sábado, 17 de novembro de 2012

A PSIQUE EM BUSCA DE EXPRESSÃO: METANOIA E PINTURA (II)




 

(Autor desconhecido)


(II) - METANÓIA E PINTURA... E VOCAÇÃO...



SOBRE O PROCESSO




A Chuva (by Rosan)


Tudo parece começar com um certo mal-estar, certa falta de sentido...
A vida parece perder a graça, há um vazio, ou melhor, um vácuo... um vácuo que resiste...
Uma parte de nós mesmos parece estar flutuante, faltante, ausente, ou ainda não nasceu?
Para conter este mal-estar, buscamos um canal criativo, algo novo,
algo que nunca fizemos antes,
 uma atividade expressiva, frequentemente...
No nosso caso, a pintura...

Inicia-se um grande caso de amor com a pintura:
pintamos com paixão, com uma "fúria divina",
 extasiados com as possibilidades desta nova linguagem.
 Esquecemos do tempo, totalmente imersos no ato criativo.
Lutamos para dar forma e cor a enseios invisíveis e, no limite, indisíveis...
Algo quer vir a tona:
não sabemos bem o quê, mas deixamos as imagens aflorar...
Sentimo-nos preenchidos novamente, revitalizados,
voltamos a ter contato com nosso mundo interior através da pintura
e isto, por algum tempo, nos basta...

O espaço do pintar torna-se um espaço sagrado, nosso temenos,
que tanto pode servir de refúgio,de parêntese para um cotidiano insatisfatório,
como de espaço de construção, e/ou de transformação,
um útero psicológico onde entramos em busca de renovação,
onde ousamos  penetrar no criativo e acolhemos a visita da  imaginação...

Encontramos um canal onde a energia criativa,
para a qual ainda não temos espaço em nossa vida,  pode fluir.
Pintamos para nos, pintamos por necessidade de expressar, de alguma forma,
algo incipiente, algo que ainda não sabemos nem nomear...
Pintar, criar, é sempre um ato solitário, intimo, recluso...
Assim, frequentemente, após certo tempo,
só pintar também não basta...
Só pintar também já não resolve mais...

O que acontece?
Acontece que a energia quer voltar a progredir,
 o impulso criativo quer expressar-se no mundo externo e em nossa vida como um todo.
Após o mergulho solitário, após o recolhimento,
 o impulso para a ação e a atividade externa  torna-se premente, dominante, novamente.

Para que, então, a pintura surgiu em nossa vida?
Qual seu telos, sua intencionalidade?

Gosto de pensar que ela veio para nos sacudir, para deixar o novo, o criativo, penetrar em nossa vida.
Após pintar, após criar e expressar algo que antes não existia,
torna-se intolerável não resgatarmos a nós mesmos, ao "sonho" que deixamos para trás,
ou à vocação, cujo chamado é ao mesmo tempo fascinante e assustador.

Compreendemos, dolorosamente, que algumas das escolhas anteriores já se esgotaram ou que,
de alguma forma, elas já não fazem mais sentido para nós, que elas já não preenchem mais...
E, após a metanóia, 
 há muita vida ainda para ser vivida...

Neste caso, a pintura veio como instrumento para mergulharmos em nosso mundo interior,
 libertarmos nossa criatividade encapsulada. 
A criatividade possui uma peculiaridade:
uma vez libertada, ela se espalha e, aos poucos, vai abrangendo as mais diversas áreas de nossa vida,
em geral de forma bastante benéfica.
Tudo muda...

Ganhamos força e coragem para mudar aquilo que precisa ser mudado,
reconquistando a capacidade de avançar em curso modificado.
Compreendemos que a pintura talvez não seja a meta em si,
 mas o instrumento tão só para algo maior...

Ela é o dedo que aponta para a lua,
mas ela não é a lua...
A nossa "lua" é o chamado daquilo que deve ser acolhido em nossa vida.
No nosso caso, é o chamado da vocação...

Encontramos recursos internos e força para abrirmos mão, muitas vezes, de conforto, segurança, status social, e lançarmo-nos ao resgate de uma parte de nós mesmos que pede para nascer psicologicamente.
Nossa vocação pede para ser vivida...

Se estamos em terapia, a terapia torna-se um lugar seguro para ensaiar, analisar,
descartar, imaginar a mudança antes de colocá-la em prática. 
Através deste estar frente a frente com o material produzido e consigo mesmo,
tendo o terapeuta como companheiro de viagem,
o indivíduo pode ir se apossando de seus conteúdos mais profundos.
Sonhos começamos a surgir, oportunidades nunca antes percebidas passam a ganhar espaço,
buscam-se dados, canais e informações concretas "lá fora"...
Pintamos menos, ou já não tão só...

Assim como um dia tivemos a ousadia de pegar um pincel e começar a pintar,
agora ousamos pensar como possível o que era tido como impossível.
"Enraizamos"...
Passamos da intenção para a ação planejada,
transformamos um "sonho" prenhe de significado em projeto de vida,
percorremos os caminhos do excesso de entusiasmo,
do desânimo, dos medos e das dúvidas...

Nunca é fácil, mas descobrimos que não há outra saída a não ser tentar...


Rosanna Pavesi/Novembro 2012


(Notas: "A Psique em Busca de Expressão - Pintura e Vocação na Metanoia", Rosanna Pavesi - Artigo publicado em
Jung e Corpo - Revista do Curso de Psicoterapia de Orientação Junguiana Coligada a Técnicas Corporais -
 Ano III, N.3, 2003 - São Paulo, Instituto Sedes Sapientiae)

 

Um comentário:

Cristiane Marino disse...

Nossa Rosana! Você traduziu de forma tão incrível este momento de vida... Adorei seu artigo e a pintura que você colocou é belíssima.
Gostei especialmente quando você fala que aquela técnica expressiva é o dedo apontando para a lua, mas não é a lua. ãs vezes nos apegamos a coisas como se elas fossem um fim em si mesmas e não um meio....
Parabéns!
Forte Abraço