domingo, 16 de dezembro de 2012

METANOIA, PINTURA E VOCAÇÃO: CONSIDERAÇÕES FINAIS...




Eros, o Flamejante (by Rosan)


METANÓIA, PINTURA E VOCAÇÃO...
CONSIDERAÇÕES FINAIS...


Jung valorizou de forma especial o processo criativo como manifestação de saúde mental
e restauração do equilíbrio psíquico, tanto no indivíduo quanto na cultura.
Ele considerava a criatividade como uma função psiquíca natural,
que se realizaria por intermédio de símbolos, presentes em todas as expressões artísticas,
bem como nos sonhos e nas fantasias.

Em toda a obra de Jung encontramos inúmeras leituras de imagens,
quer seja de sonhos, visões, desenhos, pinturas, sempre estudadas em série.
 Jung compreendia essas imagens como auto-representações de transformações energéticas
que obedecem a leis específicas e seguem uma direção definida.

Em nosso contexto, a pintura pode ser imaginada e pensada essencialmente
como um espaço de proteção do novo, até que uma idéia, um projeto de vida,
 uma nova atitude e/ou relação com a vida alcance um certo ponto de maturidade
e consiga efetivar mudanças eficazes e integradas
na dimensão terrena e existencial do indivíduo.

Sob esta perspectiva, a pintura apresenta algumas características específicas, a saber:
  • Vem de repente, não é necessariamente um dom...
  • Como o Anjo da "Anunciação", ela traz uma mensagem relativa ao futuro.
  • Simplesmente chega e quer ser ouvida...
  • É premente e compulsiva... Ela se impõe...
  • Atua como Função Transcendente...
  • Transcende o momento presente... apresenta algo novo...
Em todos os casos que tive o privilegio de acompanhar, incluindo meu próprio caso,
encontrei algo em comum quanto à relação entre metanóia, pintura e vocação:

* Todos os indivíduos eram relativamente bem sucedidos em suas atividades profissionais,
mas estavam insatisfeitos com seu trabalho em termos de gratificação e auto-realização pessoal.

* Nenhum lembrava de seus sonhos, como se a pintura
 fosse o único canal disponível de comunicação da psique.

* Todos apresentavam, num primeiro momento, uma regressão temporária da energia
e uso parcialmente defensivo da pintura.
 Usavam a pintura como defesa contra o tédio e, ao mesmo tempo,
contra o medo de não ser capaz de promover mudanças, de ser tarde demais,
de não ser criativo, etc.
Defesa esta que, de saída, não pode ser simplesmente retirada,
pois ela possui uma importante função de contenção energética.

* Após um período de incubação, imobilidade e silêncio,
que sempre antecede um ato de criação,
a energia volta a progredir e todos encontraram a coragem, ousadia,
 recursos para "dar o pulo do gato"...

* Todos mudaram radicalmente de profissão,
abrindo mão de conquistas por vezes arduamente conquistadas na primeira metade da vida,
para começar profissionalmente praticamente do ponto zero novamente.

* Todos continuaram pintando, mas nenhum deles fez das artes plásticas sua profissão.
A pintura tornou-se parte integrante de suas vidas, um segundo amor digamos assim,
um registro de vida, um valioso instrumento de expressão encontrado ao longo do caminho...

* Após a revelação vocacional,
cada qual teve que haver-se com a obrigação ética
de ser, ou tornar-se, aquilo que sempre foi mas que não se acreditava capaz de ser, ou tornar-se.

* Todos descobriram que não havia outra saída, a não ser tentar...



Psique, a Resplendescente (by Rosan)


Desvendar a obra de alguém implica em estar aberto a conhecer
 quem se coloca à nossa frente, vulnerável e em toda a sua nudez,
 tendo a clareza de que ele é um ser único.

No consultório, as informações que a linguagem da arte possa vir a trazer,
só poderão ser validadas através da relação íntima e pessoal com quem as produziu...

Hipóteses elaboradas a priori, não fazem sentido.

Trata-se, essencialmente, de deixar as imagens fluir e cumprir sua função
para com aqueles indivíduos que as pintaram.
 As imagens coagulam...
Ao contemplá-las, ao relacionarmo-nos com elas, algo acontece em nós...

Na busca de nosso próprio modo de viver,
surge o ato criativo como forma de expressão da influência criativa e ordenadora da Psique,
tanto através de símbolos,como da arte.
Passamos a encarnar e refletir no mundo nossa substância essencial,
da melhor forma viável e possível,
deus volente...


(Notas: A Psique em Busca de Expressão: Pintura e Vocação na Metanoia, Rosanna Pavesi, em "JUNG E CORPO", Revista do Curso de Psicoterapia de Orientação Junguiana Coligada a Técnicas Corporais, Ano III, N.o 3, 2003 - Sedes Sapientiae, São Paulo, SP)


Rosanna Pavesi/Dezembro 2012

Um comentário:

Cristiane Marino disse...

Oi Rosana,
adorei seu texto, mas o que encantou mesmo foram as pinturas...Eros o flamejante e Psique a resplandecente são lindas e muito expressivas!
Bjs