sábado, 2 de maio de 2020

"21 LIÇÕES PARA A SÉCULO 21" - YUVAL N. HARARI

By Miró


Após lançar um olhar original sobre o passado (Sapiens) e o futuro (Homo Deus) da humanidade, neste livro (21 lições para o século 21), o historiador volta sua atenção para o presente,
abordando questões contemporâneas que vão desde o equilíbrio mental, a compaixão e a resiliência até a guerra nuclear, os desastres ambientais, as fake news e as disrupções tecnológicas.



Fonte: WEB



Transcrevo, a seguir, trechos retirados da "Introdução" do livro...

"Num mundo inundado de informações irrelevantes, clareza é poder.
Em teoria, qualquer um pode se juntar ao debate sobre o futuro da humanidade, mas é muito difícil manter uma visão lúcida.

Muitas vezes nem sequer percebemos que um debate está acontecendo, ou quais são suas questões cruciais.
Bilhões de nós  dificilmente podem se permitir o luxo de investigá-las, pois temos coisas mais urgentes a fazer, como trabalhar, tomar conta das crianças, ou cuidar dos pais idosos.

Infelizmente, a história não poupa ninguém.

SE o futuro da humanidade for decidido em sua ausência, porque você está acupado demais alimentando e vestindo seus filhos - você e eles não estarão eximidos das consequências.

Isso é muito injusto, mas quem disse que a história é justa?



Fonte: WEB


(.. .) O QUE ESTÁ ACONTECENDO  NESTE MOMENTO?

QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS E ESCOLHAS DE HOJE?

QUAL DEVE SER O FOCO DE NOSSA ATENÇÃO?

O QUE  DEVEMOS ENSINAR A NOSSOS FILHOS?

Mas a questão mais abrangente em todos é  a mesma:

o que está acontecendo no mundo hoje, 
e qual o significado profundo dos eventos?



Dream Catcher...


(...) No capítulo final eu me permito algumas observações pessoais,
falando de um Sapiens para outro, antes que a cortina desca sobre nossa espécie
 e comece um drama completamente diferente..."





Sem título - by Rosan


Estou longe de chegar ao capítulo final do livro...
Lendo devagar, com certo assombro, um pouco por dia....

Por enquanto, algumas perguntas me acompanham ao longo da leitura: 

"Seria o futuro dos algoritmos tão só? "
" Haverá humanos divergentes, não convergentes com o que os algoritmos apontam?"

"Os novos homens das cavernas?"



by Rosan - Detalhe 



Rosanna Pavesi/Maio 2020

domingo, 29 de março de 2020

A HUMANIDADE SEGUE JUNTA. MESMO A DISTÂNCIA...

O Fogo Sagrado - by Rosan


A HUMANIDADE SEGUE JUNTA. MESMO A DISTÂNCIA.

SÓ NÃO IMAGINAVAMOS O QUANTO...


Reproduzo a seguir alguns trechos do texto para a temporada de 2020 de
Fronteiras do Pensamento, publicado em 20 de Março de 2020.



Imagem: WEB


"(...) Ao enfrentar a pandemia global do Covid-19, fica cada vez mais claro que o
distanciamento físico fundamental neste momento praticamente nos impôe
uma postura de reflexão.

Estamos isolados fisicamente em nossas casa, mas juntos em um mesmo propósito:
preservar a vida.
Preservar os valores que nos tornam sociedade.

Ao vivermos a nova realidade em defesa da vida de todos, percebemos
também a recuperação do conceito de sermos humanos.
A humanidade é uma só.
Não existem os cidadãos e os não cidadãos.
Cada um de nós compõe o todo.
E as consequências de nossas ações individuais refletem no geral, como temos visto.



Sem título - by Rosan



REINVENÇÃO DO HUMANO


(...) Construir um Novo Iluminismo ajudaria na resolução dos conflitos
e impulsionaria o progresso, a renovação e a preservação?

Uma nova corrente que poderia se adequar aos tempos atuais 
e privelegiar a sociedade como um todo, não apenas alguns setores.

Valorizar as pessoas por trás das inovações.
Iluminar as "trevas" e colocar o humano no centro de tudo,
ressaltando o pensamento, a ética, a dignidade, a igualdade, a justiça
e as capacidades humanas.

Manter o essencial e "iluminar" o que é indispensável para que possamos
descobrir, desvendar e reinventar o humano.

Michel de Montaigne, filosófo que iniciou a gênero ensaio e escreveu a partir de sua própria vida,
afirmava que a verdade é relativa, pois não existe uma universalidade aplicável a todas as pessoas.

Somos complexos e, também, somos únicos.
É, talvez, na autodescoberta, na ampliação das ideias e no olhar para dentro
antes de julgar que pode ser possível enxergar uns aos outros com alteridade,
empatia e tolerância.

E resgatar o que significa ser, verdadeiramente, humanidade."



by Martha Telles



Um novo Anthropos?
O Ser Humano Ecológico?

O Planeta Terra pode seguir muito bem,
 até melhor, sem nos do que conosco...

É isto que queremos?



Sem título - by Rosan



Rosanna Pavesi/Março 2020

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS" BY JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


" A SOCIEDADE DOS SONHADORES INVOLUNTÁRIOS" 
José Eduardo Agualusa
(Ed. Planeta 2017)

O jornalista Daniel Benchimol sonha com pessoas que não conhece.
Moira Fernandes, artista plástica moçambicana encena e fotografa os próprios sonhos.
Hélio de Castro, neurocientista brasileiro, desenvolveu uma máquina capaz de filmar os sonhos de outras pessoas. Hossi Kaley, hoteleiro, com um passado obscuro e violento, tem uma relação com os sonhos muito diversa e ainda mais misteriosa: 
ele pode caminhar pelos sonhos alheios, ainda que não tenha consciência disso.

O livro é uma fábula política, satírica e divertida que defende a reabilitação do sonho
enquanto instrumento da consciência e da transformação.


Livro que li recentemente e que me impactou...
Transcrevo a seguir, um trecho específico e, a meu ver, bastante significativo...



Fonte: WEB




"40.

A porta do palácio estava fechada, mas nenhum soldado a defendia.
Então Hossi atravessou a parede. Cruzou-a com desenvoltura, num salto elástico e firme,
como se o destino das paredes fosse ser atravessadadas.
O presidente esperava-o, de pé, num gabinete enorme, diante de uma mesa atafulhada de papéis.
Era um homem ainda aprumado, com um porte de bailarino, não obstante ter ultrapassado os setenta anos e sofrer de uma grave doença óssea.

O Hossi e o presidente encararam-se como dois galos numa rinha, segundos antes de se lançarem um contra o outro.
- O que você quer - perguntou o presidente.
- Tudo! - respondeu Hossi.

Disse isso enquanto, com um simples gesto, rachava o presidente ao meio. Do interior do presidente irrompeu um presidente menor, mas ainda mais empertigado que o anterior:

- Por quê?  - perguntou o pequeno presidente.
- O senhor roubou-nos o país.

- Ninguém rouba o que é seu - contestou o pequeno presidente. - Somos todos angolanos.
- Somos sim, mas o que estava combinado era que as riquezas da nação seriam utilizadas em proveito geral. Você destruiu o futuro dos nossos filhos. Destruiu o nosso sonho. Diga a verdade.

- Que verdade?
- Por que prendeu os revus?
- São terroristas.

Com o mesmo gesto simples, Hossi rachou o pequeno presidente ao meio.
Logo um outro homenzinho, mínimo, que mal chegava aos joelhos do antigo guerrilheiro, emergiu do interior do pequeno presidente..

- Por que prendeu os revus? - insistiu Hossi.
- São perigosos - disse o mínimo presidente. A voz tremia-lhe. - Você viveu a guerra. Esses miúdos não. Eles não conhecem o horror da guerra. Estão a atear incêndios. A dividir a sociedade.Mandei-os prender porque não quero uma nova guerra.


Fonte: WEB

Hossi rachou o mínimo presidente ao meio. O que surgiu em seu lugar era um ser ínfimo, assustado, com uma minúscula voz de cana rachada. 

- Pare! - implorou o ínfimo presidente. - O que você quer?
- Diga a verdade. Por que prendeu os revus?

O ínfimo presidente rendeu-se:
- Eles não têm medo! Esses miudos não têm medo! Onde já se viu?! São malucos, não mostram medo, e isso é uma doença contagiosa.
- Isso, o senhor que dizer, a coragem?
- São malucos. Você não percebe que são malucos? Se os solto vão contagiar toda a gente. Vão destruir-me, a mim e à minha família. Vão destruir tudo aquilo que nós construímos.Não os posso soltar.

Hossi pisou o ínfimo presidente,  esmagando-o.

Pessoas começaram a atravessar as paredes: jovens com batuques; velhos carregando enxadas e catanas; mecânicos, com os macacões sujos de óleo; rapazes mucubais, com crinas de zebra na cabeça. Meninos descalços, quimbandeiros, soldados, estudantes pescadores. E também catorzinhas, quitandeiras, peixeiras, zungueiras, kinguilas, as antiquíssimas bessanganas, dobradas ao peso da idade; mamãs grávidas, com um filho às costas e outro pela mão; cozinheiras, lavadeiras e babás.



Fonte: WEB


Todas aquelas pessoas ficaram ali, no imenso gabinete presidencial, girando como peixes num aquário; comtemplando, com redondos  olhos de assombro, as telas nas paredes e os armários de portas abertas, dentro dos quais se podiam ver milhares de bustos do presidente, em ouro e prata; as cabeças empalhadas dos antigos fracionistas e inimigos do povo, desaparecidos havia tanto anos; boiões de vidro cheios de pequenos corações aflitos, ainda vivos e palpitantes e, ao lado, globos de cristal em que flutuavam, num céu tão azul quanto o da minha infância nos dias felizes, as brincadeiras por estrear das catorzinhas e dos meninos descalços.

- Está tudo aqui - disse uma das bessanganas apontando ao redor.
- Todos os dias que nos roubaram.

Começou a chorar.
Chorava e ria.
Aquela bessangana éramos todos nós".


Fonte: WEB


Segundo Mia Couto, "Agualusa é um tradutor de sonhos e seu livro é um 
romance tecido com os mais delicados materiais da poesia...".


Vale conferir...


Rosanna Pavesi/ - fevereiro 2020










sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

REFLEXOÉS DE UMA ENERGÚMENA: SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...

    

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...



Bienal de São Paulo - 2018


O post a seguir foi publicado em janeiro de 2012, um dos primeiros posts deste blog...

VEJA...
-----------------------------------------------------------------------------------------

Cidade de Sonho - Rosan

SOBRE OS SONHOS QUE SONHAMOS ACORDADOS...

 Gostaria de propor uma reflexão sobre os sonhos que sonhamos acordados, 
aqueles sonhos que tecemos para nos e nossa vida, 
a partir da frase de Mario Quintana que norteia esse blog, a saber:

       "Uma vida não basta ser vivida. Ela precisa ser sonhada..."

O que seria sonhar uma vida? 
Qual a diferença entre uma vida só vivida e uma vida vivida e sonhada?
A meu ver, se só viver não basta, também só sonhar  não basta...
Devemos sim sonhar, fazer planos, 
mas também precisamos ter a coragem de realizá-los, 
com a ousadia que nossos sonhos reclamam para si...

É sabido que os pais já tecem sonhos a respeito do futuro dos filhos até mesmo antes deles nascerem; 
de forma que, por certo tempo, "vivemos" dos sonhos que nossos pais projetaram sobre nos... 
Mas vamos crescendo e somos chamados a tecer nossos próprios sonhos, 
nos apropriar deles e construir nosso futuro.

Às vezes, nos deparamos com "uma pedra no caminho", 
como diria o poeta Carlos Drummond de Andrade...
Neste caso, é sabio não chutar a pedra, mas sim conversar com ela, 
perguntar a que veio e ter a coragem de escutar o que a pedra tem a dizer... 

Em seu livro O Valor do Amanhã  (São Paulo, SP, Edit. Companhia das Letras, 2005)
 Eduardo Giannetti retoma a fábula da Cigarra e da Formiga e escreve 
sobre a realidade dos juros e como ela se manifesta em todas as situações 
da vida prática 
nas quais os valores presentes e futuros medem forças em nossas escolhas e ações. 
O autor encerra seu livro com uma bela passagem sobre 
os sonhos que sonhamos acordados 
que transcrevo a seguir, por acreditar ser pertinente:

"... Os indivíduos perecem, mas a sociedade a que pertencem
 - obra aberta que une na mesma trama os valores dos mortos, dos vivos e dos que estão por vir - 
segue em frente. 
O passado condiciona, o presente desafia, o futuro interroga.

A previsão lida com o provável e responde à pergunta: O que será?
A delimitação do campo do possível lida com o exeqüivel, e responde à pergunta: 
O que pode ser?
E a expressão da vontade lida com o desejável e responde à pergunta: 
O que sonhamos ser?

As relações entre esses modos de conceber o futuro não são triviais: 
de um lado está a lógica: o desejável precisa respeitar a disciplina do provável e do possível. 
Mas, do outro lado, está o sonho. 
Se o sonho desprovido de lógica é frívolo, a lógica desprovida de sonho é deserta. 
Quando a criação do novo está em jogo, resignar-se ao provável ou ao exeqüível 
é condenar-se ao passado e à repetição.

No universo das relações humanas, 
o futuro responde à força e à ousadia do querer. 

A capacidade de sonho fecunda o real,
           reembaralha as cartas do provável 
e subverte as fronteiras do possível.

     "Os sonhos secretam futuro"

É bom lembrar que todas as invenções e descobertas da humanidade foram consideradas, 
em algum momento, impossíveis.....
De forma que, talvez, jamais se permitir sonhar acordado, ousar, apostar, arriscar, 
ou jamais se atrever, possa vir a ser a pior aposta possível.

E se algum sonho ou imagem de fantasia se apresentar, fique com ele/a...
Ele/a tem algo a lhe dizer, isso lhe diz respeito... 
Construa uma ponte entre a realidade psíquica e a realidade terrena pois, 
afinal, não são dois mundos separados, 
são apenas as duas faces de uma mesma realidade: a sua...


Quintana tinha razão... 
Por isto o nome do blog é Oficina de Sonhos, 
uma Oficina que se quer desejante e participante de "secretar futuro",
 assim como outros já fizeram no passado, o fazem no presente, 
cada qual a seu modo e, espero, continuarão fazendo no futuro...
           Sim: 
Uma vida não basta ser vivida. 
Ela precisa ser sonhada...


Rosanna Pavesi/jan.2012
                                                                                                            -----------------------------------------------------


Fonte: WEB


O QUE MUDOU DE JANEIRO 2012 PARA DEZEMBRO 2019?

Na realidade brasileira muita coisa mudou...,
Que cada um faça  sua própria reflexão e considerações...

De minha parte, descobri que sou uma "energúmena"...
Explico:
Continuo acreditando na capacidade do sonho fecundar o real,
reembaralhar as cartas do provável, 
e subverter as fronteiras do possível....


Fonte: WEB

"Os sonhos, ah, os sonhos!
Uma amiga disse-me uma vez que sonhar é o mesmo que viver,
mas sem a grande mentira que é a vida. Talvez seja isso.
Talvez seja o contrário disso.Nem sei.

Acontece-me, por vezes, acreditar numa determinada ideia e 
no oposto dela com idêntica paixão,ou sem paixão nenhuma.

Nos útimos anos, aliás, venho perdendo cabelos e paixão.
Também venho perdendo ideias e ideais.
Talvez seja a velhice, talvez seja o nirvana.
O que você acha?"

(José Eduardo Agualusa em  A Sociedade dos Sonhadores Involuntários,
São Paulo: Planeta 2017).


Fonte: WEB



Um livro que é uma fábula política, satírica e divertida
que defende a reabilitação do sonho enquanto instrumento 
da consciência e da transformação...

De minha parte, devo dizer que meus cabelos ficaram brancos, mas ainda não os perdi...
Só me tornei uma energúmena de cabelos brancos...


Rosanna Pavesi/Dezembro 2019






quarta-feira, 24 de julho de 2019

ESPIRITUALIDADE: ORIENTE E OCIDENTE

Web


VELHO DITADO CHINÊS:

"SE O HOMEM ERRADO USA OS  MEIOS CERTOS,
OS MEIOS CERTOS FUNCIONAM DE MANEIRA ERRADA".

A paixão ocidental pelas disciplinas orientais tem frequentemente como resultado, 
um transplante artificial dos valores orientais para o solo ocidental, levando a uma espécie de
"materialismo espiritual".

Assim como a Hidra mítica, cuja cabeça cortada é sempre substituida por duas outras,
o ego perpetuamente idêntico a si mesmo, enfadonho e ansioso por transcendência, 
parece reemergir fortalecido e solidificado , como resultado direto da tentativa
metódica de diminuí-lo.

As pessoas irão praticar yoga, observar regimes estritos de dieta, repetir mecanicamente textos místicos - 
somente por causa da descrença em qualquer coisa boa que pudesse advir de suas próprias almas.
Ao invés de tomar emprestado negligentemente os tesouros do Oriente,
talvez devessemos - primeiro - tentar modelar nossas vidas a partir 
de nossas próprias raízes psíquicas?

O espírito enraizado no Oriente, uma vez arrancado e importado para o Ocidente
aqui chega privado de seu rico solo imaginal, esterilizado e cheirando a sándalo?



Paixão Silenciada - by Rosan


Segundo Roberts Avens (Imaginação É Realidade -  Vozes - 1993):

"Primeiro imaginação, depois espírito. 
Não há, entretanto, nenhuma espiritualização sem imaginação porque, no fim,
é a imaginação que "imagina" o espírito, mesmo quando o último finge 
ser independente da imaginação; 
pois a independência ou separação espiritual, como tudo o mais criado pelo homem, 
é um produto e uma fantasia da alma.

(...) A alma NÃO existe separada do que faz, 
incluindo suas configurações espirituais e materiais,
Nem é ela um conglomerado de espírito e matéria. 
A alma está  precisamente , absolutamente, francamente no meio (esse in anima).

Este é o mysterium tremendum et fascinans:
a alma, que estritamente não é, dota tudo o mais com ser e sentido.".



A Chuva - by Rosan


Fica a dúvida e a pergunta:

O homem ocidental faria qualquer coisa para evitar encarar sua própria alma?



WEB


Rosanna Pavesi/Julho 2019.

domingo, 3 de março de 2019

SOBRE A VELHICE...

by Paul Klee



SOBRE A VELHICE...

"A velhice é uma etapa de nossa vida que tem, como todas as demais,
aparências específicas, atmosferas e temperaturas próprias, prazeres
e necessidades peculiares.

Assim como todos os nossos irmãos mais novos, nós, os velhos de
cabelos brancos, também temos uma tarefas que dá sentido à nossa
existência. 
Ser velho é uma tarefa tão bela e sagrada quanto ser jovem, da mesma
forma que aprender a morrer e saber morrer são atributos tão valiosos
quanto quaisquer outros, desde que os encaremos com o devido respeito
pelo significado e pela santidade da vida.

O velho que odeia e teme a velhice, os cabelos brancos e a proximidade
da morte é tão indigno de representar sua categoria quanto o ser
jovem e vigoroso que odeia a própria profissão e sua atividade
diária, delas tentando esquivar-se.

Resumindo:

Para dar sentido à velhice e fazer jus à tarefa nela contida, é preciso
concordar com ela e dizer sim a tudo o que a ela diz respeito.

Sem este sim, sem essa entrega ao que a natureza exige de nós, nossos dias
- sejamos velhos ou jovens - não têm valor nem sentido,
e passamos a enganar a vida.


by Chico Stockinger


Pobre e triste, no entanto, é aquele que se entrega por inteiro a esses processo
degenerativo, sem ver que a velhice também tem seu lado bom,
suas vantagens, seus consolos e suas alegrias.

Quando penso neste lado belo e positivo da vida na velhice e me
lembro de que nós, os encanecidos, também possuimos fontes de
força, paciência e alegria que não têm qualquer importância na vida dos jovens,
(...) posso nomear, agradecido, algumas das dádivas que a velhice nos concede.



by G. Klimt


A que mais aprecio, dentre todas, é o acervo de imagens que guardamos
na memória após uma longa vida e que, com o declínio da atividade,
passamos a enxergar de uma forma nunca antes imaginada.

Silhuetas e perfis de pessoas que já se foram há sessenta ou setenta anos
continuam vivas para nós, nos pertencem, nos fazem companhia e nos
olham com olhos de vivos.

Casas, jardins e cidades que nesse interim desapareceram ou
sofreram grandes mudanças nos parecem exatamente como outrora;
montanhas e praias que décadas atrás admirávamos durante as viagens
continuam frescas e coloridas em nosso album de fotografias.



by Paul Klee



A visão, a observação e a contemplação se transforam cada vez mais
em hábitos e exercícios; sem que o percebamos, a atitude e o interesse
do espectador passam a dominar todo o nosso comportamento.

(...) Aqui, no jardim dos velhos, brotam flores que outrora
nunca nos preocupamos em cuidar.

(...) e quanto menores os nossos anseios por ação e participação,
maior nossa capacidade de ver e ouvir a natureza e o próximo."
(1952).

(Hermann Hesse em Com a Maturidade Fica-se Mais Jovem - Record - 2018).



by Rosan


Um dos textos mais singelo, poético e profundo que já li sobre
o tema...


Rosanna Pavesi/Março 2019







sábado, 23 de fevereiro de 2019

VER E SER VISTO

Fonte: WEB


VER E SER VISTO...

"(...) Em psicoterapia é crucial ver e ser visto, porque
isto oferece a possibilidade de conectar-se com o
que foi terrivelmente reprimido na cultura ocidental:

os deuses e deusas do ver e do tocar, do corpo:
Afrodite, Pã, Sileno.

Em última instância ver e ser visto incumbe mais
aos sentidos e não devemos esquecer Eros e Psiquê:
Psiquê necessita ver.


Fonte: WEB


Se o discurso limita-se aos ouvidos, a escutar,
excluem-se as múltiplas possibilidades do corpo
reprimido, a expressão do corpo físico, 
histórica e tão crucialmente reprimida.



by Vasco Prado



No que me concerne, analista e paciente têm que se ver
e ler as expressões do outro rosto,a outra máscara:
só assim há psicoterapia..

Se o analista é incapaz de aceitar a expressão de seu 
próprio rosto como uma forma de comunicação, é difícl
chamá-lo de psicoterapeuta:

é através do ver e ser visto que falar com o outro
significa falar com um ser humano;
de outro modo poderíamos acabar falando a uma "coisa".



Fonte: WEB



Antonio Machado diz assim:
O olho que vê não é
olho porque tu o vês.
É olho porque te vê.

Ver e ser visto é básico para o diálogo psíquico.
Não se trata apenas dos sentidos, é algo mais.

Quando chego a me dar conta de que não estou olhando os olhos
da pessoa com quem falo, detecto minha própria virgindade
atuando e tratando de me proteger dos olhos do outro.

Machado escreveu outro verso onde podemos compreender 
a mudança de pessoa à coisa:

A coisa que vês não é
coisa porque tu a vês.
Coisa é porque não te vê."

(Rafael López-Pedraza em Ártemis e Hipólito - Mito e Tragédia - Vozes - 2012).


 Fonte: WEB



O olho é olho porque te vê...
Quando não te vê, é coisa...



by Rosan




Rosanna Pavesi/Fevereiro 2019

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

LENDAS SOBRE A ORIGEM DA ESPERANÇA...

Fonte: WEB


LENDAS SOBRE A ORIGEM DA ESPERANÇA...


"Na Índia, a esperança pertence a Maia, a grande Deusa, que nos tenta
com a roda da ilusão.

Como Maia, a esperança tece as incontáveis fantasias de nosso destino.
Somos apanhados numa teia de esperanças que é a vontade de viver,
experimentada como projeções rumo ao futuro.

Como emoção fundamental, a esperança de Maia seria o que a 
psicologia moderna chama de a função projetiva da psique
que nunca nos abandona enquanto formos vivos.,
induzindo-nos para a frente.



Fonte: WEB


No Ocidente, Pandora é a contrapartida de Maia.
As lendas de criação de ambas mostram paralelos.

Na Grécia, Zeus fez Pandora como uma estátua de tamanho humano,
pintada com a beleza, o primeiro "doce engano", dotada de virtudes
por vinte das divindades gregas.

Na Índia, a Grande Deusa tomou  forma como um produto
composto pelo panteão hindu reunido para salvar o mundo do desespero.



Fonte: WEB


Em outra  lenda, apareceu sob forma de Aurora; e então, como Sati,
foi modelada por Brahma na presença de vinte divindades para tentar Shiva,
afastando-o do isolamento ascético, de modo que o eterno jogo da vida
pudesse continuar, procriando e esfoliando sem cessar.

Associadas às deusas grega e hindu  estão todas as loucuras e vícios
da paixão humana e todas as energias criativas
(Shiva e Brahma; Prometeu, Hefesto,  Zeus).



Fonte: WEB


Pandora, em sua forma original, era representada por uma jarra ou vaso grande.
Esse vaso, tornou-se uma caixa na tradição posterior.

No vaso de Pandora, jazem escondidos todos os males do mundo.
Quando este foi aberto (e ele deve sê-lo inevitavelmente da mesma maneira
que Eva trouxe o Pecado ao mundo ao ceder à tentação do proibido)
voaram para fora todos os males, todos menos a Esperança.

A criação do mundo fenomenal da ilusão é semelhante na Grécia,
na índia e no Velho Testamento.


Fonte: WEB


A lenda de Pandora narrada por Hesíodo diz-nos que  a esperança é um dos males que estava 
no vaso e é o único que permanece aí dentro.

Fica escondida onde não é vista, ao passo que todos os outros males,
fantasias e paixões são as projeções que encontramos fora, no mundo.

Esses podem ser recapturados, integrando-se as projeções;
mas a esperança está dentro, ligada ao próprio dinamismo da vida.
Onde há esperança, há vida.
Nunca podemos confrontá-la diretamente, do mesmo modo que 
não podemos agarrar a vida, pois a esperança é o anseio de viver no amanhã,
O DEBRUÇAR INSENSATO NO FUTURO...

Vai, vai, vai..."


(J. Hillman em Suicídio e Alma - Vozes - 1993).






Onde a vida está, há esperança. E esta esperança é a própria vontade de viver,
o desejo de futuro - ou como a define o dicionário: "esperar com desejo".

Como poderíamos continuar sem ela? O que é o amanhã sem ela?

Como já disse Carlos Drummond de Andrade:

... como viver em termos de esperança?

... e que palavra é essa que a vida nunca alcança?




Fonte: WEB


Rosanna Pavesi/Dezembro 2018