sábado, 15 de junho de 2013

A PAZ QUE VEM DE LONGE...




A PAZ QUE VEM DE LONGE...


O profeta Isaías diz:
 "Paz... paz aos que vêm de longe e aos que vêm de perto."

No Talmud este verso desperta a curiosidade pela inversão lógica do que esperaríamos:
"aos que vêm de perto e aos que vêm de longe".
Por que longe primeiro e perto depois?
Por que não o contrário?

Os rabis Abahu e Iochanan (século III) iniciam uma discordãncia interessante.
Eles reconhecem que o profeta não está falando de distâncias geográficas...

"Longe" são os que tiveram uma longa trajetória de erros até poder chegar.
"Perto" é a condição daqueles que tiveram poucas oportunidades de surpreender-se.
Sua trajetória é pequena nas veredas da alma.

Saudar os que vêm de longe primeiro em detrimento dos que vêm de perto
indica respeito especialmente aos não-acomodados- aos transgressores.
São pessoas que, para alcançar o "correto" do momento,
apostaram em muitos falsos "corretos"
 mas que, por profunda lealdade ao que é "bom",
jamais deixaram de ser perseguidores do " correto".

Os que, para perceber o "bom" do momento, apostaram em muitos falsos "bons"
mas que, por profunda lealdade ao que é "correto",
jamais deixaram de ser perseguidores do "bom".

(Notas: Nilton Bonder, A Alma Imoral, Rio de Janeiro, Rocco, 1998)


Esta pequena parábola, extraida do livro acima, propõe uma reflexão sobre o bem, o mal,
 o correto, o errado...
mas não fala do "justo"...

Nem sempre o que é bom para o momento é justo...
Nem sempre o que é correto para o momento é justo...
e seu contrário também é verdadeiro:
Nem sempre o que é justo é bom, ou correto, para o momento...
Transgredir (saudar os que vêm de longe...)
às vezes é bom, correto e justo
MAS
Obedecer (saudar os que vêm de perto...) 
também pode ser tão bom, correto e justo,
 quanto, dependendo do momento...

Na perspectiva junguiana, sempre que você sustenta um argumento,
deve também ser capaz de sustentar o seu contrário, ou seja,
ganhar distância do tema e obervá-lo a partir de diferentes perspectivas...

De forma que, toda verdade é sempre relativa...
E toda atitude, transgressão, e/ou obediência, também...
E o que é justo, ou parece ser justo, é sempre subjetivo...

Rosanna Pavesi/junho 2013 



Um comentário:

Cristiane Marino disse...

Nossa Rosana, adorei este seu post!
Muito profundo...vou refletir bastante.
Bjs e ótimo final de semana