domingo, 30 de novembro de 2014

TEMPO E MUNDO...

                                                            Sem Título - Autor desconhecido - Fonte: WEB


TEMPO E MUNDO...


"(...) O tempo passa, o tempo avança.
No passar do tempo, passamos nós,
no avançar do tempo, avança o mundo...

O tempo nos contém, somos contidos - limitados e envolvidos pelo tempo.
O tempo é nossa possibilidade  de ser, de vir a ser. 
Mortais. Mundo. Nada é fora do tempo.
No tempo se nasce, morre, vive-se. Passa-se, avança-se.
Acompanhados de tudo, de tudo mais que também é no tempo.
Tudo é no tempo. Nada é o tempo.
O que é o tempo?

Dizemos: o tempo. O tempo está bonito, feio. 
O tempo passou rapidamente ou demora para passar.
Vivemos todos num mesmo tempo, tudo se dá no tempo e com o tempo,
afirmamos nós.
E, no entanto, quem está bonito ou feio não é o tempo,
mas o céu, o ar, os ventos ou a tempestade.
Quem passa ou avança não é o tempo, mas nós: nós e o mundo...
Vivemos aqui ou ali, numa casa, numa cidade, mas não vivemos no tempo.

(...) Esse é o tempo. 

Contém e transporta todas as coisas, o mundo, 
mas ele-mesmo não é propriamente nada, não está em lugar algum,
não é um lugar qualquer. 
O tempo não é, mas contém.
Não sendo um lugar, no entanto, transporta tudo que vem e que veio a ser.
Contém tudo que será e o que, já não sendo mais, se retém,
contido no memória (na memória do tempo, dizemos nós)...

Dizemos: o tempo é como um rio - o tempo passa e, passando,
carrega e passa todas as coisas: nele tudo que chega vira passado.
O tempo passa passando tudo.
Mas se o tempo não é, como pode"ele" conter e transportar?
Como pode representar para nós, o conjunto das coisas que, ainda não sendo,
um dia virão a ser - aquilo que chamamos futuro?

Dizemos tempo para nos referirmos ao vir-a-ser do mundo como tal!
Embora não seja o mundo, o tempo é como o mundo, 
uma referência ao mundo.

O mundo não é somente um amontoado de tudo.
O mundo não é apenas um recipiente,
mas um abrigo que possibilita que tudo que nele está,
esteja entre-si: ao mesmo tempo...

Embora não configure um lugar, o tempo faz do mundo uma morada.
O lugar, por excelência: a casa de todos.
O lugar onde se vive sempre com e entre todas as coisas.

Graças ao tempo,
podemos estar no mundo..."

(Fonte: A Experiência do Nada como Princípio do Mundo - Guy Van de Beuque - 
Mauad/Faperj, 2004)

Um dos textos mais poéticos, realistas e tocantes que já li sobre o tema...
O tempo e o mundo ganharam, para mim, uma nova dimensão e amplidão...

Rosanna Pavesi/Dezembro 2014









domingo, 23 de novembro de 2014

UMA ABORDAGEM AO SONHO...


                                                                Blue Landscape - Web





UMA ABORDAGEM AO SONHO – POR PATRICIA BERRY.

A Editora Vozes acaba de lançar o livro “O Corpo Sutil de Eco – 
Contribuições para uma Psicologia Arquetípica” por Patricia Berry.

(Original:  ”Eco´s Subtle Body–Contributions to an Archetypal Psychology”, 
Spring Publications, Second revised and expanded edition, 2008).

Não tenho ainda a edição em Português, somente em inglês, 
na segunda edição ampliada e revisada de 2008. 

É um livro que, a meu ver, merece ser conferido...
Relato, a seguir, um breve resumo de uma parte do texto dedicado a sonhos...



IV - UMA ABORDAGEM AO SONHO...

(...) Cada analista possui, inevitavelmente, seu próprio estilo, 
sendo que sua abordagem a um sonho também inevitavelmente refletirá seu estilo... 
Berry identifica 07 estilos de analistas...

Pessoalmente, não me identifiquei com nenhum deles, 
de forma que eu vou acrescentar um oitavo estilo, o terapeuta maiêuta 
(do grego, maiêuta = parteira), aquele que assiste alguém a dar à luz, 
que auxilia o outro no parto de um novo conteúdo, de algo novo, de si mesmo, 
que é o estilo com o qual me identifico.

A finalidade de Berry é oferecer um instrumento para apanharmos 
mais precisamente nossas ideias subjacentes presentes quando olhamos para um sonho 
e criar uma autoconsciência interpretativa sobre o que estamos colocando em prática 
e como colocamos em prática nossa teoria, cientes de nossos “pontos cegos” e limites
 (interpretar nossas próprias interpretações...) sem nunca perdermos nossa sensibilidade.


        Premissa básica:

Um sonho é algo em si e por si mesmo.
 É um produto imaginal. É uma imagem.

       Idealmente:

Descobrir o que a imagem quer e daí determinar nossa terapia.


O QUE QUEREMOS DIZER POR IMAGEM?  
(Desmontagem e Análise da Imagem)

I – IMAGEM

·       Passar do modo perceptivo (natural) ao modo imaginativo

·       Atentar para as seguintes características da imagem:
Sensualidade
qualidades sensoriais da imagem
Textura
seguir e sentir sua tecedura
 Emoção 
o tom, a qualidade da emoção
Simultaneidade
tudo é dado de uma vez só
Intra-Relações 
todos os elementos do sonho estão de alguma maneira conectados
Valor 
algumas imagens são mais potentes, mais atraentes que outras
Estrutura
relações estruturais; as imagens de certa forma dependem umas  
das  outras para seu significado



II – IMPLICAÇÃO

·       Atentar para:

Narrativa 
estrutura dramática, cenário, desenvolvimento, peripetéia, lysis
Amplificação 
semelhanças pela essência
 Elaboração 
a elaboração do sonhador conta-nos mais sobre o sonhador 
  do que sobre o sonho – é ego-sintônica;
 cuidado para não perder as sutilezas de uma figura onírica em si
Repetição 
semelhanças de todo e qualquer tipo que mostram 
um tema dentro do sonho
Reafirmação
re-contar, deixar que o sonho soe novamente, 
enfatizar a qualidade metafórica, as nuances

III – SUPOSIÇÃO

·       Atentar para:

Causalidade
o sonho como imagem NÃO faz nenhuma afirmação causal.
Os eventos são conectivos sem serem causais, 
como na pintura ou na escultura
Avaliação
no nível da imagem, qualquer afirmação positiva/negativa, 
juízo de valor, avaliação NÃO se aplica, 
pois a imagem simplesmente  é.
Generalização 
um sonho é uma afirmação específica de uma constelação particular, 
de forma que qualquer tentativa de generalização  é uma mera suposição.
Especificação 
ao invés de ampliar o contexto do sonho,
 a especificação refere-se a seu estreitamento para uma aplicação específica (...)


Baseado nas sugestões da própria autora, eu me permito acrescentar:

NÃO: 
explorar a imagem em função daquilo que assumimos 
serem nossos objetivos terapêuticos.

SIM: 
respeitar o imaginal...

FALAR COM OS SONHOS, EM SUA PRÓPRIA LINGUAGEM, 
ONIRICAMENTE...
(ao invés de “falar de sonhos”...)


Rosanna Pavesi/Novembro 2014                  

terça-feira, 11 de novembro de 2014

SONHEI UM SONHO...

O Barco dos Sonhos - (Web)


SONHEI UM SONHO...

SONHEI UM SONHO

E LEMBREI-ME DO SONHO

E ESQUECI-ME DO SONHO

E SONHEI QUE PROCURAVA

EM SONHO AQUELE SONHO

E PERGUNTO SE A VIDA

NÃO É UM SONHO QUE PROCURAVA UM SONHO...

(Cecilia Meirelles)


Somos nos que sonhamos
ou é o sonho que nos sonha?

Rosanna Pavesi/novembro 2014





segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O OCO, O VAZIO E SEUS RECIPIENTES...

Garrafas by G. Morandi


O OCO, O VAZIO E SEUS RECIPIENTES...

RECIPIENTE: ALGO QUE CONTÉM...


O OCO DO RECIPIENTE...

O VAZIO NO OCO...


Cada recipiente possui sua forma específica.
Seu interior é oco, vazio.


Cada recipiente ganha forma ao redor deste oco vazio...
É o vazio que determina a forma, confere forma,
não a forma que determina o vazio...

Na Cultura Ocidental o espaço no interior de um recipiente é simplesmente isto:
um vazio...


Admiramos recipientes pela sua aparência externa,
quer seja a pátina de um pote, o corte de um cristal, a trama de um cesto,
a alça de uma caneca,..


Valorizamos seu interior unicamente pela sua função e na medida 

daquilo que eles podem conter:
 meio litro, um litro, um quilo, mito, pouco, mais menos e assim por diante...

Entretanto, no Budismo, o vazio do oco é menos um vácuo e mais uma força positiva:


É o espaço oco que contém o vazio...
É sempre o interior que modela ao redor de si mesmo a forma externa visível.

A firme e delicada imobilidade de um vaso chinês inicia-se em seu interior:
a forma elaborada que apreciamos externamente é a imobilidade que emana do oco vazio.
E é sempre um vazio específico que habita uma forma específica...


Cada cultura sempre influencia as formas dos recipientes produzidos;
 eles revelam qualidades misteriosas de uma cultura 
que talvez nenhuma outra de suas outras manifestações artísticas 
e textos escritos cheguem a revelar.

Formas estranhas, formas aperfeiçoadas de diversas dinastias chinesas, 
potes gregos, etruscos, fenícios, rococó francês, as cerâmicas de Picasso, 
os quietos conjuntos de garrafas de Morandi, 

A garrafa de cerveja, a antiga garrafa de Coca-Cola, a garrafa de leite, 
o cantil, e assim por diante...
Todos os recipientes expondo o invisível "espirito do tempo" de um época,,,
o visível moldado pelo invisível...

De forma geral, nossa natureza Ocidental aborrece o vácuo...
Tentamos preencher o vazio com o que quer que seja:
 "junk food", auto-ajuda barata, bebida, compras, 
os mais recentes "gadgets" tecnológicos, 
 etc,etc,

A Alquimia vai na contramão:
sugere que essas sensações e sentimentos de vazio
são prenúncios de um recipiente, ou diversos recipientes, 
em formação...

O vazio está construindo uma forma, um espaço oco, 
uma forma, um espaço oco específicos.

Modos de contenção, modo de medição, modos de diferenciação.

Talvez seja assim que a realidade da psique tente abrir seu caminho 
para ganhar vida,
 dar uma nova forma à nossa própria vida:
 através destes "sinais" de vazio...

Ás vezes o vazio pode ser localizado fisicamente: 
bem ali, na barriga,
logo atrás do coração, me fazendo sentir leve, tonto...

Ás vezes aparece em sonho como uma sensação de estar caindo no espaço, 
ou  como um buraco, uma caverna escura, um objeto com formato de ovo...

Enquanto NÃO atribuirmos poder formativo  
àquilo escondido no interior de um recipiente, 
continuaremos fazendo uma leitura unilateral de sua função: 

o jarro contém a água, o vaso contém as flores, o cesto contém as frutas...

Desta forma, o oco vazio interior não passa de um mero receptáculo:
o que conta é a água, as flores, as frutas.

Outra leitura possível:

o jarro está umidificando-se, 
o vaso florindo, 
o cesto frutificando...
o oco vazio como fonte de beleza...

Recipientes: métodos de contenção.

(Notas: tradução livre de um texto de James Hillman - The Void of Vessels em Alchemical Psychology - 
Uniform Edition Vol, V - Spring, 2010)


Você nunca se sentiu oca, porém não vazia?
Como se este espaço oco estivesse se preparando 
para se tornar um útero psicológico: 
um receptáculo para acolher e gestar algo novo? 

Eu já...

Por isto é texto de Hillman me fez pensar, 
refletir, mudar minha forma de ver "recipientes"...

Rosanna Pavesi/novembro 2014








sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A ESSÊNCIA DO MISTÉRIO...

The  Moon by Crystal Liu - Fonte: WEB


A ESSÊNCIA DO MISTÉRIO...

"Em todo mistério há o oculto que se mostra, sem esgotar a si mesmo e
revelando que, além do que aparece, permanece o abrigo de sua escuridão.



Mistério é o oculto que dá indícios de si - e por isto constitui um mistério.

 O que se esconde por inteiro não chega a se tornar um mistério porque dele não há nenhum vestígio. 

O que se exibe por completo, esse não guarda nenhum mistério dentro de si.


Em todo mistério tem que haver o claro e o oculto:
a lembrança do inacessível que, guardando-se da luz, dá mostras de sua ausência.

No mistério, o inalcançável possui uma face visível que torna presente sua ausência, sem eliminá-la.
O mistério é o ausente-presente.

O ausente, isso é o fundamental em todo mistério, é indissociável do que se apresenta.
O oculto não constitui "um outro", separado do que se revela...
O oculto é o próprio que se mostra, 
o ausente é o que se apresenta como ausência.
No mistério está sempre presente o inatingível, o ausente à percepção do pensamento.

O inaparente não é apenas a face oculta do aparente, mas é no próprio aparente:
os dois são como uma moeda em que uma face se prolongasse na outra sendo nela mesma.
O mistério está todo alí e, no entanto...permanece inatingível!

Talvez como a lua nova, que se oculta mantendo-se inteiramente no céu...e, nascente, 
ainda indica nela a presença do manto da noite, compondo as duas 
- sombra e luz - o mesmo círculo concluso.

Ou como o opaco da pérola, que brilha escondendo seu brilho...

Em todo mistério, descoberto e coberto são um no outro o mesmo
(sem jamais se igualarem)...

Essa é a essência do mistério:
ser descoberto no encoberto...

Mistérios não são desafios nem enigmas, não são imagens nem sombras projetadas,
Mistérios são a sombra luminosa de si mesmos!
Clareá-los significaria fazê-los desaparecer no oculto de si próprios.

Seria como iluminar uma pérola para esclarecer a origem de seu misterioso brilho.
A pérola não pode ser mais clara, óbvia em seu mistério,
do que já é - não tem nada mais a revelar.
Iluminando-a desaparece o mistério...e, com ele, o brilho da própria pérola.

Mistérios não se desnudam, nem se permitem desnudar-se.
Mistérios se auscultam, se descrevem, se indagam...se meditam:
mas não se desvelam...

Mistérios 
são o brilho da pérola, as cores das asas do pavão, o esplendor do pôr-do-sol,
a linguagem do homem.
Misterioso é o ente, o real. O mundo...O ser..."

(Guy Van de Beuque em " Experiência do Nada como Princípio do Mundo"
Faperj-Mauad, 2004)

Um dos textos mais bonitos e instigantes que já li sobre o tema...
Poesia...
Só compartilho, nada tendo a acrescentar...

Rosanna Pavesi/Novembro 2014





domingo, 19 de outubro de 2014

POETANDO...

O Jardim de Afrodite - by Rosan



POETAR...

No poetar do poeta,

como no pensar do filósofo,

se instaura tal mundo,

que qualquer coisa,

seja uma árvore, uma montanha, uma casa,

o chilrear de um pássaro,

perde toda a monotonia e vulgaridade...

(M. Heidegger em Introdução à Metafísica - p.50


Lembramos ainda, de vez em quando,
de poetar?


Rosanna Pavesi/Outubro 2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O SONHO, O LIVRO, AS "CHAVES"...

"Envolvente" - by Rosan


AS "CHAVES"...
"O valor das idéias criativas está em que, tal como acontece com as "chaves",
elas ajudam a "abrir" conexões até então ininteligíveis de vários fatos,
permitindo que o homem penetre mais profundamente no mistério da vida.

Acredito firmemente que as idéias de Jung podem assim servir
 à descoberta e à interpretação de novos fatos em muitos campos da ciência
(e também da vida cotidiana), levando o indivíduo, simultaneamente,
a uma visão mais equilibrada, mais ética e mais ampla do mundo.

Se o leitor sentir-se estimulado a se ocupar mais largamente
da exploração e da assimilação do inconsciente
 - tarefa que se inicia sempre por investigar nosso próprio inconsciente -
o propósito desta obra introdutória terá sido plenamente alcançado"
(Marie-Louise von Franz - Conclusão: A Ciência e o Inconsciente em
O HOMEM E SEUS SÍMBOLOS - Edit.Nova Fronteira - 10.a edição -1964)




O LIVRO...


Na primavera de 1959, a convite da BBC, John Freeman entrevistou Jung
para a televisão inglesa.
Esta entrevista alcançou sucesso e o livro O Homem e Seus Símbolos é,
de certa forma,
 e por estranha combinação das circunstâncias, resultado daquele sucesso.

Num primeiro momento Jung declinou o convite de colocar
algumas das suas idéias básicas em linguagem e dimensão acessíveis ao leitor
não especializado no assunto, alegando - com grande firmeza -
 que nunca tentara, no passado, popularizar sua obra,
e não tinha certeza de poder fazer isto com sucesso naquele momento...



O SONHO...

Foi nesta ocasião que Jung teve um sonho da maior importância para ele.
Sonhou que, em lugar de sentar-se no seu escritório para falar a ilustres médicos
e psiquiatras do mundo inteiro que costumavam procurá-lo,
estava de pé num local público dirigindo-se a uma multidão de pessoas
que o ouviam com atenção e que compreendiam o que ele dizia...
A partir disto, mudou de ideia e surgiu o livro O Homem e Seus Símbolos...
O livro se quer uma obra coletiva, e não individual,
 e foi escrito em parceria com um grupo de seus mais íntimos colaboradores.

Jung escreveu o Capítulo 1. - Chegando ao Inconsciente,
onde discorre sobre a importância dos sonhos, sua função, sua análise,
 o simbolismo dos mesmos, a alma do homem, símbolo, arquétipo e outros...


Recebi este livro de presente de uma pessoa muito querida,
num momento especial de minha vida:
Estava prestes a deixar para trás a profissão da primeira metade de minha vida
para iniciar a Faculdade de Psicologia e tornar-me Psicóloga Clínica
e Psicoterapeuta de abordagem junguiana...
Um "chamado" vocacional acolhido e que mudou minha vida...

Assim, li este livro pela primeira vez como leiga e fiquei fascinada...
Não sei se compreendi o que o livro dizia MAS compreendi o suficiente
para ter clareza de qual seria meu caminho dali em diante...

Hoje coordeno uma Oficina de Sonhos em meu consultório, `
experiência fascinante e gratificante...
Às vezes a "chave" aparece, se revela, se oferece.
outras vezes não...
esperamos...
Contamos histórias, ouvimos o discurso da alma, conosco...

Rosanna Pavesi/Outubro 2014











domingo, 31 de agosto de 2014

SOBRE SÍMBOLO...


Sem título - by Rosan
SOBRE SÍMBOLO...

A)    - SÍMBOLO SEGUNDO C.G. JUNG

“(...) Em minha concepção, o conceito de símbolo é bem distinto do simples conceito de sinal. 

Significado simbólico e semiótico são coisas bem diversas. 
A roda alada do uniforme do ferroviário NÃO é um símbolo da ferrovia, 
mas sim um sinal de que a pessoa integra o serviço ferroviário.

O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida 
seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido,
 mas cuja existência é conhecida ou postulada.

(...) Enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão possível de alguma coisa. 
E só é vivo enquanto cheio de significado. 
Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão 
que formula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida 
do que o símbolo até então empregado,
 o símbolo está morto, isto é, só terá valor histórico.

Uma expressão usada para designar coisa conhecida continua sendo apenas um sinal 
e nunca será um símbolo. 
É totalmente impossível, pois, criar um símbolo vivo, isto é, cheio de significado, 
a partir de relações conhecidas.

(...) Na medida em que toda teoria científica encerra uma hipótese, 
portanto é uma descrição antecipada de um fato ainda essencialmente desconhecido, 
ela é um símbolo.

(...) Depende da atitude da consciência que observa se alguma coisa é símbolo ou não. 
É bem possível, pois, que alguém estabeleça um fato que não pareça simbólico à sua consideração, mas o é para outra consciência (símbolo individual X símbolo social X símbolo universal).

(...) O símbolo vivo formula um fator essencialmente inconsciente e,
 quanto mais difundido (universal) este fator, tanto mais geral o efeito do símbolo, 
pois faz vibrar em cada um a corda afim. (...) 

Como o símbolo vivo tem que conter em si o que é comum a um grupo humano bem grande 
para, então, atuar sobre ele, (o símbolo) deve abarcar exatamente o que pode ser comum a um grupo humano bem amplo. 
Jamais poderá ser algo muito diferenciado e inefável, porque isto só o entende uma minoria, 
mas tem que ser algo tão primitivo cuja onipresença esteja fora de dúvida.

Só quando o símbolo alcançar isto e o apresentar como a melhor expressão possível,
terá eficácia geral. 
Nisto consiste a eficácia poderosa e, ao mesmo tempo, salvífica de um símbolo socialmente vivo.

(...) Os puros produtos da consciência, bem como os produtos exclusivamente inconscientes, 
NÃO são de per si símbolos categóricos, mas cabe à atitude simbólica da consciência 
de quem observa atribuir-lhe o caráter de símbolo.

(...) O símbolo é sempre um produto de natureza altamente complexa, 
pois se compõe de dados de todas as funções psíquicas. 
Portanto (o símbolo) não é de natureza racional e nem irracional. 
Possui um lado que fala à razão e outro inacessível à razão (algo sempre “escapa...). 
A carga de pressentimento e de significado contida no símbolo afeta
 tanto o pensamento quanto o sentimento.”
(Fonte: Tipos Psicológicos – XI Definições – C.G. Jung – OC VI – par. 903-917 – Vozes, 1991).

Mais... 

“(...) O que chamamos símbolo é um termo, um nome, 
ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, 
embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. 
Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta para nós.

(...) Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica 
alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. 
Esta palavra ou esta imagem têm um aspecto “inconsciente” mais amplo, 
que nunca é precisamente definido ou de todo explicado. 
E nem podemos ter esperanças de defini-la ou explica-la. 
Quando a mente explora um símbolo, 
é conduzida a ideias que estão fora do alcance da nossa razão.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana
 é que frequentemente utilizamos termos simbólicos como representação de conceitos 
que não podemos definir ou compreender integralmente.
 Esta é uma das razões por que todas as religiões empregam uma linguagem simbólica 
e se exprimem através de imagens.
MAS este uso consciente que fazemos de símbolos é apenas um aspecto 
de um fato psicológico de grande importância:
o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, na forma de sonhos.

Geralmente, o aspecto inconsciente de um acontecimento nos é revelado através de sonhos, 
onde se manifesta não como um pensamento racional, mas como uma imagem simbólica.
(...) Quando nos esforçamos para compreender os símbolos, 
confrontamo-nos não só com o próprio símbolo como com a totalidade do indivíduo que o produziu. Nesta totalidade inclui-se um estudo do seu universo cultural.

(...) Há símbolos naturais, distintos dos símbolos culturais. 
Os primeiros são derivados dos conteúdos inconscientes da psique e, 
portanto, representam um número imenso de variações das imagens arquetípicas essenciais.
Os símbolos culturais, por outro lado, são aqueles que foram empregados 
para expressar “verdades eternas” e que ainda são utilizados em muitas religiões. 

Passaram por inúmeras transformações e mesmo por um longo processo 
de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim 
imagens coletivas aceitas pelas sociedades civilizadas."
(Fonte: O Homem e Seus Símbolos –1. – Chegando ao Inconsciente – C.G. Jung – Ed. Nova Fronteira – 10.a Edição.)

Pode-se considerar o símbolo como o produto da união de opostos, uma síntese,
 uma união dos contrários.  É o terceiro elemento, é algo novo... 
(vide Função Transcendente mais adiante).
Symbolen: o símbolo reúne aquilo que foi partido.

Ao lidar com material inconsciente (sonhos, fantasias, etc.), as imagens podem ser  tratadas   tanto semioticamente, como signos sintomáticos que indicam fatos conhecidos ou cognocíveis, como  simbolicamente, como expressão de algo essencialmente desconhecido.

A atitude simbólica é, no fundo, construtiva, no sentido de que dá prioridade à compreensão do significado ou propósito dos fenômenos psicológicos, em vez de procurar um explicação redutiva.

 É também importante averiguar o efeito do símbolo sobre o sentimento, suas impressões sensoriais, seu significado, seu conteúdo ideacional, o investimento de energia psíquica no mesmo...

De acordo com Jung, o símbolo possui a capacidade de transformar e redirecionar a energia psíquica, através daquilo que ele chamou de Função Transcendente. 
A Função Transcendente é, em sua essência, um aspecto de auto-regulação da psique 
e se manifesta, tipicamente, de modo simbólico. 
O símbolo é o produto desta Função, que é experimentada e vivenciada 
como uma nova atitude em face de si mesmo e da vida. 
Esta Função, cujo produto é o símbolo, é chamada de Transcendente 
porque vai além dos opostos, os transcende, 
nada tendo a ver com transcendência espiritual no sentido geral do termo.


B)    – SÍMBOLO PARA J. HILLMAN:

SIMBOLIZAR: Ver imagens simbolicamente, ou transformar imagens em símbolos.

SÍMBOLO: Contém, no mínimo, uma ideia principal e uma imagem. 
Ambos, a imagem e a ideia, têm em comum algo da experiência humana 
que é durável através do tempo.

 Ele (o símbolo) condensa um grupo de convenções que tende à universalidade.
 A convencionalidade no agrupamento similar de ideias numa imagem 
é a chave para o reconhecimento dos símbolos.

 O símbolo traz o profundo, o poder da história e da cultura, a generalidade do universo, 
a generalidade da experiência humana, verdades inexprimíveis e banalidades. 
Ser ele poderoso ou trivial depende da qualidade da imagem.

Segundo Hillman, há dois caminhos:

a)     Abordar as imagens via símbolos (simbolicamente):
quando, onde, generalidade, convencionalidade da imagem. 
O símbolo generaliza e descreve as possibilidades simbólicas, 
a fenomenologia dos arquétipos da psique objetiva.

b)     Abordar os símbolos via imagens, (imagisticamente):
o como, as particularidades, as peculiaridades da imagem. 
Na investigação sobre imagens, há uma valoração das imagens;
 todas as imagens se revestem de valor arquetípico.

 Qualquer imagem que é tomada como símbolo, tomada em sua dimensão universal, 
deixa de ser imagem.

 - Seria correto tratar o sonho como imagem?
A prática dos sonhos como imagens suspende nossa teoria que se baseia na abordagem simbólica. Pode ser vista como uma tentativa de voltar para o desconhecido
que até alguns anos atrás estava centrado no símbolo, “explorando” a imagem.

- Com os sonhos: 
totalidade presente na imagem; tudo que está ali é necessário/ tudo que é necessário está ali; 
fidelidade à imagem na sua apresentação precisa. 
(ex.: cisne grande, não pequeno, vivo, não morto, etc.).

- Dissolver a substância nominativa em metáfora: 
Ex. a “flecha” nomeando e/ou simbolizando uma coisa
 X 
a “flecha” como uma ação veloz e como qualificação multifacetada.

- NÃO traduzir a imagem em coisas e/ou conceitos. 
Ficar com a árvore, não com o conceito e/ou  o símbolo da árvore. 
(Notas:: Trilogia das Imagens: Image-Sense, Spring 1979; An Inquiry into Image; Further Notes on Image – James Hillman)


Do meu ponto de vista, tanto abordar as imagens via símbolos – os seja simbolicamente – 
quanto abordar os símbolos via imagens – ou seja imagisticamente – tem seu valor.

O universal e o particular... 
Posto que ambos estão presentes nos seres humanos e em nossos sonhos.  
Penso que o importante é saber quando estamos amplificando um símbolo 
e quando estamos particularizando uma imagem e fazer bom uso dos dois caminhos...

Por fim creio que, assim como com o símbolo, 
também nenhuma imagem, possa ser alcançada em sua totalidade. 
A vitalidade, o vigor psíquico de uma imagem e/ou de um símbolo reside justamente
 naquilo que foge, que escapa, que resiste a ser “des-velado” por completo... 
Que é o que intriga, instiga nossa curiosidade, que alavanca, que toca, que afeta...

QUE É VIVO...


Rosanna Pavesi/setembro 2014


domingo, 10 de agosto de 2014

CURTINDO UMA FOSSA...

Yellow Moonbird by Miró

CURTINDO UMA FOSSA...

Expressão antiga, caída em desuso...
Hoje ninguém mais tem uma fossa,
muito menos a curte...

Hoje, de cara, não estou triste ou acabrunhado,
hoje ninguém mais é "blue", ou tem "the blues", ou vivencia um "feeling blue"...
Não...
Hoje, de cara estamos deprimidos...
E logo buscamos um remédio que apague isto...
Não fica bem...

Arrumando papeis antigos, dei de cara com um "poema", também antigo - dos anos '90 -
época em que a fossa era curtida e evitava - talvez - outros estados mais densos e "negros"...

Compartilho...

Curtindo uma fossa...

Estou na fossa
Curtindo tudo que tenho direito 
Inclusive um Piazzola...
Me sinto sozinha, abandonada
Feia e sem rumo...

Entrei na fossa:
Pele opaca, olhos sem vida, cabelos sem viço
E o sorriso que custa a chegar
Os ombros pesados...

Não pinto, não leio, não faço
Só curto minha fossa!

Muitos cigarros, poucas palavras
Muito Piazzola...

Passividade total
Falta de ação, de vontade, de tesão
Nada interessa, nada prende a atenção...

Há somente esta fossa:
Escuridão total, inércia, apatia
Águas paradas, estagnadas
Insônia, angustia, cigarros
Não enxergo saída.
Estou curtindo uma fossa ao som de Piazzola...
(Rosan - Maio 1990)

A fossa passou... e aqui estou...
Tantos anos depois optei por compartilhar como uma forma de legitimar
este estado de alma, entre tantos outros...

Uma fossa podia ser "curtida"...
Uma depresssão não...

Rosanna Pavesi/Agosto 2014

segunda-feira, 30 de junho de 2014

SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Psique - by Rosan


SOBRE DAIMON, DESTINO, TEORIA DA SEMENTE DE CARVALHO...

Daimon (em grego), gênio (em latim) e, em termos mais modernos, também anjo, alma,
 paradigma, imagem inata, estrela-guia, visão, caráter, destino, gêmeo interior,
 fruto do carvalho, companheiro eterno, protetor, vocação do coração, chamado...

Essa multiplicidade e essa ambiguidade são inerentes ao próprio daimon,
enquanto personificação de um espírito que, na psicologia grega,
era também o destino da pessoa.
Cada qual carregava seu destino.
O destino era o gênio particular que acompanhava cada indivíduo.

O daimon, no mundo antigo, era uma figura do "outro mundo",
nem humana, nem divina, algo entre essas duas esferas,
de uma "região intermediária", à qual a alma também pertencia.

O daimon era mais uma realidade física intima, do que um deus.
Era uma figura que podia aparecer num sonho, ou enviar sinais como pressagio, como palpite.

"Caráter é destino" (fragmento de Heráclito) vincula o modo de vida
ao desempenho da pessoa.

O foco egocêntrico do humanismo nos faz achar que o daimon, tendo nos
 escolhido para habitar, interessa-se por nosso destino...
Mas, e o destino dele?
(que também é o nosso...)

Talvez a tarefa do homem seja alinhar seu comportamento às intenções dele, 
agir de acordo com ele, por ele?
O que fazemos na vida afeta nosso coração, nossa alma
e interessa ao daimon.

Formamos a alma com nosso comportamento, pois a alma não chega pronta do céu.
É apenas imaginada lá, um projeto incompleto 
tentando baixar...

O daimon torna-se a fonte da ética humana, e a vida que
é alegre, a vida que é boa:
aquilo que os gregos chamavam de eudaimonia...
(eu = harmonia; daimonia = que pertence ao daimon),
ou seja, uma vida vivida em harmonia com o daimon.

A teoria do fruto do carvalho sustenta que cada pessoa tem 
uma singularidade que pede para ser vivida 
e que já está presente antes de poder ser vivida.

O fruto do carvalho costuma ser obsessivo...

(NOTAS: O Código do Ser - James Hillman, Objetiva, 1997)

Pode-se concordar com Hillman, ou não, mas é um livro que deve ser conferido...

Para mim, o daimon se apresentou na metanoia,
como vocação do coração, um chamado...
Um furação que sacudiu minha vida, 
devastou meu "mundinho seguro e previsível" que, porém,
tinha se tornado estreito, estreito demais...

Segui os sinais...
Não de forma fatalista, como um "destino" traçado desde o começo,
mas sim como uma segunda oportunidade de descobrir 
meu potencial vocacional ainda não vivido e que resolvi acolher...

A coragem veio, apesar do medo, 
pois eu tinha uma sensação interna de "ou vai ou vai"...
Não me arrependo, muito pelo contrário...
Hoje não consigo nem imaginar minha vida de outra forma...

Não saberia dizer com clareza SE
fui eu que acolhi o chamado do daimon  
ou se foi ele que, obsessivamente, acabou finalmente por ser ouvido
e levado em consideração...

Mas, nesta altura, isto já não tem a menor importância...
As duas coisas se fundem numa só...

Rosanna Pavesi/Junho 2014