segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DE UMA COISA SABEMOS...

Planeta Terra...


"DE UMA COISA SABEMOS...

A Terra não pertence ao homem...
É o homem que pertence à Terra, disso temos certeza.

Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família.

Tudo está relacionado entre si.
Tudo quanto agride a terra, agride aos filhos da Terra.

Não foi o homem quem teceu a trama da vida:
ele é meramente um fio da mesma.
Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará..."
(Cacique Seattle)

Dream Catcher


Ao concluir mais um ano com o trecho acima
da bem conhecida "Carta"do Cacique Seattle,

Desejamos a todos
 um Feliz Natal e um Bom 2014
com muita vida, sonhos, realizações e projetos de vida...

E que, como um fio que somos da trama da vida,
possamos continuar  tecendo...

Tudo de bom a Todos
e ao Planeta Terra, nossa sagrada nau...










Rosanna Pavesi/Dezembro 2013

sábado, 14 de dezembro de 2013

AS DUAS FORMAS DE PENSAMENTO SEGUNDO C.G. JUNG

Sem título - autor desconhecido



AS DUAS FORMAS DE PENSAMENTO SEGUNDO C.G. JUNG

Pensamento Dirigido  e Pensamento Fantasia ou Associativo 
são termos introduzidos por Jung para descrever diferentes formas da atividade mental
 e os diferentes modos como a psique se expressa.

Pensamento Dirigido
É um pensamento com atenção dirigida
 Lógico, linguístico, intelecto, raciocínio, instrumento da cultura
 Uso consciente da linguagem e dos conceitos, do intelecto, 
da exposição científica e do senso comum. 
É um fenômeno inteiramente consciente
 Está baseado na realidade ou erigido com referência a ela.

        Finalidade:  a comunicação
Enquanto pensamos de modo dirigido, pensamos para fora, 
para outros e falamos a outros.

        Produz: adaptação, aquisições novas, imita a realidade, 
sobre a qual procura agir  (ciência, tecnologia, técnica, etc.).

        Origens: na Escolástica, origem do espírito científico moderno.


Pensamento-Fantasia, ou Associativo

É um pensamento por imagens (sonhar, fantasiar)
É “arcaico-primitivo”
É metafórico, simbólico, imaginativo, segue analogias
É dirigido por motivos inconscientes

Pode ser consciente, mas é normalmente pré-consciente ou inconsciente em seu  funcionamento
É passivo (sofremos a ação dele), fantástico, frequentemente  compensatório
É motivado, sobretudo, subjetivamente.
Não pretende estabelecer teoria alguma, só liberta tendências subjetivas.

Afasta-se da realidade. 
É improdutivo com relação à adaptação externa
Pensa por metáforas ou constelações, compondo um tema, emoções e intuições, 
onde imagem segue imagem, sensação a sensação, etc.

Na cultura antiga a fantasia era considerada como verdade legítima reconhecida por todos.
Aquilo que para nós é fantasia oculta, outrora estava exposto publicamente. 
Aquilo que para nós emerge em SONHOS e fantasias, 
antigamente era hábito consciente ou convicção geral.


   Outras Considerações 

        O pensamento-fantasia (ou “associativo”) ainda ocupa um lugar amplo 
no homem contemporâneo e sobrevêm assim que 
o pensamento dirigido cessa. 
Um enfraquecimento de interesse, um leve cansaço 
é o suficiente para anular a adaptação psicológica exata ao mundo real 
que se manifesta pelo pensamento dirigido 
e substituí-la por fantasias.

        Como sabemos, também o SONHO apresenta
 um pensamento semelhante ao pensamento-fantasia.

        Durante toda a vida, 
ao lado do pensamento dirigido  ou adaptado (recém-adquirido), 
possuímos um pensamento-fantasia 
que corresponde a estados de espírito ancestrais.

        Pelo pensamento-fantasia se faz a ligação do pensamento dirigido 
com as “camadas” mais antigas do espírito humano, 
que há muito se encontram abaixo do limiar do consciente:

"... no sono e no sonho tornamos a atravessar o pensamento da humanidade antiga..." 
(Nietzsche, citado no par. 27 do texto abaixo)
(Fonte: C.G. Jung, Símbolos de Transformação, O.C. Vol. V- Parte I – Cap.II – Par. 04-46 e/ou  p. 06-28 – Edit. Vozes, Petrópolis, RJ, 1989, 2.a edição).


      Para Jung, o pensamento dirigido e o pensamento-fantasia coexistiriam 
como duas perspectivas em separado e iguais,
 embora o último seja mais enraizado, pode-se dizer, 
nas camadas arquetípicas da psique. 

Essa postura equitativa aproxima as ideias de Jung daquilo que ora conhecemos 
sobre o funcionamento dos dois hemisférios cerebrais (esquerdo e direito)
cuja interação é básica para o funcionamento mental humano. 

        Os SONHOS podem ser considerados expressões típicas 
de pensamento de fantasia 
 embora elementos de uma perspectiva lógica também possam  aparecer nos mesmos.

        Diz-se que às vezes a interpretação (ou transcodificação) de um sonho
 introduz o pensamento dirigido; 
porém, uma apreciação mais acurada seria que 
a interpretação é realmente, ou deveria ser, 
uma combinação de pensamento dirigido e pensamento de fantasia, 
pois nela está envolvida a imaginação.

Ao falar de sonhos, 
talvez sejamos mais inclinados a utilizar o pensamento dirigido
Porém, ao falar com os sonhos,
talvez uma linguagem mais onírica, imaginal, seja mais apropriada...

Atualmente, além de falar em hemisfério direito e hemisfério esquerdo, 
fala-se também de cerébro em camadas, ou "fatias" horizontais...

Seja como for, as duas formas de pensamento citadas por Jung ainda fazem 
bastante sentido para mim,
 não importa de que hemisfério ou camada do cerébro provenham...
O mais importante, a meu ver,
é saber que precisamos de ambas, 
porém sem confundir uma com a outra...

Rosanna Pavesi/Dezembro 2013

(Nota adicional:
 Pensamento Dedutivo:  da teoria para a prática; do geral para o particular; 
parte de premissas e, destas, procura derivar conclusões práticas; 
começa com as verdades estabelecidas.
Pensamento Indutivo: empírico, experimental; da prática para a teoria; d
o individual para o geral; 
começa com os fatos e a observação e quer estabelecer padrões gerais para a mesma classe).




terça-feira, 26 de novembro de 2013

SOBRE SONHOS...

Fonte: Google - autor desconhecido




SOBRE SONHOS...

Ao trabalhar com sonhos, sempre procuro manter presentes  alguns pontos que recolhi
ao longo do tempo...


        PERGUNTA SEMPRE EM ABERTO: 

           SOMOS NOS QUE SONHAMOS OU É O SONHO QUE NOS SONHA?

         PREMISSA BÁSICA:

       “UM SONHO É ALGO EM SI E POR SI MESMO...   
     É UM PRODUTO IMAGINAL.  É UMA IMAGEM...
 (Patricia Berry, Uma Abordagem ao Sonho  em 
Echo’s Subtle Body- Contribution to an Archetypal Psychology – Spring Publications, Dallas, 1982).

         COMO TRATAR UM SONHO:

 “FAR-SE-IA BEM  EM TRATAR CADA SONHO 
COMO SE FOSSE ALGO TOTALMENTE     DESCONHECIDO.
OLHE-O DE TODOS OS LADOS, TOME-O EM SUA MÃO, 
LEVE-O COM VOCÊ,  
DEIXE QUE SUA IMAGINAÇÃO BRINQUE COM ELE...”
(C.G. Jung – O.C. Vol. X – par.320)

         COMO PROCESSO:

“A INTERPRETAÇÃO,  OU MELHOR,  
A TRANSCODIFICAÇÃO DE UM SONHO, 
É UM PROCESSO DE “DIÁLISE” PSÍQUICA...

INESPERADA METÁFORA ORGÂNICA, ENTRANHADAMENTE CORPORAL, 
PARA O PROCESSO EM QUE A MATÉRIA DO SONHO 
SAI DAQUELE QUE A PRODUZIU, CIRCULA EM OUTRAS VEIAS, 
É COMO QUE RETRANSFUNDIDA NO ANALISTA 
PASSANDO PELO SEU CIRCUÍTO EMOCIONAL 
E DAÍ RETORNA OXIGENADA, TRANSFORMADA, ENRIQUECIDA 
AO SONHADOR...”
(Roberto Gambini em A Voz e o Tempo - Cotia, SP, Ateliê Editorial, 2008)

         ALQUIMICAMENTE:

“DREAMING THE DREAM ALONG: 
SPEAK TO THE DREAMS AND NOT OF THE DREAMS...
SPEAK TO DREAMS AS THE DREAMS THEMSELVES SPEAK, 
THAT IS DREAMINGLY, IMAGISTICALLY AND MATERIALLY…”
James Hillman in Alchemical Psychology - Uniform Edition – 5 – Spring Publications, 2010)

Tradução Livre: 
(SONHAR O SONHO...
 FALE COM OS SONHOS, AO INVÉS DE FALAR DE SONHOS...
FALE COM ELES USANDO A MESMA LINGUAGEM QUE ELES (OS SONHOS) USAM... 
OU SEJA, ONIRICAMENTE, IMAGINAL E IMAGISTICAMENTE, MATERIALMENTE...).


Dou muito valor aos sonhos e  respeito a vida onírica...
Levo a sério...
Em momentos de empasse, sempre me ajudaram...
Em momentos de "cegueira" sempre me alertaram, me sacudiram, me acordaram...

Rosanna Pavesi/Novembro 2013


domingo, 3 de novembro de 2013

SOBRE COMO TRATAR A TERRA: O CONVITE,,,

Terra em Camadas (by Rosan)


O CONVITE...

"... O campo ainda fumegava, mas o fogo estava extinto.
Com sua pá afiada como uma navalha, titio revirava restolhos e raízes enegrecidas aqui e ali,
expondo a terra assim ainda mais.
"O que vai semear aqui?" perguntei.
"Não vou semear nada" titio respondeu.
"Titio, por que vai deixar a terra nua e sem semear?"
"Para ser um convite", titio respondeu.
Os pinheiros e carvalhos não se dispõem a nascer nos campos 
e formar novos bosques 
se não deixarmos a terra sem semear.
"As sementes da vida nova não encontrarão nenhuma hospitalidade, nem motivo para pousar aqui, 
a menos que a deixemos árida, que a deixemos nua,
 para que uma floresta de sementes a considere hospitaleira".

"Pois a terra tem muita paciência...
Ela aceita a semente, a erva daninha, a árvore, a flor.
Aceita a chuva, o grão, o fogo. 
Permite a entrada e nos convida. 
Ela é o anfitrião perfeito", disse titio. 

E foi assim que, com o tempo, esse campo aberto por uma queimada - 
em pousio e à espera - 
atraiu para si exatamente os estranhos certos, 
exatamente as sementes certas.
No devido tempo, às árvores vieram e,com elas, 
os pássaros, as borboletas, um lar vivo...

À primeira luz da manhã, o campo, outrora vazio, agora floresta,
reluzia como um palácio no qual todas as formas absorviam luz 
e a devolviam multiplicada mil vezes...

Eu entendi... 
As sementes da terra, as criaturas da terra,
 as estrelas no firmamento e nós mesmos  
todos éramos convidados desse campo..."

Sobre o que não pode morrer nunca...

"... Titio faleceu, mas suas histórias perduram em cada campo vazio, 
em cada um e em qualquer um que assuma o papel de anfitrião, 
que espere, paciente, 
que a nova semente chegue e produza abundância.

Em cada campo em  pousio novas vidas estão esperando para renascer...
E o que é mais expantoso, essa nova vida virá, quer queiramos ou não.
Podemos arrancá-la a cada vez, 
mas ela enraizar-se-á e voltará a se fundar.

Novas sementes chegarão com o vento e não pararão de chegar, 
dando muitas oportunidades para mudanças de sentimentos, 
para a volta do sentimento, para a "cura" do coração e, afinal,
 para uma nova opção de vida...

E o que não pode morrer nunca?

É aquela força que já nasce dentro de nós,
que é maior do que nós,
que chama as novas sementes para os lugares áridos, maltratados, abertos,
para que possamos nos ressemear"...
(Notas: Clarissa Pinkola Estés, O Jardineiro Que Tinha Fé,, Rocco Editora, Rio de Janeiro, RJ, 1996).

Já fui campo em pousio, campo forçadamente em pousio, 
após uma queimada que ocorreu, simplesmente ocorreu, 
sem ser por mim promovida, nem desejada, nem convidada...
Meu campo ficou árido e abandonado por um bom tempo...
ou, assim me pareceu...
Até que, aos poucos, esse campo ainda  potencialmente fértil,
voltou a hospedar vida, voltou a dar um novo quinhão de beleza e exuberância...

Rosanna Pavesi/novembro 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

O CANTO DAS SEREIAS...


(sem título)


O CANTO DAS SEREIAS...

Quem é tão firme que nada possa seduzir?
O canto das sereias é uma imagem que remonta às fontes da mitologia e literatura gregas.
As versões e os detalhes da narrativa variam de autor para autor,
mas o sentido da trama é comum...

As sereias eram criaturas sobre-humanas:
ninfas de extraordinária beleza e de magnetismo sensual.
Viviam sozinhas numa ilha do Mediterrâneo, mas tinham o dom de chamar a si os navegantes,
graças ao irresistível poder de sedução do seu canto.
Atraidos pela melodia divina, os navios costeavam a ilha,
batiam nos recifes submersos da beira-mar e naufragavam...
As sereias então devoravam impiedosamente os tripulantes.
O litoral da ilha era um gigantesco cimitério marinho no qual estavam atulhadas
as incontáveis naus e ossadas tragadas por aquele canto sublime desde o início das eras.

Doce o caminho, amargo o fim...
Muitos tentaram, mas pouquíssimos conseguiram salvar-se.
A literatura grega registra duas  soluções vitoriosas:

(1) Uma delas foi a saída encontrada por Orfeu,
o incomparável gênio da música e da poesia na mitologia grega:
Quando a embarcação na qual ele navegava entrou inadvertidamente no raio de ação das sereias, ele conseguiu impedir que a tripulação perdesse a cabeça
tocando uma música ainda mais doce e sublime do que aquela que vinha da Ilha...

(2) A outra solução foi a encontrada e adotada por Ulisses no poema homérico.
O heroi da Odisséia, que não era dotado de talento artístico sobre-humano,
no momento em que a embarcação que comandava começou a se aproximar da ilha,
mandou que todos os tripulantes tapassem os próprios ouvidos com cera
e ordenou que amarrassem-no ao mastro central do navio.
Avisou ainda que, se por acaso ele exigisse que o soltassem dalí, o que deveriam fazer
era prendê-lo ao mastro com mais cordas e redobrada firmeza.
Quando chegou a hora, Ulisses foi seduzido pelas sereias mas seus subordinados souberam
 - contudo - cumprir fielmente sua ordem.
Ulisses, é verdade, por pouco não enloqueceu de desejo mas as sereias,
desesperadas diante daquela derrota para um simples mortal, afogaram-se de desgosto no mar...

Orfeu escapou das sereias como divindade...
Ulisses como mortal...

Ulisses não tampou seus próprios ouvidos com cera, ele quis ser seduzido, ele quis ouvir...
Ulisses não se furtou à experiência de ouvir e desejar desperadamente
aquilo que o levaria ao naufrágio e à morte certa.
A verdadeira vitória de Ulisses foi contra ele mesmo...

O embate entre Ulisses e as sereias dramatiza e dá proporções épicas
a um conflito que acompanha a nossa prosaica odisséia pela vida.
Preferir o que quer que esteja presente em relação ao que está distante e remoto,
que nos faz desejar os objetos mais de acordo com a gratificação imediata
do que com o seu valor intrínseco...

A toda hora, a cada instante, em cada esquina, em cada shopping, em cada publicidade,
há um canto de sereia esperando, de pequenas ou grandes proporções...
Saberemos discernir quando dizer "sim" e quando dizer "não"?


Rosanna Pavesi/Outubro 2013

sábado, 5 de outubro de 2013

O "EU-AGORA" E... O "EU-DEPOIS"...

Sem Título


O "EU-AGORA"...

"Jovem, entusiasta, frequentemente inebriado de desejo, sempre disposto a desfrutar 
o que o momento pode oferecer de melhor... 
generoso, sem dúvida, mas com a vista curta, certa miopia temporal,
e forte inclinação a descontar pesadamente o futuro.
O bem imediato é sua razão de ser...
O eu-agora vive de forma intensa e tende a encarar a vida não em seu conjunto, 
mas como uma sequência de situações-oportunidades isoladas,
sem um fio condutor que lhes dê maior coerência ou unidade.

O "EU-DEPOIS"...

Um adulto desconfiado, frequentemente avinagrado de preocupações,
sempre com um olho na própria saúde e no carnê da previdência...
Cioso de seu horizonte profissional, cauteloso em meio a um mar de dúvidas,
mas capaz de enxergar um pouco mais longe do que o eu-agora,
ainda que ao custo de muitas vezes descontar pesadamente o presente.
O bem remoto é o seu único foco...

O eu-depois, tenta estabelecer uma boa distância crítica de si mesmo, 
faz uso de certa hipermetropia temporal, 
e procura encar sua vida, se não como um todo e do princípio ao fim,
ao menos como uma sequência razoavelmente estruturada e coerente de opções estratégicas.
O eu-depois é, no fundo, o eu-agora visto de longe e de fora,
à luz do seu próprio passado, mas no silêncio das paixões do momento
 e a parte de um ponto futuro.

Excessos e Abusos

Os excessos e abusos podem advir de ambos os lados...

O eu-agora sem a perspectiva disciplinadora do eu-depois é, no limite, 
um "primata" desmiolado e impulsivo - ração de sereias e de seu canto...
Mas o eu-depois, sem o entusiasmo sonhador do eu-agora não passa de
um autômato calculista e previsível - um ente surdo a qualquer chamado
que ameace a sua existência futura em condição indolor de conforto.
O "robô" e o  "macaco" precisam um do outro...

O abuso de poder por parte do eu-agora se apresenta  como astúcia persuasiva 
quando se trata de legitimar a sua forte preferência  pelo bem aparente da gratificação imediata;  
isso tende a suscitar a reação das forças contrárias, algum "golpe autoritário" de eu-depois...
Como é uma via de mão-dúpla, o eu-agora reage, em seguida o eu-depois também,
e assim por diante, numa gangorra infernal... 

Na mente de um jovem, a disputa pela autoridade entre o eu-agora e o eu-depois 
pode resultar tanto:
 (a) na exploração do velho que ele um dia será pelo jovem que ele é, como
   (b) na exploração do jovem que ele é pelo velho que ele imagina um dia ser...
A passagem é estreita..."

(Notas:Eduardo Giannetti em  Auto-Engano, Cia das Letras, São Paulo, SP, 1997)




A Árvore da Vida (by Rosan)


Reconhecer a presença tanto do eu-agora como do eu-depois dentro de nos, a nível intrapessoal , 
em qualquer idade, me parece fundamental...
Porém, a partir da perspectiva de um eu-agora que já se tornou um eu-ontem
no presente de um eu-depois, 
confesso que gosto de ter sido um pouco sensata, porém não muito, quando jovem, 
e de ter feito apostas totalmente "insensatas" quando jovem e já na vida adulta também...
apostas que não respondiam a uma lógica calculista mas sim à força de um sonhar a vida,
 além de simplesmente vivé-la... 
Pessoalmente, não me arrependo...

Finalizando...

Em outro livro do mesmo autor (O Valor do Amanhã, Cia das Letras, São Paulo, SP, 2005), 
há duas frases que me inspiram até hoje e que transcrevo aqui, deixando a reflexão
 por conta de cada eventual leitor desse texto:

"A vida é um intervalo finito de duração indeterminada..."

"O futuro responde à ousadia do nosso querer. 
A capacidade de sonho fecunda o real, re-embaralha as cartas do provável 
e subverte as fronteiras do possível.

OS SONHOS SECRETAM FUTURO...

Fico com a "versão 2005 "...

(Rosanna Pavesi/Outubro 2013)

sábado, 14 de setembro de 2013

SOBRE COMO TRATAR A TERRA: O JARDIM DO ÉDEN...

(by G. Klimt)


SOBRE COMO TRATAR A TERRA:
O JARDIM DO ÉDEN...

"... Titio conhecia a terra como as rugas no seu rosto, como conhecia as veias nas costas de suas mãos
- o quintal dos fundos, o pátio lateral, depois a saída para o campo mais próximo,
para os campos médios e distantes.

Quando caminhávamos por esses campos, nossas botas ficavam cada vez mais pesadas,
cheias de lama negra grudada. A parte superior dos músculos da coxa era muito forçada.
Cada vez mais tensão era necessária para desgrudar o último passo e poder dar o seguinte.
Mas isso nós adorávamos - essa pequena luta que não fazia mal a ninguém.

Caminhávamos, com os ouvidos atentos para para a saúde das plantas,
das árvores e das lavouras ao redor.
Aquela mata estava ocupada pelo número necessário de borboletas?
As árvores estavam cheias da quantidade certa de pássaros canoros?
Nós sabíamos que tanto os pássaros quanto as borboletas eram importantes
para o transporte do pólen entre as árvores frutíferas,
para que fosse abundante a colheita de cerejas e houvesse  uma quantidade apreciável
de peras, ameixas e pêssegos a conservar para o inverno.

Enquanto caminhávamos, titio matutava:
 "Já ouvi pessoas perguntando onde fica o jardim do Éden.
Ora! Qualquer lugar que se pise nesta terra é o jardim do Éden.
Toda esta terra, por baixo dos trilhos de trens e das rodovias,
da sua roupagem gasta, de seu entulho, de tudo isso,
é o jardim do Éden, com todo o frescor do dia em que foi criado...


Capins (by Rosan)


Não importa o tamanho do jardim - seja ele de um côvado por um,
tenha ele campos tão imensos que não se veja o fim -
quando se está plantando direito deve-se afagar a terra, sem parar,
remexendo pequenos punhados dela.
Ser delicado... Ser econômico...
É assim que se deve tratar a terra,
com consideração, com delicadeza e presença de espírito."

Foi assim que aprendi que esta terra, da qual dependíamos para nossa alimentação,
nosso ganha-pão, nosso descanso, para a oportunidade de ver a beleza,
deveria ser tratada da mesma maneira que esperaríamos tratar os outros e a nós mesmos.
 O que quer que seja que aconteça a este campo,
de algum modo, também acontecerá a nós..."

(Fonte: Clarissa Pinkola Estés, O Jardineiro que Tinha Fé: Uma Fábula Sobre o Que Não Pode Morrer Nunca, 
Rio de Janeiro, RJ, Rocco, 1996)




Brotos (by Rosan)


Fui criada no campo mas me tornei urbana...
Hoje, morando em uma grande cidade como São Paulo,
meu jardim se resume a orquídeas, samambaias, peperônias
e algumas frutíferas que cultivo em vasos, como carinho, afinco e muita adubação...

Me considero sortuda, tenho algum verde, algumas flores
e passarinhos que me visitam no 15.o andar...
É meu pequeno jardin do Éden no coração da cidade...

Rosanna Pavesi/setembro 2013

domingo, 8 de setembro de 2013

AMAR... SOBRE JURAS E PROMESSAS...

Vamos Amigo... (by Rosan)


AMAR...
SOBRE JURAS E PROMESSAS...

Há momentos que redimem o existir...
E... estar apaixonado é um deles...

Os apaixonados perdem o sono, dançam na chuva e ouvem as estrelas...
A carícia é benção, o beijo é reza, e o sexo é comunhão...
O que está escrito, seria pecado negar, era o que tinha que ser...

O prometer apaixonado engana, mas não mente...
Considere o jovem apaixonado que jura amor eterno...
Estaria mentindo?
Quanto ao cumprimento efetivo do que foi prometido, só o tempo dirá...

Mas da integridade da intenção e do valor de verdade da promessa,
no momento em que é feita, como duvidar?

A lógica paradoxal do jurar apaixonado é flagrada por Shakespeare 
na peça dentro da peça encenada em Hamlet.
À promessa de amor e fidelidade eterna da rainha,
o rei implacável, replica:

Acredito sim que penses o que dizes agora;
Mas aquilo que decidimos, não raro violamos.
O propósito não passa de servo da memória,
De nascer violento mas fraca validade,
E que agora, como fruta verde, à arvore se agarra,
Mas quando amadurecida, despenca sem chacoalho.
Imprescindível é que não esqueçamos
De nos pagar a nós mesmos o que nós é devido.
Aquilo que a nós mesmos em paixão propomos,
A paixão cessando, o propósito está perdido...
(W. Shakespeare, Hamlet, Ato III, cena 2)

A paixão cessando, o propósito está perdido...
Se ficarmos juntos:

Vamos amigo, cantar o amor, a jura, o beijo...
...Mentir, ainda, o amor, a jura, o beijo...

A escolha é de cada um...

Rosanna Pavesi/setembro 2013

sábado, 31 de agosto de 2013

O DOM DA HISTÓRIA: A HISTÓRIA COMO DOAÇÃO...

Planeta Mundo (by Rosan)



O DOM DA HISTÓRIA: A HISTÓRIA COMO DOAÇÃO...

Segundo Clarissa Pinkola  Estés, entre seu povo,
"as perguntas costumam ser respondidas com histórias.
Como bonecas Matrióchka, as histórias se encaixam umas dentro das outras...
A primeira história quase sempre evoca outra, que chama uma outra,
até que  a resposta à pergunta se estenda por diversas histórias...
Considera-se que uma sequência de histórias proporciona
um insight mais amplo e mais profundo do que uma história única.

O dom essencial da história tem dois aspectos:
(a) que no mínimo reste uma criatura que saiba contar a história e que, com esse relato, 

(b )as forças maiores do amor, da generosidade e da perseverança sejam 
continuamente invocadas a se fazer presentes no mundo.

Nas duas tradições das quais Clarissa Pinkola Estes se origina - 
hispano-mexicana por nascimento e de imigrantes húngaros por adoção -
o relato de uma história é considerado uma prática espiritual básica.
Histórias, fábulas, mitos e folclore são aprendidos, elaborados, numerados 
e conservados da mesma forma que se mantém uma farmacopéia... 
Uma coleção de histórias culturais, e especialmente de histórias de família,
 é considerada tão necessária para uma vida longa e saudável 
quanto uma alimentação razoável, trabalho e relacionamentos razoáveis.

A vida de um guardião de histórias é uma combinação de pesquisador,
curandeiro, especialista em linguagem simbólica, narrador de histórias,
 inspirador e viajante do tempo.
A maioria delas não é usada como simples diversão...
De acordo com a aplicação folclórica elas são, sim, concebidas e tratadas
como um grande grupo de medicamentos de cura,
cada um exigindo preparação espiritual e certos insights 
por parte tanto do curandeiro como do paciente.

Essas histórias medicianais são tradicionalmente usadas de muitos modos diferentes.
Para ensinar, para corrigir erros, para iluminar, 
auxiliar a transformação, curar ferimentos, recriar a memória.
Seu principal objetivo consiste em instruir e embelezar a vida da alma do mundo.

É preciso que se saliente que muitos dos remédios, ou seja, histórias mais poderosas, 
surgem em decorrência de um sofrimento terrível e irresistível de um grupo ou de um indivíduo.
Pois a verdade é que grande parte da história deriva da aflição...

Aflição deles, nossa, minha, sua, de alguém que conhecemos, 
de alguém que não conhecemos e que está distante no tempo e no espaço.
E no entanto, por paradoxal que seja, 
essas mesmas histórias que brotam do sofrimento profundo,
podem fornecer as curas mais poderosas para os males passados, presentes e futuros.


Sem título (by Rosan)


A História Como  Doação...

Assim, percebe-se que a história como doação tem generatividade e genealogia. 
Para algumas histórias, considerações sobre a hora certa,
o local certo, a pessoa certa, a preparação certa e o objetivo certo
indicam quando e se a história deveria ser contada ou não...
Mas, para as histórias de família, histórias da nossa cultura e histórias da nossa vida pessoal,
qualquer hora pode ser exatamente a hora certa para se fazer a doação da história...

Como os sonhos noturnos, as histórias costumam usar a linguagem simbólica,
chegando direto ao espírito e à alma que procuram ouvir 
as instruções ancestrais e universais alí embutidas.
Em decorrência desse processo, as histórias podem ensinar,
corrigir erros, aliviar o coração e a escuridão, 
proporcionar abrigo psíquico, auxiliar a transformação e curar ferimentos.

Há quem diga que a comunhão se baseia em laços de sangue, 
às vezes ditada pela opção, às vezes pela necessidade.
E, embora isso seja verdade, o campo gravitacional imensamente mais forte, 
que mantém um grupo coeso está nas sua histórias... 
as histórias comuns e simples compartilhadas pelos seus membros.

Embora elas possam girar em torno de crises dominadas, de tragédias evitadas,
da ajuda que chega no último instante, iniciativas tolas, hilaridade desenfreada, 
e assim por diante, as histórias que as pessoas contam entre si 
criam um tecido forte que pode aquecer as noites espirituais e emocionais mais frias...
Portanto, as histórias que vêm à tona no grupo vão se tornando,
ao longo do tempo, tanto extremamente pessoais quanto eternas,
pois assumem vida própria quando são repetidas muitas vezes.

Seja a sua família velha, jovem ou ainda em formação,seja você amante ou amigo, 
são as experiências compartilhadas com os outros e as histórias que contamos 
depois sobre essas experiências, além daquelas que se trazem do passado e do futuro, 
que criam o vínculo definitivo...


A Chuva (by Rosan)


Sobre Contar uma História...

Não existe um jeito certo ou errado de se contar uma história...
Talvéz você se esqueça do início, do meio ou do final...
Mas um pouquinho de sol nascendo através de uma pequena janela 
também anima o coração.

Por isso, adule os velhos resmungões para que contem suas melhores lembranças.
Peça às crianças seus momentos mais felizes.
Pergunte aos adolescentes os momentos mais assustadores de suas vidas.
Dê a palávra aos velhos, passe por toda roda,
force os introvertidos, pergunte a cada pessoa...
Você vai ver: 
todos serão aquecidos, sustentados pelo círculo de histórias que criarem juntos...

Embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem.
Enquanto restar uma criatura que saiba contar a história, e enquanto,
com o fato dela ser repetida, os poderes maiores de amor, generosidade,
perseverança forem continuamente invocados a estar no mundo, eu lhe garanto que...
será suficiente..."

(Fonte: Clarissa Pinkola Estés, Ph.D., O Dom da História: Uma Fábula sobre o que é suficiente, Rio de Janeiro, RJ, Rocco, 1998).




Conhecia Clarissa Pinkola Estés, como autora, por seu livro Mulheres que Correm com os Lobos, 
mas desconhecia sua tradição de contadora de histórias...
Encontrei este pequeno livro, para mim uma verdadeira pérola, 
na estante de uma livraria de aeorporto e, lê-lo, aqueceu meu coração naquele momento... 

Voltei atrás no tempo e me lembrei das tantas histórias de família 
que minha avò, minhas tias e tios me contavam na infância, nas longas noites de inverno, 
no campo, ainda sem televisão, e de como eu "viajava" no tempo e no espaço através delas...

Algumas eu costumava ainda contar para minhas filhas, antes de dormir,
após ter esgotado e vasto repertório clássico de histórias infantis 
e elas pedindo mais uma...mais uma...
Nunca parecia ser o suficiente...

Assim, estou "doando" este texto e espero que, quem for ler, 
se lembre de vez em quando,
de doar uma história...

Rosanna Pavesi/setembro 2013

domingo, 18 de agosto de 2013

AJUDAR E SERVIR...


Psicologia (by Rosan)

AJUDAR E SERVIR...

AJUDAR

Ajudar é uma experiência de força...
Quando você ajuda, você usa, ou "empresta" sua própria força para ajudar alguém
que você considera mais fraco, ou frágil, do que você...
É, de certa forma, uma relação desequilibrada e as pessoas sentem isto.

Quando ajudo, mesmo sem me dar conta,
eu estou ao par de minha força e da fraqueza do outro.

Ajudar incorre frequentemente em débito.
Quando ajudo, tenho frequentemente um sentimento de satisfação própria,
que pode substituir um préstigio que posso não ter,
ou seja, isso faz bem a nosso próprio EGO...

SERVIR

É um sentimento de gratidão, é uma experiência de  mistério,
de rendição, entrega e reverência.
A partir dessa perspectiva, quando ajudo, sei que estou sendo um instrumento
de algo maior e me sinto a serviço desse algo maior,
ou de um valor essencial para mim mesma.

Quando você ajuda, você vê a fragilidade da vida...
Quando você conserta, você vê a vida de forma fragmentada...
Quando você serve, você enxerga a vida como um todo...

É uma forma de enxergar as coisas a partir de pontos de vista diferentes...
Consertar e ajudar são a base do remediar.
Servir é a sua base do cuidar da vida e do próximo...

Nós só podemos servir àquilo a quem estamos conectados e àquilo que desejamos "tocar"...
Nós servimos à vida não porque ela "está um pedaços" ou "quebrada",
mas sim porque ela é sagrada...

Podemos e devemos, sim, ajudar e consertar quando necessário,
mas, do meu ponto de vista, só a partir da perspectiva de servir...

Servir à vida
Servir à sua profissão, à sua vocação
Servir à sua comunidade, a seus semelhantes
Servir a seu compromisso social, de cidadão, a um ideal,
Servir àqueles que amamos...

 Ajudar, consertar sim,
mas sabendo-se sempre tão só um instrumento a serviço de algo maior.
Só assim, penso eu, sentiremos um sentimento de gratidão...
Só assim ajudar deixará de ser uma experiência de força egóica
para se tornar generosidade, escolha, protagonismo..

Rosanna Pavesi/Agosto 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

COMO LIDAR COM NOSSOS PRÓPRIOS SONHOS?




Presentes do Mar...


COMO LIDAR COM NOSSOS PRÓPRIOS SONHOS?

"... Em geral, não se deve interpretar os próprios sonhos...
Os sonhos costumam tocar nosso ponto cego.
Eles nunca nos dizem o que já sabemos, mas sim o que não sabemos.

Quando interpretam seus próprios sonhos, as pessoas tendem a dizer:
"Sim, eu sei o que isto quer dizer." Então projetam no sonho aquilo que já sabem.
Interpretar os próprios sonhos é muito diícil.
Por isso Jung recomendava aos analistas junguianos que procurassem colegas
para discutir sonhos.

A dificuldade em interpretar nossos próprios sonhos é que não podemos ver nossas próprias costas...
Se o mostrarmos para outra pessoa, ela poderá vê-las; nós não.
Os sonhos tocam as costas, aquilo que não se pode ver...

Pergunta: "Mas se é tão benéfico ver as próprias costas, porque a humanidade sempre teve "medo" do mundo dos sonhos?"

Resposta: Há boas razões para isso. O inconsciente pode devorar o ser humano.
O mundo dos sonhos é o que há de mais benéfico sobre a face da Terra
e observar os próprios sonhos é a coisa mais salutar que se pode fazer.
Enretanto, o mundo onírico pode também "devorar" uma pessoa que fique sonhando acordada,
tecendo fantasias neuróticas ou perseguindo idéias irreais o tempo todo...

O mundo onírico só é benéfico e terapêutico se estabelecermos um diálogo com ele,
sem, no entanto, abandonar a vida terrena, "real".
Não se pode esquecer de viver. A vida terrena não deve ser posta de lado.
No momento em que se começa a esquecer a vida terrena - o próprio corpo, a alimentação, o trabalho diário - o mundo dos sonhos pode tornar-se perigoso.
O mundo onírico só é positivo quando em diálogo vivo e equilibrado com uma vida realmente vivida."

(Fonte: O Caminho dos Sonhos, Marie-Louise von Franz em Conversa com Fraser  Boa - Cultrix, 1993)

Tenho por hábito manter um registro de meus sonhos. Dou um número, um título e a data.
Tenho dificuldade em lembrar de meus sonhos ao acordar mas, devo dizer que
os sonhos realmente "importantes", aqueles que mudaram minha vida,
sempre causaram um forte impacto ao acordar...
Me acompanham até hoje...
Não fazia nenhuma tentativa de interpretar...
Como um fio de Ariadne, permiti que eles me guiassem no Labirinto...
MAS, percebo hoje que só descobri que estava no Labirinto
depois que os sonhos me guiaram para fora dele...
Retrospectivamente...

Rosanna Pavesi/julho 2013





quarta-feira, 17 de julho de 2013

O QUE É CONHECER?


Sem título (by Rosan)


O QUE É CONHECER?

 Não importa o que seja: pergunte a si mesmo se você conhece algo
e logo você terá razões para começar a duvidar...

A primeira coisa a fazer é indagar:
o que é conhecer?
Isto vai depender de nosso grau de exigência...

Por exemplo: se você passar uma tarde visitando uma cidade,
poderá voltar para casa e dizer que a conhece...
Se você passar diversos meses nessa mesma cidade,
ela poderá revelar-lhe ângulos e facetas até então desconhecidos...
Mas, se você passar alguns anos na tal de cidade, estudando seu passado,
pesquisando a evolução de seus prédios e de seu traçado,
buscando entender o significado histórico-cultural do que se passou nela,
você poderá ficar surpreso com a vastidão do que ainda falta saber...

Com o avanço do conhecimento, alarga-se o desconhecido...
Com o saber, cresce a dúvida...
Podemos então dizer que nenhum saber é final.
Qualquer que seja o objeto do conhecimento
 - uma floresta ou uma indústria, um texto clássico ou um neurotransmissor -
sempre será possível conhecer mais...

Cada novo conhecimento gerado pode vir a alterar radicalemte
 o nosso entendimento acerca do saber preexistente e do seu valor de verdade.
O conhecer modifica o conhecido...
Certeza absoluta, portanto, não há.
Afirmá-la seria negar que o desconhecido seja - de fato - desconhecido...

Para quem busca o conhecimento, portanto, e não o ópio das crenças enraizadas no acreditar,
surpresas  e anomalias são achados valiosos.
A mente aberta ao conhecimento trabalha como um radar alerta,
captando tanto o conhecido como o anômalo, o diferente, o fora do padrão...

(Notas: E.Giannetti, Auto-Engano, Cia das Letras, 1997)

Sob a ética do senso comum, conhecer tem a ver com familiaridade.
O conhecido, diz a linguagem comum, é o familiar...
Por oposição o desconhecido é o estranho...
Vale lembrar que a familiaridade é cega...
Ela é não só falha como critério de conhecimento,
 como ela é inimiga do esforço de conheccer...

A sensação subjetiva de conhecimento associada à familiaridade pode ser ilusória
e inibidora da curiosidade interrogante de onde brota o saber.
Aquilo o que estamos acostumados, revela-se com frequência
 o mais difícil de conhecer vedadeiramente...

Aha, já sei... ou  Será que ja sei?

Rosanna Pavesi/julho 2013