sábado, 9 de junho de 2018

"SUICÍDIO E ALMA"...

Vozes - 1993


SUICÍDIO E ALMA

Escreve J. Hillman no Prefácio à Edição Brasileira:

"... há aspectos sociológicos, climáticos e culturais no assim chamado
"problema do suicídio" variando de lugar para lugar, de nação para nação. 

Mais fundamental, porém, é o fato de que o suicídio é inerente à natureza humana em toda parte -
cada um de nós tem opção de pôr fim à vida que vive;
e o suicídio é altamente especifico em cada indivíduo -
cada um de nós contempla o ato em seu próprio estilo.

O fato de a "taxa de suicídio" ser alta em certo País e baixa em outro,
mantém nossa  mente enredada em fascinações estatísticas, o que não nos diz absolutamente nada
sobre esse impulso humano e o papel específico que desempenha
na alma de um determinado indivíduo.

Dados sobre o suicídio são de todo irrelevantes no momento de se contemplar a  morte
ou quando tentamos compreender a partir do interior o ato suicida
de um paciente, de um professor, do irmão, do amado, de um jovem...



J.Hillman


O que se busca é esta compreensão a partir de dentro,
um método para uma investigação psicológica genuína, que supere moralismos religiosos
e diagnósticos psiquiátricos.
(...) Da compreensão de uma questão essencial - aquela que Camus disse ser a ÚNICA questão -
a possibilidade de ser pôr fim à própria vida.

E então:
o que quer a alma ao imaginar e até realizar esta possibilidade?

Não o caráter nacional ou as estatísticas atuariais dos suicídios,
não a classificação de bilhetes suicidas por idade,
status sócio-econômico e educacional,
não  os vários modos de auto-destruição conforme a religião,
a época do ano, as preferências sexuais e os regimes alimentares dessas "vitimas",
nem sequer seus "motivos" e "perfis", - mas o que quer a alma
ao apresentar à mente esta ideia inominável e à vontade a determinação de executá-la?

Pois esta é a questão - e é sempre a mesma pergunta qualquer que seja o tema
(casamento ou divorcio, aborto ou maternidade, segurança ou liberdade):
- o que quer a alma?"



Fonte: WEB

Para a Sociologia, o suicídio é um fenômeno sociológico estabelecido.
Deve ser prevenido e/ou combatido: retorno ao grupo.

Para  o Direito é um crime: não matarás.

Para a Teologia  é pecado (não matarás) e um ato de orgulho e rebelião.

Para a Medicina trata-se de defender a vida e promovê-la, a vida orgânica, a vida do corpo.

A ALMA: a alma e o corpo podem apresentar exigências conflitantes.
Segundo Hillman, é na alma que se deve procurar a justificativa para um suicídio.
O suicídio afirma a realidade independente da alma, sendo que a alma não é um conceito,
é um símbolo...

Indaga ainda Hillman:

"Talvez a morte orgânica tenha poder absoluto sobre a vida
apenas quando não se permitiu a morte no seio da vida?".

Um livro publicado pelo primeira vez há mais de 25 anos, 
que continua instigante a cada nova leitura..






Rosanna Pavesi/Junho 2018

domingo, 15 de abril de 2018

AS PAIXÕES HUMANAS...





                                                                       Sem título - Fonte: WEB


AS PAIXÕES HUMANAS...

Uma pequena história leve, despretensiosa e bem humorada, - aparentemente anônima -  que,
como o própria autora diz,  ela emendou, remendou e enfeitou um pouco
e que agora é "nossa"...


"Certo dia as Paixões Humanas se reuniram para brincar...

Depois que o Tédio bocejou três vez
porque a Indecisão não chegava a conclusão alguma
e a Desconfiança estava tomando conta de todos,
Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde.


By M. Rothko


A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo,
e a Intriga começou a cochichar com os outros, dizendo que
certamente alguém iria trapacear.


By M. Rothko


O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu
a Dúvida e a Apatia, ainda sentadas num canto, 
a entrarem no jogo.


By M. Rothko


A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada,
a Arrogância fez cara de desdém, pois a ideia não tinha sido dela,
e o Medo preferiu não se arriscar:
"Ah, gente, vamos deixar tudo como está",
e como sempre perdeu a oportunidade de ser feliz.


By M. Rothko


A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão
atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava.

O Otimismo montou no arco-íris, 
e a Inveja se ocultou junto com a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente
atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.


By M. Rothko


A Generosidade quase não conseguia se ocultar porque era grande
e ainda queria abrigar meio mundo,
a Timidez ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma,
a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto
para saborear o que a vida lhe oferecia,
porque não era nem boba nem fingida.


By M. Rothko

O Egoismo achou um lugar perfeito, onde não cabia ninguém mais.
A Mentira convidou a Inocência para mergulharem 
no fundo do oceano, onde a inocente acabaria afogada,
a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo,
e o Esquecimento já não sabia o que estavam fazendo ali.


By M. Rothko


Depois de contar até 99, a Loucura começou a procurar.
Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso
ouviu um gemido:
era o Amor com os olhos furados pelos espinhos.
A Loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele,
espalhando beleza pelo mundo..

Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha:
juntos fazem a  vida valer a pena..."


By M. Rothko


A autora ainda acrescenta:

"Mas isto não é coisa para os queixosos, os pusilânimes
e os demais rígidos, ou aqueles para quem a felicidade é um
bem proibido por deuses severos..."

((Lya Luft em Em Outras Palavras - Ed. Record - 2006).



Fonte: WEB


Concordo com a autora:
Não, não é mesmo...


Rosanna Pavesi/Abril 2018












terça-feira, 6 de março de 2018

SOBRE A VAIDADE HUMANA...


Imagem: by Rosan


A VAIDADE E A RAZÃO...

"(...) Quando a vaidade inunda a nossa razão, não há mais nenhuma reflexão 
ou interpretação dos fatos e de nossa condição
que não esteja contaminada com esta vontade de nos atribuirmos
significação especial, impar... (vaidade...)

(...) A preocupação das pessoas em se destacar e serem admiradas
transfere ao sistema social um poderoso e eficiente meio de controle
sobre a atitude e o modo de pensar de todas as criaturas.

Todos querem ser admirados e para isso terão que agir conforme os padrões em vigor;
as outras pessoas são os nossos juízes  e nós somos os que julgam os outros.
Todos somos juízes ao mesmo tempo e, de alguma forma,
passamos a nos temer reciprocamente;
e nos tememos porque podemos nos impor a dor da humilhação,
sensação desagradável associada a não sermos admirados,
a sermos desprezados como portadores de "defeitos" e modos de ser que não impressionam os outros.



Imagem: by Rosan


Não apenas os conceitos de "qualidades" e "defeitos" são construidos
desta forma primária e sem consistência;
tais "valores" se transmitem sem que os novos membros de um dado grupo social
tenham a oportunidade (e o tempo) de refletir sobre eles.

É fácil também perceber como estes "valores" são culturalmente determinados
e como são, até certo ponto, fáceis de serem alterados segundo os interesses de cada momento,
especialmente no mundo atual onde os meios de comunicação são incrivelmente eficientes.


A PALAVRA "IMPORTANTE"...


By A. Tapies - Fonte: WEB


Palavra usada para nos referirmos a pessoas que têm atividades "destacadas".

"Destacada" NÃO tem a ver com a efetivas contribuição para o bem estar da comunidade e,
no mais das vezes, significa ser muito conhecido, reconhecido por muitas pessoas,
olhado com admiração por milhares de criaturas anônimas, ser rico,
e desfilar com roupas e carros que chamam a atenção, ser tratado com deferência,
por ter poderes que instigam o oportunismo dos menos "favorecidos".



Imagem by Rosan



Segundo este critério de importância, ou seja,
ser conhecido, reconhecido, admirado e temido, um político corrupto
é uma criatura "importante".

Segundo o mesmo critério, um professor secundário que forma a mentalidade de novas gerações,
NÃO tem importância alguma.

As atividades "importantes" são bem remuneradas  
e as "sem importância" não o são; 
este pode ser um indicador para sabermos o que uma dada comunidade 
valoriza e admira e o que ela despreza.

Este exemplo nos mostra como o conceito de "importância" se afasta
da noção de utilidade social da função e se aproxima do fato 
de uma pessoa ser assim considerada apenas em virtude de ocupar um cargo pouco comum.

Em qualquer país do mundo há mais professores do que deputados ou senadores;
pelo modo de funcionar da razão contaminada pela VAIDADE,
deputado é mais importante do que professor...



Imagem by Rosan


Nenhum dos processos racionais fica livre da ânsia de se destacar,
de atrair olhares positivos de admiração; 
e também do pavor de atrair a ironia e a crítica que nos provocam a dor da humilhação."

(Flavio Gikovate em Vício dos Vícios - Um Estudo Sobre a Vaidade Humana - MG Edit.Associados - 2.a edição)


Velho Testamento (Eclesiastes):
Vaidade das Vaidades. Tudo é Vaidade.






De forma que, compreender tudo que pudermos acerca da vaidade e seus 
encantos e perigos parece ser essencial...


Rosanna Pavesi/Março 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

NOSSAS MUITAS FOMES...

By C. Portinari



NOSSAS MUITAS FOMES...

"Do meu cômodo posto de observadora - e o duro posto de cidadã, onerada de
altíssimos impostos, contas a pagar, perplexidade e insegurança, e otimismo
anêmico -, quero expandir o conceito de fome.

A fome, as fomes: de dignidade, a essencial.
De casa, saúde e educação, as básicas.
Mas - não menos importantes - 
a fome de conhecimento, de possibilidades de escolha.

Fome de confiança, ah, essa não dá para esquecer.
Poder confiar no guarda, nas autoridades, nos pais e no país, e também nos filhos.
Em nós mesmos, se nos acharmos merecedores.



by C. Portinari


Confiar em quem votei, e em quem não recebeu meu voto:
ser digno não é vantagem, é obrigação básica.
Andamos tão desencantados, que ser decente parece virtude,
ser honesto ganha medalha, e ser mais ou menos coerente merece aplausos.

Fome de conhecimento:
não é alfabetizado quem apenas assina o nome, 
mas quem assina o que leu e compreendeu.
De outro modo, perigo a vista.
Não cursa uma verdadeira escola quem dela sai para a vida
sem saber pensar, argumentar e discernir.

Informar-se é também ler: ler como se come o pão cotidiano...




By C. Portinari


Não creio que a violência que assola este país e nos transforma em ratos assustados
seja simplesmente fruto da fome de comida, mas da fome de auto-estima.

(...) Andamos acuados pela brutalidade que transcende os limites urbanos,
atingindo lugares bucólicos que antes pareciam paraísos intocáveis...

Teremos paz, esta nossa grande fome?

(...) Tudo começa, como dizem, em casa: 
desde quando ela era uma primitiva caverna, e nós uns trogloditas 
um pouco menos disfarçados do que hoje,
com fomes bem mais simples de satisfazer.".

(Lya Luft em "Em Outras Palavras" - Record 2006)
O Cão by Giacometti


O texto acima é de 2006... 
Nossas muitas fomes apontadas pela autora continuam fomes...
E a lista cresce...

Que cada um acrescente, às fomes apontadas acima,
suas próprias muitas fomes...

Rosanna Pavesi/janeiro 2018


Fonte: WEB








domingo, 14 de janeiro de 2018

SOBRE SER...

Fonte: WEB


NÃO SOU...

"Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.

Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.

SOU...

Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério.

A quatro mãos escrevemos o roteiro
para o palco do meu tempo:
o meu destino e eu.

Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério..."

(Lya Luft em Perdas e Ganhos - Record, 2003)


Sem titulo - Fonte: WEB



Rosanna Pavesi/Janeiro 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

UM POUCO DE SILÊNCIO...

Sem título - Fonte: WEB


UM POUCO DE SILÊNCIO...

" Nesta trepidante cultura nossa, da agitação e do barulho, 
gostar de sossego é uma excentricidade.

Sob a pressão de ter quer parecer, ter de participar, ter de adquirir,
ter de qualquer coisa, assumimos uma infinidade de obrigações.
Muitas desnecessárias, outras impossíveis, 
algumas que não combinam conosco nem nos interessam.

Não há perdão nem anistia para os que ficam de fora da ciranda:
os que não se submetem mas questionam,
os que pagam o preço de sua relativa autonomia,
os que não se deixam escravizar, pelo menos sem alguma resistência.


Fonte: WEB


O normal é ser atualizado, produtivo e bem-informado.
É indispensável circular, estar enturmado.
Quem não corre com a manada praticamente não existe,
se não se cuidar botam numa jaula: animal estranho.

Acuados pelo relógio, pelos compromissos, pela opinião alheia,
disparamos sem rumo - ou em trilhas determinadas -
feito hâmsteres  que se alimentam de sua própria agitação.

Ficar sossegado é perigoso: pode parecer doença.
Recolher-se em casa ou dentro de si mesmo,
ameaça quem leva um susto cada vez que examina sua alma.



Fonte WEB


^(...) O silêncio nos assusta, talvez por retumbar no vazio dentro de nós.
Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas
pelas quais nos espiam coisas incômodas e/ou mal resolvidas,
ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos.
Nos damos conta de que somos apenas figurinhas atarantadas 
correndo de um lado para o outro.

(...) Quem é esse que afinal sou eu?
Quais seus desejos e medos, seus projetos e sonhos?
No susto que essa ideia provoca, queremos ruído, ruídos...


Fonte: WEB


Silêncio faz pensar, remexe águas paradas...

(...) Mas, se a gente aprende a gostar de um pouco de sossego,
descobre - em si e no outro - regiões não imaginadas, questões fascinantes, 
e não necessariamente ruins.

(...) A quietude pode ser como uma chuva intensa e lenta,
tornando tudo singularmente novo:
nela a gente se refaz para voltar mais inteiro ao convívio,
às tantas frases, às tarefas, aos amores.

(...) Um pouco de silêncio bom para que eu escute o vento nas folhas,
a chuva nas lajes, e tudo o que fala 
muito além das palavras de todos os textos e da música 
de todos os sentimentos..."

(Lya Luft - Pensar é Transgredir - Record - 2004)


A Chuva - by Rosan


Sentada aqui, tranquila, escrevendo este texto,
com uma chuva mansa caindo lá fora, 
de repente me senti em paz, inteira, presente...

Todo final de ano, por festivo que seja,
carrega consigo agitação, barulho, correria...
Então o presente deste tarde veio como um balsamo...

Rosanna Pavesi/janeiro 2018



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

ABRINDO A CORTINA ... CENA FINAL

noites antigas - by rosan


ABRINDO A CORTINA...


"Pintei o cenário
e o coloquei no prumo;
varri a plateia,
arrumei os bastidores.

No camarim, frutas e champanha:
eu seria a personagem principal.

Depois repassei minhas falas,
provei minhas fantasias,
e me pus a chorar:

numa escada invertida,
nem em cima
nem embaixo, 
passavam estranhas figuras,
grandes demais para mim.

(Eu andava pelo palco,
sem sapatos nem rumo)"



O Bosque - by Rosan


CENA FINAL...

"Postei-me na beira do palco:
terminada a última cena
e a derradeira fala,
o gesto final concluído.

Dobro-me em dois para agradecer,
pois me aplaudem:
pareço uma criança pronta para entrar
numa casa nova.

Se eu erguer o rosto e abrir os olhos,
se pedir papel e caneta
ou meu computador,
poderei reescrever tudo ou parte
do que fiz.

E todos os palcos em todos os teatros
do mundo
terão nessa hora um espetáculo novo.
Pois cada sopro de voz aqui
e cada gesto que se desenha
reverberam por todos os quartos
que se expandem
e corredores que se desenrolam,
na renovação do sonho
e completude do círculo
- para o sempre
do sempre
amém."


sem título - by rosan


(Lya Luft em Múltipla Escolha - Record - 2010).

Diz a autora:

"Há muitas maneiras de encarar a nossa existência...
Neste livro ela é um teatro, e um cenário com muitas portas...

Somos autores e personagens dessa cena complexa..."


A Chuva - by Rosan

Escolhi o poema de abertura do livro (Abrindo a Cortina)
e o poema de fechamento do livro (Cena Final),

Início e fim...

A Pérola do Amor by Rosan


Rosanna Pavesi/dezembro 2017




MÚLTIPLA ESCOLHA...

Fonte: WEB


MÚLTIPLA ESCOLHA...

"Há muitas maneiras de encarar a nossa existência:
como um trajeto, um naufrágio, um poço, uma montanha.
Tantas visões quantos seres pensantes, 
cada um com sua disposição:
cética, otimista, trágica ou indiferente.

Neste livro, ela é um teatro, e um cenário com muitas portas,
que estavam ali ou que nós desenhamos.
Algumas só se abrem, outras só se fecham;
outras ainda se escancaram sobre um nada.


Fonte: WEB


Quando abrimos uma delas - nossa múltipla escolha -
é que se delineia a casa que chamamos de nossa existência,
e começam a surgir os aposentos onde vamos 
colocar a mobília, objetos, janelas, pessoas, um pátio
que talvez leve a muitos caminhos.


Fonte: WEB


Somos autores e personagens dessa cena complexa.
Nos vestimos nos camarins, rimos ou choramos atrás das cortinas.
Também vendemos entradas;
às vezes vendemos a alma..."

(Lya Luft em "Múltipla Escolha" - Editora Record - 2010).


Somos, em parte, resultado das nossas próprias escolhas e decisões...
Da busca pela eterna juventude à ética na política,
passando pelas transformações da família, neste livro Lya Luft mostra
o quanto estamos enredados em práticas opressoras e o quanto é importante
assumir as rédeas de nossa vida 
e o caminho de nossa sociedade e cultura.


Fonte: WEB

Diz ela, ainda:

"(...) No esforço de realizar tarefas que talvez nem nos digam respeito,
tememos olhar em torno e constatar que muita coisa falhou...

Se falharmos, quem haverá de nos desculpar, de nos aceitar,
onde nos encaixaremos, nesse universo de exitosos, bem-sucedidos, ricos e belos?

Pois não se permite o erro, o fracasso, nesse ambiente perfeito.
Duro dizer: 
'amei torto, ignorei meus filhos, falhei com minha parceira ou parceiro,
votei errado, fracassei na profissão, não ajudei meu amigo,
abandonei meus velhos, e esqueci meus sonhos.'..."


Fonte: WEB

Neste final de ano, um convite a uma boa reflexão...

Rosanna Pavesi/Dezembro 2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

ELOGIO AO SILÊNCIO...

Fonte: WEB


ELOGIO AO SILÊNCIO...

O silêncio faz um lugar?
Que escadas, que andaimes constroem o silêncio?
Onde o silêncio principia?
Onde ele começa é claro ou escuro?
É no silêncio que se ouvem os vozes dos deuses?
Que lugar faz o silêncio?


By Miró

A palavra...
A palavra é limite, é fronteira do silêncio, limite do caos.
Silêncio é privação?
A palavra, o som, as cores e formas dão limite ao silêncio.
O que não foi dito pode ser esquecido?


O silêncio é sentinela...
O silêncio é sentinela.
Ás vezes fica sentado em corredores;
Ás vezes, fica encostado nas paredes,
De espreita: em quartos, casas velhas, caixas,
Escritos esparsos, nas fotografias, nas montanhas
Que estão longe.
Até em certas pinturas.


Fonte: WEB

Com o silêncio...
Com o silêncio aprendemos a ver no escuro,
Aprendemos novos tons de escuro,
Aprendemos a ver o visto.
O silêncio ensina que a noite tem suas claridades.


Fonte: WEB

Às vezes...
Às vezes o silêncio se transforma
Em esfera transparente,
Imobiliza-se.
Fica sendo.
É uma espécie de gerúndio.
É como cápsula que se contém:
Fica sendo o não-ver.
Fica sendo o não-estar.
É o caminho até nossa solidão.


Sem título - by Rosan

Há chamados...
Há chamados do silêncio.
Há sentimentos que vêm de lá,
Ou, então, são feitos ali.
No silêncio, pensamos sem palavras.


By Krajberg


(Fonte: Sergio Fingermann em  Elogio ao Silêncio e Alguns Escritos sobre Pintura ).
BEI  ("Um pouco mais" em tupi - 2007)


Mãos delicadas, como uma bolha de sabão...
Filigranas....

Rosanna Pavesi/Novembro 2017











quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O "MAPA DO AMOR" E O AMOR ROMÂNTICO...

"A Pérola do Amor" by Rosan



O "MAPA DO AMOR"...

"...O "mapa do amor" é uma das maneiras como a psicologia tenta explicar 
os mistérios da paixão.

Crescemos num ambiente parental onde certos aspectos dão prazer,
satisfazem necessidades, revitalizam. 
Estas características formam um esquema que nos cativa quando uma pessoa,
que parece ter os atributos do mapa do amor, cruza o nosso caminho.

Helen E. Fisher em seu livro Anatomy of Love, diz que "À medida que 
crescemos, este mapa inconsciente toma forma e uma proto-imagem 
composta do ser amado ideal aos poucos vai surgindo".

O mapa do amor consiste em camadas.
Estudos multiculturais afirmam que existe um nível coletivo
para os mapas do amor em geral, como por exemplo a boa compleição. 
Nas mulheres, corpos carnudos, bem delineados, ancas fartas, são universalmente
atraentes. Nos homens, bens materiais, carros, sucesso, fama.

Depois, há camadas refletindo tradições, modas e normas da
comunidade local. A teoria dos mapas do amor  sugere que o condicionamento 
ambiental determina o objeto do seu desejo.



Serm Título - by Rosan


Outros psicólogos chamam este objeto de projeção.

Segundo a psicologia analítica (abordagem junguiana), 
a projeção brota de uma fonte arquetípica como parte da essência íntima
de cada alma. 

Na abordagem junguiana, o mapa do amor tem aspectos 
altamente individualizados porque é uma imagem complexa no coração
que "cativa" e o sentimento de que isso é um chamado do destino.

Quanto mais obsessiva e irresistível for a imagem,
tanto mais loucamente nos apaixonamos, o que intensifica a convicção 
de que o destino está realmente chamando.

Dá-se os nomes de anima e animus a este fator arquetípico que
inclina o mapa do amor para uma pessoa determinada. 
Estas figuras podem ter traços superficiais do mapa do amor,
mas não podem ser reduzidas a ele.
Anima e Animus são as palavras latinas para "alma" e "espírito".

Então seu coração pode ficar cativado por esta imagem e há sempre
uma configuração desconhecida estruturando nosso mapa e
permeando-o com experiências de milagre e mistério.



O Beijo - by Klimt


AMOR ROMÂNTICO

A experiência do amor romântico ultrapassa todas as situações,
reivindicando devoção ilimitada.
Para Platão, a mania era uma intervenção dos deuses, especificamente
Afrodite e Eros. 

Pouca coisa na vida parece mais exclusivamente feita para a gente,
mais pessoalmente dirigida à gente do que o momento maníaco do romance.
O romance parece profético, parece destino, carma.
"Só tinha de ser você"... "Só você"... "Procurei, procurei e achei"...

Esta atração "fatal", impessoalmente chamada  de química e ligada a
fenômenos subliminares, tem uma autonomia de força própria,
além da genética e do ambiente.

A fantasia enfeita o mapa ou, mais provavelmente, desenha-o.
Estudos empíricos do amor romântico declaram "que o amor
romântico está inexoravelmente associado à fantasia".

A idealização é essencial a esse amor, não a imitação.
Não a réplica do conhecido, mas a expectativa do desconhecido...
Estamos "totalmente fora do mapa". 
Estamos no terreno da transcendência, onde as realidades usuais 
são menos convincentes do que as invisibilidades...




Bouquet de Noiva by Rosan


(...) Por isto o estilo maníaco do amor romântico diverge dos demais mapas do amor.
O chamado se cristaliza naquela pessoa cujo rosto chama você para aquilo
que parece ser o seu destino.
Esta pessoa se torna uma "divindade exteriorizada", dona do meu destino,
dona de minha alma, como dizem os românticos,

"O enamoramento romântico...se dá... quase por acaso"
A ciência comportamental conclui "que o acasalamento humano é 
intrinsecamente aleatório".
Recorre à sorte para explicar a escolha mais importante de todas,
porque a psicologia enquanto ciência não ousa imaginar o que não pode aferir"

(J. Hillman em O Código do Ser - Objetiva, 1997)


A Pérola do Amor by Rosan



ADENDO...

O filósofo espanhol Ortega y Gasset diz que nos apaixonamos poucas vezes
numa vida longa.
É um acontecimento raro e fortuito e toca muito fundo.

Este amor só acontece por causa da singularidade do objeto. Só esta pessoa.

Nem atributos, nem virtudes, nem voz, nem ancas, nem conta bancária,
nem projeções de paixões anteriores, nem padrões familiares herdados, 
mas simplesmente a singularidade desta pessoa escolhida pelos olhos do coração.

Sem este sentimento de destino na escolha, o romance do amor não funciona.
Pois este tipo de amor não é um relacionamento social nem uma epistase genética,
mas é provavelmente uma herança daimonica,
um dom e uma maldição de ancestrais invisíveis...



O Jardim de Afrodite - by Rosan


Há um belo livro do sociólogo italiano Francesco Alberoni -
Enamoramento e Amor (Cultrix) - para os interessados no tema.

Nem sempre o enamoramento  romântico se torna um "amor para toda a vida",
mas é um fenômeno que - em épocas de "amores fluidos"-  vale a pena pesquisar...

Rosanna Pavesi/Setembro 2017