada qual a seu modo e, espero, continuarão fazendo no futuro...
           Sim: 
Uma vida não basta ser vivida. 
Ela precisa ser sonhada...


Rosanna Pavesi/jan.2012
                                                                                                            -----------------------------------------------------


Fonte: WEB


O QUE MUDOU DE JANEIRO 2012 PARA DEZEMBRO 2019?

Na realidade brasileira muita coisa mudou...,
Que cada um faça  sua própria reflexão e considerações...

De minha parte, descobri que sou uma "energúmena"...
Explico:
Continuo acreditando na capacidade do sonho fecundar o real,
reembaralhar as cartas do provável, 
e subverter as fronteiras do possível....


Fonte: WEB

"Os sonhos, ah, os sonhos!
Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver,
mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso.
Talvez seja o contrário disso.Nem sei.

Acontece-me, por vezes, acreditar numa determinada ideia e 
no oposto dela com idêntica paixão,ou sem paixão nenhuma.

Nos útimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão.
Também venho perdendo ideias e ideais.
Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana.
O que você acha?"

(José Eduardo Agualusa em  A Sociedade dos Sonhadores Involuntários,
São Paulo: Planeta 2017).


Fonte: WEB



Um livro que é uma fábula política, satírica e divertida
que defende a reabilitação do sonho enquanto instrumento 
da consciência e da transformação...

De minha parte, devo dizer que meus cabelos ficaram brancos, mas ainda não os perdi...
Só me tornei uma energúmena de cabelos brancos...


Rosanna Pavesi/Dezembro 2019






quarta-feira, 24 de julho de 2019

ESPIRITUALIDADE: ORIENTE E OCIDENTE

Web


VELHO DITADO CHINÊS:

"SE O HOMEM ERRADO USA OS  MEIOS CERTOS,
OS MEIOS CERTOS FUNCIONAM DE MANEIRA ERRADA".

A paixão ocidental pelas disciplinas orientais tem frequentemente como resultado, 
um transplante artificial dos valores orientais para o solo ocidental, levando a uma espécie de
"materialismo espiritual".

Assim como a Hidra mítica, cuja cabeça cortada é sempre substituida por duas outras,
o ego perpetuamente idêntico a si mesmo, enfadonho e ansioso por transcendência, 
parece reemergir fortalecido e solidificado , como resultado direto da tentativa
metódica de diminuí-lo.

As pessoas irão praticar yoga, observar regimes estritos de dieta, repetir mecanicamente textos místicos - 
somente por causa da descrença em qualquer coisa boa que pudesse advir de suas próprias almas.
Ao invés de tomar emprestado negligentemente os tesouros do Oriente,
talvez devessemos - primeiro - tentar modelar nossas vidas a partir 
de nossas próprias raízes psíquicas?

O espírito enraizado no Oriente, uma vez arrancado e importado para o Ocidente
aqui chega privado de seu rico solo imaginal, esterilizado e cheirando a sándalo?



Paixão Silenciada - by Rosan


Segundo Roberts Avens (Imaginação É Realidade -  Vozes - 1993):

"Primeiro imaginação, depois espírito. 
Não há, entretanto, nenhuma espiritualização sem imaginação porque, no fim,
é a imaginação que "imagina" o espírito, mesmo quando o último finge 
ser independente da imaginação; 
pois a independência ou separação espiritual, como tudo o mais criado pelo homem, 
é um produto e uma fantasia da alma.

(...) A alma NÃO existe separada do que faz, 
incluindo suas configurações espirituais e materiais,
Nem é ela um conglomerado de espírito e matéria. 
A alma está  precisamente , absolutamente, francamente no meio (esse in anima).

Este é o mysterium tremendum et fascinans:
a alma, que estritamente não é, dota tudo o mais com ser e sentido.".



A Chuva - by Rosan


Fica a dúvida e a pergunta:

O homem ocidental faria qualquer coisa para evitar encarar sua própria alma?



WEB


Rosanna Pavesi/Julho 2019.

domingo, 3 de março de 2019

SOBRE A VELHICE...

by Paul Klee



SOBRE A VELHICE...

"A velhice é uma etapa de nossa vida que tem, como todas as demais,
aparências específicas, atmosferas e temperaturas próprias, prazeres
e necessidades peculiares.

Assim como todos os nossos irmãos mais novos, nós, os velhos de
cabelos brancos, também temos uma tarefas que dá sentido à nossa
existência. 
Ser velho é uma tarefa tão bela e sagrada quanto ser jovem, da mesma
forma que aprender a morrer e saber morrer são atributos tão valiosos
quanto quaisquer outros, desde que os encaremos com o devido respeito
pelo significado e pela santidade da vida.

O velho que odeia e teme a velhice, os cabelos brancos e a proximidade
da morte é tão indigno de representar sua categoria quanto o ser
jovem e vigoroso que odeia a própria profissão e sua atividade
diária, delas tentando esquivar-se.

Resumindo:

Para dar sentido à velhice e fazer jus à tarefa nela contida, é preciso
concordar com ela e dizer sim a tudo o que a ela diz respeito.

Sem este sim, sem essa entrega ao que a natureza exige de nós, nossos dias
- sejamos velhos ou jovens - não têm valor nem sentido,
e passamos a enganar a vida.


by Chico Stockinger


Pobre e triste, no entanto, é aquele que se entrega por inteiro a esses processo
degenerativo, sem ver que a velhice também tem seu lado bom,
suas vantagens, seus consolos e suas alegrias.

Quando penso neste lado belo e positivo da vida na velhice e me
lembro de que nós, os encanecidos, também possuimos fontes de
força, paciência e alegria que não têm qualquer importância na vida dos jovens,
(...) posso nomear, agradecido, algumas das dádivas que a velhice nos concede.



by G. Klimt


A que mais aprecio, dentre todas, é o acervo de imagens que guardamos
na memória após uma longa vida e que, com o declínio da atividade,
passamos a enxergar de uma forma nunca antes imaginada.

Silhuetas e perfis de pessoas que já se foram há sessenta ou setenta anos
continuam vivas para nós, nos pertencem, nos fazem companhia e nos
olham com olhos de vivos.

Casas, jardins e cidades que nesse interim desapareceram ou
sofreram grandes mudanças nos parecem exatamente como outrora;
montanhas e praias que décadas atrás admirávamos durante as viagens
continuam frescas e coloridas em nosso album de fotografias.



by Paul Klee



A visão, a observação e a contemplação se transforam cada vez mais
em hábitos e exercícios; sem que o percebamos, a atitude e o interesse
do espectador passam a dominar todo o nosso comportamento.

(...) Aqui, no jardim dos velhos, brotam flores que outrora
nunca nos preocupamos em cuidar.

(...) e quanto menores os nossos anseios por ação e participação,
maior nossa capacidade de ver e ouvir a natureza e o próximo."
(1952).

(Hermann Hesse em Com a Maturidade Fica-se Mais Jovem - Record - 2018).



by Rosan


Um dos textos mais singelo, poético e profundo que já li sobre
o tema...


Rosanna Pavesi/Março 2019







sábado, 23 de fevereiro de 2019

VER E SER VISTO

Fonte: WEB


VER E SER VISTO...

"(...) Em psicoterapia é crucial ver e ser visto, porque
isto oferece a possibilidade de conectar-se com o
que foi terrivelmente reprimido na cultura ocidental:

os deuses e deusas do ver e do tocar, do corpo:
Afrodite, Pã, Sileno.

Em última instância ver e ser visto incumbe mais
aos sentidos e não devemos esquecer Eros e Psiquê:
Psiquê necessita ver.


Fonte: WEB


Se o discurso limita-se aos ouvidos, a escutar,
excluem-se as múltiplas possibilidades do corpo
reprimido, a expressão do corpo físico, 
histórica e tão crucialmente reprimida.



by Vasco Prado



No que me concerne, analista e paciente têm que se ver
e ler as expressões do outro rosto,a outra máscara:
só assim há psicoterapia..

Se o analista é incapaz de aceitar a expressão de seu 
próprio rosto como uma forma de comunicação, é difícl
chamá-lo de psicoterapeuta:

é através do ver e ser visto que falar com o outro
significa falar com um ser humano;
de outro modo poderíamos acabar falando a uma "coisa".



Fonte: WEB



Antonio Machado diz assim:
O olho que vê não é
olho porque tu o vês.
É olho porque te vê.

Ver e ser visto é básico para o diálogo psíquico.
Não se trata apenas dos sentidos, é algo mais.

Quando chego a me dar conta de que não estou olhando os olhos
da pessoa com quem falo, detecto minha própria virgindade
atuando e tratando de me proteger dos olhos do outro.

Machado escreveu outro verso onde podemos compreender 
a mudança de pessoa à coisa:

A coisa que vês não é
coisa porque tu a vês.
Coisa é porque não te vê."

(Rafael López-Pedraza em Ártemis e Hipólito - Mito e Tragédia - Vozes - 2012).


 Fonte: WEB



O olho é olho porque te vê...
Quando não te vê, é coisa...



by Rosan




Rosanna Pavesi/Fevereiro 2019

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

LENDAS SOBRE A ORIGEM DA ESPERANÇA...

Fonte: WEB


LENDAS SOBRE A ORIGEM DA ESPERANÇA...


"Na Índia, a esperança pertence a Maia, a grande Deusa, que nos tenta
com a roda da ilusão.

Como Maia, a esperança tece as incontáveis fantasias de nosso destino.
Somos apanhados numa teia de esperanças que é a vontade de viver,
experimentada como projeções rumo ao futuro.

Como emoção fundamental, a esperança de Maia seria o que a 
psicologia moderna chama de a função projetiva da psique
que nunca nos abandona enquanto formos vivos.,
induzindo-nos para a frente.



Fonte: WEB


No Ocidente, Pandora é a contrapartida de Maia.
As lendas de criação de ambas mostram paralelos.

Na Grécia, Zeus fez Pandora como uma estátua de tamanho humano,
pintada com a beleza, o primeiro "doce engano", dotada de virtudes
por vinte das divindades gregas.

Na Índia, a Grande Deusa tomou  forma como um produto
composto pelo panteão hindu reunido para salvar o mundo do desespero.



Fonte: WEB


Em outra  lenda, apareceu sob forma de Aurora; e então, como Sati,
foi modelada por Brahma na presença de vinte divindades para tentar Shiva,
afastando-o do isolamento ascético, de modo que o eterno jogo da vida
pudesse continuar, procriando e esfoliando sem cessar.

Associadas às deusas grega e hindu  estão todas as loucuras e vícios
da paixão humana e todas as energias criativas
(Shiva e Brahma; Prometeu, Hefesto,  Zeus).



Fonte: WEB


Pandora, em sua forma original, era representada por uma jarra ou vaso grande.
Esse vaso, tornou-se uma caixa na tradição posterior.

No vaso de Pandora, jazem escondidos todos os males do mundo.
Quando este foi aberto (e ele deve sê-lo inevitavelmente da mesma maneira
que Eva trouxe o Pecado ao mundo ao ceder à tentação do proibido)
voaram para fora todos os males, todos menos a Esperança.

A criação do mundo fenomenal da ilusão é semelhante na Grécia,
na índia e no Velho Testamento.


Fonte: WEB


A lenda de Pandora narrada por Hesíodo diz-nos que  a esperança é um dos males que estava 
no vaso e é o único que permanece aí dentro.

Fica escondida onde não é vista, ao passo que todos os outros males,
fantasias e paixões são as projeções que encontramos fora, no mundo.

Esses podem ser recapturados, integrando-se as projeções;
mas a esperança está dentro, ligada ao próprio dinamismo da vida.
Onde há esperança, há vida.
Nunca podemos confrontá-la diretamente, do mesmo modo que 
não podemos agarrar a vida, pois a esperança é o anseio de viver no amanhã,
O DEBRUÇAR INSENSATO NO FUTURO...

Vai, vai, vai..."


(J. Hillman em Suicídio e Alma - Vozes - 1993).






Onde a vida está, há esperança. E esta esperança é a própria vontade de viver,
o desejo de futuro - ou como a define o dicionário: "esperar com desejo".

Como poderíamos continuar sem ela? O que é o amanhã sem ela?

Como já disse Carlos Drummond de Andrade:

... como viver em termos de esperança?

... e que palavra é essa que a vida nunca alcança?




Fonte: WEB


Rosanna Pavesi/Dezembro 2018


terça-feira, 23 de outubro de 2018

ANÁLISE: VIDA, MORTE, TRANSFORMAÇÃO...

Sem título - by Rosan



VIDA, MORTE, TRANSFORMAÇÃO...


A vida e a morte chegam ao mundo juntas:
os olhos e as órbitas que as contêm nascem no mesmo momento.

No momento em que nasço tenho idade suficiente para morrer.
À medida em que vivo estou morrendo.
Entra-se na morte continuamente, não apenas no momento da morte conforme definida 
legal e medicamente.
Cada evento de minha vida contribui para minha morte
e construo minha morte à medida que prossigo, dia após dia.

A posição contrária também se segue, logicamente:
qualquer ação contrária à minha morte, qualquer ação que resista à morte,
fere a vida.

A vida e a morte se contêm mutuamente, 
completam-se reciprocamente,
são compreensíveis apenas se colocadas uma em relação à outra.


Sem título -- by Rosan




ANÁLISE
MORTE E TRANSFORMAÇÃO...

Quando nos perguntamos porque toda análise  defronta-se tão frequentemente
e em tal variedade com a experiência da morte, constatamos que, primeiramente,
a morte aparece a fim de dar lugar à transformação.

A flor murcha em volta de sua haste intumescida,
a cobra perde sua pele
e o adulta livra-se de suas maneiras infantis.


Sem título - by Rosan


A força criativa mata ao produzir o novo.
Cada perturbação e desordem chamada neurose pode ser vista
como uma luta de vida e morte na qual os contendores estão mascarados.

O que é chamado de morte pelo neurótico,
basicamente porque é escuro e desconhecido, 
é uma nova vida tentando irromper na consciência;
o que ele chama de vida, pelo fato de ser familiar, nada mais é do que
um padrão moribundo que ele tenta manter vivo.


Sem título - by  Rosan



A experiência da morte destrói a ordem antiga,
e, na medida em que a análise prossegue.
a análise significa morrer...

Talvez o medo de começar uma análise toca nesses terrores profundos
e o problema  fundamental da resistência não pode ser encarado superficialmente.

Sem uma morte para o mundo da ordem antiga,
não há lugar para a renovação.

É ilusório esperar que o crescimento seja apenas um processo aditivo
que não exige nem sacrifício nem morte.

A alma favorece a experiência da morte
para introduzir a mudança...



Catavento - by Rosan


(James Hillman - Suicídio e Alma - Vozes - 1993).


Nada tenho a acrescentar....


Rosanna Pavesi/Outubro 2018



domingo, 1 de julho de 2018

PSICOLOGIA E ALMA...

Lua Cheia - by Rosan


PSICOLOGIA PROFUNDA E ALMA...

"A psicologia profunda redescobriu a alma e colocou-a no centro de suas explorações.
Sob a pressão da psicologia acadêmica, porém, corre o risco de perdê-la de novo.

Ela tem sido mais ou menos mantida fora das acadêmias da psicologia "oficial".
Para aí entrar, exige-se-lhe que apresente seu ponto de vista, sua linguagem
e suas descobertas.

Exige-se-lhe que prove , por métodos experimentais,
seus achados clínicos.
Ela deve traduzir a compreensão clínica na linguagem da explicação científica.
Em resumo, o preço da admissão é a perda da alma.



Fonte: WEB


Talvez, a psicologia profunda seja a pedra que os construtores
da academia rejeitaram...



C.G. Jung - Fonte: WEB


Pode ser que um dia tenha que se tornar a pedra fundamental
de qualquer psicologia verdadeiramente científica, porque
a compreensão da natureza humana deve começar pela alma e usar
os métodos que melhor se adaptem ao objeto de estudo.

Psicologia significa "logos da psique", a fala, o discurso da alma.
Como tal, é necessariamente psicologia profunda, já que - como vimos acima -
a alma refere-se o interior, ao profundo.
E a lógica da psicologia é necessariamente o método de compreensão
que fala sobre a alma e lhe dirige a palavra em sua própria língua.



Prenúncios  - by Rosan


Quanto mais profundamente a psicologia puder ir em sua compreensão,
isto é, em significados interiores universais expressos pela linguagem arquetípica
de "falares"  míticos, tanto mais precisa cientificamente será ela 
e tanto mais alma terá..."

(J. Hillman em Suicídio e Alma" - Vozes, 1993)



La Luna - by Rosan


Nem tudo que é escuro é necessariamente reprimido...

Quando o analista não permanecer inteiramente com a alma,
estará traindo sua vocação e seu analisando...



Rosanna Pavesi/Julho 2018