segunda-feira, 6 de novembro de 2017

ELOGIO AO SILÊNCIO...

Fonte: WEB


ELOGIO AO SILÊNCIO...

O silêncio faz um lugar?
Que escadas, que andaimes constroem o silêncio?
Onde o silêncio principia?
Onde ele começa é claro ou escuro?
É no silêncio que se ouvem os vozes dos deuses?
Que lugar faz o silêncio?


By Miró

A palavra...
A palavra é limite, é fronteira do silêncio, limite do caos.
Silêncio é privação?
A palavra, o som, as cores e formas dão limite ao silêncio.
O que não foi dito pode ser esquecido?


O silêncio é sentinela...
O silêncio é sentinela.
Ás vezes fica sentado em corredores;
Ás vezes, fica encostado nas paredes,
De espreita: em quartos, casas velhas, caixas,
Escritos esparsos, nas fotografias, nas montanhas
Que estão longe.
Até em certas pinturas.


Fonte: WEB

Com o silêncio...
Com o silêncio aprendemos a ver no escuro,
Aprendemos novos tons de escuro,
Aprendemos a ver o visto.
O silêncio ensina que a noite tem suas claridades.


Fonte: WEB

Às vezes...
Às vezes o silêncio se transforma
Em esfera transparente,
Imobiliza-se.
Fica sendo.
É uma espécie de gerúndio.
É como cápsula que se contém:
Fica sendo o não-ver.
Fica sendo o não-estar.
É o caminho até nossa solidão.


Sem título - by Rosan

Há chamados...
Há chamados do silêncio.
Há sentimentos que vêm de lá,
Ou, então, são feitos ali.
No silêncio, pensamos sem palavras.


By Krajberg


(Fonte: Sergio Fingermann em  Elogio ao Silêncio e Alguns Escritos sobre Pintura ).
BEI  ("Um pouco mais" em tupi - 2007)


Mãos delicadas, como uma bolha de sabão...
Filigranas....

Rosanna Pavesi/Novembro 2017











quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O "MAPA DO AMOR" E O AMOR ROMÂNTICO...

"A Pérola do Amor" by Rosan



O "MAPA DO AMOR"...

"...O "mapa do amor" é uma das maneiras como a psicologia tenta explicar 
os mistérios da paixão.

Crescemos num ambiente parental onde certos aspectos dão prazer,
satisfazem necessidades, revitalizam. 
Estas características formam um esquema que nos cativa quando uma pessoa,
que parece ter os atributos do mapa do amor, cruza o nosso caminho.

Helen E. Fisher em seu livro Anatomy of Love, diz que "À medida que 
crescemos, este mapa inconsciente toma forma e uma proto-imagem 
composta do ser amado ideal aos poucos vai surgindo".

O mapa do amor consiste em camadas.
Estudos multiculturais afirmam que existe um nível coletivo
para os mapas do amor em geral, como por exemplo a boa compleição. 
Nas mulheres, corpos carnudos, bem delineados, ancas fartas, são universalmente
atraentes. Nos homens, bens materiais, carros, sucesso, fama.

Depois, há camadas refletindo tradições, modas e normas da
comunidade local. A teoria dos mapas do amor  sugere que o condicionamento 
ambiental determina o objeto do seu desejo.



Serm Título - by Rosan


Outros psicólogos chamam este objeto de projeção.

Segundo a psicologia analítica (abordagem junguiana), 
a projeção brota de uma fonte arquetípica como parte da essência íntima
de cada alma. 

Na abordagem junguiana, o mapa do amor tem aspectos 
altamente individualizados porque é uma imagem complexa no coração
que "cativa" e o sentimento de que isso é um chamado do destino.

Quanto mais obsessiva e irresistível for a imagem,
tanto mais loucamente nos apaixonamos, o que intensifica a convicção 
de que o destino está realmente chamando.

Dá-se os nomes de anima e animus a este fator arquetípico que
inclina o mapa do amor para uma pessoa determinada. 
Estas figuras podem ter traços superficiais do mapa do amor,
mas não podem ser reduzidas a ele.
Anima e Animus são as palavras latinas para "alma" e "espírito".

Então seu coração pode ficar cativado por esta imagem e há sempre
uma configuração desconhecida estruturando nosso mapa e
permeando-o com experiências de milagre e mistério.



O Beijo - by Klimt


AMOR ROMÂNTICO

A experiência do amor romântico ultrapassa todas as situações,
reivindicando devoção ilimitada.
Para Platão, a mania era uma intervenção dos deuses, especificamente
Afrodite e Eros. 

Pouca coisa na vida parece mais exclusivamente feita para a gente,
mais pessoalmente dirigida à gente do que o momento maníaco do romance.
O romance parece profético, parece destino, carma.
"Só tinha de ser você"... "Só você"... "Procurei, procurei e achei"...

Esta atração "fatal", impessoalmente chamada  de química e ligada a
fenômenos subliminares, tem uma autonomia de força própria,
além da genética e do ambiente.

A fantasia enfeita o mapa ou, mais provavelmente, desenha-o.
Estudos empíricos do amor romântico declaram "que o amor
romântico está inexoravelmente associado à fantasia".

A idealização é essencial a esse amor, não a imitação.
Não a réplica do conhecido, mas a expectativa do desconhecido...
Estamos "totalmente fora do mapa". 
Estamos no terreno da transcendência, onde as realidades usuais 
são menos convincentes do que as invisibilidades...




Bouquet de Noiva by Rosan


(...) Por isto o estilo maníaco do amor romântico diverge dos demais mapas do amor.
O chamado se cristaliza naquela pessoa cujo rosto chama você para aquilo
que parece ser o seu destino.
Esta pessoa se torna uma "divindade exteriorizada", dona do meu destino,
dona de minha alma, como dizem os românticos,

"O enamoramento romântico...se dá... quase por acaso"
A ciência comportamental conclui "que o acasalamento humano é 
intrinsecamente aleatório".
Recorre à sorte para explicar a escolha mais importante de todas,
porque a psicologia enquanto ciência não ousa imaginar o que não pode aferir"

(J. Hillman em O Código do Ser - Objetiva, 1997)


A Pérola do Amor by Rosan



ADENDO...

O filósofo espanhol Ortega y Gasset diz que nos apaixonamos poucas vezes
numa vida longa.
É um acontecimento raro e fortuito e toca muito fundo.

Este amor só acontece por causa da singularidade do objeto. Só esta pessoa.

Nem atributos, nem virtudes, nem voz, nem ancas, nem conta bancária,
nem projeções de paixões anteriores, nem padrões familiares herdados, 
mas simplesmente a singularidade desta pessoa escolhida pelos olhos do coração.

Sem este sentimento de destino na escolha, o romance do amor não funciona.
Pois este tipo de amor não é um relacionamento social nem uma epistase genética,
mas é provavelmente uma herança daimonica,
um dom e uma maldição de ancestrais invisíveis...



O Jardim de Afrodite - by Rosan


Há um belo livro do sociólogo italiano Francesco Alberoni -
Enamoramento e Amor (Cultrix) - para os interessados no tema.

Nem sempre o enamoramento  romântico se torna um "amor para toda a vida",
mas é um fenômeno que - em épocas de "amores fluidos"-  vale a pena pesquisar...

Rosanna Pavesi/Setembro 2017





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

GÁLIA: A ÁRVORE...

Cidade de Gelo - by Rosan



Pinto há muitos anos...
É minha forma de registrar o invisível e o indizível...
E também de deixar brotar o desconhecido, o estrangeiro em mim 
que as telas me revelam...

Há muito anos, em um momento particularmente difícil de minha vida,
estava eu na frente de uma tela em branco, de 1,40 X 1,40,
me perguntando o que "ela queria de mim..."

Comecei a trabalhar nela, espalhando a massa corrida
e quando eu vi - ao me distanciar da tela - 
foi o enorme cogumelo da explosão de uma bomba atômica...

Fiquei estarrecida e muito assustada
e comecei a chorar...
Correspondia ao que estava acontecendo em minha vida...

Deixei a tela "descansar" por certo tempo...
Passava na frente dela e não sabia bem o que fazer...



Marte - by Rosan

Até que Marte, e seu espírito guerreiro, vieram em meu socorro...

Me determinei a  transformar a destruição em  vida...
Decidi transformar em uma Árvore da Vida...
Pintava e chorava, mas pintava...


Foi assim que surgiu Gália, A Árvore...


Gália: A Árvore - by Rosan


Dediquei-lhe um poema...

GÁLIA: A ARVORE...

Árvore frondosa, espaçosa, abraçando a tela toda...
Árvore envolvente, carinhosa, carregada...
Árvore leve, mas troncuda, enraizada...

Árvore sofrida, rabiscada, desmanchada,
revivida com fúria, teimosia e muita valentia...

Árvore prateada, ornada com carinho,
detalhada devagarinho,
trabalhada de fino.

Árvore orgulhosa,
altiva em todo o seu esplendor...

Árvore mulher, 
generosa, abraçando o espaço, com seus braços...

Gália, minha árvore querida...


Sem título - by Rosan


Hoje, me sinto por ela protegida...



Spring - by Rosan


Rosanna Pavesi/Setembro 2017

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O ALQUIMISTA...

Eros - by Rosan


Ontem, 27 de agosto, foi o Dia do Psicólogo...

Voltei atrás no tempo, a um tempo quando ainda não era nem psicóloga,
nem psicoterapeuta de abordagem junguiana...
Era, simplesmente, uma cliente em terapia...
Minha primeira vez, num momento muito difícil de minha vida,
quando a terapia fez toda a diferença do mundo...

No final da terapia, entreguei um caderninho ao meu terapeuta,
Um caderninho com alguns poemas que surgiram ao longo do processo...

Transcrevo aqui alguns deles, em homenagem ao trabalho silencioso,
discreto, profundo e humano de todos nós...


Psique - by Rosan


O ALQUIMISTA

Este homem não me amou, nem nunca me beijou, ou abraçou...
Me magoou, mas não fugiu ou abandonou..
Não me entregou, nem criticou, ou julgou...

Uma vez somente gritou, outra me censurou,
mas também me endossou...
Sua mão tremeu, sim, uma vez só...

Mas me olhou, me viu, me ouviu e silenciou.
Me olhou como pessoa, com aquele olhar estranho,
impiedoso e tão cortante, eficiente e arrogante, ou alegre e brincalhão...
Ás vezes tão profundo, preocupado,
às vezes um pouco ausente, ou irreverente mas, sempre,
com muita compreensão.

Me ouviu pacientemente, bocejou de vez em quando, 
disfarçou tranquilamente, mas estava ali, presente.
Me falou quando podia, quando eu lhe permitia...
Ás vezes com carinho, ou com ternura,
outras com ironia, compaixão ou alegria...

Me tirou do escuro e, em silêncio, me devolveu à luz,
me sacudiu, me ensinou, me emprestou sua energia...
Resgatou todo um passado, devolveu-me em poesia, mil palavras corriqueiras...

Dissolveu minhas mágoas, libertou minhas muitas lágrimas,
desmanchou meus muitos nós, acariciou meus pensamentos,
suavizou meus pesadelos...
Companheiro, sem querer, de uma viagem tenebrosa,
mas também maravilhosa...

Este homem me ajudou...



Sem título - by Rosan


A CONSULTA

Do que vou falar hoje?
Não sei por onde começar,,,
Nunca sei...

Nada mais é premente, nem urgente, 
tudo ficou para trás...
Falar do presente, o futuro do passado, o passado do futuro...
Enquanto eu falo, 
ele já se vai...

Falar do futuro?
O futuro não se fala, ele acontece...

Do que vou falar hoje?



by Miró


PESSOAS...

Todas as quartas-feiras, às dezoito e trinta,
encerrou...

Nas mesmas quartas-feiras, às dezoito e trintas,
outra pessoa, outros problemas...

Fumante ou não fumante?
Homem ou mulher?
Jovem ou coroa?
Pontual ou atrasada?
Chata ou interessante?

O que quer deixar para trás,
do que quer se libertar?
O que busca, pois sempre busca...
Será outra maluca?

No meio desta multidão,
o analista nunca sente solidão?




by Rothko


Rosanna Pavesi/Agosto 2017




quarta-feira, 16 de agosto de 2017

SOBRE MORALIDADE...

                                                                 Carl Gustav Jung - Fonte: WEB



SOBRE MORALIDADE...

A contribuição de Jung no campo da ética e da moralidade era do ponto de vista
de um analista e psiquiatra:
"Por trás da ação de um homem não se encontra nem a opinião pública
nem o código moral, mas sim a personalidade da qual ele ainda
é inconsciente" (CW 11, par.390)

Em outras palavras, o problema da moral se apresenta psicologicamente 
quando uma pessoa encara a questão de saber no que ela pode se tornar
em comparação com o que ela irá se tornar se determinadas atitudes
forem mantidas, decisões tomadas ou ações estimuladas SEM REFLEXÃO.


Sem título - by Dirce Schueler


Jung afirmava que a moralidade não é invenção da sociedade,
mas sim inerente às leis da vida.

É um homem agindo com consciência de sua própria responsabilidade moral
para consigo mesmo que cria a cultura, e não o inverso.


Fonte: WEB


Jung sugeria que era um princípio de individualidade inato que compele
toda pessoa a fazer julgamentos morais em concordância consigo própria.

Esse princípio, composto de uma responsabilidade primária para com o ego
por um lado, e - pelo outro - em relacionamento com as exigências supra-ordenadas do self
(no que uma pessoa pode se tornar) é capaz de fazer as mais arbitrárias
e penosas solicitações.

Estas parecem ter pouco ou nenhum sentido ou referência aos padrões do coletivo
e, contudo, mantêm um equilíbrio com a sociedade.
O resultado de tomar uma decisão consciente de capitular ou renunciar
(dar em sacrifício) uma posição do ego pode aparentemente trazer
uma satisfação exterior pouco pessoal e imediata,
MAS 
estabelece uma correção das coisas de forma psicológica;
isto é, "funciona", usando a expressão de Jung.

Ela restaura um equilíbrio entre forças conscientes e inconscientes.



by P. Klee - Fonte: WEB


Qualquer encontro com um arquétipo apresenta um problema moral.
Este se torna tanto mais difícil quando o ego é fraco e indeciso
em relação à atração numinosa exercida pelo próprio arquétipo.

O arquétipo do self pode vir a fazer exigências imperiosas e autoritárias.
O que Jung parece dizer é 

ser possível dizer um "não" consciente à autoridade do self;

também é possível agir em conformidade com o self.

Porém, tentar ignorar ou negar o self é imoral porque nega 
o único potencial de alguém para ser.

Estas ideias são compatíveis com a teoria básica junguiana dos opostos;
fundamentalmente,é o conflito entre os opostos que 
coloca o problema moral à personalidade...

(Fonte: Dicionário Crítico de Análise Junguiana - 
Andrew Samuels, Bani Shorter, Fred Plaut - Imago)



A Chuva - by Rosan


Sacrifício... Tornar sagrado...
O ato de renúncia é equivalente ao reconhecimento  de
um princípio supra-ordenado à consciência presente de um individuo...

Em algum momento da vida cada um de nós será eventualmente chamado ao sacrifício;
isto é, a renunciar a uma atitude psicológica apreciada, neurótica ou de outra natureza.
Em cada caso, é provável que a exigência seja maior que a de uma adaptação ocasional.
Uma parte essencial do preço que pagamos para sermos humanos...

Ao mesmo tempo, Jung sempre salientava a importância de mantermos uma 
atitude crítica e fazer "o possível" tão só...

Rosanna Pavesi/Agosto 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A TEORIA DO FRUTO DO CARVALHO - (BY J. HILLMAN)

                                                       A ÁRVORE DA VIDA - by Rosan



A TEORIA DO FRUTO DO CARVALHO

Cada pessoa entra neste mundo atendendo a um chamado.
Esta ideia já está em "A República"  de Platão e, ao longo dos séculos, vem
recebendo denominações diferentes.
Os romanos denominavam este "chamado" de gênio
Os gregos usavam o termo daimon  para designá-lo.
Românticos, como Keats, acreditavam que este chamado vinha do coração.

James Hillman em seu livro  O Código do Ser (Objetiva - 1997), desenvolve a teoria
do fruto do carvalho que pode ser resumida conforme segue:

"Cada vida é formada por sua imagem única, uma imagem que é a essência
desta vida e a chama para um destino. Tal como a força do destino,
essa imagem age como um daimon  pessoal, um guia que se lembra
do seu chamado.

Os "avisos" do daimon agem de muitas maneiras.
daimon motiva. Protege. Inventa e persiste com obstinada fidelidade.
NÃO costuma ceder ao bom senso e muitas vezes faz seu portador
agir de forma que foge às regras, especialmente quando negligenciado ou contrariado.
Oferece conforto e pode puxar você para a sua concha, 
mas não tolera a inocência.
Pode fazer o corpo adoecer.
Está em descompasso com o tempo,
descobrindo todos os tipos de falhas, brechas e nós no decorrer da vida -
e dá preferência a essas coisas.
Tem afinidade com o mito, uma vez que é um ser mítico e pensa em termos míticos.


Noites Antigas - by Rosan


O daimon tem um pré-conhecimento - talvez não das particularidades -
porque não pode manipular os acontecimentos para fazê-los combinar
com a imagem e realizar o chamado.

Portanto, seu pré-conhecimento não é perfeito, mas sim limitado
à significação da vida na qual ele está encarnado.
É imortal, no sentido de que não pode deixar de existir,
nem ser morto apenas por explicações mortais.


Sem título - by Rosan

Tem muito a ver com sentimentos de singularidade, grandeza 
e com a inquietação do coração, sua impaciência, sua insatisfação, seu desejo.
Carece de seu quinhão de beleza.
Deseja ser visto, testemunhado, reconhecido,
particularmente pela pessoa que dele cuida.

É lento para se fixar e rápido para voar.
Não pode mudar seu próprio chamado supremo
sentindo-se ao mesmo tempo só e exilado, e em harmonia cósmica.

As imagens metafóricas são sua primeira língua inata, 
que fornece a base poética da mente, possibilitando que todas as pessoas
e todas as coisas se comuniquem por metáforas..."


Sem título - by Rosan


Esta teoria oferece uma visão mais libertadora de traumas infantis
e discute temas importantes como fatalismo, caráter, desejo,
influências familiares e, acima de tudo, vocação
este mistério que adormece na essência de cada ser humano.

Hillman não considera os seres humanos vitimas de uma educação familiar
ou de heranças genéticas. Também não oferece um guia  milagroso para
"curar" desajustes psíquicos.
Em vez disso, ele assinala a importância de que cada um procure 
descobrir o seu daimon, 
aquilo que já trouxe impresso em sua individualidade, disposto a se desenvolver.

Por fim, citando livremente uma frase de Jung: 
No fundo, somos importantes somente por aquilo que encarnamos
e se não o fazemos, nossa vida será desperdiçada...


A Pérola do Amor - by Rosan


Rosanna Pavesi/Agosto 2017

domingo, 28 de maio de 2017

SE EU PUDESSE...

Fonte: WEB


SE EU PUDESSE...

"(...) Até que ponto escolhemos aquilo em que acreditamos?
É difícil saber como é com cada um.

Às vezes tenho a impressão de que existem pessoas capazes de acreditar 
em praticamente qualquer coisa:
portam-se como consumidores a comprar ou descartar
no mercado das crenças aquilo em que acreditam -
ou pelo menos dizem acreditar, até para si mesmas -,
como se optassem por um programa na TV ou marca de dentifrício.

Como conseguem ser tão maleáveis?
Mas existirão pessoas assim, é o que me pergunto - 
gente com o dom de ligar ou desligar aquilo em que convém acreditar?
Francamente não sei...
Só o que sei - e disso estou seguro - é que - se tal dom existe,
eu definitivamente não o possuo.
Comigo não é assim... 



Fonte: WEB


Se eu pudesse escolher livremente aquilo em que acredito,
preferiria acreditar:
- que a Terra é o centro do universo, e não uma parte insignificante dele;
preferiria acreditar: 
- na existência de alguma forma de providência que zelasse 
pelos nossos destinos pessoais e coletivos;
preferiria acreditar:
- na perenidade da alma após a morte e na recompensa dos justos
e na punição dos atrozes;
acreditaria que basta crer na minha liberdade de escolha
para que ela de fato exista...

E não obstante - será preciso dizer? - não creio.


Sem título - by Rosan


A lista poderia seguir, mas nada acrescentaria.

O fato capital é simples: querer acreditar não basta.

Há uma fenda que separa aquilo em que se pode acreditar -
o domínio do crível - 
e aquilo em que se tem vontade de acreditar, ou seja,
aquilo em que se acreditaria, com sinceridade, alegria e boa-fé, se fosse possível.

Por mais que isso fira o nosso conforto espiritual
ou mortifique as pretensões humanas,
o desejo de acreditar não pode subjugar o impulso de investigar e descobrir..." 

(E. Giannetti em "A Ilusão da Alma - Biografia de uma Ideia Fixa"
Companhia das Letras - 2010)



Fonte: WEB


Assim como o autor, teria vontade de acreditar em diversas coisas,
a vida talvez seria mais fácil, ou mais simples?
Mas seria?
Não creio...


Rosanna Pavesi/Maio 2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A CASCA QUE PROTEGIA O FRUTO...


 By G. Klimt


A CASCA QUE PROTEGIA O FRUTO...

"(...)  Curiosa vida tornou-se a minha...

Aos olhos do mundo, a monotonia de uma existência sem lustro
e um apego canino à rotina:
um cotidiano anódino de intermináveis leituras e caminhadas fúteis,
o andarilho solitário e sua sombra,
alheio a feriados e fins de semana.

                         

 Fonte: WEB


Eu seguia um ritual executado à risca, sem pressa ou obrigação:
a mesma sequência invariável de afazeres, hábitos e itinerários,
interrompida apenas pelos reclamos do corpo - 
o desconforto da fome e o chamado do sono.

Quem tivesse visto um só dos meus dias
poderia imaginar que tivesse visto todos.

E, no entanto, não teria visto nada...



Fonte: A Way to Blue


Aos olhos do mundo, admito, eu não pareceria mais que um relógio pontual 
inofensivo, marcando horas vadias em dias iguais -
um morto-vivo.

Mas aos olhos do mundo, afeitos à superfície do que acontece,
o que podiam ver?

Como suspeitariam da aventura de ideias e descobertas
que pulsava sob a epiderme daquela tépida rotina?



Fonte: A Way to Blue


Pois a realidade era que eu me sentia mais vivo 
em minha aparente semi vida, aferrado ao meu dia a dia de estudos e meditação,
do que quando parecia animadamente vivo aos olhos de todos,
rodopiando no carrossel dos desejos e ambições.  



 Fonte: A Way to Blue



Fiz da rotina ritualizada o meu escudo protetor -
o invólucro de um fervilhante miolo intelectual.

Disciplina espartana por fora,
vigor inquisitivo por dentro.

A casca protegia o fruto..."




(E. Giannetti em "A Ilusão da Alma - Biografia de uma Ideia Fixa"
Companhia das Letras - 2010)



Fonte: WEB

O livro na estante, na pilhas dos ainda não lidos - me chamou neste feriado...

Estranha coincidência?
Justo no feriado em que programei ficar em casa,
sem "fazer nada", a não ser comer, dormir, ler, pintar, caminhar...
retirar-me do mundo...
Como alguém que se dá um presente...

Uma ou duas vezes, em minha vida, já usei este recurso como um escudo protetor...
Sempre funcionou...
Saia do "retiro" calma, serena, fortalecida...

Hoje ainda faço de vez em quando,
não mais como um escudo protetor
mas sim como uma doce, suave e merecida pausa...




Rosanna Pavesi/Maio 2017

domingo, 9 de abril de 2017

SOBRE "AQUILO QUE BASTA"...

Fonte: WEB


SOBRE "AQUILO QUE BASTA"...

Vou começar relatando um pequeno conto popular, conhecido como
" O CONTO DA VAQUINHA..."

"Era uma vez um sábio chinês e seu discípulo.
Certo dia, em suas andanças, avistaram um casebre de extrema pobreza,
onde viviam um homem, uma mulher, três filhos pequenos e uma vaquinha magra e cansada.

Com fome e sede, o sábio e o discípulo pediram abrigo e foram atendidos.
O sábio perguntou como conseguiam sobreviver em tamanha pobreza e longe de tudo.

"O senhor vê aquela vaca ?" - disse o homem- "dela tiramos todo o sustento.
Ela nos dá leite, que em parte bebemos e em parte transformamos em queijo e coalhada.
Quando sobra, vamos à cidade e trocamos por outros alimentos.
É assim que vivemos..."




O sábio agradeceu a hospedagem e partiu com o discípulo.
Nem bem fizeram a primeira curva, o sábio disse ao discípulo:
"Volte lá, pegue a vaquinha, leve-a até o precipício lá em  frente e atire-a lá embaixo".
O discípulo não acreditou...
"Mas mestre" - disse ele - "eu não posso fazer isso! Como pode ser tão ingrato?
A vaquinha é tudo que eles têm. Se a vaca morrer, eles morrem também!"

O sábio, como convém aos sábios chineses, respirou fundo e repetiu a ordem.
Indignado, porém resignado, o discípulo então voltou lá, pegou a vaquinha
e a empurrou no precipício. 
A vaca, como era de se prever, estatelou-se lá embaixo. 

Alguns anos se passaram e o discípulo sempre com remorso...
Num certo dia, moído pela culpa, abandonou o sábio e decidiu voltar àquele lugar
para pedir desculpas e ajudar aquela família.

Ao fazer a curva, não acreditou no que seus olhos viram!
No lugar do casebre desmazelado havia um sítio maravilhoso, 
com arvores, piscina, carro, antena parabólica e outros sinais de prosperidade.
Perto da churrasqueira havia adolescentes lindos, robustos e saudáveis
comemorando alguma data especial. O coração do discípulo tremeu...
Ele pensou: "de certo, vencidos pela fome, os antigos moradores foram obrigados
a vender a posse e ir embora... 
Devem estar mendigando na rua..."





Aproximou-se do caseiro e perguntou se ele sabia o paradeiro da família que havia morado lá.
"Claro que sei" - disse o caseiro - "Você está olhando para ela!"
Incrédulo, o discípulo afastou o portão, deu alguns passos e reconheceu o mesmo homem de antes,
só que mais forte, ativo, a mulher mais feliz e as crianças agora jovens saudáveis.

Espantado, dirigiu-se ao homem e disse:
"Mas o que aconteceu? Estive aqui com meu mestre alguns anos atrás
e este era um lugar miserável, não havia nada... 
O que o senhor fez para melhorar de vida em tão pouco tempo?"

O homem olhou para o discípulo, sorriu e respondeu:
"Nós tínhamos uma vaquinha como nossa única fonte de sustento.
Era tudo que possuíamos, mas um dia ela caiu no precipício e morreu...
Para sobreviver, tivemos que fazer outras coisas, desenvolver habilidades  que nem sabíamos possuir.
E foi assim, buscando novas soluções, que hoje estamos muito melhor que antes!" 

Só então o discípulo compreendeu que o sábio foi sábio e não cruel 
como lhe pareceu a primeira vista..."






Moral da história...

Às vezes é preciso "deixar a vaca ir pro brejo"
tanto literalmente quanto metaforicamente ...

Porque é sempre a necessidade que nos move, que nos obriga a sermos criativos
e a encontrarmos soluções para os dilemas e impasses que a vida propõe.

Muitas vezes, é preciso sair da acomodação, da zona de conforto,
parar de "segurar a vaquinha pelo rabo para ela não cair no precipício",
buscar novos caminhos e trabalhar com amor, afinco e determinação...




O que vem a ser a "vaquinha magra e cansada" em cada um de nos?

A "vaquinha" pode ser um paradigma mental arraigado, 
uma falsa crença, uma atitude equivocada, 
um padrão automático de resposta que nos leva a privilegiar "o seguro" - mesmo que não baste - 
ou "o certo" mesmo que não seja o suficiente, nem o desejável - sem questionar -
por acreditarmos que, no fundo, não temos escolha...

Certa aceitação conformada, uma falsa humildade, 
um excesso de bom senso ou conservadorismo que pode vir a afetar diversas esferas da vida
e que se dissimula atrás de reflexões do tipo:
"não o amo, mas é um bom homem...",
ou "este emprego paga mal, mas é seguro...",
ou ainda "não é aquilo que gostaria de fazer, mas paga bem..."
e assim por diante.

Se nos permitirmos parar por um instante e pensar sobre o assunto,
é quase certo que cada um de nos saberá reconhecer sua
"vaquinha magra e cansada"...

Pessoalmente, tinha algumas "vaquinhas" que segurava com afinco pelo rabo
para que não caíssem no precipício...
Certo dia, cansei, e soltei o rabo delas...
Foi assim que comecei a arar e plantar meus campos
e cuidar de minha horta...




Como já bem disse o poeta, Fernando Pessoa:

"... E é sempre melhor o impreciso que embala,
do que o certo que basta.
Porque o que basta, acaba onde basta.
E onde acaba, não basta.
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida".


Rosanna Pavesi/Abril 2017