domingo, 28 de maio de 2017

SE EU PUDESSE...

Fonte: WEB


SE EU PUDESSE...

"(...) Até que ponto escolhemos aquilo em que acreditamos?
É difícil saber como é com cada um.

Às vezes tenho a impressão de que existem pessoas capazes de acreditar 
em praticamente qualquer coisa:
portam-se como consumidores a comprar ou descartar
no mercado das crenças aquilo em que acreditam -
ou pelo menos dizem acreditar, até para si mesmas -,
como se optassem por um programa na TV ou marca de dentifrício.

Como conseguem ser tão maleáveis?
Mas existirão pessoas assim, é o que me pergunto - 
gente com o dom de ligar ou desligar aquilo em que convém acreditar?
Francamente não sei...
Só o que sei - e disso estou seguro - é que - se tal dom existe,
eu definitivamente não o possuo.
Comigo não é assim... 



Fonte: WEB


Se eu pudesse escolher livremente aquilo em que acredito,
preferiria acreditar:
- que a Terra é o centro do universo, e não uma parte insignificante dele;
preferiria acreditar: 
- na existência de alguma forma de providência que zelasse 
pelos nossos destinos pessoais e coletivos;
preferiria acreditar:
- na perenidade da alma após a morte e na recompensa dos justos
e na punição dos atrozes;
acreditaria que basta crer na minha liberdade de escolha
para que ela de fato exista...

E não obstante - será preciso dizer? - não creio.


Sem título - by Rosan


A lista poderia seguir, mas nada acrescentaria.

O fato capital é simples: querer acreditar não basta.

Há uma fenda que separa aquilo em que se pode acreditar -
o domínio do crível - 
e aquilo em que se tem vontade de acreditar, ou seja,
aquilo em que se acreditaria, com sinceridade, alegria e boa-fé, se fosse possível.

Por mais que isso fira o nosso conforto espiritual
ou mortifique as pretensões humanas,
o desejo de acreditar não pode subjugar o impulso de investigar e descobrir..." 

(E. Giannetti em "A Ilusão da Alma - Biografia de uma Ideia Fixa"
Companhia das Letras - 2010)



Fonte: WEB


Assim como o autor, teria vontade de acreditar em diversas coisas,
a vida talvez seria mais fácil, ou mais simples?
Mas seria?
Não creio...


Rosanna Pavesi/Maio 2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A CASCA QUE PROTEGIA O FRUTO...


 By G. Klimt


A CASCA QUE PROTEGIA O FRUTO...

"(...)  Curiosa vida tornou-se a minha...

Aos olhos do mundo, a monotonia de uma existência sem lustro
e um apego canino à rotina:
um cotidiano anódino de intermináveis leituras e caminhadas fúteis,
o andarilho solitário e sua sombra,
alheio a feriados e fins de semana.

                         

 Fonte: WEB


Eu seguia um ritual executado à risca, sem pressa ou obrigação:
a mesma sequência invariável de afazeres, hábitos e itinerários,
interrompida apenas pelos reclamos do corpo - 
o desconforto da fome e o chamado do sono.

Quem tivesse visto um só dos meus dias
poderia imaginar que tivesse visto todos.

E, no entanto, não teria visto nada...



Fonte: A Way to Blue


Aos olhos do mundo, admito, eu não pareceria mais que um relógio pontual 
inofensivo, marcando horas vadias em dias iguais -
um morto-vivo.

Mas aos olhos do mundo, afeitos à superfície do que acontece,
o que podiam ver?

Como suspeitariam da aventura de ideias e descobertas
que pulsava sob a epiderme daquela tépida rotina?



Fonte: A Way to Blue


Pois a realidade era que eu me sentia mais vivo 
em minha aparente semi vida, aferrado ao meu dia a dia de estudos e meditação,
do que quando parecia animadamente vivo aos olhos de todos,
rodopiando no carrossel dos desejos e ambições.  



 Fonte: A Way to Blue



Fiz da rotina ritualizada o meu escudo protetor -
o invólucro de um fervilhante miolo intelectual.

Disciplina espartana por fora,
vigor inquisitivo por dentro.

A casca protegia o fruto..."




(E. Giannetti em "A Ilusão da Alma - Biografia de uma Ideia Fixa"
Companhia das Letras - 2010)



Fonte: WEB

O livro na estante, na pilhas dos ainda não lidos - me chamou neste feriado...

Estranha coincidência?
Justo no feriado em que programei ficar em casa,
sem "fazer nada", a não ser comer, dormir, ler, pintar, caminhar...
retirar-me do mundo...
Como alguém que se dá um presente...

Uma ou duas vezes, em minha vida, já usei este recurso como um escudo protetor...
Sempre funcionou...
Saia do "retiro" calma, serena, fortalecida...

Hoje ainda faço de vez em quando,
não mais como um escudo protetor
mas sim como uma doce, suave e merecida pausa...




Rosanna Pavesi/Maio 2017

domingo, 9 de abril de 2017

SOBRE "AQUILO QUE BASTA"...

Fonte: WEB


SOBRE "AQUILO QUE BASTA"...

Vou começar relatando um pequeno conto popular, conhecido como
" O CONTO DA VAQUINHA..."

"Era uma vez um sábio chinês e seu discípulo.
Certo dia, em suas andanças, avistaram um casebre de extrema pobreza,
onde viviam um homem, uma mulher, três filhos pequenos e uma vaquinha magra e cansada.

Com fome e sede, o sábio e o discípulo pediram abrigo e foram atendidos.
O sábio perguntou como conseguiam sobreviver em tamanha pobreza e longe de tudo.

"O senhor vê aquela vaca ?" - disse o homem- "dela tiramos todo o sustento.
Ela nos dá leite, que em parte bebemos e em parte transformamos em queijo e coalhada.
Quando sobra, vamos à cidade e trocamos por outros alimentos.
É assim que vivemos..."




O sábio agradeceu a hospedagem e partiu com o discípulo.
Nem bem fizeram a primeira curva, o sábio disse ao discípulo:
"Volte lá, pegue a vaquinha, leve-a até o precipício lá em  frente e atire-a lá embaixo".
O discípulo não acreditou...
"Mas mestre" - disse ele - "eu não posso fazer isso! Como pode ser tão ingrato?
A vaquinha é tudo que eles têm. Se a vaca morrer, eles morrem também!"

O sábio, como convém aos sábios chineses, respirou fundo e repetiu a ordem.
Indignado, porém resignado, o discípulo então voltou lá, pegou a vaquinha
e a empurrou no precipício. 
A vaca, como era de se prever, estatelou-se lá embaixo. 

Alguns anos se passaram e o discípulo sempre com remorso...
Num certo dia, moído pela culpa, abandonou o sábio e decidiu voltar àquele lugar
para pedir desculpas e ajudar aquela família.

Ao fazer a curva, não acreditou no que seus olhos viram!
No lugar do casebre desmazelado havia um sítio maravilhoso, 
com arvores, piscina, carro, antena parabólica e outros sinais de prosperidade.
Perto da churrasqueira havia adolescentes lindos, robustos e saudáveis
comemorando alguma data especial. O coração do discípulo tremeu...
Ele pensou: "de certo, vencidos pela fome, os antigos moradores foram obrigados
a vender a posse e ir embora... 
Devem estar mendigando na rua..."





Aproximou-se do caseiro e perguntou se ele sabia o paradeiro da família que havia morado lá.
"Claro que sei" - disse o caseiro - "Você está olhando para ela!"
Incrédulo, o discípulo afastou o portão, deu alguns passos e reconheceu o mesmo homem de antes,
só que mais forte, ativo, a mulher mais feliz e as crianças agora jovens saudáveis.

Espantado, dirigiu-se ao homem e disse:
"Mas o que aconteceu? Estive aqui com meu mestre alguns anos atrás
e este era um lugar miserável, não havia nada... 
O que o senhor fez para melhorar de vida em tão pouco tempo?"

O homem olhou para o discípulo, sorriu e respondeu:
"Nós tínhamos uma vaquinha como nossa única fonte de sustento.
Era tudo que possuíamos, mas um dia ela caiu no precipício e morreu...
Para sobreviver, tivemos que fazer outras coisas, desenvolver habilidades  que nem sabíamos possuir.
E foi assim, buscando novas soluções, que hoje estamos muito melhor que antes!" 

Só então o discípulo compreendeu que o sábio foi sábio e não cruel 
como lhe pareceu a primeira vista..."






Moral da história...

Às vezes é preciso "deixar a vaca ir pro brejo"
tanto literalmente quanto metaforicamente ...

Porque é sempre a necessidade que nos move, que nos obriga a sermos criativos
e a encontrarmos soluções para os dilemas e impasses que a vida propõe.

Muitas vezes, é preciso sair da acomodação, da zona de conforto,
parar de "segurar a vaquinha pelo rabo para ela não cair no precipício",
buscar novos caminhos e trabalhar com amor, afinco e determinação...




O que vem a ser a "vaquinha magra e cansada" em cada um de nos?

A "vaquinha" pode ser um paradigma mental arraigado, 
uma falsa crença, uma atitude equivocada, 
um padrão automático de resposta que nos leva a privilegiar "o seguro" - mesmo que não baste - 
ou "o certo" mesmo que não seja o suficiente, nem o desejável - sem questionar -
por acreditarmos que, no fundo, não temos escolha...

Certa aceitação conformada, uma falsa humildade, 
um excesso de bom senso ou conservadorismo que pode vir a afetar diversas esferas da vida
e que se dissimula atrás de reflexões do tipo:
"não o amo, mas é um bom homem...",
ou "este emprego paga mal, mas é seguro...",
ou ainda "não é aquilo que gostaria de fazer, mas paga bem..."
e assim por diante.

Se nos permitirmos parar por um instante e pensar sobre o assunto,
é quase certo que cada um de nos saberá reconhecer sua
"vaquinha magra e cansada"...

Pessoalmente, tinha algumas "vaquinhas" que segurava com afinco pelo rabo
para que não caíssem no precipício...
Certo dia, cansei, e soltei o rabo delas...
Foi assim que comecei a arar e plantar meus campos
e cuidar de minha horta...




Como já bem disse o poeta, Fernando Pessoa:

"... E é sempre melhor o impreciso que embala,
do que o certo que basta.
Porque o que basta, acaba onde basta.
E onde acaba, não basta.
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida".


Rosanna Pavesi/Abril 2017

quinta-feira, 23 de março de 2017

ENTREVISTA COM W. GIEGERICH: COMO DESCREVERIA UM ANALISTA JUNGUIANO (2)

Psi - by Rosan


COMO DESCREVER UM ANALISTA JUNGUIANO?

(Parte 2)

Continuação Resposta de Giegerich:

SE definirmos um "analista junguiano" na linha do
 "eu mais Jung" 
graças a um conjunto de determinadas convicções teóricas, 
esta definição poderia ser chamada de descrição horizontal, 
 um movimento a partir de mim em direção ao outro.

Em contraste,
 o movimento em direção àquilo que eu sou verdadeiramente,
o querer sem somente eu mesmo
é um movimento vertical,
um movimento da superfície em direção ao núcleo, à sua essência interior.

Penso que  este compromisso com a verticalidade
 que, quando não se limita, nem se fecha exclusivamente sobre si mesmo,
mas se oferece  como forma de estar no mundo, 
como caminho, 
em relação a toda e qualquer coisa, todo e qualquer evento e/ou fenômeno que se apresente
é a marca distintiva do analista junguiano.

É um compromisso com a unicidade de cada fenômeno,
a "agoridade" da situação deste paciente específico hoje,
a "unicidade" de minha compreensão, minha resposta 
àquilo que se apresenta aqui e agora...

(No lugar de conceitos universais - abstratos prontos,diagnósticos, imagens míticas 
ou técnicas prontas...).

Por outro lado, 
é um compromisso com algo que não salta à vista de imediato,
algo abaixo do nível dos fatos positivos,
um compromisso com a "alma" no real,
um compromisso com a vida lógica  o "opus alquímico" 
que permeia e perpassa tudo que se apresenta,
um compromisso com a profundidade histórica de cada momento presente.


Algo mais:

O analista junguiano encontra seu paciente olho no olho,
a um nível profundamente humano e pessoal,
mas seu foco psicológico  - precisamente - 
 é dirigido não à pessoa, mas sim ao conceito..."

(W. Giegerich em "Living with Jung- 'Enterviews' with Jungian Analysta"
Vo. 3 - by R. & J. Henderson - Spring 2010).

O consultório como um "Labor Oratorium"...
Um espaço sagrado, um temenos
tanto para o terapeuta como para o cliente...
Um "vaso alquímico" para ambos...
Ambos serão transformados...

Rosanna Pavesi/março 2017


domingo, 19 de março de 2017

ENTREVISTA COM W. GIEGERICH: COMO DESCREVERIA UM ANALISTA JUNGUIANO? (1)

                                Paixão Silenciada - by  Rosan  

COMO DESCREVER UM ANALISTA JUNGUIANO?

Robert & Janis Henderson conduziram entrevistas com analistas junguianos de diversas gerações e Países, que resultou numa Coletânea de  3 Volumes: "Living with Jung - 'Entreviews' with Jungian Analysts" -  Spring 2010. 

A seguir um trecho da entrevista com W. Giegerich  (Vol. 3) realizada via internet entre 2007 e 2008. Giegerich, na época tinha 66 anos. 
(tradução livre do original em Inglês).

"Pergunta: Você passou mais de trinta anos sendo um analista junguiano. 
Como você descreveria um analista junguiano?

Resposta: O mundo dos analistas junguianos apresenta um quadro de grande diversidade.
Sua pergunta, portanto, talvez queira se referir a um "tipo ideal".
Mesmo assim, não há como fazer uma descrição uniforme...

Não há como apresentar uma lista de artigos de fé, convicções teóricas e técnicas que constituam a essência de ser um analista junguiano. 
De forma que só posso dar uma "descrição" formal e, mesmo assim, 
uma descrição que traz em seu bojo uma contradição:

Um analista junguiano é alguém que é verdadeiramente si mesmo/a, mas que 
- justamente por ser ele/a mesmo/a - se sente comprometido com a "mesma" tarefa 
que representa o "spiritus rector" da psicologia de Jung.

Ser si mesmo, derradeiramente si mesmo, é algo essencial na descrição de um junguiano.
A abordagem junguiana é "a escola da individuação", como já afirmou Rudolf Blomeyer;
e isto também significa individualidade.
Jung afirmava, corretamente, que somente ele poderia ser um junguiano...

Isto significa que, para ser um junguiano, você não pode ser um junguiano,
você precisa ser você mesmo...
Qualquer imitação do modo como Jung pensava,
Qualquer adoção dogmática de suas ideias,
Qualquer aplicação das técnicas por ele desenvolvidas,
desqualificaria você como analista junguiano.

Portanto, a noção de "analista junguiano"  é inevitavelmente plural
e não - como sua forma linguística parece sugerir - singular.

A  própria descrição de um tipo ideal de analista junguiano implica - inevitavelmente - 
a diversidade.

Penso que aqui, no campo de indivíduos humanos reais, 
é que podemos encontrar
 o lugar correto, apropriado, de pertencimento do importante tópico do pluralismo em psicologia.

Jung se referia a este pluralismo como "equação pessoal".

Localizá-lo na alma ("a psique plural"), nos arquétipos ou nos deuses ("psicologia politeista")
não me parece adequado.

Agora surge a questão: O que torna todos estes indivíduos diversos e singluares,
que são realmente eles mesmos, mesmo assim "junguianos"?

A marca que os distingue não pode ser simplesmente um "algo" a ser acrescentado
("eu mais Jung");
deve ser então algo previamente intrínseco à própria noção de 
"ser verdadeiramente si mesmo"."


O Ovo - by Rosan



Eu mais Jung  (horizontalidade)
ou
eu, verdadeiramente eu mesmo tão só? (verticalidade).

A continuar no próximo "post"...


  Rosanna Pavesi/Março 2017  


                                         

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O ÓCIO CRIATIVO...

                                                                                        By Paul Klee



O ÓCIO CRIATIVO...

 O livro de Domenico De Masi, O Ócio Criativo, foi publicado em 2000 (Sextante).

Nele, o autor tenta fazer uma "operação de futurologia", imaginando o mundo futuro
no qual viveriam as crianças e os jovens do ano 2000, 
Situa este "mundo futuro"em 2015...

Extrai alguns pontos que, vistos retrospectivamente hoje - em 2016 - 
ainda são um convite a uma reflexão...

by Dirce Schueler


"Sobre criatividade"

"Será sempre e cada vez mais útil. 
E como as empresas, à medida que crescem, tendem a se burocratizar,
a luta entre criativos e burocráticos se tornará mais acirrada.
O mesmo acontecerá no plano psicológico
entre a parte criativa e a parte burocrática
que existem dentro de nós".


Fonte: WEB



"Tempo Livre"

Os jovens que terão entre 20 e 40 anos em 2015 disporão de aproximadamente
300 mil horas de tempo livre.
Terão o problema de como gastá-lo,
exatamente como os nobres cavalheiros do século XIX...
Mas a questão é:
serão cavalheiros à la Tocqueville, à la Oscar Wilde,
à la Drácula, à la Gattopardo ou de que outro tipo?

O tédio os levará a refugiar-se nas drogas 
ou a se realizarem através da violência?
Ou serão movidos pela liberdade e inventarão novos mundos vitais?

O ócio será o pai de todos os vícios ou de uma virtude?
Serão capazes de transformá-lo em ócio criativo?

Matarão o tempo ou o valorizarão?


Fonte: A Way to Blue-WEB


"Estética"

Esta talvez será a palavra-chave por excelência.
Todas as tecnologias estão se tornando mais potentes, mais rápidas
e mais precisas do que é necessário para o usuário médio.

Portanto, os objetos - tecnologicamente impecáveis - 
serão cobiçados não mais com base na sua perfeição técnica,
mas sim no nível da beleza estética,
assim como os serviços serão escolhidos de acordo 
com o refinamento e a cortesia que oferecem.


Fonte: WEB



"Ética"

Numa sociedade de serviços, a ética tem cada vez mais
um fundamento prático.
Uma sociedade baseada nos serviços precisa
de mais garantia e confiabilidade do que uma sociedade
baseada em produtos materiais.
Os jovens que no ano 2015 estarão em busca de sucesso
e prestigio social, NÃO poderão se dar ao luxo
de ser desonestos.



Fonte: WEB



"Pedagogia pós-industrial"

É preciso educar para a complexidade e para a descontinuidade,
duas categorias que não devem nos meter medo, 
porque estão em plena consonância com a nossa natureza humana.
Quanto mais e melhor uma pessoa é capaz de administrar
a complexidade e a descontinuidade,
mais madura ela é.
O temor de muitas pessoas, digamos quase "apocalíptico" em
relação ao futuro nasce aqui, desta incapacidade de
aceitar a descontinuidade.


Fonte: WEB



"O que mais ensinar?"

Não tanto as novidades já existentes, que logo se tornarão obsoletas,
mas sobretudo os métodos para aprender
a infinidade de coisas novas que estão por vir.
De modo que, qualquer que seja a novidade que surja,
os jovens estarão em condições de assimilá-las com segurança.

Além de ensinar como se usa o último modelo de computador,
é preciso desenvolver a atitude mental que serve para entender
a lógica do computador.
Só assim o computador que aprendo a usar hoje NÃO será
um obstáculo quando for aprender a usar os computadores de amanhã.

Outro princípio pedagógico importante consiste 
em assumir como objeto de reflexão e de planejamento
não só o tempo dedicado ao trabalho, mas também ao tempo livre.



Fonte: WEB


Boa reflexão...

Rosanna Pavesi/Outubro 2016

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"SE EU FOSSE EU"...




Sem título - WEB



SE EU FOSSE EU...

"(...) Sua dificuldade era ser o que ela era, 
o que de repente se transformava numa dificuldade intransponível.

Eu existo, estou vendo, mas quem sou eu?
E ela teve medo.
Parecia-lhe que sentindo menos dor, 
perdera a vantagem da dor como 
aviso e sintoma.

Estivera incomparavelmente mais serena,
porém em grande perigo de vida:
podia estar a um passo da morte da alma,
a um passo deste já ter morrido,
e sem o benefício do seu próprio aviso prévio.




Sem título - WEB


(...) "Se eu fosse eu" parecia representar o maior perigo de viver,
parecia a entrada nova do desconhecido.
Ser-se o que se é, era grande demais e incontrolável.

Ela sempre se retinha um pouco, se guardava
Por que e para quê?
Para o que estava ela se poupando?

Era um certo medo de sua capacidade, pequena ou grande.
Talvez se contivesse por medo de não saber 
os limites de sua pessoa.

Seu desespero vinha de que não sabia sequer 
por onde e pelo que começar.
Só sabia que já começara uma coisa nova
e nunca mais poderia voltar à sua dimensão antiga.



Sem título - WEB



E sabia também que devia começar modestamente,
para não se desencorajar.

E sabia que devia abandonar para sempre a estrada principal.
E entrar pelo seu verdadeiro caminho
que eram os atalhos estreitos...

(C. Lispector - "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres")



Sem título - WEB


A vantagem da dor como aviso e sintoma....

Resistir à tentação de "anestesiar-se" , de "morrer em vida" 
para não sentir dor, para calar a pergunta que persiste:

"Mas, e se eu fosse eu, como seria?" ...

E, pelos caminhos e atalhos estreitos da vida
ter a coragem de descobrir...



Rosanna Pavesi/Setembro 2016

domingo, 31 de julho de 2016

A NOITE DE BERNA...

 Prenúncios - by Rosan


A NOITE DE BERNA...

"(...) É tão vasta a noite na montanha. Tão despovoada. 
A noite espanhola tem o perfume e o eco duro do sapateado da dança,
a italiana tem o mar cálido mesmo se ausente. 
Mas a noite de Berna tem o silêncio.

Tenta-se em vão ler para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo,
inventar um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente
improvável dia de amanhã.
Como ultrapassar essa paz que nos espreita.
Montanhas tão altas que o desespero tem pudor,
Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta:
Nenhum rumor.  Nenhum galo possível.

Como estar ao alcance desta profunda meditação do silêncio?
Desse silêncio sem lembrança de palavras.
Se és morte, como te abençoar?


Sem título - by Rosan


É um silêncio que não dorme, é insone:
imóvel mas insone e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma.
Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo,
de uma cortina que se abra e 'diga' alguma coisa.
Ele é vazio e sem promessas. Como eu?


Noites Antigas - by Rosan

Se ao menos houvesse o vento. 
Vento é ira, ira é a vida. 
Mas nas noites que passei em Berna não havia vento  cada folha 
estava incrustada no galho das árvores imóveis.


O Inverno - by Rosan


Ou se fosse época  de cair neve. Que é muda mas deixa rastro -
tudo embranquece, as crianças riem brincando com os flocos,
os passos rangem e  marcam.
Isto durante o dia é tão intenso  que a noite ainda é povoada.
Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas.
Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. 


Sem título - by Rosan


O silêncio é a profunda noite secreta do mundo.
E não se pode falar do silêncio como se fala da neve:
sentiu o silêncio dessas noites?
Quem ouviu não diz.
Há uma maçonaria do silêncio que consiste em não falar dele
e de adorá-lo sem palavras..."

(Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Ptazeres).


Não há comentários possivéis...

Somente o silêncio...


Rosanna Pavesi/Julho 2016

domingo, 10 de julho de 2016

EXISTE UM SER...

                                                             
Sem titulo - by Rosan




"(...) Só que ela não queria ir de mão vazias.
E assim, como se lhe levasse uma flor,
ela escreveu num papel algumas palavras que lhe dessem prazer..."


EXISTE UM SER...


La Luna - by Rosan


"Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele,
e é.

Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem
- pois nunca morou antes em ninguém
nem jamais lhe puseram rédeas nem sela - 
apesar de inteiramente selvagem
tem por isso mesmo uma doçura primeira 
de quem não tem medo: come às vezes na minha mão.


Lua Crescente - by Rosan


Seu focinho é úmido e fresco.
Eu beijo o seu focinho.

Quando eu morrer,
o cavalo preto ficará sem casa
e vai sofrer muito.
A menos que ele escolha outra casa
e que esta outra casa não tenha medo 
daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave.


Lua Cheia - by Rosan


Aviso que ele não tem nome:
basta chamá-lo e se acerta com seu nome.

Ou não se acerta, mas,
uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai.


Lua Minguante - by Rosan


Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre,
ele trota sem ruídos e vai.

Aviso também que não se deve temer o seu relinchar:
a gente se engana e pensa que é a gente mesma
que está relinchando de prazer ou  de cólera,
a gente se assusta 
com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez..."



Lua Nova - by Rosan


"Ela sorriu. 
Ulisses ia gostar,
ia pensar que o cavalo era ela própria.
Era?"

(Clarice Lispector - Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)



O livro, publicado em 1969, é uma história de amor sem histórias...
Não há enredo, tramas...

Uma mulher que tenta superar o desconhecimento de si mesma
e aprender a viver sem dor...


Rosanna Pavesi/julho 2016




domingo, 29 de maio de 2016

LUIGI ZOJA: A HISTÓRIA DA ARROGÂNCIA...

                                                                   Sem título - by Rosan 



HISTÓRIA DA ARROGÂNCIA...


"(...) Após completar um longo périplo para analisar e compreender 
as consequências desencadeadas pela perda do limite,
Zoja salta para o presente e focaliza o modo pelo qual um dos mais respeitados ícones 
da cultura científico-tecnológica - o M.I.T.  - (Massachusetts  Institute of Technology), 
estuda o problema da crise global 
sem levar em conta  a dimensão psicológica, como tampouco a mítica.

Portanto, os relatórios mais competentes sobre a situação mundial
(esgotamento dos recursos naturais, pauperização crescente, aumento da violência,
crise econômica, entre outros), 
deixam de captar a presença de uma emoção que atravessa as almas,
gerando nos seres humanos de todos os quadrantes
uma culpa anônima por pertencerem a uma civilização embriagada
pela mesma velha hybris de outrora.


O Fogo - by Rosan


O novo conhecimento perdeu portanto o aglutinante psicológico;
a simples exposição de fatos terríveis e alarmantes
NÃO encontra ressonância em nós e não orienta um sentimento ancorado no inconsciente.
Nossa ciência não produz sabedoria, mas informações...

(...) Na psicologia dos males modernos,
as entidades míticas não descem dos céus, 
mas sobem dos infernos, onde habita o reprimido...

(...) Hoje paira sobre a sociedade humana uma densa sombra,
também presente em cada um de nós.
A política não consegue apreendê-la, e persiste no velho mecanismo
de projetá-la sobre outrem.


Dark Night - by Rosan


A grande tarefa da reflexão contemporânea consiste em conseguir,
nas palavras de Zoja,
"ver o próprio homem como máquina cultural enlouquecida 
que está promovendo a metástase de uma cultura que há tempos 
perdeu todo equilíbrio".

Já é tempo de se reconhecer que os problemas externos 
se traduzem num plano psicológico e interior.
À separação entre psicologia e política, deve-se responder
com uma psicologia política: 
o refreamento do perigoso crescimento global cria desânimo e depressão -
sinais de confronto com a culpa -
mas só essa introversão pode transformar o obstáculo externo
em recurso psicológico,
fornecendo formas de renúncia espontânea  à expansão e crescimento
a qualquer custo.

Só então estaremos diante de interrogações verdadeiramente psicológicas -
o que nos traz de volta aos gregos...


sem título - by Rosan


À beira da vertigem, como ele mesmo confessa, 
Zoja encerra seu discurso.
Mas ainda lhe resta fôlego para lembrar que o homem moderno 
encontra-se diante do mesmo terror do homem antigo diante dos deuses implacáveis:
um homem sem metafísica diante do terror metafísico...

Buscando uma felicidade impossível, só encontra desalento e vazio
tanto no ambiente exterior como em sua própria alma.

E essa angustia de existir,
nossa gloriosa racionalidade não é capaz de resolver..."

(Roberto Gambini  - PREFÁCIO - em  A História  da Arrogância  -  Psicologia e Limites do Desenvolvimento Humano - Luigi Zoja - Axis Mundi - 2000)




Planeta Terra - WEB


Escrito em 1993, publicado no Brasil em 2000,...
Traz em sua capa o grifo de Nêmesis, com a roda do destino, 
pairando sobre megalópolis moderna...

O triunfo das coisas sobre o homem?
Misoneísmo, ou seja a rejeição do novo?
Qual o paradigma do desenvolvimento humano no século XXI?

A exploração do nosso planeta provoca debates cada vez mais frequentes
sobre os limites do desenvolvimento humano.

Devemos enfrentar os excessos de nossa civilização
sem levar em conta seu aspecto psicológico?

Para que queremos um crescimento infinito?
Os antigos gregos, que moldaram a base da mentalidade ocidental,
viviam aterrorizados pela fome de infinito que se ocultava dentro do ser humano.

A essa fome davam o nome de HYBRIS (arrogância), o único verdadeiro pecado 
no seu código moral: 
os deuses eram invejosos e puniam com NÉMESIS (justiça) 
TODO AQUELE QUE DESEJAVA DEMAIS...

Hoje, em 2016, conceitos como
  simplicidade voluntária, sustentabilidade, reciclagem - entre outros - 
são nossos conhecidos...
MAS, até que ponto temos de fato evoluído em termos de ecologia profunda,
não mais antropocêntrica?


Rosanna Pavesi/Maio 2016