domingo, 16 de dezembro de 2012

METANOIA, PINTURA E VOCAÇÃO: CONSIDERAÇÕES FINAIS...




Eros, o Flamejante (by Rosan)


METANÓIA, PINTURA E VOCAÇÃO...
CONSIDERAÇÕES FINAIS...


Jung valorizou de forma especial o processo criativo como manifestação de saúde mental
e restauração do equilíbrio psíquico, tanto no indivíduo quanto na cultura.
Ele considerava a criatividade como uma função psiquíca natural,
que se realizaria por intermédio de símbolos, presentes em todas as expressões artísticas,
bem como nos sonhos e nas fantasias.

Em toda a obra de Jung encontramos inúmeras leituras de imagens,
quer seja de sonhos, visões, desenhos, pinturas, sempre estudadas em série.
 Jung compreendia essas imagens como auto-representações de transformações energéticas
que obedecem a leis específicas e seguem uma direção definida.

Em nosso contexto, a pintura pode ser imaginada e pensada essencialmente
como um espaço de proteção do novo, até que uma idéia, um projeto de vida,
 uma nova atitude e/ou relação com a vida alcance um certo ponto de maturidade
e consiga efetivar mudanças eficazes e integradas
na dimensão terrena e existencial do indivíduo.

Sob esta perspectiva, a pintura apresenta algumas características específicas, a saber:
  • Vem de repente, não é necessariamente um dom...
  • Como o Anjo da "Anunciação", ela traz uma mensagem relativa ao futuro.
  • Simplesmente chega e quer ser ouvida...
  • É premente e compulsiva... Ela se impõe...
  • Atua como Função Transcendente...
  • Transcende o momento presente... apresenta algo novo...
Em todos os casos que tive o privilegio de acompanhar, incluindo meu próprio caso,
encontrei algo em comum quanto à relação entre metanóia, pintura e vocação:

* Todos os indivíduos eram relativamente bem sucedidos em suas atividades profissionais,
mas estavam insatisfeitos com seu trabalho em termos de gratificação e auto-realização pessoal.

* Nenhum lembrava de seus sonhos, como se a pintura
 fosse o único canal disponível de comunicação da psique.

* Todos apresentavam, num primeiro momento, uma regressão temporária da energia
e uso parcialmente defensivo da pintura.
 Usavam a pintura como defesa contra o tédio e, ao mesmo tempo,
contra o medo de não ser capaz de promover mudanças, de ser tarde demais,
de não ser criativo, etc.
Defesa esta que, de saída, não pode ser simplesmente retirada,
pois ela possui uma importante função de contenção energética.

* Após um período de incubação, imobilidade e silêncio,
que sempre antecede um ato de criação,
a energia volta a progredir e todos encontraram a coragem, ousadia,
 recursos para "dar o pulo do gato"...

* Todos mudaram radicalmente de profissão,
abrindo mão de conquistas por vezes arduamente conquistadas na primeira metade da vida,
para começar profissionalmente praticamente do ponto zero novamente.

* Todos continuaram pintando, mas nenhum deles fez das artes plásticas sua profissão.
A pintura tornou-se parte integrante de suas vidas, um segundo amor digamos assim,
um registro de vida, um valioso instrumento de expressão encontrado ao longo do caminho...

* Após a revelação vocacional,
cada qual teve que haver-se com a obrigação ética
de ser, ou tornar-se, aquilo que sempre foi mas que não se acreditava capaz de ser, ou tornar-se.

* Todos descobriram que não havia outra saída, a não ser tentar...



Psique, a Resplendescente (by Rosan)


Desvendar a obra de alguém implica em estar aberto a conhecer
 quem se coloca à nossa frente, vulnerável e em toda a sua nudez,
 tendo a clareza de que ele é um ser único.

No consultório, as informações que a linguagem da arte possa vir a trazer,
só poderão ser validadas através da relação íntima e pessoal com quem as produziu...

Hipóteses elaboradas a priori, não fazem sentido.

Trata-se, essencialmente, de deixar as imagens fluir e cumprir sua função
para com aqueles indivíduos que as pintaram.
 As imagens coagulam...
Ao contemplá-las, ao relacionarmo-nos com elas, algo acontece em nós...

Na busca de nosso próprio modo de viver,
surge o ato criativo como forma de expressão da influência criativa e ordenadora da Psique,
tanto através de símbolos,como da arte.
Passamos a encarnar e refletir no mundo nossa substância essencial,
da melhor forma viável e possível,
deus volente...


(Notas: A Psique em Busca de Expressão: Pintura e Vocação na Metanoia, Rosanna Pavesi, em "JUNG E CORPO", Revista do Curso de Psicoterapia de Orientação Junguiana Coligada a Técnicas Corporais, Ano III, N.o 3, 2003 - Sedes Sapientiae, São Paulo, SP)


Rosanna Pavesi/Dezembro 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO: METANÓIA E VOCAÇÃO (III)



(Autor desconhecido)


METANÓIA, PINTURA E VOCAÇÃO


SOBRE METANÓIA E VOCAÇÃO...





Pedra-ovo (by Rosan)


"Cada pessoa tem uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes de poder ser vivida..."
(James Hillman em O Código do Ser, Rio de Janeiro, Objetiva, 1997, p. 16)


Vocação, neste contexto, assume a conotação de um chamado interior profundo,
 um apelo daquilo que necessitamos fazer, parte essencial de nossa individualidade,
 de nossa identidade pessoal, que - principalmente na metanóia -
leva frequentemente a uma mudança por vezes radical, na vida como um todo.

Na busca de um novo sentido, reestruturamos nossa identidade profissional,
nossa forma de estar no mundo, nosso estilo de vida, nossas prioridades...

Ressignificamos aquilo que é essencial, importante, secundário, supérfluo, prioritário ou só urgente...
Re-definimos aquilo sem o qual não podemos viver e aquilo que pode ser deixado para trás...

Na metanóia, a nosso ver, o resgate e/ou a descoberta vocacional  insere-se num contexto mais amplo, em um processo denomidado por Jung de processo de individuação:
o tornar-se aquilo que se é,
o des-velar e vivenciar, da forma mais plena possível, o potencial de nossa singularidade,
em todas suas nuances de luminosidade e sombras, de abertura e limites...

É um "último chamado" para a autenticidade...

Nesta fase, dois instintos parecem predominar:
o instinto de reflexão
compreendido como um voltar-se temporariamente para dentro,
para longe do mundo e dos objetos externos,
 em direção às imagens e experiências psíquicas subjetivas,
à religiosidade e à busca de significado.

o instinto criativo
como uma necessidade de vida.
Segundo J. Hillman (1) a criatividade, bem como os outros instintos, requer consumação, sendo capaz de produzir imagens de seus objetivos e de orientar o comportamento para a sua satisfação.
Lembramos também que, para Jung, o prototípo do inconsciente não é o reprimido,
 mas também o criativo e o ainda não vivido.

A ressignificação do trabalho como instrumento de auto-realização vocacional
é parte essencial deste processo.
Do ponto de vista prospectivo, acreditamos que, nesta faze de vida,
o instinto criativo possa ser imaginado e pensado como impulso para a totalidade.
Este impulso para a auto-realização age com a coercitividade de um instinto,
somos impelidos a sermos nós mesmos...

E, talvez,seja esta a verdadeira tarefa humana criativa? 


Rosanna Pavesi/novembro 2012


(NOTAS: (1) - James Hillman, O Mito da Análise, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984)









sábado, 17 de novembro de 2012

A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO: METANOIA E PINTURA (II)




 

(Autor desconhecido)


(II) - METANÓIA E PINTURA... E VOCAÇÃO...



SOBRE O PROCESSO




A Chuva (by Rosan)


Tudo parece começar com um certo mal-estar, certa falta de sentido...
A vida parece perder a graça, há um vazio, ou melhor, um vácuo... um vácuo que resiste...
Uma parte de nós mesmos parece estar flutuante, faltante, ausente, ou ainda não nasceu?
Para conter este mal-estar, buscamos um canal criativo, algo novo,
algo que nunca fizemos antes,
 uma atividade expressiva, frequentemente...
No nosso caso, a pintura...

Inicia-se um grande caso de amor com a pintura:
pintamos com paixão, com uma "fúria divina",
 extasiados com as possibilidades desta nova linguagem.
 Esquecemos do tempo, totalmente imersos no ato criativo.
Lutamos para dar forma e cor a enseios invisíveis e, no limite, indisíveis...
Algo quer vir a tona:
não sabemos bem o quê, mas deixamos as imagens aflorar...
Sentimo-nos preenchidos novamente, revitalizados,
voltamos a ter contato com nosso mundo interior através da pintura
e isto, por algum tempo, nos basta...

O espaço do pintar torna-se um espaço sagrado, nosso temenos,
que tanto pode servir de refúgio,de parêntese para um cotidiano insatisfatório,
como de espaço de construção, e/ou de transformação,
um útero psicológico onde entramos em busca de renovação,
onde ousamos  penetrar no criativo e acolhemos a visita da  imaginação...

Encontramos um canal onde a energia criativa,
para a qual ainda não temos espaço em nossa vida,  pode fluir.
Pintamos para nos, pintamos por necessidade de expressar, de alguma forma,
algo incipiente, algo que ainda não sabemos nem nomear...
Pintar, criar, é sempre um ato solitário, intimo, recluso...
Assim, frequentemente, após certo tempo,
só pintar também não basta...
Só pintar também já não resolve mais...

O que acontece?
Acontece que a energia quer voltar a progredir,
 o impulso criativo quer expressar-se no mundo externo e em nossa vida como um todo.
Após o mergulho solitário, após o recolhimento,
 o impulso para a ação e a atividade externa  torna-se premente, dominante, novamente.

Para que, então, a pintura surgiu em nossa vida?
Qual seu telos, sua intencionalidade?

Gosto de pensar que ela veio para nos sacudir, para deixar o novo, o criativo, penetrar em nossa vida.
Após pintar, após criar e expressar algo que antes não existia,
torna-se intolerável não resgatarmos a nós mesmos, ao "sonho" que deixamos para trás,
ou à vocação, cujo chamado é ao mesmo tempo fascinante e assustador.

Compreendemos, dolorosamente, que algumas das escolhas anteriores já se esgotaram ou que,
de alguma forma, elas já não fazem mais sentido para nós, que elas já não preenchem mais...
E, após a metanóia, 
 há muita vida ainda para ser vivida...

Neste caso, a pintura veio como instrumento para mergulharmos em nosso mundo interior,
 libertarmos nossa criatividade encapsulada. 
A criatividade possui uma peculiaridade:
uma vez libertada, ela se espalha e, aos poucos, vai abrangendo as mais diversas áreas de nossa vida,
em geral de forma bastante benéfica.
Tudo muda...

Ganhamos força e coragem para mudar aquilo que precisa ser mudado,
reconquistando a capacidade de avançar em curso modificado.
Compreendemos que a pintura talvez não seja a meta em si,
 mas o instrumento tão só para algo maior...

Ela é o dedo que aponta para a lua,
mas ela não é a lua...
A nossa "lua" é o chamado daquilo que deve ser acolhido em nossa vida.
No nosso caso, é o chamado da vocação...

Encontramos recursos internos e força para abrirmos mão, muitas vezes, de conforto, segurança, status social, e lançarmo-nos ao resgate de uma parte de nós mesmos que pede para nascer psicologicamente.
Nossa vocação pede para ser vivida...

Se estamos em terapia, a terapia torna-se um lugar seguro para ensaiar, analisar,
descartar, imaginar a mudança antes de colocá-la em prática. 
Através deste estar frente a frente com o material produzido e consigo mesmo,
tendo o terapeuta como companheiro de viagem,
o indivíduo pode ir se apossando de seus conteúdos mais profundos.
Sonhos começamos a surgir, oportunidades nunca antes percebidas passam a ganhar espaço,
buscam-se dados, canais e informações concretas "lá fora"...
Pintamos menos, ou já não tão só...

Assim como um dia tivemos a ousadia de pegar um pincel e começar a pintar,
agora ousamos pensar como possível o que era tido como impossível.
"Enraizamos"...
Passamos da intenção para a ação planejada,
transformamos um "sonho" prenhe de significado em projeto de vida,
percorremos os caminhos do excesso de entusiasmo,
do desânimo, dos medos e das dúvidas...

Nunca é fácil, mas descobrimos que não há outra saída a não ser tentar...


Rosanna Pavesi/Novembro 2012


(Notas: "A Psique em Busca de Expressão - Pintura e Vocação na Metanoia", Rosanna Pavesi - Artigo publicado em
Jung e Corpo - Revista do Curso de Psicoterapia de Orientação Junguiana Coligada a Técnicas Corporais -
 Ano III, N.3, 2003 - São Paulo, Instituto Sedes Sapientiae)

 

domingo, 11 de novembro de 2012

A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO: METANOIA(I) , PINTURA (II) E VOCAÇÃO (III)


(autor desconhecido)


A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO
Metanoia, Pintura e Vocação



"Sempre que me sentia bloqueado, eu pintava ou esculpia uma pedra: tratava-se sempre de um  rite d'entrée que trazia pensamentos e trabalhos... ''(C.G. Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993)



(I) - SOBRE A METANÓIA...

"Nel mezzo del cammin di nostra vita..." como já disse Dante Alighieri...
Aquele momento, em nossa vida, talvez entre os 35 e 45 anos (?), quando já podemos olhar para trás, olhar para aquilo que já fizemos, que já alcançamos  e nos perguntamos se queremos
continuar no mesmo caminho... ou não...
A metanóia:
Uma crise existencial?
Uma oportunidade existencial?


Na metanóia, extensas áreas de nossa vida são frequentemente questionadas e reavaliadas...
Muitas vezes algum tipo de resgate ou mudança impõe-se de forma premente e inadiável.
Digo impõe-se porque, de fato, não temos escolha:
Somos compelidos a olhar para dentro, para nossos anseios mais profundos, para o não-vivido, os "sonhos" esquecidos e haver-se com eles.

Fazemos um balanço, reavaliamos nossas prioridades, nossa forma de estar no mundo,
em busca de um novo sentido, de algum sinal...

Sentimos que estamos em uma encruzilhada, mas não sabemos qual direção tomar...
Sabemos que temos um passo a dar, uma escolha a fazer, mas estamos com medo...
Talvez haja um projeto de vida a resgatar, mas não sabemos nem como, nem por onde começar...
Ou, ainda, nada mais parece fazer sentido, ter graça, a vida tornou-se árida, opaca...

Não sabemos o que fazer, buscamos uma saída...

E...PINTAMOS, BORDAMOS, MOLDAMOS, DANÇAMOS, ESCREVEMOS, COZINHAMOS,
DESENHAMOS, ESCULPIMOS...

Eu não esculpia, nem desenhava, nem dançava ou moldava,

EU SOMENTE  PINTAVA...

Quando, na metanóia, a pintura (ou outra expressão artística não usual para nos) entra de repente em nossa vida -como foi o meu caso e de outros que tive o privilégio de acompanhar - só pintar não basta...

Precisamos descobrir a que a pintura veio e o que a psique quer comunicar...

Levanto a hipótese de que, talvez,  a psique esteja buscando chamar nossa atenção,
 expressando-se de forma insólita através de nos...
que esteja tentando nos mostrar e dar forma a um potencial ainda não revelado, ou ainda não vivido que pede passagem...
Qual o telos, a finalidade, o proposito? 

O que a psique quer?


(Notas: A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO - Pintura e Vocação na Metanoia", artigo por Rosanna Pavesi em  JUNG & CORPO- Revista do Curso  de Psicoterapia de Orientação Junguiana Coligada a Técnicas Corporais - São Paulo, Sedes Sapientieae,
Ano III - N. 3 - 2003).


Rosanna Pavesi/Novembro 2012

No próximo post:
METANOIA E PINTURA (II)



domingo, 4 de novembro de 2012

MINHA CASA...


Sem Título (by Rosan)

MINHA CASA...

Fiz uma casa para mim...

Cobri com um teto, coloquei piso e paredes
Peguei minha casa e instalei em chão de terra firme, sólida, bem batida
Ficou uma casa bem bonita, eu pensei...
Vou colocar flores nas janelas...

Abri a porta e entrei: nossa, que bagunça!

Assim, coloquei ordem na casa toda, tudo em seu devido lugar:
o sofá e a mesa na sala,
os livros nas estantes,
a cama e o colchão no quarto,
a geladeira na cozinha,
as toalhas no banheiro.
Tudo nos conformes, tudo no lugar certo, como fazem as pessoas certas...
Ficou uma casa certa, para pessoas certas
Uma casa prática, com certo conforto até...

Você entra, senta no sofá, come na mesa, dorme no quarto, lê os livros das estantes, guarda comida na geladeira, escova seus dentes no banheiro, igualzinho à casa de todos, coisas de turista acidental...

Você vai ver: com tudo em seu devido lugar, as coisas vão melhorar...
Assim, sentei a esperar
E comecei a olhar minha casa por dentro...

Mas
Eu gosto mais da poltrona da sala no meu quarto
Não tenho espaço no cozinha, o freezer vai para o serviço
Gosto das violetas na mesinha de canto, mas sinto mais falta delas na pia do banheiro
Não tenho empregada para ocupar o quarto, mas preciso de um atelier...

Ah, moça, mas que bagunça, que coisa desastrada....
Assim não vai dar certo nunca!

E se eu quiser um atelier e não uma empregada
Se eu quiser a poltrona da sala no meu quarto
E minhas violetas no banheiro
Que mal há nisso?

Manterei a casa limpa
Deixarei o sol entrar
As violetas respirar
Mas...
Me deixe como eu sou...
Um pouquinho diferente, um pouquinho só
Vamos lá...

(Rosan)


Rosanna Pavesi/Novembro 2012


sábado, 13 de outubro de 2012

SOBRE INDIVÍDUO E INDIVIDUALIDADE...


By A. Tapies


SOBRE INDIVÍDUO E INDIVIDUALIDADE...


Mais uma diferenciação, sutil e delicada,  que merece ser feita...

"Deve-se fazer uma distinção entre a individualidade e o indivíduo.
O indivíduo é determinado, por um lado, pelo princípio de ser único e de ser distinto e, por outro, pela sociedade à qual pertence. Ele é um elo indispensável na estrutura social"
(C.G. Jung - The Structure of the Unconscious, CW 7, par. 519)


Sobre Indivíduo:

Único e diferente de todos os outros, distinto daquilo que é coletivo.
O indivíduo é, precisamente, aquele que jamais pode ser confundido com o coletivo e que nunca é idêntico a este.

O ponto de vista individual não é necessariamente antagônico às normas coletivas, mas apenas diferentemente orientado.

"O modo individual jamais pode se opor diretamente à norma coletiva, porque o oposto de uma norma coletiva poderia ser apenas uma outra norma, se bem que contrária; mas o comportamento individual jamais pode ser, por definição, uma norma".
(C.G. Jung, Definitions, CW 6, par.761)

Jung acreditava que a sobrevivência de um indivíduo dentro de um grupo dependia não apenas de uma autocompreensão psicológica, mas também da experiência pessoal de uma verdade mais elevada.

"A resistência à massa organizada somente pode ser efetuada pelo homem que é tão bem organizado em sua individualidade quanto a propria massa."
(C.G. Jung, The Undiscovered Self,  CW  10, par. 511)

Sobre Individualidade:

Qualidades ou características que distinguem uma pessoa da outra.

"Por individualidade, entendo a peculiaridade e singularidade do indivíduo em todos os aspectos psicológicos. Tudo o que não é coletivo é individual, tudo aquilo que de fato pertence somente a um indivíduo e não a um grande grupo de indivíduos."
(C.G. Jung, Definitions, CW 6, par. 756)

"O individuo psicológico ou sua individualidade tem uma existência inconsciente, a priori, mas existe, conscientemente, apenas na medida em que ocorre a consciência de sua natureza peculiar... É necessário um processo consciente de diferenciação, ou individuação, para trazer a individualidade à consciência..."
(C.G. Jung, Definitions, CW 6, par. 755)

"Isto... frequentemente faz surgir nos sonhos o símbolo da gravidez psíquica...A criança que está para nascer significa a individualidade que, embora presente, ainda não está consciente"(grifo nosso).
(C.G. Jung, Definitions, CW 6, par. 806)

A meu ver, primeiramente aprendemos a viver como homens entre homens, em uma coletividade humana (processo de Hominização, conforme termo cunhado por Pierre Solié).
Depois aprendemos a nos diferenciar do coletivo, assumimos nossas peculiaridades e singularidade como indivíduos, dentro da coletividade; nos diferenciamos da psicologia coletiva e assumimos nossa psicologia individual e intransferível.
Por fim, damos à luz a nos mesmos como seres psicológicos, acolhemos nossa própria individualidade enquanto indivíduos que fazem parte de uma coletividade...
Nascemos primeiro da Mãe, depois do Pai e por fim de nos mesmos...

Tarefa e descoberta infindável de quem somos, que se desdobra ao longo da vida toda...
Uma grande aventura...

Quando acreditamos saber quem somos, podemos ser surpreendidos por alguma descoberta em alguma situação que a vida ainda não havia proposto, uma situação ainda não vivida...

Por exemplo, quando decidimos acolher, em nossa vida, um desafio e nos lançamos nele de corpo e alma, podemos vir a descobrir de que, talvez, a questão não seja vencer o desafio que se apresenta, mas sim aprender a reconhecer e respeitar o momento de desistir quando este momento se apresenta...
Não um fracasso, mas sim uma grande lição de humildade e maturidade psicológica....
O desafio não veiu para ser vencido, mas sim para nos ensinar a reconhecer e respeitar nossos limites...
Isto não é covardia, é prudência...


Rosanna Pavesi/Outubro 2012



domingo, 30 de setembro de 2012

INDIVIDUAÇÃO E INDIVIDUALISMO: CAMINHOS DIFERENTES...



Envolvente (Rosan)


INDIVIDUAÇÃO E INDIVIDUALISMO:

CAMINHOS DIFERENTES...


Conversando com as pessoas de modo geral, inclusive com meus clientes no consultório, tenho observado que é muito frequente confundir individuação com individualismo...

Assim, como psicoterapeuta de abordagem junguiana, me sinto "convocada" a esclarecer que
 individuação e individualismo são caminhos diferentes...

SOBRE INDIVIDUAÇÃO

É um processo de diferenciação psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da personalidade individual.
De modo geral, é o processo pelo qual os seres individuais se formam e se diferenciam; em particular, é o desenvolvimento de um indivíduo psicológico, como um ser distinto da psicologia geral e coletiva.

A meta não é sobrepujar a própria psicologia pessoal, tornar-se perfeito, mas sim familiarizar-se com ela.
Assim, a individuação envolve uma consciência crescente de nossa realidade psicológica única, incluindo as forças e as limitações pessoais e, ao mesmo tempo,
uma apreciação mais ampla da humanidade em geral.

"Como o indivíduo não é apenas um ser à parte, separado, mas pressupõe, pela sua própria existência, uma relação coletiva, segue-se que o processo de individuação deve conduzir a relações coletivas mais amplas, e não ao isolamento" 
(C.G. Jung, "Definitions", CW6, par.758)

A individuação não exclui a pessoa do mundo, muito pelo contrário, aproxima o mundo dela...
Contudo, a  individuação e a vida vivida exclusivamente segundo os padrões coletivos
são  dois destinos divergentes...

A INDIVIDUAÇÃO DIFERE DO INDIVIDUAISMO, NA MEDIDA EM QUE A PRIMEIRA DESVIA-SE DAS NORMAS COLETIVAS MAS CONSERVA O RESPEITO POR ELAS,
ENQUANTO O INDIVIDUALISMO AS RECHAÇA POR COMPLETO...


SOBRE INDIVIDUALISMO

Crença na supremacia dos interesses individuais sobre os da coletividade;
não deve ser confundido com individualidade e/ou individuação.


CAMINHOS DIFERENTES:

Individualismo significa dar, deliberadamente, expressão e proeminência a algumas supostas peculiaridades pessoais, mais do que a considerações e obrigações coletivas.

Individuação, pelo contrário, significa - precisamente - um melhor e mais completo cumprimento das qualidades coletivas do ser humano, uma vez que a adequada consideração da peculiaridade do indivíduo tem maior probabilidade de levar a um desempenho social melhor do que quando a peculiaridade é negligenciada ou suprimida.

"...Uma vez que os fatores universais sempre aparecem  apenas sob forma individual, uma atenta consideração deles produzirá também um efeito individual, efeito este que não pode ser  superado pelo que quer que seja, sobretudo pelo individualismo"
(C.G. Jung, "The Function of the Unconsciuous", CW 7, pars. 267s)

Tornar-se aquilo que se é - meta do processo de individuação - não é fácil, pois somos chamados a aceitar nosso ser como um todo, incluindo nossos defeitos, limites, vulnerabilidades, carências, medos, enfim nossos aspectos mais sombrios e limitantes, para além de nossas qualidades, habilidades e aspectos positivos.

Trata-se de alcançar, na medida do possível, a plenitude e não a perfeição...
E toda plenitude precisa de sombra, de contraste, para ganhar profundidade.
É a somba que dá profundidade à luz...
O proesso implica em aceitar também o "losco-fosco", tudo aquilo que, frequentemente, tentamos desesperadamente manter oculto tanto de nos mesmos quanto dos outros...

É um processo, não uma meta, e se processa no dia-a-dia, dia após dia, ao longo da vida toda...
Pelo menos, é assim que eu o compreendo...


Rosanna Pavesi/setembro 2012

(Notas: Daryl Sharp em  "Léxico Junguiano", Cultrix, 1993)


PS: Há uma diferença conceitual também entre o termo "Indivíduo" e "Individualidade", mas isto fica para o próximo post...
 

sábado, 15 de setembro de 2012

SOBRE SOLIDÃO...

by Gustav Klimt

SOLIDÃO...

Assim como a árvore de G. Klimt, a solidão também pode ser rica, frutífera...
Talvez uma "solitude", carregada de flores, de frutos, altiva, digna e magnífica em sua solidão...

"Solidão infinita, na ausência de espaço...
Solidão eterna, na ausência de tempo...

Solidão de energia
de gestação criadora
feita de silêncio
suspensa no tempo e no espaço...

Gestação de vida...

Solidão de paz, de saudades
de falta , de aconchego
de águas calmas, acolchoada...

Silêncio cheio de sons
vazio cheio de sentir
contentamento de estar consigo.

Solidão do início de tudo
do sem fim
da longa caminhada da alma
da busca, da dúvida, do questionamento
da certeza sentida, nem sempre explicável...

Ar, sol, terra, céu, água, flor:
elementos visíveis e invisíveis...

Solidão alimento

Solidão procurada, nem sempre encontrada
solidão de crescimento, não de esquecimento...

Solidão eterna, na ausência de tempo...
Solidão infinita, na ausência de espaço...

Companheira da alma
Alimento da Vida..."

(Coletânea "Veu de Noiva" by Rosan)


Rosanna Pavesi/setembro 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

SABADO ECLÉCTICO...


(by A. Tapies)


Um sábado espremido entre o feriado de 7 de Setembro e o domingo...

Precisava comprar roupa, fui ao shopping...Encontrei o que queria... Me dei por satisfeita...

Na saída, em plena tarde, parei na calçada para fumar um cigarro...
Ali estava eu, bem longe, saboreando meu cigarro, e um senhor se aproximou...
Um tanto sujo, mal vestido...
Pensei comigo: ou vai me pedir dinheiro, ou vai me pedir um cigarro...
Mas não me afastei, fiquei alí parada, na calçada pública...
Ele olhou para mim, eu olhei de volta para ele...

Com um ar de interrogação nos olhos, e após certa hesitação, ele me dirigiu a palávra e  disse:
"Senhora, posso falar uma coisa?"
"Sim, claro" eu respondi...
Ele: "Sou morador de rua, como a senhora bem  pode ver, mas estou com dinheiro no bolso e fui até essa lanchonete aí (apontando), pedi um misto quente e pus a mão no bolso para pegar o dinheiro e pagar, mas aí a moçinha atrás do balcão olhou para mim e disse:
"Aqui não vendemos nem vinho, nem cachaça..."
Ele: "Mas eu só pedi um misto quente...Me virei e, envergonhado, sai da lanchonete..."

 Olhou para mim,como que para ver minha reação...
Eu fiquei quieta, só olhando para ele,  sem muito saber o que dizer...

Ele me perguntou: "O que a senhora acha disso?"
Eu, calmamente, olhando bem nos olhos dele, respondi:
"Para mim isto é discriminação..."

Talvez surpreso com minha resposta, talvez surpreso por alguém não ter tido medo de falar com ele, talvez surpreso por alguém se dispor ao ouví-lo, olhou de volta nos meus olhos e,
com ar e voz triste, disse:
"Eh, é isso aí... Desculpe senhora, e obrigado por me ouvir..."

E continuou o seu caminho...
Era um morador de rua...

Este homem não estava bebado, falava coisa com coisa, foi educado, mas estava sujo e mal-vestido...
Talvez quisesse comprovar, apesar das aparências, se ainda lhe restava alguma dignididade, se ainda alguém conseguiria vê-lo simplesmente como um ser humano, sozinho, com uma dúvida atroz na cabeça:

"Será que ainda sou gente?"...

Me  lembrou de alguns clientes que, às vezes, antes mesmo de falar seu nome, se qualificam pelo diagnóstico que receberam (sou PMD, tenho Toc, sou Borderline...) ou até mesmo pelo momento de vida que estão atavessando (estou desempregado, estou me divorciando, estou deprimido...),
 algo vergonhoso... 

Sujeitos sem nome, sem identidade, que se identificam ou com uma hipotética etiqueta que lhe foi colada ou com uma situação socialmente intolerável, que os tranforma em "indesejados e indesejáveis"...
Falharam, fracassaram, de alguma forma não são "normais""...

Fiquei triste, dolorosamente triste...


Rosanna Pavesi/setembro 2012


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A ARTE DE VIVER...

Capins (Rosan)



A ARTE DE VIVER...

Poderemos assumir a angústia da incompletude  de
nossas vidas e da incerteza do destino humano?

Poderemos aceitar ser abandonados pelos deuses?
Poderemos abandoná-los?

Saberemos suficientemente que só a vivência do
amor e da poesia é capaz de afrontar a angústia e a
mortalidade?

Poderemos inibir a megalomania humana e
regenerar o humanismo?

Poderemos fortificar as mais preciosas, as mais
frágeis manifestações, que são o amor e a amizade?

Poderemos conviver com os monstros que também nos habitam,
pela virtude do amor e da fraternidade?

Poderemos praticar a reforma interior que nos
tornaria seres humanos melhores?
(Edgar Morin, em "L'Identité  humaine").


O indivíduo de hoje não tem outra escolha, senão fazer escolhas e elas definem, pelo menos em parte, 
 o seu destino.
As escolhas que fazemos ao longo da vida dependem fundamentalmente daquilo a que atribuimos valor.
Substituímos uma coisa por outra, lutamos mais por uma do que por outra, em função do que cada uma vale para nós.Os valores têm uma existência intrínseca, "valem" pelo que são.

Ora, as sociedades de mercado consideram sem valor tudo aquilo que não tem preço, contaminando com sua lógica tudo que as cerca, na ânsia de colocar em números, de medir, de calcular tudo que existe, para só então decidir se tem ou não valor, desde o "capital humano" até o "recurso humano", subentendendo que cada ser humano é ele mesmo passível de avaliação monetária.

Poderemos, seremos capazes de sair dessa sociedade de mercado, que reifica as relações sociais, construindo um sentido para a vida em si mesma, na fruição dos momentos, que não são vendáveis nem compráveis?

As vidas pioneiras, a dissidência social são as brechas por onde o novo penetra.
São o ponto de partida das transformações...

Os atores da transformação nascem sempre de uma situação de crise.
Uma crise ocorre quando algúem já não pode continuar a ser quem era, ainda não pode ser outra pessoa e não pode, salvo morto ou delirante, deixar de ser, de existir...

Nesses momentos de Terra de Ninguém é que podemos "gestar e dar à luz" a nos mesmos, a um novo eu construído com o que nos é dado em determinado momento de nossas existência.
Construir, com nossos fragmentos, figuras coerentes, inteligíveis e luminosas...
O que é obras de artistas, entregues à arte de viver.

Poderemos? Saberemos? Ousaremos?


Rosanna Pavesi/agosto 2012




sábado, 11 de agosto de 2012

SEXO, VOLUPIA CARNAL E AMOR

The Tree of Life - G.Klimt


SEXO, VOLÚPIA CARNAL E AMOR...


Tema inesgotável, sexo, volúpia, amor...
Dando continuidade às reflexões dos posts mais recentes,
 transcrevo a seguir alguns trechos de "Cartas a Um Jovem Poeta", por Rainer Maria Rilke.

Livro antiguinho, dirão alguns, mas que - a meu ver - ainda propõe reflexões contemporâneas...

Sobre sexo e volúpia...

"...A carne é um peso difícil de se carregar. Mas é difícil o que nos incumbiram; quase tudo que é grave, é difícil: e tudo é grave. Se chegar a reconhecer isto e a alcançar - partindo de si - uma relação inteiramente sua, livre de convenções e costumes, com a carne, não mais deverá temer o perder-se e o tornar-se indigno de sua posse mais preciosa.

...A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber.
O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a e fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados de sua existência, uma simples distração, em vez de uma concentração interior para as alturas.

...Pudesse o homem acolher com maior humildade este segredo de que a terra está cheia até em suas coisas mais ínfimas; carregá-lo e suportá-lo com mais gravidade, sentindo-lhe o peso, em vez de tratá-lo com leviandade. Pudesse ter respeito para com a própria fecundidade, que é uma só, embora pareça ora espiritual, ora corporal.

... A idéia de ser criador, de gerar, de moldar, não é nada sem sua grande e perpétua confirmação da vida; nada sem o consenso mil vezes repetido das coisas e dos animais. Seu gozo não é tão indescritivelmente belo e rico senão porque está cheio de reminiscências da geração e da parte de milhões de seres. Numa idéia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude. Aqueles que se juntam à noite e se entrelaçam num baloiçar de volúpia, executam obra grave, reunindo doçuras, profundezas e forças para a canção de algum poeta vindouro que há de surgir para dizer indizíveis prazeres.

... Talvez os sexos sejam mais aparentados do que se pensa e a grande renovação do mundo talvez resida nisto: o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos falsos, de todos os empecilhos, virão a se procurar não mais como contrastes, mas sim como irmãos e vizinhos; a juntar-se como seres humanos para carregarem juntos, com simples e paciente gravidade, a sexualidade difícil que lhes foi imposta.

Sobre amar...

... Amar é bom, mas o amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para a qual todas as outras são apenas uma preparação.O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. Que sentido teria, com efeito, a união com algo não esclarecido, inacabado, dependente?

...O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo em si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser; é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.
Nenhum terreno da experiência humana é tão cheio de convenções como este, o do amor. Há nele uma profusão de cintos salva-vidas, toda espécie de refúgios preparados pela opinião que, inclinada a considerar a vida amorosa um prazer tão só, teve de torná-la fácil, barata, sem perigos e segura como os prazeres do público.

...As  questões do amor não podem, menos ainda do que qualquer outra questão importante, ser resolvidas em comum, conforme um acordo qualquer; que são perguntas feitas diretamente de um ser humano para outro, que em cada caso exigem uma resposta específica, estritamente pessoal.
Mas como podem aqueles que já se atiraram uns aos outros e não mais se delimitam nem distinguem, quer dizer, que nada possuem de seu, encontrar uma saída em si mesmos, no fundo de sua solidão já derramada?
Tudo o que parte de uma comunhão mal coagulada é convencional : todas as relações resultantes de tal confusão encerram a sua própria convenção, por menos usual que seja.
A própria separação seria aí um passo convencional, uma decisão fortuita e impessoal,
sem força nem fruto.

...Como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não foi encontrada até hoje uma luz, uma solução, um aceno ou caminho.
Não se poderá encontrar para ambas estas tarefas, que carregamos veladas em nós e transmitimos sem as esclarecer, nenhuma regra comum, baseada em qualquer acordo.

...As exigências feitas à nossa evolução pela tarefa difícil do amor são sobre-humanas e, quando estreantes, não podemos estar à sua altura. Mas se persistirmos e perseverarmos então, talvez, um leve progresso haverá de surgir..."

Talvez, como já disse J.Hillman em algum lugar que agora não recordo:

"a grande tarefa da vida, não é 'vencer a morte', mas sim encontar Eros, o Amor..."

e honrá-lo, acrescento eu...


Rosanna Pavesi/agosto 2012

(Notas: "Cartas a um Jovem Poeta", Rainer Maria Rilke)



...


domingo, 29 de julho de 2012

SOBRE AMOR SUBLIME...



Spring (Rosan)


SOBRE AMOR SUBLIME...

Para Benjamin Péret, um dos fundadores e animador permanente do movimento Surrealista, "Amor Sublime" é uma forma de amor que tenta buscar uma saída tanto à licença sexual gratuíta enquanto pseudo-liberdade sexual, quanto ao "Amor Romântico" (que sempre vem acompanhado de uma impossibilidade, um grande obstáculo), e ao "Amor-Burgûes", (o amor legal, institucionalizado, sancionado),  as grandes vertentes na cultura Ocidental:
Nem fora da lei, nem dentro da lei...
Talvéz além da lei?

Apesar de curtas permanências no Brasil, Péret é pouco conhecido em nosso país. Ele aqui esteve no período entre 1929 e 1931 e também no verão de 1955 à primavera de 1956.
Elegeu o México como seu país de morada, escolhendo - já relativamente maduro - a artista plástica mexicana (pintora surrealista) Mercedes Varo como sua companheira de vida com quem, esperamos - ou melhor - gostamos de acreditar, viveu um amor sublime, tão bem cantado e com tanto ardor em sua pequena "Antologia do Amor Sublime"...



PRELÚDIO...



Amor  (Rosan)


... Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência herdada e ouvida...
Amor começa tarde...
(Carlos Drummond de Andade)


Verbo Sublimar: amar de forma sublime.

O amor sublime é sagrado, porém humano, terreno, não celeste, nem divino...
É uma sublimação alquímica que implica o mais alto grau de elevação, o ponto-limite onde se opera a conjunção de todas as sublimações,
 o lugar geométrico onde o espírito, a carne e o coração vêm se fundir num
diamante inalterável...

O amor sublime sempre aparece como um sentimento que satisfaz a vida total da pessoa,
 reconhecendo no ser amado a única fonte de felicidade.
O objeto de amor torna-se tão essencial ao coração quanto o ar à vida física.

A sexualidade sofre uma metamorfose assim que se inscreve num todo complexo de que o coração se torna o elemento catalizador. A sexualidade se dá por satisfeita que o coração lhe conceda um lugar em primeiro plano em tal composição, sendo que todos os mecanismos desta ação são controlados pelo próprio coração (não mais tão só pelo desejo e/ou pela genitalidade).

O amor sublime, uma vez encontrado o objeto de sua busca, fixa-se aí para sempre, ilustrando assim os conceitos chineses de yin e yang que, inoperantes um sem o outro, se atraem e se completam...
"O Céu e a Terra, unidos e juntos, o orvalho cai suave..." diz o Tao..

Com o amor sublime, o maravilhoso perde igualmente o caráter subrenatural, extra-terrestre ou celeste que sempre tivera em todos os mitos.
De alguma forma, ele volta à sua fonte para descobrir seu verdadeiro desembocar e se inscrever então nos limites da existência humana:
o amor sublime oferece uma via de transmutação, culminando no acordo da carne e do espírito, tendendo a fundí-los numa unidade superior onde um não possa ser distinguido do outro.
Com isto, o desejo vê-se encarregado de operar essa fusão, que é a sua justificativa última.

Disso decorre que o amor sublime opõe-se à religião, particularmente o Cristianismo, onde o cristão é chamado a divinizar, a amar o sobrenatural de forma divina ou celeste.
Em princípio, portanto, o amor sublime representa, acima de tudo,
uma subversão, uma revolta contra a religião e a sociedade...

É o "Grande Desejo" que une o Corpo ao Espírito,
 muito tempo além da união dos corpos no "Pequeno Desejo".
Fora do amor sublime, a sublimação do desejo implica de alguma maneira a sua desencarnação,
já que, para obter satisfação, ele deve perder de vista o objeto terreno que o suscitou...

No amor sublime, longe de perder de vista a carne que lhe deu à luz, o desejo tende portanto, em definitivo, a erotizar o universo...

O amor sublime implica a mais completa liberdade sexual. 
Hoje, porém, a liberdade sexual está, em muitos casos, dissociada do amor...
Em vez de multiplicar as possibilidades de eleição, esta liberdade sexual tão arduamente conquistada, levou à formação de um terreno de não-escolha.
 A muralha dos preconceitos sexuais foi superada, porém ela dissimulava um terreno pantanoso antes insuspeitável, onde os seres correm o risco de se enterrar.
 Em vez da ascensão à que o amor sublime convida, a licença sexual sem limites pode diminuir o ser humano, tanto quanto os tabús mais estreitos.

A liberdade sexual, enquanto licença sexual, é admitida e até incentivada por um mundo hostil ao amor e a qualquer liberdade real, posto que ela NÃO ameaça nem a estrutura da sociedade, nem seus ideais e desvia por um instante os homens de conquistas mais substanciais...
A licença sexual é inofensiva...

O que resta?
Resta a poesia e o amor, terrenos para sempre férteis de todos os mitos, que a religião tinha monopolisado e a ciência abandonado...
O amor, tanto na sua acepção mais elementar como na mais elevada,
permanece sendo o eixo da vida afetiva da humanidade.

A produção literária, teatral, cinematográfica mundial, em sua quase totalidade, trata do amor sob todas as suas formas.
 E esta produção, digamos artística, adquire pela sua magnitude,
o sentido de uma reclamação geral: reclama-se portanto, do que se está privado...
A humanidade parece aspirar a uma forma de laço amoroso que lhe falta...

A sociedade dá livre curso a todas as formas de amor, salvo o amor sublime...
A sociedade opõe todos os vetos ao seu triunfo, posto que ele, o amor sublime, tende à própria desagregação da sociedade, revelando aos homens a felicidade apesar dela, 
e de seus ideais materialistas, tecnológicos e consumistas.

Será preciso que um belo dia os homens se dediquem ao mesmo tempo a transformar as bases desse mundo e a melhorar suas condições para que a aspiração pelo amor sublime, até agora vaga e fugidia, encontre talvez condições favoráveis à sua plena realização...

Renunciar ao amor para caçoar dele em seguida
significa, apenas, a submissão ao conformismo social mais esterilizante possível.
Perde-se a graça de amar...

A poesia da vida, desponta como o lugar geométrico do amor e da revolta.
Detém uma parcela de poesia todo ser humano capaz de, espontaneamente, enxergar na vida cotidiana um instrumento a serviço de uma existência que vise a elevação do homem,
não sobre-humano, mas humano no pleno sentido da palavra.

Se o amor humano é sagrado, é que na realidade a noção mesma de sagrado decorre tão diretamente do amor que, sem ele, nenhum sagrado seria concebível. Só podem conhecer o amor sublime aqueles cujo coração tornou-se sensível a essa emanação do sagrado.

J. Hillman, ao falar sobre Eros/Amor e a Função Sentimento, considera Ero/Amor como a raiz arquetípica da Função Sentimento e o Sentimento como a manifestação de Eros/Amor no âmbito da consciência.
O Sentimento é humano, Eros/Amor é des-humano...
Só o Sentimento é um atributo individual da consciência, no tempo-espaço...

Talvez, ao longo de nosso caminho, possamos descobrir nossa própria capacidade humana, no pleno sentido da palavra, por tão limitada e finita que seja), de dar e receber amor?
Sem ter a pretensão de querer desvendar o Mistério Amoroso, fica o amor sublime como uma das formas possíveis, entre outras, de amor humano...



Rosanna Pavesi/Julho 2012

(Notas:  Benjamin Péret, Amor Sublime, São Paulo, SP, Edit.Brasiliense).

domingo, 22 de julho de 2012

AMOR E SUBVERSÃO...

Prenuncios - Rosan


AMOR E SUBVERSÃO...

Em epocas de "E Aí... Comeu?" (o filme), amor com sexo, amor sem sexo, sexo sem amor, sexo com amor e mais alguns...Me permito acrescentar  mais um item à já longa lista:
Amor com Subversão...
O Amor mistura a Terra com o Céu: é a grande subversão!

O Amor tem sido um sentimento constantemente criativo e subversivo e coube ao movimento Surrealista enaltecer este aspecto do Amor. O Surrealismo logo se converteu numa rebelião filosófica, moral e política e um dos eixos da subversão surrealista é o erotismo...(polis e alcova)

André Bréton, expoente do Movimento Surrealista, quis unir o privado e o social.
A rebelião dos sentidos e do coração, encarnada em sua idéia de amor, fracassou, MAS a aspiração fica.
O mérito de Bréton foi perceber a função subversiva do amor..

A imagem e/ou a idéia do amor hoje é universal e seu destino é inseparável do destino da civilização mundial. É uma visão de mundo, uma ética e uma estética:
UMA CORTESIA...

É o amor que suprime a cisão corpo-mente.
O amor não busca nada além de si próprio, nenhum bem, nenhum prémio...
muito menos persegue uma finalidade que o transcenda.
É indiferente a toda transcendência e acaba nele mesmo.

É atração por uma alma e um corpo.
Não uma idéia, mas sim uma pessoa, uma pessoa que talvez encarne, personifique, aquilo que nos mesmos perseguimos erotica, filosofica, ética e esteticamente falando, uma pessoa que busque aquilo que nos buscamos...


As senda são muitas, e a senda do amor é uma delas, porém não a única...
Sea senda do amor for a sua, siga-a ...
 Na senda do amor, há um tipo de Amor, erotico e subversivo, que André Breton chamou de Amor Sublime...
No próximo post...


Rosanna Pavesi/julho 2012

domingo, 24 de junho de 2012

REENGENHARIA DO TEMPO...


by Candido Portinari


REENGENHARIA DO TEMPO...

A palavra reengenharia entrou na língua inglesa ao longo dos anos 90 quando, em função da competitividade internacional e da globalização, as grandes corporações fizeram tabula rasa  de seus métodos de produção e gestão, para tornar-se mais eficientes.
A isso chamaram de reengineering...
Mudaram seus procedimentos e grande parte de seus efetivos foi despedida.
O impacto social foi penoso, enquanto os lucros das empresas aumentavam.

Ou tudo que precisava de reengenharia foi reengenherado, ou a palavra saiu de moda...
Ou a reengenharia do tempo, se é que foi feita, não deu certo?

Pois resta o  fato  que o tempo continua sendo uma aflição constante no mundo contemporâneo.
Temos a sensação de que não há tempo para fazer nem o que nos cabe, nem o que nos apraz...
O cotidiano de homens e mulheres trabalhando a tempo integral deu visibilidade à importância
do privado e ao tempo que ele requer.
Um repensar as relações de genêro, o futuro da família e uma nova articulação
 entre mundo do trabalho e vida privada torna-se necessário.

Tempo não é dinheiro - como costuma-se dizer...
Tempo é a a matéria-prima da vida, esgotável,
por demais preciosa para ser malbaratada...

O tempo é então a primeira conquista...

(Rothko)


GANHANDO A VIDA...

De forma geral, a expressão "ganhar a vida" significa garantir a sobrevivência
graças a um trabalho remunerado.
Mas a mesma expressão, lida ao pé da letra, pode significar recuperar a vida,
trazê-la de volta em suas múltiplas dimensões de fruição do mundo, 
andando na contramão da inclemente invasão da mentalidade produtivista,
 que expropria a vida privada, tragando os momentos do amor e do lazer.

Ganhar a vida significa, antes de mais nada, reapropriar-se de sua matéria-prima:
o tempo...

O tempo, esse bem tão raro que não pode ser comprado, pelo menos não além de um certo limite...
Porque o tempo, a morte não vende...

Antes ganhávamos a vida no trabalho.
Hoje é o trabalho que ganha nossa vida.
Na medida em que a vida produtiva ganha terreno sobre o tempo da vida afetiva,
é o cotidiano das pessoas que vai moldando uma sociedade em que encolhem os vínculos fundamentais, esvaziados assim de sua própria humanidade.  

Há quem reconheça na época do avanço tecnológico em que vivemos um novo Renascimento.
Mas, no plano social, deslizamos para uma pré-história, em que a sobrevivência era o único objetivo.
Recriou-se no mundo contemporâneo uma selva em que a agressividade e a competição são valores centrais, a seleção natural reinventada em seleção cultural e economica.
Cada um de nós é transformado diariamente em um predador, tanto mais bem-sucedido quanto mais feroz e astuto, empenhado na destruição do outro, condição mesma do sucesso.
E, mais espantoso e estarrecedor ainda, é o fato de que esse gigantesco retrocesso
é apresentado ao mundo como modernidade...

A convivência humana, construida sobre normas e comportamentos múltiplos, é uma conquista permanente, criacão ativa e cotidiana, uma rebelião original contra a fera ancestral que nos habita.
Mas não nos enganemos...
Domesticada, ela pode enlouquecer a qualquer momento, excitada pelas ameaças dessa nova selva
e nos levar de volta à barbárie.
A reengenharia do tempo é uma tentativa de repensar o cotidiano de homens e mulheres,
com vistas a aumentar sua qualidade de vida e seu produto de felicidade bruto.

A conciliação entre vida privada e vida profissional é tarefa difícil...
A reengenharia do tempo é uma aposta em que está em jogo o reconhecimento da diversidade dos homens e das mulheres, de sua incontornável igualdade de direitos e
de aspiração à liberdade e à felicidade.
É um exercício cujo objetivo último é reabrir a discussão sobre o sentido da vida,
relembrando a importância dos atos gratuitos, dos laços de afeto e solidariedade.

A reengenharia do tempo é a condição de eficiência na produção de si e de uma felicidade revitalizada...

É uma nova arte de viver...

Boa reengenharia... de seu tempo... de sua vida...


Rosanna Pavesi/junho 2012

(Notas: Rosiska Darcy de Oliveira - Reengenharia do tempo - Rio de Janeiro, RJ, Rocco, 2003)


 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

TER OU NÃO TER NAMORADO? EIS A QUESTÃO...

Os Noivos Vão à Cidade (Rosan)



TER OU NÃO TER NAMORADO? EIS A QUESTÃO...

A seguir um belo texto de Carlos Drummond de Andrade sobre a questão...

"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro.
Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.

Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem quer se proteger
e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção.
A proteção dele não precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira;
basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor:
é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes. dois paqueras, um envolvimento e dois amantes,
mesmo assim pode não ter nenhum namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema sessão das duas, medo do pai,
sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho,
Quem acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa
 e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade.
Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor das mãos dadas,
de carinho escondido na hora em que passa o filme,
de flor catada no muro e entregue de repente;
de poesia de Fernando Pessoa,Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar;
de gargalhada quando se fala junto ou se descobre meia rasgada;
de ansia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado,
tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, fazer sesta abraçado, fazer compras junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor,
nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele,
abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado
e sai com ela pelos parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento,
bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros,
quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato do seu bem ser paquerado.
Não tem namorado quem ama sem gostar, quem gosta sem curtir,
quem curte sem se aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana,
na madrugada, ou meio-dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo,
e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre
e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos:
ponha a saia mais leve, aquela de chita,
e passeie de mãos dadas com o ar.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove alma com leves fricções de esperança.

De alma escovada e coração estourado,
saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui
e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela.

Ponha intenções de quermesse em seus olhos
e beba licor de contos de fada.
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta
e do céu descesse uma névoa de borboletas,
cada qual trazendo uma pérola falante a dizer sutis frases e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado
é porque ainda não enloqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar
e de repente parecer fazer sentido.
Enlou-cresça! "
(Carlos Drummond de Andrade)


Bonito, não é...
E aí, vai ou não querer ter um namorado?

Rosanna Pavesi/Junho 2012